Benito e Benites, ambos integrantes do Clic, tantas vezes classificados no Prêmio UFF de Literatura e outros prêmios, nos brindaram com mais
uma entrevista-desafio, aquela em que as perguntas são formuladas e respondidas pelos próprios. Vejam o resultado e deem continuidade à entrevista utilizando o campo “Comentários”.
Nós temos em comum o fato de termos usado algumas personagens femininas da vida real que nos inspiraram a escrever alguns textos, como a Miss Eucalipto, a Dama do 996 e a menina da Livraria Travessa. Você tem alguma personagem feminina de ficção, que fez com que você se apaixonasse por ela? Alguma que você lia e te deixava vibrando, pensando que ela seria alguém que você gostaria de viver uma história de amor e/ou paixão? Pode ser mais que um.
BENITO: O mais provável seria
mencionar personagens de romances. Talvez a Luísa de Primo Basílio, ou Capitu,
ou personagens de romances naturalistas. Mas a personagem feminina mais, por
assim dizer, ardente vem de um conto! Isso, um conto, gênero em que a ação é o
traço mais relevante. Trata-se de Conceição, de "Missa do Galo",
construção genial do velho Machado.
É mulher apenas "simpática",
"rosto mediano, nem bonito nem feio"; mas naquela noite de natal,
naqueles breves momentos com Nogueira, transforma-se na figura feminina de
papel mais provocante de todas que já li. E olha que ela não despe uma peça
sequer de roupa. A dança que executa em torno do Nogueira, o clima criado, os
gestos que ela faz: "Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no
espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio cerradas, sem os tirar
de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los."
- tudo contribui para a formação de uma atmosfera carregada de erotismo. Me
deslumbrei junto com Nogueira. E ela, "que era apenas simpática, ficou
linda, ficou lindíssima", naquela noite, só naquela noite.

BENITES: As personagens femininas me
atraem desde a adolescência ou pré-adolescência, quando eu já tinha me
apaixonado pelos livros. Acredito que a primeira foi a Becky, namoradinha do
Tom Sawyer no livro que conta suas aventuras, escrito por Mark Twain. Mas como
tem muito tempo (e põe muito tempo nisso) que eu li pela última vez o livro,
não tenho muitas recordações, não posso colocá-la num pedestal. Mas daí
veio outra personagem, que é pouquíssima conhecida, muitos inclusive não devem
nem saber da existência desse livro e inclusive eu, confesso, tive que
pesquisar para lembrar de seu nome correto (da personagem). Trata-se de
Jeannine, personagem secundária do livro Gente como a gente, de 1976, livro
escrito pela americana Judith Guest e que caiu em minhas mãos aleatoriamente em
1980, ao procurar livros no antigo Círculo do Livro. A atração pela
Jeannine tem a ver com a minha grande aproximação com o livro e com o
personagem principal Conrad, que a conheceu dentro de uma biblioteca. Essa
resposta em relação a essa personagem e à seguinte que vou falar, tem a ver com
a resposta à próxima pergunta. Como foi uma fase marcante de minha vida,
já no fim da adolescência, Vestibular e, embora os problemas do personagem
fossem bem diferentes do que eu tinha, me identifiquei muito com ele e, por
tabela, o aparecimento da Jeannine, e a forma como ela era descrita, me deixou
apaixonado por ela. Foi um livro que me emocionou bastante, e quando chegava ao
final, me dava pena, e imediatamente o reli, não por não ter entendido alguma
parte, mas por querer continuar mantendo contato com o livro. Essa personagem
tinha uma aura tão linda, que ficava desenhando seu rosto enquanto eu lia e a
imaginava como um padrão que eu gostaria de conhecer. Curiosamente, talvez
instintivamente, tive relacionamentos que se ligavam a ela, mas que só tive
noção dessa ligação anos depois.
Poderia citar também as personagens Aída do fenomenal Mario Vargas Llosa, por
conta de seu ativismo político estudantil, mas para não me estender, vou citar
uma personagem de um conto brilhante do Rubens Figueiredo. O conto chama-se
"Alguém dorme nas cavernas" e a personagem é a espeleóloga Raquel. A
culpa disso é do texto escrito pelo Rubens Figueiredo. Como te disse, Benito,
há duas longas passagens (no mínimo), que eu considero umas das magistrais já
lidas, nas quais o autor descreve as cenas de tal forma que o leitor
dificilmente passa ileso. Como alguns críticos já têm comentado, ele vem
seguindo uma importante característica do Graciliano, pois trabalha o texto de
uma forma bem intensa, deixando-o ao mesmo tempo enxuto e preciso. Eu lia o
livro e sentia o arrepio da pele da Raquel, os pelos de seus braços, os pingos
escorrendo pelos seus cabelos, o cheiro da chuva e da natureza. Vou
deixar aqui, de brinde, duas passagens:
Os lobos vieram num ziguezague caprichoso, contornando
barreiras invisíveis que eles mesmos inventavam no ar para se proteger. Um.
