CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

22 de outubro de 2013

D. Leopoldina, a Imperatriz do Brasil - Wagner Medeiros Jr




Dia 5 de novembro de 1817. O Rio de Janeiro era só euforia, para receber a princesa que chegava. A ornamentação fora preparada por Debret para uma comemoração jubilosa, com salvas de tiro de artilharia e canhões, repique de sinos e três dias de festa. O casamento com o príncipe D. Pedro fora por procuração, após negociação do Marquês de Marialva com a corte austríaca, em Viena. No dia 6 se celebraria a consagração na capela real.
D. Leopoldina, então com 20 anos, chegava ao Brasil na nau “João VI” acompanhada por botânicos, zoólogos, médicos, músicos e pintores. Sua educação fora primorosa, com os melhores preceptores das ciências, das artes, da política, de geografia e história, além do estudo de vários idiomas. Uma distinção da Casa dos Habsburgos, a mais duradoura e tradicional dinastia real europeia, muito rica e poderosa.
Na época, o casamento entre a nobreza era por conveniências geopolíticas e econômicas. Assim, D. João VI via na aliança à Casa da Áustria uma forma de libertar o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves da pressão e do monopólio da Inglaterra; Francisco I, por sua vez, via a possibilidade de influenciar no Novo Mundo com suas imensas riquezas.
Contudo, a Princesa Leopoldina chegava ao Brasil apaixonada pelo príncipe herdeiro, a quem conhecia por um retrato em uma medalha, presente de casamento que levava no pescoço, e informações do Marques de Marialva, enaltecendo qualidades em D. Pedro. Também vinha fascinada em aprimorar seus conhecimentos de botânica e mineralogia.
Neste enlevo, ainda a bordo, a princesa escreve à tia D. Amélia, esposa de Luiz Felipe, que “a entrada do porto é sem par, e acho que a primeira impressão que o paradisíaco Brasil faz a todo estrangeiro é impossível de descrever com qualquer pena ou pincel”, demonstrando o imediato encantamento por sua nova pátria.
Por suas virtudes, não demorou que D. Leopoldina conquistasse a simpatia da corte e a admiração do sogro D. João VI, com quem manteria uma relação de grande amizade. A única restrição era a sogra, D. Carlota Joaquina, que considerava uma pessoa de má índole.
O casamento no princípio foi harmonioso. O casal partilhava o mesmo gosto pela música, passeava e realizava constantes cavalgadas. Mas não tardou à princesa observar as vulnerabilidades da corte lusa e a vivenciar o jeito rude e infiel do príncipe herdeiro. Mesmo assim, mantinha seu senso de dever, enfrentando as situações adversas com extrema discrição.
Em 1821, após a Revolução do Porto (1820), D. João VI é forçado a voltar para Portugal, em um momento de profunda crise, decorrente da invasão napoleônica e do fim do monopólio comercial com o Brasil. Os revoltosos, além de se rebelarem contra o protetorado britânico, exigem a total submissão e o retorno do Brasil à condição de colônia.
D. Pedro, todavia, permanece no Brasil como regente, não obstante a intensa pressão da corte portuguesa, para que ele também voltasse a Portugal. A imposição dos portugueses fica então mais acirrada. Porém, D. Leopoldina com arguta sensibilidade e inteligência, se junta aos brasileiros na defesa da pátria, terra também de seus filhos.
   
Em 2 de setembro de 1822, durante viagem de D. Pedro a São Paulo, D. Leopoldina assume a Regência, no momento em que a corte portuguesa radicaliza suas ações. Então, reúne o Conselho de Estado, ao lado do ministro José Bonifácio, e Decreta a libertação do Brasil de Portugal.
No dia 7 de setembro D. Pedro recebe esse Decreto às margens do rio Ipiranga e proclama a independência do Brasil. Em 12 de outubro é coroado Imperador e D. Leopoldina Imperatriz do Brasil.
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Na próxima semana publicaremos a segunda parte: "Uma Imperatriz despedaçada"

