CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

13 de outubro de 2013

Políticas de leitura: Profª Lilian Azevedo



Sei que muita gente vai dizer: lá vem ela levantar questões políticas onde não existem, mas depois de observar vários murais alusivos aos 100 anos de Vinícius de Moraes em algumas escolas da rede, penso cada vez mais sobre o papel que a leitura tem não só na FME, mas também na escola como um todo.

Há anos tenho defendido que o Sepe insista na luta pela criação de uma comissão para discutir e elaborar a proposta do Plano Municipal de Leitura, cujos objetivos precisam romper com a lógica das "atividades literárias", que historicamente tem funcionado quase como mero cumprimento de calendário de efemérides literárias.

Não me canso de insistir na luta por políticas públicas para a leitura, mas às vezes parece que vou morrer e não vou ver uma gestão abraçar essa causa com unhas e dentes!

Já sei! Vão novamente falar que a culpa é do governo Jorge? Desculpa, mas não quero ouvir tudo de novo, pois não é só dinheiro o cerne da questão.

É que sem investimento e sem a sistematização de uma proposta que aponte a leitura em contexto verdadeiramente prioritário, empreendendo ações num exercício cotidiano de incentivo à leitura literária e de um trabalho voltado para a emancipação do olhar e elevação dos níveis de letramento no Ensino Fundamental, jamais vamos sair do "lugar comum" dos concursos desconectados inclusive do projeto das Bibliotecas Escolares (que até hoje não existem, apesar dos inúmeros livrinhos de poesia publicados pela FME...). 

Depois desses meses todos de gestão, eu pergunto se a proposta é dar continuidade à mesma lógica que foi até hoje reproduzida pelo setor das "atividades literárias". 
Pergunto não como uma crítica, mas como curiosidade mesmo, até porque ainda não ficou clara a proposta de inovação desse importante setor na FME.
Alguém foi convidado a discutir o "magia de ler" e a nova proposta para a promoção da leitura na rede municipal?
Enquanto não formos convidados a discutir e participar da formulação de propostas, continuaremos curiosos, críticos e sonhando cada vez mais com um projeto verdadeiramente comprometido com a leitura.

Sim, nós sonhamos com a criação do Plano Municipal de Leitura, porque entendemos que leitura é muito mais que "atividades literárias".
Entendemos o incentivo à leitura como um processo que deveria começar na gestação, continuar na Educação Infantil e ser cotidianamente intensificada dentro e fora da escola e em todas as modalidades de ensino.

Quando pensamos em "atividades literárias", não conseguimos desconecta-las de uma política muito bem definida para criar, consolidar e ampliar uma Rede de Bibliotecas Escolares para gradativamente trabalhar a promoção da leitura no contexto escolar, na família e em outros espaços da comunidade.

O Plano Municipal de Leitura criaria condições objetivas de acesso dos niteroienses às Bibliotecas Escolares e às Bibliotecas Públicas que precisam ser implantadas em cada Bairro desta cidade, estruturando propostas para um gradativo e tão necessário trabalho de elevação dos níveis de leitura dos alunos da rede e da população de Niterói. O Plano também definiria parâmetros para a formação continuada dos Professores e mediadores de leitura dentro e fora da escola.

Observando boa parte dos trabalhos sobre os 100 anos de Vinícius de Moraes, só reforça o meu entendimento de que a aquisição plena da competência da leitura não exige só a aprendizagem da descodificação do texto e os colegas que estudam, pesquisam e se interessam pelo tema sabem bem o que eu quero dizer.

Ou será que só eu não me satisfaço e acho que daria para fazermos mais, muito mais com temas tão instigantes, se a escola tivesse mais livros, estrutura material e se a proposta que em geral chega da FME pudesse ser ampliada e construída coletivamente (inclusive com os meninos)?

Não sei se você concorda, mas todos os dias é preciso reafirmar que para atingirmos patamares superiores de letramento, é indispensável uma prática cotidiana de incentivo à leitura na sala de aula, nas Bibliotecas, em casa e tudo isso leva muitos anos pra acontecer.

Como se incentiva a leitura, como se eleva os níveis de letramento, se as escolas da rede nem sequer têm Bibliotecas, espaços agradáveis e livros para se ler? Como se incentiva a leitura se nós próprios temos cada vez menos tempo para ler e, consequentemente, deixamos de mostrar para os nossos alunos a paixão pela leitura?
Como não se indignar vendo que a educação pública municipal ainda não prioriza a questão da leitura nas escolas?

Desculpem, mas eu não fico feliz de ver aqueles murais desconectados da defesa intransigente por políticas públicas voltadas para a leitura e a imediata implantação das Bibliotecas Escolares.

E não, não me venham mais com essa de "coordenação de atividades literárias". Já cansamos desse modelo fragmentado que vê a leitura como um "gostinho" que damos aos meninos só de vez em quando.