Dois. O casal, a fêmea na frente. O macho atrás, (...) Experimentaram o cheiro
novo, de Raquel, comedora de carne ela também. (...) Senti Raquel tremer, suar.
Senti uma emoção palpitar dentro dela, respirar na sua pele. Lado a lado, boa
parte do seu braço nu encostava no meu braço nu encostava no meu braço.(...)
O cabelo de
Raquel ainda estava molhado. Lentamente, pus minha boca e meu nariz atrás da
sua orelha. Ela não se mexeu. Os lobos diante de nós. Corri os lábios na sua
pele, um, dois centímetros enormes. Respirei pelos seus poros. Descobri uma
penugem macia na pele que desce abaixo da orelha, por trás na direção da
mandíbula. Com a ponta da língua, provei a suavidade daquela ilha de cabelos.
Resvalando de leve com os lábios, mal tocando em Raquel, minha respiração era
uma penugem ainda mais tênue. Senti que o impulso de um arrepio atravessava o
corpo de Raquel, uma reviravolta na sua pele. Ela não se mexia.
A frescura do
seu cabelo molhado tocou um centímetro de minha pele, frio, em algum ponto da
bochecha. Outra mecha refrescante deslizou um dedo na minha testa, deixando um
rastro úmido, uma memória que ia se evaporar com o meu calor. Raquel não se
mexia, mas seu cabelo de algum modo me acariciava. Os lobos a poucos metros de
nós. Cochichei, sem saber por quê:
- Agora somos
dois casais.

****
Raquel já estava há algum tempo no lago, cada vez mais
à vontade. De vez em quando vinha até a margem pegar folhinhas aromáticas para
esfregar na pele, no cabelo. Boiava, afundava, se mexia na água quase sem fazer
ruído. Como um peixe no fundo do rio. Ela já não pensava em cavernas, não pensava
em Timóteo, já não era Raquel. Ela era água, era folhas, (...)
Rindo de
mansinho, puxou-me pela mão, me fez entrar no poço, de calça, camisa, chapéu.
De alguma forma, eu me desfiz disso tudo e Raquel passou a me esfregar as
folhas aromáticas, quase tão macias quanto as suas mãos. Tentei não fazer ruído
também, tentei ser água como ela. Procurei a ilha de penugem macia por trás do
seu pescoço, abaixo da orelha. Raquel ria em silêncio. Escolhia
pontos em meu corpo, distantes um do outro, no peito, nos ombros, onde apertava
de leve o nariz ou tocava com a ponta de um dedo, e soprava. Suave, úmido. Duas
ou três vezes pensei que eu fosse afogar no seu cabelo, mais água do que o
poço. (...)
Raquel havia
estendido uma toalha na margem. Me levou até ali. Minhas mãos esmagaram as
folhas cheirosas da relva. Acho que arfei e rosnei como um bicho. Antes de
dormir.
E entre
personagens masculinos, há algum com o qual você tenha se identificado, ou
mesmo que fosse bem diferente de você, mas que tenha criado um elo muito forte
entre vocês? Também pode ser mais que um.

BENITO: O personagem masculino é o Paulo Honório, de São Bernardo, do
Graciliano Ramos. Não sei se é identificação, não sei se é por ser bem
diferente... Quer dizer, diferente de mim ele é. São visões de mundo opostas.
Ele é um possessivo, um explorador, que dá preço a tudo, enfim, um capitalista
empedernido. Mas a força, a sinceridade, a densidade humana com que o velho
Graça infundiu de vida este personagem lhe dão uma dimensão existencial enorme,
sobretudo após o suicídio de Madalena, quando toma consciência do
"mal" que fazia às pessoas. Toma consciência, bem entendido, mas não
se modifica, pois o projeto inicial dele é construir o livro pela divisão do
trabalho, como está na primeira frase do romance. A propósito, como te
disse, estou escrevendo, como você, um texto sobre uma fictícia opinião de
Paulo Honório sobre a polêmica questão das biografias, interessante ideia do
teu orientador. Quando ficar pronto te mando.
