CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

10 de dezembro de 2013

O Futebol no Brasil começou em Bangu


O trabalho mais completo acerca de um clube de futebol foi escrito pelo jornalista e escritor Carlos Molinari. “Nós é que somos Banguenses” é fenomenal; enriquece muito a história do Bangu Atlético Clube e do futebol brasileiro, de forma profissionalizada, mas com um lado poético, pela singularidade e obstinação da paixão por um clube.
A história do futebol no Brasil na realidade começou no bairro de Bangu, no Rio de Janeiro. Carlos Molinari relata com riqueza de detalhes, após árdua pesquisa, que foi o escocês Thomas Denohoe quem trouxe a primeira bola e organizou a primeira partida de futebol no Brasi, com os seus companheiros da empresa inglesa Platt Brothers and Co.
O mês foi abril; o ano: 1894. Denohoe e vários técnicos ingleses montavam no bairro uma fábrica de tecidos, e no domingo, dia de folga, para o divertimento passaram a jogar futebol, conforme habitualmente faziam na Inglaterra.
Segundo Molinari, “se prefere creditar a Charles Miller a introdução do futebol no Brasil, em outubro de 1894, e a realização da primeira partida em abril de 1895, um ano após o primeiro jogo do Sr. Donohoe”, porque não houve anotação dos dados da partida realizada em Bangu.
É fato incontestável, no entanto, que o futebol no Brasil nasceu em Bangu, embora o clube só viesse a ser fundado em abril de 1904, por iniciativa dos empregados da fábrica de tecidos, já totalmente envolvidos pela iniciativa de Thomas Denohoe.
O antigo campo de futebol do Bangu, em frente à fábrica de tecidos, na rua Ferrer, foi por muitos anos considerado o mais bonito do Brasil. Ali, apoiado pela torcida, o alvirrubro era imbatível.
O Bangu foi “o primeiro clube do Brasil a conquistar um título sob o regime profissional” (1933); o primeiro a ser campeão após a inauguração do Maracanã, sagrando-se vencedor do torneio início do campeonato de 1950. Em 1960 se tornou o primeiro clube brasileiro campeão mundial, ao vencer o Torneio Internacional de Nova York, derrotando os melhores clubes da Europa.
O Bangu também foi reconhecido por ser o primeiro clube brasileiro a enfrentar o preconceito e escalar um jogador negro, o atacante Francisco Carregal, no ano de 1905. Outras escalações culminaram inclusive com a autoafastamento da liga, em protesto contra o preconceito imposto na época, que não permitia a escalação de atletas negros.
Este fato valeu o reconhecimento e a honraria da medalha Tiradentes, em 2001, após a diretoria provar o erro da imprensa, que atribuía o mérito ao Vasco da Gama, que só utilizou atleta negro em 1923.
Mas para todo banguense é inesquecível a final do Carioca de 1966. Ocimar, Aladim e Paulo Borges marcaram os três gols que desesperaram o Flamengo, impondo-lhe a mais acachapante derrota em uma final. Na roda, vendo escapar o título, só restou ao urubu a briga, para acabar logo a partida. A goleada estava certa! Seria de mais de 5. Nem o juiz, Airton Vieira de Moraes, pôde fazer alguma coisa para alterar o resultado. O Bangu estava impecável. Imbatível!
Outro marco foi a final do Campeonato Brasileiro de 1985, quando após lesado pelo árbitro da partida, o alvirrubro acabou perdendo nos pênaltis para o Coritiba, em pleno Maracanã. Mas ficou na memória o vice-campeonato e a prova de que Lamartine Babo ao compor o hino do clube estava certo: quem foi ao Maracanã viu que “a torcida reunida até parece a do Fla-Flu”.
Infelizmente o Bangu de craques como Ladislau, Moacyr Bueno, Domingos e Ademir da Guia, Zizinho, Ubirajara, Paulo Borges, Marinho e tantos outros, foi vítima dos maus cartolas, tão nocivos quanto a maioria dos políticos do nosso Brasil de hoje.
Porém, o Bangu guarda ainda a riqueza da sua história, graças aos trabalhos de Carlos Molinari em seus livros “Nós é que somos banguenses” e no “Almanaque do Bangu”, como em seu site independente “Bangu Atlético Clube – Sua história e suas glorias”.
Para todo torcedor banguense ter Carlos Molinari é um orgulho muito grande. Certamente nenhum clube do Brasil tem um torcedor apaixonado como ele. Essa é mais uma honraria exclusiva, que só o Bangu guarda entre as suas glórias.