21 de outubro de 2013

1934, de Alberto Moravia, no Clube de Leitura Icaraí




No ambiente fascista da Itália nos anos 1930, o jovem Lúcio se vê em constante luta contra sua angústia. Logo, o intelectual italiano passa a se perguntar se vale a pena viver no desespero ou se é melhor “abraçar” a morte. Todos esses pensamentos acompanham o personagem principal em 1934, do escritor Alberto Moravia, que entra em debate no Clube de Leitura Icaraí, no dia 4 de outubro. O evento acontece das 19h às 21h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9, em Niterói). A entrada é gratuita.
Romance - Desacreditado com a vida, o protagonista de 1934 parte em viagem de barco para a ilha de Capri a fim de terminar de escrever um livro. Dentro da embarcação ele avista Beate, uma jovem casada com um oficial nazista alemão. Logo, os dois conectam-se através da desesperança mútua refletida em seus olhares, algo que fascina ambos. Mesmo sem trocar uma palavra, ao final da viagem, o italiano já está apaixonado. Beate, então, procura o suicídio a dois e vê em Lúcio alguém capaz de acompanhá-la.

Ele, por sua vez, fica obcecado pela jovem, desencadeando uma estranha história, em que amor e morte surgem como as diferentes faces da mesma moeda. Com um mergulho na angústia existencial que alimenta o espírito dos personagens, a obra caracteriza-se por ser um retrato social e político da Europa em pleno crescimento do nazismo e do fascismo.

18 de outubro de 2013

Somos o Clic, presencialmente ou não


Vera Leite já frequentou as reuniões do Clic e há algum tempo prefere acompanhar o Clube pela internet. Ela também participa de outros projetos literários. Descubra mais sobre nossa dinâmica e envolvente amiga na entrevista a seguir.

Vera na varanda de sua casa, em Itaipu


Desde quando você conhece o Clic e como foi que ficou sabendo da sua existência?
Vera Leite: Tomei conhecimento do Clic  em 2011, no O Globo/Niteroi. Então, procurei o site na internet e me inscrevi.   Estive presente nas reuniões de 07 a 09/2011. Desde então, cá estou eu, acompanhando o Clic, virtualmente. Leio os livros e a maioria dos emails. E tenho visto, com prazer, o crescimento do Clic, com a adesão de novos participantes, alguns somente leitores, como eu, outros, escritores, e outros que acrescentam ao amor pela leitura uma rica formação especializada, e novas ideias sendo postas em prática, como o Clic twitter.

Você gosta da forma como os livros do mês são escolhidos? Indicação de cada um, depois encaminhamento dos dois livros mais votados pela internet, via blog e face, para a votação presencial na reunião mensal do Clube? Você costuma votar ?        
Vera: Sim, gosto muito, dando voz  a todos os membros  para votar e também para indicar aquele livro que gostam tanto a outros possíveis leitores. Na verdade, não tenho experiência de escolha de livros num grupo tão grande. Faço parte de uma Roda de Leitura - somente escritores brasileiros- no condomínio onde moro, são cerca de 10 membros. Assim podemos indicar os livros e votar ao final de cada reunião. Para quem quiser conhecer: www.saladeestudos.com . Também implantamos o projeto "Livro Livre", numa estante em que os condôminos podem deixar ou pegar livros. Imagino que deve ser bem trabalhosa a administração dos votos no Clic, registro e contagem de tantas opiniões diversas. Procuro votar sempre, da última vez já votei em "Infâmia".

Vera e as netas Juliana, Mariana e Maria Clara (gêmeas),
mais a gatinha (adotada) Moleca
O que você acha que mais atrai as pessoas a participarem do Clic? Se possível, dê um exemplo ou sugestão para cada tipo de participação (via blog, facebook, e-mails e reunião)?
Vera: Penso que em primeiro lugar está o prazer de ler e poder compartilhar a leitura,  trocar impressões, ou somente ler ou ouvir, quer estejamos de acordo ou não. É muito bom tomar conhecimento de aspectos que impressionaram outros leitores e que às vezes nem nos demos conta. 
E depois, a participação pela internet,  agora com twitter,super contemporânea. Particularmente, gosto mais dos e-mails, talvez por ser como uma conversa informal. Acesso o blog e o facebook  mais raramente, quando recebo indicações pelo e-mail, adoro  ler  os escritores do Clic, os contos, as crônicas, os poemas, as resenhas, os vídeos e outras informações.

Qual a sua forma de participação preferida e por que?
Vera:
 A minha participação está deixando muito a desejar...fica na leitura e no acompanhamento das postagens. Gosto mais de ouvir do que de falar. Quem sabe saio da concha?