BENITES: Os personagens masculinos
são o Conrad, do Gente como a gente, e o Santiago Zavalla (Zavalita), do
Conversas na Catedral. O primeiro, como eu falei na pergunta anterior, é o
personagem principal de um livro que muito me marcou. Eu estava num
período bem difícil, e daí as páginas do livro aos poucos foram me trazendo
momentos de prazer e emoção. Embora as razões do sofrimento do personagem fossem
bem diferentes das minhas, eu me identificava bastante com ele. Vibrava no
crescimento que ele ia obtendo aos poucos. A cada vitória, era como se eu
comemorasse um gol. Com 17/18 anos, o livro veio como uma tábua de salvação, um
companheiro e tanto. Quando o livro terminou eu lamentei e já coloquei como
meta de que iria relê-lo em seguida. Acho que comecei a relê-lo no dia
seguinte. Aí esperava um tempo e voltava a ler uma, duas, três vezes. ...
não sei quantas vezes eu o li. Acho que eu o li ainda uma última vez com
mais de 30 anos, depois de ver o filme passar na tv, por ter ficado curioso
sobre minha reação ao ler o mesmo livro que tinha lido há mais de dez anos pela
primeira vez.

O segundo, Zavalita, pertence a um livro que eu lamento muito que o clube tenha
ficado tão relutante em ler.
Eu o considero melhor que todos os outros livros do autor já
lidos no Clube. E creio eu que qualquer outro que já leu muito do Vargas Llosa
deve pensar a mesma coisa. É daqueles tipos de livros que qualquer um que já
escreveu algum texto gostaria de escrever. Me identificava também por suas
atividades como participante de grupo político estudantil e das certezas e
incertezas sobre esse movimento e tudo em sua vida. Mas creio que esse romance
só será lido no Clube se eu estiver afastado dele.
Temos também em comum o fato
de termos partido para estudar Letras na UFF já na fase adulta, muitos anos depois
de termos estudado cursos que eram considerados os mais procurados em nossas
épocas, você Medicina e eu Engenharia. O que sentiu de diferente? Foi
difícil tomar essa decisão? Alguma decepção em um dos cursos?
BENITO: É verdade. Nós regredimos,
socialmente falando. De fato, senti diferenças siginificativas. A primeira foi
imediata, de cara literalmente, diferença visual. Logo que entrei na sala, no
primeiro dia, vi que a turma era colorida - era branco, era pardo, era negro,
era vermelho, era amarelo. Na minha turma de cem alunos de medicina na UFF só
um era negro. Outra diferença diz respeito à quantidade e ao nível de
exigências quanto às tarefas escolares. Pede-se e cobra-se muito pouco dos
alunos de Letras. Ou, pelo menos, pedia-se e cobrava-se. Outra diferença
refere-se às ideias dos professores. Sabe-se que médicos, de modo geral, até
por origem de classe, têm um pensamento, assim, meio conservador, pra não
dizer... pois é. Pensei que na Letras, área de Humanas, fosse encontrar um
ambiente mais progressista e não foi tanto assim. Agora, a diferença das
diferenças, a sublime e suprema diferença é que encontrei meu caminho, ainda
que tarde. A dificuldade de tomar a decisão se deveu basicamente aos meus pais.
Muito humildes, mais humildes que os seus - excurso dramalhão mexicano -,
queriam o diploma de médico do filho, eles que arduamente trabalharam para esse
fim. Acho que no final ficou tudo bem. Dei a eles o diploma, e a mim dei-me o
futuro.
BENITES: A primeira vez que o curso
de Letras veio a mim, foi quando eu era adolescente e uma professora de Português,
que gostava de minhas poesias, falou que eu seria escritor e que eu deveria
estudar. Só não lembro se ela falou exatamente Letras, mas a lembrança é
que ela falou de um curso que me levaria a ser escritor. Mas eu já havia tomado
a decisão muito cedo de que eu seria engenheiro elétrico. Não tenho certeza se
seus pais eram mais humildes que os meus. Mas essa decisão foi porque eu
era bom em Matemática e, por ter como vizinhos dois irmãos, um médico e um
engenheiro, algo que alguém disse (não lembro quem) me fez decidir muito cedo
que carreira eu iria seguir. Acho que nem quando eu recebi um troféu num
concurso de poesia e outro por escrever uma peça de teatro chegou a abalar
minha decisão na época. Do meu início numa faculdade particular até chegar na
UFF, comecei a ver que aquilo não era meu lugar, mas, assim como você, me
sentia preso ao desejo dos pais de ter um filho que fizesse um curso de grande
prestígio. Mas não lembro de pressão por parte deles especificamente pelo curso
de Engenharia. Eu que me pressionava. Fui ajudado por um professor argentino
que me deixava boiando completamente na sua disciplina, e tendo cursado mais de
uma vez, sem sucesso, e mesmo não faltando tanto para me formar, entendi que
nunca iria aprender aquela disciplina e o desânimo que já me tomava aumentou.