6 de dezembro de 2013

Nas malhas do devaneio, de Dília Gouveia, chega ao Clube de Leitura Icaraí

Vamos devanear? 
Uma sexta de devaneios gratuitos no clube de leitura

Tentando fugir de patrões conservadores de escrita, no ensaio filosófico Nas Malhas do devaneio, a professora Dília Gouveia cria um diálogo fictício entre ela e um convidado imaginário. Tal conversa tem como intuito a troca de histórias sobre Fernando Pessoa e seus heterônimos. O livro, que também busca seduzir o leitor a analisar questões sobre filosofia de vida e ética, entra em debate no Clube de Leitura Icaraí, no dia 6 de dezembro, das 19h às 21h. O encontro acontece na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9, em Niterói) e a entrada é gratuita.
O convidado de Dília, que ao mesmo tempo é semelhante e diferente de Pessoa, começa a narrativa contando sobre momentos em que esteve ao lado do poeta e das figuras literárias por ele criadas, com destaque para Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Bernardo Soares. Ao longo dos capítulos, Dília busca dinamizar a leitura com citações filosóficas sobre a vida e interlocuções dos personagens pessoanos.
Ao se propor a escrever um livro sobre Fernando Pessoa, Dília Gouveia não se contenta em apenas transcrever poemas e textos. Ela foge do previsível e fala somente da essência do autor português e seus heterônimos, que no devaneio de sua obra tornam-se pessoas reais. Afinal, ficção e realidade muitas vezes se misturam.



Ocultar-se ou desvelar-se? Preservar-se enquanto enigma ou decifrar-se? Ser um ou ser todos? Ser nenhum, ninguém? Quantos paradoxos! Quantas vertigens! Quantos absurdos! E, ao mesmo tempo, quantos deslumbramentos! Quantas possibilidades.

A verdadeira humanidade do ser parece estar exatamente nessa condição de possibilidade de se reinventar a cada momento, de ser eu-outro ininterruptamente. 

Se então o universo é o sonho de si mesmo, na certa há múltiplos sonhos e assim como nós são eles, pluriversos. 