Você gostaria de fazer alguma sugestão ou mandar um recado para os participantes do Clube?
Vera:
Sim, gostaria de sugerir que, se possível, ao indicar um livro,
  fosse  levada em conta  a disponibilidade  no mercado. Sei que é difícil, mas os membros do Clic me surpreendem com a solidariedade e a organização.E o meu recado  é: Muito obrigada a todos pela oportunidade de compartilhar a leitura com vocês. Como gosto de ler, comprava livros às cegas, e lia em completo isolamento. Parabéns a todos que trabalham para levar o Clic avante, alô Concierge, Newton, Helentry, Antônio, Sonia Salim, Eloísa, turma da informática e a todo o grupo.. E  em especial, a você, Rita. Obrigada pela entrevista, um beijo.

By: Rita Magnago

16 de outubro de 2013

A leitura e seus mistérios: Cyana Leahy





A leitura tem muitos mistérios e encantamentos. Em um quarto, em uma sala de aula, em um banco de jardim, em qualquer lugar, ela permite o deslocamento para terras distantes, para épocas passadas ou futuras; possibilita a aquisição de informação e torna companheiros reais personagens inventadas; transmite sonhos, divulga a ciência, possibilita a criatividade; faz o homem mais homem, abrindo espaço, perspectivas, futuros. Quem ensina, quem aprende, o que lê e como lê são questões cruciais para qualquer proposta de Leitura. 
Há profissionais competentes, empenhados na dinamização da leitura em suas salas de aula, mas parte considerável do corpo docene envolvido com projetos de leitura efetivamente não lê: sua disponibilidade para a leitura é mínima, e a resistência, máxima. Consideram leitura a preparação de aulas através dos manuais didáticos pré-prontos, e optam frequentemente por ações de caráter prático, dicas facilitadoras para copiar e usar em seus espaços de trabalho. 
Não se trata de resistência eletiva à leitura: a maioria de nós se sente desconfortável e insegura quanto à própria competência de ler, sem saber exatamente por que. Somos agentes da leitura da palavra e do mundo, precisamos manter os olhares abertos para as mútliplas linguagens: escritas, orais, recontadas, memorizadas. 
Ler é um processo de transformação permanente, que se revela por meio do conhecimento construído, algo que não se mede nem precisa medir. Esse é o princípio fundamental de educação para a cidadania: não há pedagogia sem autonomia, sem a prática da liberdade.
A leitura pode desmanchar fronteiras, estendendo pontes sobre as diferenças. Ler é inclusão desmedida. 



   
  'apelo gramático'

não me cortem os 'es' conjunções
coordenativas aditivas
que me cortam o ar que respiro
cada 'e' é golfada de ar invertido
penetrante ofegante
que ofego de indecisão frente à vida.
Preciso dos meus 'es' como alguns do luar
outros da luz
outros do ar poluído da metrópole holofótica
alumínitica cáustica.
Deixem meus 'es'
que naufrago e mergulho
cada vez mais
em mim.
       
'Biscuit'

Foi hoje um desses dias
em que a gente se descuida
fica pequena frágil louça
dá o reino a vida a alma
por um abraço...  
    
 'de gênero'

Quando um homem adentra o corpo de uma mulher
pensando que lhe dá vida prazer domínio e cansaço
querendo que se contente com o que tem
e que não saia de casa
o homem se esquece que a alma
beija flores 
       
  In  (Re)confesso Poesia, Cyana Leahy, Ed. Sette Letras


13 de outubro de 2013

Políticas de leitura: Profª Lilian Azevedo



Sei que muita gente vai dizer: lá vem ela levantar questões políticas onde não existem, mas depois de observar vários murais alusivos aos 100 anos de Vinícius de Moraes em algumas escolas da rede, penso cada vez mais sobre o papel que a leitura tem não só na FME, mas também na escola como um todo.

Há anos tenho defendido que o Sepe insista na luta pela criação de uma comissão para discutir e elaborar a proposta do Plano Municipal de Leitura, cujos objetivos precisam romper com a lógica das "atividades literárias", que historicamente tem funcionado quase como mero cumprimento de calendário de efemérides literárias.

Não me canso de insistir na luta por políticas públicas para a leitura, mas às vezes parece que vou morrer e não vou ver uma gestão abraçar essa causa com unhas e dentes!

Já sei! Vão novamente falar que a culpa é do governo Jorge? Desculpa, mas não quero ouvir tudo de novo, pois não é só dinheiro o cerne da questão.