Penso que se não forem criados ambientes, estruturas e propostas pedagógicas verdadeiramente favoráveis ao gosto pela leitura, vamos continuar por muito tempo comemorando as efemérides e reproduzindo aquilo que por tantos anos temos criticado nas propostas mirabolantes desenhadas nos gabinetes da FME.

Se querem saber, a meu ver Vinícius de Moraes, infelizmente foi precariamente lido e comemorado não só na escola, mas na cidade como um todo.

E para quem se deu por satisfeito, peço licença para dizer sobre o que vi, não só considerando o ponto de vista estético, mas sobretudo, dos referenciais pedagógicos:

"As muito feias que me perdoem 
Mas beleza é fundamental. É preciso 
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso..."


8 de outubro de 2013

A viagem: Wagner Medeiros Jr.





Era por volta das 9h da manhã, quando a esquadra portuguesa despontou da boca do Tejo. O esquadrão britânico que fazia o bloqueio à costa, sob o comando de sir Sidney Smith, estava preparado para a batalha, até que surge o Príncipe Real com o pavilhão da coroa portuguesa. A rainha D. Maria I e o príncipe regente D. João estavam a bordo. Dissipava-se, assim, qualquer intenção hostil de Portugal. A corte partia para o Brasil e a Convenção seria cumprida.

No mesmo dia 29 de novembro de 1807 o sir Sidney deixa a nau Hibernia e é recebido por D. João no Príncipe Real. Por seu relato “o príncipe disse tudo o que os sentimentos mais cordiais de gratidão para com a Grã-Bretanha e confiança nesta poderiam suscitar”, ao agradecer a escolta inglesa para a viagem.

D. João relutara em deixar seus servos. Se partia era para evitar a guerra e não ver o império luso humilhado. As tropas de Napoleão, sob o comando do General Junot, já avizinhavam Lisboa. Ali chegariam ao amanhecer do dia 30, ocupando de imediato os fortes da barra, para impedir a saída de outros navios.

A esquadra portuguesa, com 8 naus de linha, 3 brigues, 4 fragatas e 31 navios mercantes deixou o porto superlotada, com cerca de 15 mil pessoas: metade tripulante; a outra metade de fidalgos, funcionários da coroa e criados da casa real. Somente o Príncipe Real levava 1054 pessoas. Além disso, cada um dos navios levava tudo que foi possível carregar.

Os primeiros dias da viagem foram excessivamente extenuantes pelas tempestades, que dispersavam os navios. Daí o medo, o incômodo dos movimentos e da superlotação, o enjôo. Tudo isto fazia cada momento parecer eterno e infernal.

No dia 3 de dezembro o sir Sidney destaca 4 naus para escoltar a frota portuguesa, retornando à batalha na costa contra os franceses, enquanto a fragata Medusa vai à frente, por ordem de D. João, para avisar no Rio de Janeiro que a corte estava a caminho.

Porém, no dia 9, o Príncipe Real, o Afonso de Albuquerque, que transportava D. Carlota Joaquina, e as fragatas Minerva e Urânia, se separaram da nau inglesa Bedford, devido a pouca visibilidade. O reencontro só aconteceria no dia 15, quando o capitão Walker relata ter visitado D. João, prestando “toda atenção possível”, pois naquele momento recaia sobre ele a responsabilidade da Convenção.

No dia 17 comemorou-se o aniversário de D. Maria I. Salvas de canhão romperam a madrugada, sendo repetidas ao meio-dia e à tarde. O capitão WalKer, comandante da Bedford, manda carregar as velas e os fuzileiros apresentarem armas, enquanto dispara uma salva de tiros em homenagem à rainha.

D. Maria I relutara em ir a bordo, com problemas mentais e extrema melancolia, agravadas pelas mortes do marido, D. Pedro III (1786), e do filho, o príncipe herdeiro D. José (1788), aos 27 anos. Dizia ver seu pai, D. José I, calcinado e cumprindo pena no inferno, por permitir o Marques de Pombal expulsar os jesuítas do território português.

Na proximidade do natal os cinco navios agrupados chegaram à região do equador e entram na zona de calmaria, onde romperam 1808. Nesta etapa, os navios bastante castigados pelas tempestades e insalubres, pelo excesso de pessoas, mal conseguiam avançar. Então, D. João decide aportar em Salvador, pela exaustão.

O alento chega no dia 17 de janeiro, quando o brigue Trez-Corações, carregado de frutas, verduras e legumes, encontra a frota real. O Medusa informara da passagem da família real pela costa de Recife.

No dia 22, após 54 dias no mar, D. João aporta em Salvador onde assina a Carta Régia abrindo os portos às nações amigas. Iniciava-se ali o grito que decretaria a independência do Brasil.