3 de dezembro de 2013

A relação da Grã-Bretanha com a escravidão e o Brasil


É na segunda metade do século XVIII, quando o pensamento iluminista pulsa intensamente no círculo da intelectualidade européia, que toma corpo na Grã-Bretanha o movimento antiescravista. O marco histórico é 1787, quando o abolicionista Thomas Clarkson tem o apoio do jovem William Wilberforce para liderar a causa no Parlamento; no mesmo ano é constituído em Londres um Comitê para a Abolição do Tráfico de Escravos.
O comércio de escravos era uma atividade das mais vigorosas e lucrativas. Somente no século XVIII, comerciantes ingleses despejaram nas colônias britânicas da América cerca de 3 milhões de africanos. Diante da força do comércio e da cultura escravista, a resistência foi de tal ordem que somente em 1807 o tráfico é extinto, após progressivas batalhas no parlamento. A abolição mesmo só aconteceria em 1833, depois de muitas leis protelatórias.
Para a consecução do fim do tráfico e do escravismo, seus articuladores fizeram propagar em todo território britânico a situação desumana e o sofrimento impostos aos cativos. Pela solidariedade, passam a condenar as leis que sustentavam o sistema e que reduziam o homem à condição de coisa, unindo ingleses, escoceses, galeses e irlandeses.
Várias ações são então organizadas: boicotes ao consumo de mercadorias produzidas com mão de obra escrava; confecção e distribuição de panfletos antiescravistas; propagandas em jornais; pressão sistemática junto às autoridades - uma mobilização inédita, que envolveu as igrejas e conquistou a opinião e o apoio públicos.
Proibido internamente, o fim do comércio escravista passa a ser uma política de Estado, fundamentada em fins humanitários. A diplomacia britânica inicia, nestes moldes, um período de pressão sobre outras nações para a extinção do tráfico em seus territórios, entre elas Portugal. Contudo, essa pressão guarda em seu bojo muitos fins econômicos.
Para sustentar essa pressão, a Inglaterra – maior potência da época - vale-se do poderio bélico da sua frota, como apoio tácito de seu corpo diplomático, que passa a ser mais impositivo e aguerrido na defesa dos interesses “humanitários”.
Quando o Brasil declara a independência de Portugal (1822) recebe como herança a dependência dos produtos e da “proteção” inglesas - o Brasil era terceiro melhor mercado dos ingleses. No entanto, a Inglaterra não deixa de pressionar o Brasil pela extinção do tráfico, enquanto mediava com Portugal o reconhecimento da nossa independência.
Essa pressão ocorre, sobretudo, devido ao aumento nos preços do açúcar produzido nas ilhas britânicas das Antilhas – organizada em plantations -, após o fim do tráfico de africanos pela Grã-Bretanha, o que tornou o açúcar produzido no Brasil e em Cuba com mão de obra escrava, mais competitivo no mercado internacional.
O reconhecimento da nossa independência por Portugal se dá em 1825. Um ano depois, embora gestões da diplomacia brasileira para ganhar tempo, o Brasil é pressionado a firmar tratado para a extinção do trafico de escravos com a Grã-Bretanha, que passa vigorar em 1830. Porém, esse tratado e todos os outros firmados posteriormente só foram cumpridos em 1855, quando o Brasil finalmente encerra a importação escravista.
Por contraditório, o Brasil se liberta de Portugal, mas fica submisso à pressão da Grã-Bretanha; mantém assim um sistema atrasado e desumano, em troca da liberdade. E nem tudo se finda em 13 de maio de 1888, quando a princesa Isabel proclama o fim da escravidão no Brasil.

2 de dezembro de 2013

Entrevista em dose dupla: Benito Petraglia & Carlos Benites

Benito e Benites, ambos integrantes do Clic, tantas vezes classificados no Prêmio UFF de Literatura e outros prêmios, nos brindaram com mais uma entrevista-desafio, aquela em que as perguntas são formuladas e respondidas pelos próprios. Vejam o resultado e deem continuidade à entrevista utilizando o campo “Comentários”.


Nós temos em comum o fato de termos usado algumas personagens femininas da vida real que nos inspiraram a escrever alguns textos, como a Miss Eucalipto, a Dama do 996 e a menina da Livraria Travessa. Você tem alguma personagem feminina de ficção, que fez com que você se apaixonasse por ela?  Alguma que você lia e te deixava vibrando, pensando que ela seria alguém que você gostaria de viver uma história de amor e/ou paixão? Pode ser mais que um.


BENITO: O mais provável seria mencionar personagens de romances. Talvez a Luísa de Primo Basílio, ou Capitu, ou personagens de romances naturalistas. Mas a personagem feminina mais, por assim dizer, ardente vem de um conto! Isso, um conto, gênero em que a ação é o traço mais relevante. Trata-se de Conceição, de "Missa do Galo", construção genial do velho Machado. 

 É mulher apenas "simpática", "rosto mediano, nem bonito nem feio"; mas naquela noite de natal, naqueles breves momentos com Nogueira, transforma-se na figura feminina de papel mais provocante de todas que já li. E olha que ela não despe uma peça sequer de roupa. A dança que executa em torno do Nogueira, o clima criado, os gestos que ela faz: "Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los." - tudo contribui para a formação de uma atmosfera carregada de erotismo. Me deslumbrei junto com Nogueira. E ela, "que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima", naquela noite, só naquela noite.