É que sem investimento e sem a sistematização de uma proposta que aponte a leitura em contexto verdadeiramente prioritário, empreendendo ações num exercício cotidiano de incentivo à leitura literária e de um trabalho voltado para a emancipação do olhar e elevação dos níveis de letramento no Ensino Fundamental, jamais vamos sair do "lugar comum" dos concursos desconectados inclusive do projeto das Bibliotecas Escolares (que até hoje não existem, apesar dos inúmeros livrinhos de poesia publicados pela FME...). 

Depois desses meses todos de gestão, eu pergunto se a proposta é dar continuidade à mesma lógica que foi até hoje reproduzida pelo setor das "atividades literárias". 
Pergunto não como uma crítica, mas como curiosidade mesmo, até porque ainda não ficou clara a proposta de inovação desse importante setor na FME.
Alguém foi convidado a discutir o "magia de ler" e a nova proposta para a promoção da leitura na rede municipal?
Enquanto não formos convidados a discutir e participar da formulação de propostas, continuaremos curiosos, críticos e sonhando cada vez mais com um projeto verdadeiramente comprometido com a leitura.

Sim, nós sonhamos com a criação do Plano Municipal de Leitura, porque entendemos que leitura é muito mais que "atividades literárias".
Entendemos o incentivo à leitura como um processo que deveria começar na gestação, continuar na Educação Infantil e ser cotidianamente intensificada dentro e fora da escola e em todas as modalidades de ensino.

Quando pensamos em "atividades literárias", não conseguimos desconecta-las de uma política muito bem definida para criar, consolidar e ampliar uma Rede de Bibliotecas Escolares para gradativamente trabalhar a promoção da leitura no contexto escolar, na família e em outros espaços da comunidade.

O Plano Municipal de Leitura criaria condições objetivas de acesso dos niteroienses às Bibliotecas Escolares e às Bibliotecas Públicas que precisam ser implantadas em cada Bairro desta cidade, estruturando propostas para um gradativo e tão necessário trabalho de elevação dos níveis de leitura dos alunos da rede e da população de Niterói. O Plano também definiria parâmetros para a formação continuada dos Professores e mediadores de leitura dentro e fora da escola.

Observando boa parte dos trabalhos sobre os 100 anos de Vinícius de Moraes, só reforça o meu entendimento de que a aquisição plena da competência da leitura não exige só a aprendizagem da descodificação do texto e os colegas que estudam, pesquisam e se interessam pelo tema sabem bem o que eu quero dizer.

Ou será que só eu não me satisfaço e acho que daria para fazermos mais, muito mais com temas tão instigantes, se a escola tivesse mais livros, estrutura material e se a proposta que em geral chega da FME pudesse ser ampliada e construída coletivamente (inclusive com os meninos)?

Não sei se você concorda, mas todos os dias é preciso reafirmar que para atingirmos patamares superiores de letramento, é indispensável uma prática cotidiana de incentivo à leitura na sala de aula, nas Bibliotecas, em casa e tudo isso leva muitos anos pra acontecer.

Como se incentiva a leitura, como se eleva os níveis de letramento, se as escolas da rede nem sequer têm Bibliotecas, espaços agradáveis e livros para se ler? Como se incentiva a leitura se nós próprios temos cada vez menos tempo para ler e, consequentemente, deixamos de mostrar para os nossos alunos a paixão pela leitura?
Como não se indignar vendo que a educação pública municipal ainda não prioriza a questão da leitura nas escolas?

Desculpem, mas eu não fico feliz de ver aqueles murais desconectados da defesa intransigente por políticas públicas voltadas para a leitura e a imediata implantação das Bibliotecas Escolares.

E não, não me venham mais com essa de "coordenação de atividades literárias". Já cansamos desse modelo fragmentado que vê a leitura como um "gostinho" que damos aos meninos só de vez em quando.

Penso que se não forem criados ambientes, estruturas e propostas pedagógicas verdadeiramente favoráveis ao gosto pela leitura, vamos continuar por muito tempo comemorando as efemérides e reproduzindo aquilo que por tantos anos temos criticado nas propostas mirabolantes desenhadas nos gabinetes da FME.

Se querem saber, a meu ver Vinícius de Moraes, infelizmente foi precariamente lido e comemorado não só na escola, mas na cidade como um todo.

E para quem se deu por satisfeito, peço licença para dizer sobre o que vi, não só considerando o ponto de vista estético, mas sobretudo, dos referenciais pedagógicos:

"As muito feias que me perdoem 
Mas beleza é fundamental. É preciso 
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso..."