Abandonar o curso foi a melhor decisão tomada. Mas tem dias que eu penso
que eu poderia ter seguido adiante, caso tivesse outro professor e eu acabaria
levando o curso nas coxas até o final.
O Curso de Letras veio bem tarde, e
embora tenha noção de que se tivesse feito o curso mais cedo, algumas coisas
poderiam ter sido melhores pra mim, imagino que essa decisão na fase madura de
nossa vida ajuda bastante em alguns aspectos. Lembro que acumulamos mais
conhecimento de vida e até da literatura, o que ajuda bastante no entendimento
d a literatura. E não sei se tivesse feito Letras aos 17 anos eu teria partido
depois para fazer especialização e depois Mestrado, e pensando no Doutorado. E
lembro que quando fui estudar Letras foi para estudar Inglês, já que eu tinha
concluído o curso do Fisk e queria obter a licenciatura para dar aula, coisa
que eu sempre me negava a me imaginar como tal, talvez até por trabalhar numa
faculdade voltada aos professores. Do meio para o final eu praticamente
já tinha decidido que iria seguir a área de Literatura, por conta de todas as
disciplinas ligadas a ela, tanto as de língua inglesa, quanto as da literatura
brasileira, grega e latina. No curso de Engenharia era uma época de poucas
meninas. Acho que na particular estudei com 4 ou 5, sendo que duas são musas
que eu pretendo escrever um dia, e na UFF eram só duas ou três meninas em todas
as disciplinas. Hoje, se eu for no curso de Engenharia, há um equilíbrio entre
os sexos. Talvez uma das habilitações até tenha grande predomínio masculino,
mas nem de longe parecido com a minha época. De repente até haja mais mulheres
em outras habilitações. Minha afilhada inclusive estuda Engenharia. No curso de
Letras nem precisa dizer, mas em todas as disciplinas era o inverso da época da
Engenharia. Outra diferença era a dificuldade em se ter uma nota de 9,0
pra cima na Engenharia. Lembro que tinha uma disciplina que fiquei com média
9,5 e eu achava fácil por conta do meu gosto pela Matemática, mas que reprovava
muita gente. Mas todos comemoravam quando conseguiam atingir a média 7 e assim
não precisavam fazer prova final. Mas em geral, no curso de Letras só se
o aluno não quisesse nada com a hora do Brasil, ou quando percebíamos
claramente uma atitude maldosa do professor em relação a um ou mais alunos que
alguém era reprovado. A questão citada por você da relação racial eu
percebi melhor na UFF, pois na Engenharia que eu me lembre só havia dois negros
ou descendentes. Já na Letras, embora não fossem tantos, percebia com
mais facilidade que a UFF não era somente para os alunos ricos e brancos.
Na particular, tinha colegas que já trabalhavam, e isso me incomodava no
início por não ter conseguido um trabalho, o que aconteceu depois que fiquei
empregado. Na Engenharia da Veiga de Almeida, eu conheci mais gente com mente
parecida com a minha, pensando no lado político. Na UFF, os estudantes de
Engenharia era um celeiro de alunos com posições conservadoras, que remavam
contra as ideias de boa parte dos estudantes dos outros cursos. Muito
individualismo. Creio que se juntavam aos alunos da faculdade de Direito
e Medicina. Quando teve uma greve estudantil em apoio aos professores, eu era o
único do curso de Engenharia. Eram alunos também que pensavam mais em festa do
que propriamente estudar. E eu posso falar tranquilamente disso, pois eu
circulava em todos os ambientes. Eu gostava de participar de tudo que era
atividade esportiva e cultural nas duas instituições, se amigos marcavam para
ir a festas no final de semana, eu também ia. Foi uma época que eu me
enriqueci bastante culturalmente, indo a teatro, cinematecas, festivais
musicais, e participava do time de voleibol e futebol de salão da Engenharia.
Mas estudava firme, pois sabia que se não ficasse horas na biblioteca, eu não
aprenderia. Na Letras, acho que dependia muito de cada habilitação, pois
cada uma tinha um perfil, assim como do turno. A turma que melhor me adaptei
foi a que estudou comigo nas disciplinas da noite. Eram alunos mais
batalhadores, que valorizavam o dinheiro que tinham que gastar em livros e
cópias, que eram mais responsáveis com trabalhos e, o melhor, com um sentido de
grupo melhor que todos.