 BENITES: As personagens femininas me atraem desde a adolescência ou pré-adolescência, quando eu já tinha me apaixonado pelos livros. Acredito que a primeira foi a Becky, namoradinha do Tom Sawyer no livro que conta suas aventuras, escrito por Mark Twain. Mas como tem muito tempo (e põe muito tempo nisso) que eu li pela última vez o livro, não tenho muitas recordações, não posso colocá-la num pedestal.  Mas daí veio outra personagem, que é pouquíssima conhecida, muitos inclusive não devem nem saber da existência desse livro e inclusive eu, confesso, tive que pesquisar para lembrar de seu nome correto (da personagem). Trata-se de Jeannine, personagem secundária do livro Gente como a gente, de 1976, livro escrito pela americana Judith Guest e que caiu em minhas mãos aleatoriamente em 1980, ao procurar livros no antigo Círculo do Livro.  A atração pela Jeannine tem a ver com a minha grande aproximação com o livro e com o personagem principal Conrad, que a conheceu dentro de uma biblioteca. Essa resposta em relação a essa personagem e à seguinte que vou falar, tem a ver com a resposta à próxima pergunta.  Como foi uma fase marcante de minha vida, já no fim da adolescência, Vestibular e, embora os problemas do personagem fossem bem diferentes do que eu tinha, me identifiquei muito com ele e, por tabela, o aparecimento da Jeannine, e a forma como ela era descrita, me deixou apaixonado por ela. Foi um livro que me emocionou bastante, e quando chegava ao final, me dava pena, e imediatamente o reli, não por não ter entendido alguma parte, mas por querer continuar mantendo contato com o livro. Essa personagem tinha uma aura tão linda, que ficava desenhando seu rosto enquanto eu lia e a imaginava como um padrão que eu gostaria de conhecer. Curiosamente, talvez instintivamente, tive relacionamentos que se ligavam a ela, mas que só tive noção dessa ligação anos depois.


Poderia citar também as personagens Aída do fenomenal Mario Vargas Llosa, por conta de seu ativismo político estudantil, mas para não me estender, vou citar uma personagem de um conto brilhante do Rubens Figueiredo. O conto chama-se "Alguém dorme nas cavernas" e a personagem é a espeleóloga Raquel. A culpa disso é do texto escrito pelo Rubens Figueiredo. Como te disse, Benito, há duas longas passagens (no mínimo), que eu considero umas das magistrais já lidas, nas quais o autor descreve as cenas de tal forma que o leitor dificilmente passa ileso. Como alguns críticos já têm comentado, ele vem seguindo uma importante característica do Graciliano, pois trabalha o texto de uma forma bem intensa, deixando-o ao mesmo tempo enxuto e preciso. Eu lia o livro e sentia o arrepio da pele da Raquel, os pelos de seus braços, os pingos escorrendo pelos seus cabelos, o cheiro da chuva e da natureza.  Vou deixar aqui, de brinde, duas passagens:

Os lobos vieram num ziguezague caprichoso, contornando barreiras invisíveis que eles mesmos inventavam no ar para se proteger. Um. Dois. O casal, a fêmea na frente. O macho atrás, (...) Experimentaram o cheiro novo, de Raquel, comedora de carne ela também. (...) Senti Raquel tremer, suar. Senti uma emoção palpitar dentro dela, respirar na sua pele. Lado a lado, boa parte do seu braço nu encostava no meu braço nu encostava no meu braço.(...)
O cabelo de Raquel ainda estava molhado. Lentamente, pus minha boca e meu nariz atrás da sua orelha. Ela não se mexeu. Os lobos diante de nós. Corri os lábios na sua pele, um, dois centímetros enormes. Respirei pelos seus poros. Descobri uma penugem macia na pele que desce abaixo da orelha, por trás na direção da mandíbula. Com a ponta da língua, provei a suavidade daquela ilha de cabelos. Resvalando de leve com os lábios, mal tocando em Raquel, minha respiração era uma penugem ainda mais tênue. Senti que o impulso de um arrepio atravessava o corpo de Raquel, uma reviravolta na sua pele. Ela não se mexia.
A frescura do seu cabelo molhado tocou um centímetro de minha pele, frio, em algum ponto da bochecha. Outra mecha refrescante deslizou um dedo na minha testa, deixando um rastro úmido, uma memória que ia se evaporar com o meu calor. Raquel não se mexia, mas seu cabelo de algum modo me acariciava. Os lobos a poucos metros de nós. Cochichei, sem saber por quê:
- Agora somos dois casais.