8 de outubro de 2013

A viagem: Wagner Medeiros Jr.





Era por volta das 9h da manhã, quando a esquadra portuguesa despontou da boca do Tejo. O esquadrão britânico que fazia o bloqueio à costa, sob o comando de sir Sidney Smith, estava preparado para a batalha, até que surge o Príncipe Real com o pavilhão da coroa portuguesa. A rainha D. Maria I e o príncipe regente D. João estavam a bordo. Dissipava-se, assim, qualquer intenção hostil de Portugal. A corte partia para o Brasil e a Convenção seria cumprida.

No mesmo dia 29 de novembro de 1807 o sir Sidney deixa a nau Hibernia e é recebido por D. João no Príncipe Real. Por seu relato “o príncipe disse tudo o que os sentimentos mais cordiais de gratidão para com a Grã-Bretanha e confiança nesta poderiam suscitar”, ao agradecer a escolta inglesa para a viagem.

D. João relutara em deixar seus servos. Se partia era para evitar a guerra e não ver o império luso humilhado. As tropas de Napoleão, sob o comando do General Junot, já avizinhavam Lisboa. Ali chegariam ao amanhecer do dia 30, ocupando de imediato os fortes da barra, para impedir a saída de outros navios.

A esquadra portuguesa, com 8 naus de linha, 3 brigues, 4 fragatas e 31 navios mercantes deixou o porto superlotada, com cerca de 15 mil pessoas: metade tripulante; a outra metade de fidalgos, funcionários da coroa e criados da casa real. Somente o Príncipe Real levava 1054 pessoas. Além disso, cada um dos navios levava tudo que foi possível carregar.

Os primeiros dias da viagem foram excessivamente extenuantes pelas tempestades, que dispersavam os navios. Daí o medo, o incômodo dos movimentos e da superlotação, o enjôo. Tudo isto fazia cada momento parecer eterno e infernal.

No dia 3 de dezembro o sir Sidney destaca 4 naus para escoltar a frota portuguesa, retornando à batalha na costa contra os franceses, enquanto a fragata Medusa vai à frente, por ordem de D. João, para avisar no Rio de Janeiro que a corte estava a caminho.

Porém, no dia 9, o Príncipe Real, o Afonso de Albuquerque, que transportava D. Carlota Joaquina, e as fragatas Minerva e Urânia, se separaram da nau inglesa Bedford, devido a pouca visibilidade. O reencontro só aconteceria no dia 15, quando o capitão Walker relata ter visitado D. João, prestando “toda atenção possível”, pois naquele momento recaia sobre ele a responsabilidade da Convenção.

No dia 17 comemorou-se o aniversário de D. Maria I. Salvas de canhão romperam a madrugada, sendo repetidas ao meio-dia e à tarde. O capitão WalKer, comandante da Bedford, manda carregar as velas e os fuzileiros apresentarem armas, enquanto dispara uma salva de tiros em homenagem à rainha.

D. Maria I relutara em ir a bordo, com problemas mentais e extrema melancolia, agravadas pelas mortes do marido, D. Pedro III (1786), e do filho, o príncipe herdeiro D. José (1788), aos 27 anos. Dizia ver seu pai, D. José I, calcinado e cumprindo pena no inferno, por permitir o Marques de Pombal expulsar os jesuítas do território português.

Na proximidade do natal os cinco navios agrupados chegaram à região do equador e entram na zona de calmaria, onde romperam 1808. Nesta etapa, os navios bastante castigados pelas tempestades e insalubres, pelo excesso de pessoas, mal conseguiam avançar. Então, D. João decide aportar em Salvador, pela exaustão.

O alento chega no dia 17 de janeiro, quando o brigue Trez-Corações, carregado de frutas, verduras e legumes, encontra a frota real. O Medusa informara da passagem da família real pela costa de Recife.

No dia 22, após 54 dias no mar, D. João aporta em Salvador onde assina a Carta Régia abrindo os portos às nações amigas. Iniciava-se ali o grito que decretaria a independência do Brasil.

Os demais navios aportaram em pontos distintos da costa brasileira, mas depois todos singraram rumo ao Rio de Janeiro.