Os demais navios aportaram em pontos distintos da costa brasileira, mas depois todos singraram rumo ao Rio de Janeiro.



e-mail: wagnermedeirosjr@gmail.com
Visite o blog: Preto no Branco


3 de outubro de 2013

Convite à produção coletiva. Tema: SOLIDÃO

Solidão segundo Rita Magnago, Evandro Andrade, Sonia Salim, Vera Freire, Novaes/, Elenir Teixeira, Luiz Gawryszewski, Eloisa Helena,

Nas páginas finais de Coração das Trevas, de Joseph Conrad, o narrador nos diz:

“Como eu próprio estive à beira do abismo, compreendi melhor o significado daquele seu olhar, que não podia ver a chama da vela, mas era amplo o suficiente para abraçar o universo inteiro, pungente o bastante para penetrar em todos os corações que batem na escuridão”.

Assim acho que poderia definir a solidão, um coração batendo na escuridão.
Não se trata de diferenciar estar só de solidão, isso já foi feito há muito. O sentido de solidão a que me refiro é precisamente o de me sentir só, quer sozinha ou acompanhada, de me sentir solitária mesmo, profunda, desarmoniosamente e sem escolha só, apesar das múltiplas possibilidades que o mundo, inclusive o virtual, nos esfrega na cara a todo instante, como coisa que afastar esse drama tão humano e intemporal fosse fácil.

Zé Ramalho me salva aqui: ‘se fosse fácil, todo mundo era’ e ainda complementa esta descrição pessoal: ‘um sofrimento esquálido’.


Nada faz sentido nesses momentos em que sou só eu sem nem mesmo mim, onde estou apartada e desgraçadamente vazia e oca e triste, onde a incompreensão sobre mim se alastra como fosse uma cobra comprida, de muitos metros, que desenrola e dá o bote, me apertando o coração, que chora e arrebenta de dor, olha pra dentro do inexplicável nada e apenas escurece, salgando uma alma desamparada e desprovida do seu próprio afeto.

Nem sempre fui assim, no entanto. Em algum momento de minha vida perdi a alegria e a espontaneidade que me deixava tão à vontade perante o que quer que me acontecesse. Talvez tenha percebido que me faltasse algo, embora até hoje não saiba exatamente do que se trate. Não sei quando isso ocorreu, foi algo traiçoeiro. Algum contágio inesperado, um desejo ingênuo de experimentar o que não entendia, de fazer de conta que sentia o que não sentia. 

Nesse jogo de experimentar algo que não estava na minha essência deixou um grande vazio dentro de mim. Tive vergonha de aproximação com o outro e decidi pelo isolamento que tomou posse de todo o meu ser, aprisionando o meu próprio eu. 


Solidão no parque...
Os brinquedos sem crianças,
árvores sem pássaros.
Longe, soa um sino...
Folhas secas pelo chão
e um banco vazio.

Me questiono: o que me levou a tamanha solidão? Culpa minha? Será que esperei demais da vida? Minha alma sensível me levou a devaneios? Continuo esperando e buscando respostas.
Preciso e quero fazer as pazes com minha alegria, minha espontaneidade que sempre foram minha marca...

Sim, havia alegria, havia sorrisos, havia uma vida imensa estampada em meus passos, uma determinação ferrenha de viver, de saborear cada gota de vida, como uma seiva, um sumo doce e refrescante. Eu andava pela vida com um brilho nos olhos e toda essa energia vital. 

Mas um dia, um certo dia, eu disse sim. Estava completamente envolvida e embriagada pela fantasia, disse sim àquela experiência ficcional, deixei-me seduzir, e agora colho como resultado esta solidão tenebrosa, aqui, presa nas páginas deste livro.



Falo muito, gesticulo,
indicando extroversão,
no entanto é apenas fuga
desta enorme solidão...
 
Ah como estou desencantada de tudo, de todos, de mim. Talvez esse sentimento pudesse se atenuar se alguém me abrisse, me visse aqui na estante, me lesse um pedaço que fosse. Que tal essa página?

Ex-tremos

Qual é a maior estrela do Universo?
Qual é o menor animal da Terra?

Julgar extremos, perguntar:
É a nanica, a da terra, a d'agua, a ouro, a prata, a maçã,
a banana mais gostosa?
Ou é a pera, a seleta, a lima, a bahia, 
A laranja que tem mais suco, a que é a mais doce, a menor ou a maior?

Viver extremos, responder:
O extremo da solidão não é ausência do outro,
Perdido na morte ou no desamor
Não é a cama vazia ou a mesa sem par.
O extremo da solidão não dói
É quando o eu é levado pela depressão
E com a ausência do vazio nem sozinhos ficamos.

O extremo do êxtase é quando nos sentimos sós,
Como estrela diferente a iluminar novos caminhos,
Não importa se como Sol, a pequena estrela vizinha,
Ou aquela tão grande e tão longe que só é visível na imaginação.
Não importa se somos como Lua que só reflete ou
Como buraco negro que tudo consome.
Como laranja ou banana só existimos como ex-tremo que nunca existiu.

Talvez esse poema soasse como um pedido de socorro e prosseguissem me conhecendo? Será? Será?