****
 Raquel já estava há algum tempo no lago, cada vez mais à vontade. De vez em quando vinha até a margem pegar folhinhas aromáticas para esfregar na pele, no cabelo. Boiava, afundava, se mexia na água quase sem fazer ruído. Como um peixe no fundo do rio. Ela já não pensava em cavernas, não pensava em Timóteo, já não era Raquel. Ela era água, era folhas, (...)
Rindo de mansinho, puxou-me pela mão, me fez entrar no poço, de calça, camisa, chapéu. De alguma forma, eu me desfiz disso tudo e Raquel passou a me esfregar as folhas aromáticas, quase tão macias quanto as suas mãos. Tentei não fazer ruído também, tentei ser água como ela. Procurei a ilha de penugem macia por trás do seu pescoço, abaixo da orelha. Raquel ria em silêncio. Escolhia pontos em meu corpo, distantes um do outro, no peito, nos ombros, onde apertava de leve o nariz ou tocava com a ponta de um dedo, e soprava. Suave, úmido. Duas ou três vezes pensei que eu fosse afogar no seu cabelo, mais água do que o poço. (...)
Raquel havia estendido uma toalha na margem. Me levou até ali. Minhas mãos esmagaram as folhas cheirosas da relva. Acho que arfei e rosnei como um bicho. Antes de dormir. 



 
E entre personagens masculinos, há algum com o qual você tenha se identificado, ou mesmo que fosse bem diferente de você, mas que tenha criado um elo muito forte entre vocês? Também pode ser mais que um.

BENITO: O personagem masculino é o Paulo Honório, de São Bernardo, do Graciliano Ramos. Não sei se é identificação, não sei se é por ser bem diferente... Quer dizer, diferente de mim ele é. São visões de mundo opostas. Ele é um possessivo, um explorador, que dá preço a tudo, enfim, um capitalista empedernido. Mas a força, a sinceridade, a densidade humana com que o velho Graça infundiu de vida este personagem lhe dão uma dimensão existencial enorme, sobretudo após o suicídio de Madalena, quando toma consciência do "mal" que fazia às pessoas. Toma consciência, bem entendido, mas não se modifica, pois o projeto inicial dele é construir o livro pela divisão do trabalho, como está na primeira frase do romance. A  propósito, como te disse, estou escrevendo, como você, um texto sobre uma fictícia opinião de Paulo Honório sobre a polêmica questão das biografias, interessante ideia do teu orientador. Quando ficar pronto te mando.



BENITES: Os personagens masculinos são o Conrad, do Gente como a gente, e o Santiago Zavalla (Zavalita), do Conversas na Catedral. O primeiro, como eu falei na pergunta anterior, é o personagem principal de um livro que muito me marcou.  Eu estava num período bem difícil, e daí as páginas do livro aos poucos foram me trazendo momentos de prazer e emoção. Embora as razões do sofrimento do personagem fossem bem diferentes das minhas, eu me identificava bastante com ele. Vibrava no crescimento que ele ia obtendo aos poucos.  A cada vitória, era como se eu comemorasse um gol. Com 17/18 anos, o livro veio como uma tábua de salvação, um companheiro e tanto. Quando o livro terminou eu lamentei e já coloquei como meta de que iria relê-lo em seguida.  Acho que comecei a relê-lo no dia seguinte. Aí esperava um tempo e voltava a ler uma, duas, três vezes.  ... não sei quantas vezes eu o li.  Acho que eu o li ainda uma última vez com mais de 30 anos, depois de ver o filme passar na tv, por ter ficado curioso sobre minha reação ao ler o mesmo livro que tinha lido há mais de dez anos pela primeira vez.