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3 de outubro de 2013

Convite à produção coletiva. Tema: SOLIDÃO

Solidão segundo Rita Magnago, Evandro Andrade, Sonia Salim, Vera Freire, Novaes/, Elenir Teixeira, Luiz Gawryszewski, Eloisa Helena,

Nas páginas finais de Coração das Trevas, de Joseph Conrad, o narrador nos diz:

“Como eu próprio estive à beira do abismo, compreendi melhor o significado daquele seu olhar, que não podia ver a chama da vela, mas era amplo o suficiente para abraçar o universo inteiro, pungente o bastante para penetrar em todos os corações que batem na escuridão”.

Assim acho que poderia definir a solidão, um coração batendo na escuridão.
Não se trata de diferenciar estar só de solidão, isso já foi feito há muito. O sentido de solidão a que me refiro é precisamente o de me sentir só, quer sozinha ou acompanhada, de me sentir solitária mesmo, profunda, desarmoniosamente e sem escolha só, apesar das múltiplas possibilidades que o mundo, inclusive o virtual, nos esfrega na cara a todo instante, como coisa que afastar esse drama tão humano e intemporal fosse fácil.

Zé Ramalho me salva aqui: ‘se fosse fácil, todo mundo era’ e ainda complementa esta descrição pessoal: ‘um sofrimento esquálido’.


Nada faz sentido nesses momentos em que sou só eu sem nem mesmo mim, onde estou apartada e desgraçadamente vazia e oca e triste, onde a incompreensão sobre mim se alastra como fosse uma cobra comprida, de muitos metros, que desenrola e dá o bote, me apertando o coração, que chora e arrebenta de dor, olha pra dentro do inexplicável nada e apenas escurece, salgando uma alma desamparada e desprovida do seu próprio afeto.

Nem sempre fui assim, no entanto. Em algum momento de minha vida perdi a alegria e a espontaneidade que me deixava tão à vontade perante o que quer que me acontecesse. Talvez tenha percebido que me faltasse algo, embora até hoje não saiba exatamente do que se trate. Não sei quando isso ocorreu, foi algo traiçoeiro. Algum contágio inesperado, um desejo ingênuo de experimentar o que não entendia, de fazer de conta que sentia o que não sentia. 

Nesse jogo de experimentar algo que não estava na minha essência deixou um grande vazio dentro de mim. Tive vergonha de aproximação com o outro e decidi pelo isolamento que tomou posse de todo o meu ser, aprisionando o meu próprio eu. 


Solidão no parque...
Os brinquedos sem crianças,
árvores sem pássaros.
Longe, soa um sino...
Folhas secas pelo chão
e um banco vazio.

Me questiono: o que me levou a tamanha solidão? Culpa minha? Será que esperei demais da vida? Minha alma sensível me levou a devaneios? Continuo esperando e buscando respostas.
Preciso e quero fazer as pazes com minha alegria, minha espontaneidade que sempre foram minha marca...

Sim, havia alegria, havia sorrisos, havia uma vida imensa estampada em meus passos, uma determinação ferrenha de viver, de saborear cada gota de vida, como uma seiva, um sumo doce e refrescante. Eu andava pela vida com um brilho nos olhos e toda essa energia vital. 

Mas um dia, um certo dia, eu disse sim. Estava completamente envolvida e embriagada pela fantasia, disse sim àquela experiência ficcional, deixei-me seduzir, e agora colho como resultado esta solidão tenebrosa, aqui, presa nas páginas deste livro.



Falo muito, gesticulo,
indicando extroversão,
no entanto é apenas fuga
desta enorme solidão...
 
Ah como estou desencantada de tudo, de todos, de mim. Talvez esse sentimento pudesse se atenuar se alguém me abrisse, me visse aqui na estante, me lesse um pedaço que fosse. Que tal essa página?

Ex-tremos

Qual é a maior estrela do Universo?
Qual é o menor animal da Terra?

Julgar extremos, perguntar:
É a nanica, a da terra, a d'agua, a ouro, a prata, a maçã,
a banana mais gostosa?
Ou é a pera, a seleta, a lima, a bahia, 
A laranja que tem mais suco, a que é a mais doce, a menor ou a maior?

Viver extremos, responder:
O extremo da solidão não é ausência do outro,
Perdido na morte ou no desamor
Não é a cama vazia ou a mesa sem par.
O extremo da solidão não dói
É quando o eu é levado pela depressão
E com a ausência do vazio nem sozinhos ficamos.

O extremo do êxtase é quando nos sentimos sós,
Como estrela diferente a iluminar novos caminhos,
Não importa se como Sol, a pequena estrela vizinha,
Ou aquela tão grande e tão longe que só é visível na imaginação.
Não importa se somos como Lua que só reflete ou
Como buraco negro que tudo consome.
Como laranja ou banana só existimos como ex-tremo que nunca existiu.