De solidão não falo, não se fala ao mundo de nossa intimidade, de nosso amor, do exercício do ser. Ninguém entenderia. Aqui, neste livro em que me prendi, sem saber como sair, tremo a cada página que se vira, no extremo do que dizem as palavras, esses versos, tento entender os versos: o verso da página, o verso de mim. Este livro é minha prisão, minha solidão, mas, quem sabe, talvez possa ser também minha libertação.

2 de outubro de 2013

Poesia infinita


Artigo originalmente publicado no site da Academia Niteroiense de Letras


Novaes/

Num pedaço de papel qualquer, rabisco um poema. Posso estar na rua, no trabalho, na sala de espera de algum consultório médico, à espera de que aquela inspiração momentânea me traga algum conforto, alguma luz. Versos, nascidos assim, sem rumo nem prumo, isentos de racionalidade, são buracos negros que retiramos da alma e do corpo, como se o vazio se materializasse no papel. Estes vazios nos pesam, enquanto nos habitam. Escrevê-los é terapia, tratamento para a mente e o coração que, desafogado, parece respirar mais livre quando o poema se finda. A sensação é física, real. Poetas não vivem no mundo da Lua. Permitem-se ir à Lua. É diferente.

Alguns poetas vão à Lua para olhar o infinito. Estes nos levam a viajar pela escuridão, pelo desconhecido, pelas entranhas mais ocultas do ser humano, universos inexplorados, difíceis, temerários. São poetas do mistério. São, em geral, poemas difíceis de “caírem no gosto” do grande público, porque nem sempre se consegue embarcar naquela mesma “aeronave” do autor para vislumbrar o infinito através de seus olhos, a partir de sua perspectiva. Mas, é inegável, a boa poesia consegue que vejamos, naquele infinito, os nossos próprios “buracos negros”, a nossa infinita pequenez diante do Universo, ou a pequenez do nosso universo pessoal, constrangedoramente finito. Estranhamente, esse mergulho no desconhecido nos acrescenta, tanto quanto incomoda. É através dele que podemos, entre uma palpitação e outra, revelar descompassos entre nós e nossos sonhos, cutucar incongruências sentidas, mas ainda não elaboradas, refletir sobre as nossas questões pessoais.

Outros poetas visitam a Lua para, de lá, mirar a Terra. Vê-la a partir de outro ponto de vista. Estes são os que buscam um outro olhar sobre o conhecido, a realidade, a obra humana, às vezes corriqueira e cotidiana, enxergando no aparentemente trivial seu lado oculto, sua singularidade ou mesmo o que há de universal em seu caráter, possivelmente ainda não percebido pelo homem. Estes são os poetas da revelação. São, em geral, autores que estabelecem uma comunicação um pouco mais fácil com o leitor médio, pelo fato de que usam a realidade material ou factual como ponto de partida para suas observações poéticas. Isso em nada reduz a profundidade de sua obra e de suas percepções. Pelo contrário, os excelentes poetas deste tipo costumam descortinar o infinito de uma maneira contundente exatamente pelo fato de que partem, a princípio, do comum, do chão, dos pés na terra. Mas, neles, é como se a Lua fosse vista a partir de seu reflexo no mar. O dado de realidade – o mar – está ali apenas para tornar a visão mais deslumbrante, bela, fluida, enigmática, sem deixar de ser real. A combinação de um realismo que transcenda em descobertas é, também, para o leitor, um bálsamo enriquecedor. Todos nós gostaríamos de compreender o mundo, o homem e a nós mesmos nesse mundo, mesmo que não tenhamos muita consciência disso.

Em todos os casos, a poesia não é uma arte fácil. Escrever poesia, atividade que muitos jovens apaixonados ou reflexivos empreendem, é coisa aparentemente fácil de se começar. No entanto, nem todos esses jovens atingirão uma maturidade poética capaz de tirar seus poemas do chão ou do mundo da Lua. Começa-se, em geral, em um destes dois patamares, ambos insuficientes para que se possa definir o autor como poeta, no sentido profissional da palavra. A prática, o tempo e a dedicação à palavra – matéria-prima do poeta – é que conduzirão o jovem autor, ele mesmo, a ter consciência de ser poeta. Uma vez adquirida esta consciência, nada poderá alterar esse status. Não importa se arrumou um emprego, foi cuidar da vida e “nunca mais” escreveu. Um dia ele escreveu como um poeta, sentindo-se poeta, e a qualquer momento pode voltar a fazê-lo.

Também não é fácil ler a poesia. É acepipe para ser degustado em silêncio, solitariamente, preferencialmente à noite. Em outras situações – numa condução, por exemplo, durante o dia – pode até ser possível para algum leitor, mas este leitor haverá de estar cem porcento concentrado, apaixonado, mergulhado no livro como se não houvesse outro mundo à sua volta que não aquele dos versos. Caso contrário, se a leitura for apressada, ouviremos do leitor a clássica frase: “eu não gosto de poesia...” De fato, poesia não é fast food. É prato delicado, para saborear.