O segundo, Zavalita, pertence a um livro que eu lamento muito que o clube tenha ficado tão relutante em ler. Eu o considero melhor que todos os outros livros do autor já lidos no Clube. E creio eu que qualquer outro que já leu muito do Vargas Llosa deve pensar a mesma coisa. É daqueles tipos de livros que qualquer um que já escreveu algum texto gostaria de escrever. Me identificava também por suas atividades como participante de grupo político estudantil e das certezas e incertezas sobre esse movimento e tudo em sua vida. Mas creio que esse romance só será lido no Clube se eu estiver afastado dele.


 

Temos também em comum o fato de termos partido para estudar Letras na UFF já na fase adulta, muitos anos depois de termos estudado cursos que eram considerados os mais procurados em nossas épocas, você Medicina e eu Engenharia. O que sentiu de diferente?  Foi difícil tomar essa decisão? Alguma decepção em um dos cursos?

BENITO: É verdade. Nós regredimos, socialmente falando. De fato, senti diferenças siginificativas. A primeira foi imediata, de cara literalmente, diferença visual. Logo que entrei na sala, no primeiro dia, vi que a turma era colorida - era branco, era pardo, era negro, era vermelho, era amarelo. Na minha turma de cem alunos de medicina na UFF só um era negro. Outra diferença diz respeito à quantidade e ao nível de exigências quanto às tarefas escolares. Pede-se e cobra-se muito pouco dos alunos de Letras. Ou, pelo menos, pedia-se e cobrava-se. Outra diferença refere-se às ideias dos professores. Sabe-se que médicos, de modo geral, até por origem de classe, têm um pensamento, assim, meio conservador, pra não dizer... pois é. Pensei que na Letras, área de Humanas, fosse encontrar um ambiente mais progressista e não foi tanto assim. Agora, a diferença das diferenças, a sublime e suprema diferença é que encontrei meu caminho, ainda que tarde. A dificuldade de tomar a decisão se deveu basicamente aos meus pais. Muito humildes, mais humildes que os seus - excurso dramalhão mexicano -, queriam o diploma de médico do filho, eles que arduamente trabalharam para esse fim. Acho que no final ficou tudo bem. Dei a eles o diploma, e a mim dei-me o futuro.



BENITES: A primeira vez que o curso de Letras veio a mim, foi quando eu era adolescente e uma professora de Português, que gostava de minhas poesias, falou que eu seria escritor e que eu deveria estudar.  Só não lembro se ela falou exatamente Letras, mas a lembrança é que ela falou de um curso que me levaria a ser escritor. Mas eu já havia tomado a decisão muito cedo de que eu seria engenheiro elétrico. Não tenho certeza se seus pais eram mais humildes que os meus.  Mas essa decisão foi porque eu era bom em Matemática e, por ter como vizinhos dois irmãos, um médico e um engenheiro, algo que alguém disse (não lembro quem) me fez decidir muito cedo que carreira eu iria seguir. Acho que nem quando eu recebi um troféu num concurso de poesia e outro por escrever uma peça de teatro chegou a abalar minha decisão na época. Do meu início numa faculdade particular até chegar na UFF, comecei a ver que aquilo não era meu lugar, mas, assim como você, me sentia preso ao desejo dos pais de ter um filho que fizesse um curso de grande prestígio. Mas não lembro de pressão por parte deles especificamente pelo curso de Engenharia. Eu que me pressionava. Fui ajudado por um professor argentino que me deixava boiando completamente na sua disciplina, e tendo cursado mais de uma vez, sem sucesso, e mesmo não faltando tanto para me formar, entendi que nunca iria aprender aquela disciplina e o desânimo que já me tomava aumentou. Abandonar o curso foi a melhor decisão tomada.  Mas tem dias que eu penso que eu poderia ter seguido adiante, caso tivesse outro professor e eu acabaria levando o curso nas coxas até o final. 