Talvez esse poema soasse como um pedido de socorro e prosseguissem me conhecendo? Será? Será?

De solidão não falo, não se fala ao mundo de nossa intimidade, de nosso amor, do exercício do ser. Ninguém entenderia. Aqui, neste livro em que me prendi, sem saber como sair, tremo a cada página que se vira, no extremo do que dizem as palavras, esses versos, tento entender os versos: o verso da página, o verso de mim. Este livro é minha prisão, minha solidão, mas, quem sabe, talvez possa ser também minha libertação.

2 de outubro de 2013

Poesia infinita


Artigo originalmente publicado no site da Academia Niteroiense de Letras


Novaes/

Num pedaço de papel qualquer, rabisco um poema. Posso estar na rua, no trabalho, na sala de espera de algum consultório médico, à espera de que aquela inspiração momentânea me traga algum conforto, alguma luz. Versos, nascidos assim, sem rumo nem prumo, isentos de racionalidade, são buracos negros que retiramos da alma e do corpo, como se o vazio se materializasse no papel. Estes vazios nos pesam, enquanto nos habitam. Escrevê-los é terapia, tratamento para a mente e o coração que, desafogado, parece respirar mais livre quando o poema se finda. A sensação é física, real. Poetas não vivem no mundo da Lua. Permitem-se ir à Lua. É diferente.

Alguns poetas vão à Lua para olhar o infinito. Estes nos levam a viajar pela escuridão, pelo desconhecido, pelas entranhas mais ocultas do ser humano, universos inexplorados, difíceis, temerários. São poetas do mistério. São, em geral, poemas difíceis de “caírem no gosto” do grande público, porque nem sempre se consegue embarcar naquela mesma “aeronave” do autor para vislumbrar o infinito através de seus olhos, a partir de sua perspectiva. Mas, é inegável, a boa poesia consegue que vejamos, naquele infinito, os nossos próprios “buracos negros”, a nossa infinita pequenez diante do Universo, ou a pequenez do nosso universo pessoal, constrangedoramente finito. Estranhamente, esse mergulho no desconhecido nos acrescenta, tanto quanto incomoda. É através dele que podemos, entre uma palpitação e outra, revelar descompassos entre nós e nossos sonhos, cutucar incongruências sentidas, mas ainda não elaboradas, refletir sobre as nossas questões pessoais.

Outros poetas visitam a Lua para, de lá, mirar a Terra. Vê-la a partir de outro ponto de vista. Estes são os que buscam um outro olhar sobre o conhecido, a realidade, a obra humana, às vezes corriqueira e cotidiana, enxergando no aparentemente trivial seu lado oculto, sua singularidade ou mesmo o que há de universal em seu caráter, possivelmente ainda não percebido pelo homem. Estes são os poetas da revelação. São, em geral, autores que estabelecem uma comunicação um pouco mais fácil com o leitor médio, pelo fato de que usam a realidade material ou factual como ponto de partida para suas observações poéticas. Isso em nada reduz a profundidade de sua obra e de suas percepções. Pelo contrário, os excelentes poetas deste tipo costumam descortinar o infinito de uma maneira contundente exatamente pelo fato de que partem, a princípio, do comum, do chão, dos pés na terra. Mas, neles, é como se a Lua fosse vista a partir de seu reflexo no mar. O dado de realidade – o mar – está ali apenas para tornar a visão mais deslumbrante, bela, fluida, enigmática, sem deixar de ser real. A combinação de um realismo que transcenda em descobertas é, também, para o leitor, um bálsamo enriquecedor. Todos nós gostaríamos de compreender o mundo, o homem e a nós mesmos nesse mundo, mesmo que não tenhamos muita consciência disso.

Em todos os casos, a poesia não é uma arte fácil. Escrever poesia, atividade que muitos jovens apaixonados ou reflexivos empreendem, é coisa aparentemente fácil de se começar. No entanto, nem todos esses jovens atingirão uma maturidade poética capaz de tirar seus poemas do chão ou do mundo da Lua. Começa-se, em geral, em um destes dois patamares, ambos insuficientes para que se possa definir o autor como poeta, no sentido profissional da palavra. A prática, o tempo e a dedicação à palavra – matéria-prima do poeta – é que conduzirão o jovem autor, ele mesmo, a ter consciência de ser poeta. Uma vez adquirida esta consciência, nada poderá alterar esse status. Não importa se arrumou um emprego, foi cuidar da vida e “nunca mais” escreveu. Um dia ele escreveu como um poeta, sentindo-se poeta, e a qualquer momento pode voltar a fazê-lo.