Talvez por isso, confrontando-se com os tempos atuais – rápidos, ligeiros, superficiais – tem sido dura a vida da poesia no mercado editorial. O recente estouro de vendas da coletânea “Toda poesia”, de Paulo Leminski, é, na verdade, a exceção que confirma a regra. É sabido que, na ordem de preferência das editoras, estão os romances, bem depois os livros de contos e crônicas e, bem lá no final da fila, quase desaparecendo, os livros de poesia. Será que a poesia não combina com a pressa consumista do mundo atual? É profunda demais? Não há interesse comercial em investir em novos valores? Ou não interessa ao status quo que uma literatura que revele infinitos seja incentivada e lida?

Só que há um detalhe. O Universo, infinito e misterioso, ama a poesia. É fato. Qualquer conspiração terrena contra a poesia esbarrará sempre neste fato insofismável. O Universo é amante da poesia e sabe que a Terra precisa que os poetas a fecundem. Não fosse isso, como explicar um Walt Whitman, um Vladimir Maiakóvski, um Pablo Neruda, um Drummond de Andrade? Como explicar que a poesia exista no mundo há tanto tempo e tenha semeado, além de poemas, também músicas, peças de teatro, prosas poéticas e até slogans de campanhas civis?

A poesia transcende. Ocupa espaços porque é infinita. Hoje, no Brasil, a poesia ignora o descaso das editoras e vibra nas ruas, nos Corujões da Poesia, nos saraus, nos cafés-concertos. Naquele momento em que as pessoas param alguns minutos ou algumas horas para relaxar. Boa hora para ouvir poesia! Ela renasce, num pedaço qualquer de papel ou, como no poema de Drummond, como uma flor no asfalto:

A flor e a náusea
(...)
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios
garanto que uma flor nasceu.
(...)
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade

1 de outubro de 2013

Chant d'automne: Charles Baudelaire



I


Bientôt nous plongerons dans les froides ténèbres ;
Adieu, vive clarté de nos étés trop courts !
J'entends déjà tomber avec des chocs funèbres
Le bois retentissant sur le pavé des cours.



Tout l'hiver va rentrer dans mon être: colère,
Haine, frissons, horreur, labeur dur et forcé,
Et, comme le soleil dans son enfer polaire,
Mon cœur ne sera plus qu'un bloc rouge et glacé.



J'écoute en frémissant chaque bûche qui tombe
L'échafaud qu'on bâtit n'a pas d'écho plus sourd.
Mon esprit est pareil à la tour qui succombe
Sous les coups du bélier infatigable et lourd.



II me semble, bercé par ce choc monotone,
Qu'on cloue en grande hâte un cercueil quelque part.
Pour qui? - C'était hier l'été; voici l'automne !
Ce bruit mystérieux sonne comme un départ.



II 


J'aime de vos longs yeux la lumière verdâtre,
Douce beauté, mais tout aujourd'hui m'est amer,
Et rien, ni votre amour, ni le boudoir, ni l'âtre,
Ne me vaut le soleil rayonnant sur la mer.



Et pourtant aimez-moi, tendre cœur! soyez mère,
Même pour un ingrat, même pour un méchant ;
Amante ou sœur, soyez la douceur éphémère
D'un glorieux automne ou d'un soleil couchant.



Courte tâche! La tombe attend - elle est avide !
Ah! laissez-moi, mon front posé sur vos genoux,
Goûter, en regrettant l'été blanc et torride,
De l'arrière-saison le rayon jaune et doux !



Les Fleurs du mal - Spleen et Idéal



30 de setembro de 2013

Guarde seus manuscritos longe dos cachorros (Bel-CLIc nº 006 de 01/10/2013)

O conselho poderia ter sido dado a John Steinbeck, autor de Ratos e Homens. Parte importante de seu manuscrito foi literalmente comido por Toby, seu cachorro, em uma noite em que Steinbeck o deixou sozinho em casa. Em telefonema a seu agente o escritor disse: “Eu fiquei bem irritado, mas o pobrezinho deve ter feito isso em um momento crítico".



Se você conhece alguma curiosidade literária interessante, compartilhe com a gente escrevendo-a no campo "Comentários".