O Curso de Letras veio bem tarde, e embora tenha noção de que se tivesse feito o curso mais cedo, algumas coisas poderiam ter sido melhores pra mim, imagino que essa decisão na fase madura de nossa vida ajuda bastante em alguns aspectos. Lembro que acumulamos mais conhecimento de vida e até da literatura, o que ajuda bastante no entendimento d a literatura. E não sei se tivesse feito Letras aos 17 anos eu teria partido depois para fazer especialização e depois Mestrado, e pensando no Doutorado. E lembro que quando fui estudar Letras foi para estudar Inglês, já que eu tinha concluído o curso do Fisk e queria obter a licenciatura para dar aula, coisa que eu sempre me negava a me imaginar como tal, talvez até por trabalhar numa faculdade voltada aos professores.  Do meio para o final eu praticamente já tinha decidido que iria seguir a área de Literatura, por conta de todas as disciplinas ligadas a ela, tanto as de língua inglesa, quanto as da literatura brasileira, grega e latina. No curso de Engenharia era uma época de poucas meninas. Acho que na particular estudei com 4 ou 5, sendo que duas são musas que eu pretendo escrever um dia, e na UFF eram só duas ou três meninas em todas as disciplinas. Hoje, se eu for no curso de Engenharia, há um equilíbrio entre os sexos. Talvez uma das habilitações até tenha grande predomínio masculino, mas nem de longe parecido com a minha época. De repente até haja mais mulheres em outras habilitações. Minha afilhada inclusive estuda Engenharia. No curso de Letras nem precisa dizer, mas em todas as disciplinas era o inverso da época da Engenharia. Outra diferença era a dificuldade em se ter uma nota de 9,0 pra cima na Engenharia. Lembro que tinha uma disciplina que fiquei com média 9,5 e eu achava fácil por conta do meu gosto pela Matemática, mas que reprovava muita gente. Mas todos comemoravam quando conseguiam atingir a média 7 e assim não precisavam fazer prova final.  Mas em geral, no curso de Letras só se o aluno não quisesse nada com a hora do Brasil, ou quando percebíamos claramente uma atitude maldosa do professor em relação a um ou mais alunos que alguém era reprovado.  A questão citada por você da relação racial eu percebi melhor na UFF, pois na Engenharia que eu me lembre só havia dois negros ou descendentes.  Já na Letras, embora não fossem tantos, percebia com mais facilidade que a UFF não era somente para os alunos ricos e brancos.   Na particular, tinha colegas que já trabalhavam, e isso me incomodava no início por não ter conseguido um trabalho, o que aconteceu depois que fiquei empregado. Na Engenharia da Veiga de Almeida, eu conheci mais gente com mente parecida com a minha, pensando no lado político. Na UFF, os estudantes de Engenharia era um celeiro de alunos com posições conservadoras, que remavam contra as ideias de boa parte dos estudantes dos outros cursos. Muito individualismo. Creio que se juntavam aos alunos da faculdade de Direito e Medicina. Quando teve uma greve estudantil em apoio aos professores, eu era o único do curso de Engenharia. Eram alunos também que pensavam mais em festa do que propriamente estudar.  E eu posso falar tranquilamente disso, pois eu circulava em todos os ambientes. Eu gostava de participar de tudo que era atividade esportiva e cultural nas duas instituições, se amigos marcavam para ir a festas no final de semana, eu também ia.  Foi uma época que eu me enriqueci bastante culturalmente, indo a teatro, cinematecas, festivais musicais, e participava do time de voleibol e futebol de salão da Engenharia. Mas estudava firme, pois sabia que se não ficasse horas na biblioteca, eu não aprenderia. Na Letras, acho que dependia muito de cada habilitação, pois cada uma tinha um perfil, assim como do turno. A turma que melhor me adaptei foi a que estudou comigo nas disciplinas da noite. Eram alunos mais batalhadores, que valorizavam o dinheiro que tinham que gastar em livros e cópias, que eram mais responsáveis com trabalhos e, o melhor, com um sentido de grupo melhor que todos.