Também não é fácil ler a poesia. É acepipe para ser degustado em silêncio, solitariamente, preferencialmente à noite. Em outras situações – numa condução, por exemplo, durante o dia – pode até ser possível para algum leitor, mas este leitor haverá de estar cem porcento concentrado, apaixonado, mergulhado no livro como se não houvesse outro mundo à sua volta que não aquele dos versos. Caso contrário, se a leitura for apressada, ouviremos do leitor a clássica frase: “eu não gosto de poesia...” De fato, poesia não é fast food. É prato delicado, para saborear.


Talvez por isso, confrontando-se com os tempos atuais – rápidos, ligeiros, superficiais – tem sido dura a vida da poesia no mercado editorial. O recente estouro de vendas da coletânea “Toda poesia”, de Paulo Leminski, é, na verdade, a exceção que confirma a regra. É sabido que, na ordem de preferência das editoras, estão os romances, bem depois os livros de contos e crônicas e, bem lá no final da fila, quase desaparecendo, os livros de poesia. Será que a poesia não combina com a pressa consumista do mundo atual? É profunda demais? Não há interesse comercial em investir em novos valores? Ou não interessa ao status quo que uma literatura que revele infinitos seja incentivada e lida?

Só que há um detalhe. O Universo, infinito e misterioso, ama a poesia. É fato. Qualquer conspiração terrena contra a poesia esbarrará sempre neste fato insofismável. O Universo é amante da poesia e sabe que a Terra precisa que os poetas a fecundem. Não fosse isso, como explicar um Walt Whitman, um Vladimir Maiakóvski, um Pablo Neruda, um Drummond de Andrade? Como explicar que a poesia exista no mundo há tanto tempo e tenha semeado, além de poemas, também músicas, peças de teatro, prosas poéticas e até slogans de campanhas civis?

A poesia transcende. Ocupa espaços porque é infinita. Hoje, no Brasil, a poesia ignora o descaso das editoras e vibra nas ruas, nos Corujões da Poesia, nos saraus, nos cafés-concertos. Naquele momento em que as pessoas param alguns minutos ou algumas horas para relaxar. Boa hora para ouvir poesia! Ela renasce, num pedaço qualquer de papel ou, como no poema de Drummond, como uma flor no asfalto:

A flor e a náusea
(...)
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios
garanto que uma flor nasceu.
(...)
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade

1 de outubro de 2013

Chant d'automne: Charles Baudelaire



I


Bientôt nous plongerons dans les froides ténèbres ;
Adieu, vive clarté de nos étés trop courts !
J'entends déjà tomber avec des chocs funèbres
Le bois retentissant sur le pavé des cours.



Tout l'hiver va rentrer dans mon être: colère,
Haine, frissons, horreur, labeur dur et forcé,
Et, comme le soleil dans son enfer polaire,
Mon cœur ne sera plus qu'un bloc rouge et glacé.



J'écoute en frémissant chaque bûche qui tombe
L'échafaud qu'on bâtit n'a pas d'écho plus sourd.
Mon esprit est pareil à la tour qui succombe
Sous les coups du bélier infatigable et lourd.



II me semble, bercé par ce choc monotone,
Qu'on cloue en grande hâte un cercueil quelque part.
Pour qui? - C'était hier l'été; voici l'automne !
Ce bruit mystérieux sonne comme un départ.



II 


J'aime de vos longs yeux la lumière verdâtre,
Douce beauté, mais tout aujourd'hui m'est amer,
Et rien, ni votre amour, ni le boudoir, ni l'âtre,
Ne me vaut le soleil rayonnant sur la mer.



Et pourtant aimez-moi, tendre cœur! soyez mère,
Même pour un ingrat, même pour un méchant ;
Amante ou sœur, soyez la douceur éphémère
D'un glorieux automne ou d'un soleil couchant.



Courte tâche! La tombe attend - elle est avide !
Ah! laissez-moi, mon front posé sur vos genoux,
Goûter, en regrettant l'été blanc et torride,
De l'arrière-saison le rayon jaune et doux !



Les Fleurs du mal - Spleen et Idéal