O que leem outros Clubes de Leitura? (Bel-CLIc nº 006 de 01/10/2013)

Abaixo a relação de livros lidos este ano pelo Clube da Travessa (7 de Setembro)

  • Flores Azuis: Carola Saavedra - 29/01/2013
  • O Professor do Desejo: Philip Roth - 26/2/2013
  • O Jantar Errado: Ismail Kadaré - 26/3/2013
  • Se um viajante numa noite de inverno: Italo Calvino - 30/04/2013
  • Uma solidão ruidosa: Bohumil Hrabal - 28/05/2013
  • Hotel mundo: 25/6/2013
  • Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra: Mia Couto - 30/07/2013
  • Alta Fidelidade: Nick Hornby – 27/08/2013
  • O amante do vulcão: Susan Sontag – 24/09/2013
Se você já leu algum destes livros, dê sua opinião no campo "comentários"

24 de setembro de 2013

Ah, você numa tarde em Itapuã...: Carlos Rosa Moreira


Itapuã Beach by Anna Brazão

           O calção de banho não era velho, foi presente seu, mas a conversa dos coqueiros era macia, lembra? Acho que não lembra, não é chegada a essas recordações, pensa que isso é nostalgia. Não é não, boba, sinto dor não, nem saudade; sinto felicidade por ter visto você naquela praia longa e deserta, numa tarde perdida de nossas vidas. Você caminhava pela areia seca e às vezes deixava as águas tépidas do mar de Itapuã molharem seus pés. Eu vigiava você com seu biquíni azul-marinho à procura de búzios na areia. Os mesmos búzios com os quais os babalorixás consultam seus deuses e que também enfeitavam seu biquíni. Todo homem deveria apreciar a amada vindo de longe, imersa em distrações, sem se perceber observada. Mas tem de ser a mulher amada, aquela amada pra valer, à qual dedicamos todos os tempos e espaços, pelo menos naquele instante da vida. Era assim que você vinha, com suas distrações, solta, livre, tornando-se para sempre uma doçura em minhas lembranças. Eu a olhava embevecido, orgulhoso por tê-la, cheio de intenções por sabê-la minha. Meu olhar a atraiu, você sorriu e eu vi seus dentes pequenos e perfeitos, e desejei que voltasse logo para perto de mim, para abraçá-la e sentir seus dentes em minha boca. À noite, em nossa casinha de pano, falávamos de amor enquanto ouvíamos os coqueiros dizerem coisas entre si, e eu cuidava de sua pele branca de carcamana que ardeu ao sol de Itapuã. Cedinho, você sempre dormia. Eu caminhava até a água, bem ali, a poucos passos da nossa casa. Recebia aquele afago morno das ondas mansas, depois me sentava na areia, diante do mar que inaugurava um verde novinho todas as manhãs. E me sentia um rei só por ter você, e, sem saber, por não ter passado. Tínhamos apenas o desconhecido. Você logo acordaria para viver junto comigo esse desconhecido, tão sem tamanho quanto o mar de Itapuã.

            Hoje, sou um homem feio, cheio de cicatrizes que desfiguram minha face. Aquela jovem de corpo perfeito e olhos brilhantes não olharia para mim. Tenho um passado e espero por algum futuro, mais um pouco pelo menos. Disseram-me que já não existem os serenos coqueirais nos longos espaços da praia de Itapuã. E a igrejinha da Praça Caymmi, referência naqueles tempos, é hoje humilde alegoria do passado. O desconhecido tornou-se conhecido. Mas isso não importa, também não ligo se me considera um nostálgico e não dê importância a essas lembranças. Saiba que ainda percebo o arrepio em nossa pele queimada pelo sol daquelas tardes, pois havia sempre um friozinho gostoso trazido pelo vento do mar. Do mar que Vinícius cantou e contou que se encontrava com o céu, onde até hoje meus olhos se esquecem, e se lembram de que a Terra toda rodava enquanto eu adormecia em seus braços, sob a Lua morena de Itapuã.

Carlos Rosa Moreira é autor de "A montanha, o mar, a cidade", 
livro debatido no clube de leitura Icaraí em 4/11/2011

À venda na Estante do Concierge:



(peça o seu volume ou a coletânea no campo de comentários ou pelo conciergeclic@gmail.com)

20 de setembro de 2013

Entrevista em dose dupla: Elenir Teixeira & Sonia Salim

Escritoras de várias antologias poéticas, Elenir e Sonia, ambas integrantes do Clic, nos brindaram com uma entrevista-desafio. As perguntas foram formuladas por elas próprias, sendo que a entrevistadora também tinha que responder à própria pergunta e à da colega. Vejam o resultado e deem continuidade à entrevista utilizando o campo “Comentários”.


 
                               Elenir Teixeira                                                            Sonia Salim

Que emoção você gostaria de despertar em um leitor de seus textos? 

Elenir: Que eu despertasse nele as mesmas emoções e sentimentos que me levaram a escrever. Se eu trouxer lembranças  de minha infância, que ele consiga, também, trazer as suas ao presente. Se houver carência e angústia no meu texto, que ele, igualmente, as sinta comigo. Se eu falar de amor, que ele se lembre dos amores vividos. Que ele sinta em seus cabelos a carícia da brisa, se ela afagar os meus no meu verso. Esta é a relação idealizada por mim entre  autor e  leitor.

Sonia: Quando eu escrevo, pretendo levar o leitor a uma cadência nas palavras fazendo com que ele entre nas emoções contidas no poema de maneira dançante, onde as letras e palavras brincam.



Como ou em quê, você se inspira para escrever seus poemas, haicais, trovas? 

Elenir:  Quando faço  Haicais, inspiro-me na natureza. As paisagens, as flores, os rios, o mar, as montanhas, me extasiam. Ando, sempre, com um caderninho e sob o efeito desse arrebatamento escrevo meu HAICAI.  Há textos que trazem aos meus olhos  lindas paisagens, descritas  com muita sensibilidade, como os da grande escritora Virgínia Woolf, inspirando-me um Haicai. Mas, algumas vezes, faço-os sentimentais. Como os dedicados à minha bisnetinha ao saber que estava a caminho. Quanto aos poemas e trovas, são, geralmente, inspirados na própria vida; no meu quotidiano; nas minhas memórias, nas minhas leituras.

Sonia: Às vezes me inspiro em conversas com amigos, outras em fotos ou imagens que vejo pelas redes sociais. Também me inspiro nas leituras diárias, alguns personagens tocam a minha alma  e impulsionam a imaginação. Sem contar dos momentos em que preciso sair correndo para escrever as palavras que fluem e já está pronto o poema, é só fazer pequenos acertos.



O que desencadeou ou concorreu para que você entrasse pelo caminho da poesia?

Elenir: Sempre gostei de poesia. Quando menina, gostava de recitar versos nas festinhas familiares e na escola. E, como todo jovem. rabiscava minhas poesias. Mas, se as palavras me eram apaixonantes, os números e as contas também me atraiam.  Assim, a vida me levou para esse lado. Trabalhei com cálculos e cifras por mais de quarenta anos. Ao aposentar-me, dediquei-me à antiga  paixão. Fiz várias Oficinas de Literatura, dinamizadas pelos grandes escritores e amigos Wanderlino T. Leite Netto e Lena de Jesus Ponte. Com ela, também, um Curso de Haicais, na Estação das Letras. Fiz o Curso de Arte de Dizer, "Via Látea", com Marly Prates. Dessa forma, novamente seduzida pela palavra, rendi-me de vez à poesia. 

Sonia: Eu já havia iniciado um blog, mas estava meio paralisado até que um dia eu fiz uma conta no Twitter e conheci muitos amigos. Meu primeiro poema "insensatez", surgiu em conversa com um deles, desse dia em diante fui registrando tudo que eu escrevia no blog que tornou-se mais e mais visitado. Então, eu diria que fui impulsionada para o mundo da poesia através da interação com as pessoas. 



Quais são seus autores preferidos? Nacionais e estrangeiros?

Elenir: São tantos que me é difícil relacioná-los. Vou fazê-lo por gêneros.
Poesia: Cecília Meirelles; Carlos Drummond de Andrade; Adélia Prado; Mário Quintana; Fernando Pessoa. Haicais: Luiz Antônio Pimentel e Lena de Jesus Ponte.
Contos e Crónicas: Clarice Lispector; Machado de Assis; Chico Lopes; Eduardo Galeano; Rubem Fonseca; Ondjaki; Rubem Braga...
Romances: Machado de Assis; Graciliano Ramos; Guimarães Rosa; Milton Hatoum; José Saramago; Mia Couto;  Camus, Dostoiévski...

SoniaEu caminhei pouco no mundo da literatura e penso que não dê para falar muito. Acho importante ser sincera porque os amigos ao tomarem conhecimento poderão ajudar nas indicações do que eu preciso ler, do que é imprescindível para o conhecimento. Deixarei alguns nomes, sem fazer distinção: Rubem Alves, Mario Sergio Cortella, Mario Vargas Llosa, Arthur Schopenhauer, Dostoiévski, Mia Couto, Eduardo Galeano.






18 de setembro de 2013

A miséria que alicerça o crime

A data do próximo encontro se aproxima, então vou deixar aqui algumas palavras sobre essa obra que é uma das melhores de um dos maiores escritores que o mundo já conheceu. Peço desculpas pelos parcos comentários sobre o livro, há bem mais o que dizer sobre ele do que o que direi agora, mas muito do que se pode dizer, já foi ou ainda será dito pelos membros do nosso clube e alguns críticos. Mas, depois de tantos “quês” e “ditos”, toda contribuição é válida quando se pretende valorizar um bom livro e conversar sobre ele. Então, vamos ao que interesse.

Angústia é um nome perfeito para o romance de Graciliano Ramos, tanto pela forma como vive e sente o mundo o protagonista, como por nós leitores que nos vemos angustiados, senão durante todo o livro, pelo menos durante grande parte dele, graças à narrativa de Luís Pereira da Silva e suas queixas e considerações sobre o mundo e as pessoas que o rodeiam e rodearam, condicionada na forma e estilo da poética de Graciliano Ramos.

Num fluxo de consciência e monólogo interior, o texto é contado a partir do fim, de cerca de trinta dias depois de Luís da Silva ter acordado dos delírios de febre que lhe acometeram após o dia em que assassinou Julião Tavares. Desde esse momento, através de um flashback, passamos a conhecer o passado do protagonista, sua vida na fazenda com seu pai, seu avô, mãe, caboclos, cangaceiros e pistoleiros que rendiam respeito ao seu avô, além de sua história recente com Marina e seus amigos, e, em pequenas digressões, determinados casos que viveu na sua terrível passagem pelo Rio de Janeiro, dentre outras lembranças periféricas.

O flashback a que me referi acima é, na verdade, uma soma de flashbacks coordenados, por assim dizer, em três grupos de memória, ou como nomina Silviano Santiago, três processos, sendo dois de rememoração e o último, um processo interno. Chamo de três grupos por entender que o terceiro também é memória. São eles: a lembrança do passado distante de Luís — sua vida no campo quando criança —, a lembrança mais recente — aquela de seu momento atual, referindo-se a sua vida pouco antes de conhecer Marina, por quem se apaixona, até o enforcamento de Julião —, e a derradeira, a qual se refere Silviano Santiago como processo interno, que "produz uma quantidade apreciável de casulos de redundância no tecido narrativo” (SANTIAGO, 2011, p. 344, grifos do autor). Santiago se refere às repetições que ocorrem durante o texto, com a aparição e sumiço repentino de certos elementos e passagens, o que para alguns críticos foi entendido como um defeito de pleonasmo, mas que na verdade é parte da forma e do estilo adotado para o livro que muito contribui para nos dar a sensação de ansiedade, bagunça mental e angústia por que passa o protagonista.

Todas essas lembranças, esse passado, pareciam fazer de Luís da Silva inferior, ou pelo menos sentir-se inferior, só — profundamente só —, e desiludido com a vida. Deduções a que podemos chegar através das declarações de Luís, sempre assombradas e feridas, e que, por sinal, vêm sobrepostas, entrelaçadas, com idas e vindas de uma história a outra, do passado ao presente, numa forma anacrônica; declarações que surgem atropelando-se e substituindo-se sem aviso de mudança temporal. As lembranças de ocorrências antigas invadem relatos de coisas recentes como para justificar ou complementar o sentido do que se diz agora; ou invadem simplesmente porque o pensamento de Luís é vago, desconexo, demonstrando pouca saúde mental — talvez devido a resquícios da febre pela qual passou, ou ainda, e mais provável, demonstra-se pouco saudável pela soma de acontecimentos que permearam sua vida, antiga e recente.

A soma desses passados, revividos na sua lembrança, incomoda Luís da Silva, funciona como combustível e fermento que se unem aos tormentos últimos e inflama a ferida já há muito aberta e recentemente agravada com a presença de figuras detestáveis aos seus olhos como o rico Julião Tavares, esnobe, metido a culto e literato, enganador de meninas pobres, mau-caráter e que, como se não bastasse, seduziu e lhe tomou a noiva. Além deste, o incomodam os vizinhos fofoqueiros, o trabalho e a sua desventurosa paixão por Marina, menina linda, sedutora, invejosa da riqueza, da suposta boa vida e bem-aventurança alheia, bem como sedenta por luxo e esbanjamento, apesar de ser filha de pais pobres e malfadados, atributos de Marina que a tornam nada confiável. Enfim, tudo engrossa o caldeirão de situações, piorando o estado de ânimo de Luís, que ainda perdeu com seu noivado todas as economias acumuladas sofregamente.

Talvez por Luís ter passado dias perdido em devaneios de febre, após o crime cometido, ele nos conta sua história como se turvado por sombras, como sonhos que ele mesmo parece não ter certeza se realmente aconteceram, ou se aconteceram como ele se lembra, segundo o próprio Luís da Silva deixa transparecer ainda no início do relato: “Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios” (RAMOS, 2011, p. 21).

As noites compridas a que se refere são as que começaram logo após cometer o crime, quando volta para casa e parece entrar numa espécie de transe, alvejado por lembranças confusas e disformes, surrealistas como os quadros de Salvador Dalí.

Febril, histórias se sobrepõem, imagens alucinadas invadem seus olhos suspendendo-o num mundo fantástico e terrível, possivelmente vitimado pela culpa do crime, à semelhança do célebre estudante de direito, Rodion Românovitch Raskólnikov, de Dostoiévski, em Crime e castigo (1866), quando esse comete o assassinato e sofre por ter que viver com a culpa e toda a carga moral e psicológica do ato, quase enlouquecendo, expondo ao leitor todas as cores do sofrimento que acarreta o sentimento de culpa sobre um homem.

E é também dessa forma que se alucina e sofre Luís da Silva, homem simples de origem, marcado em sua simplicidade no próprio sobrenome, comum, vulgar entre as famílias brasileiras, “um cidadão como os outros, um diminuto cidadão que vai para o trabalho maçador, um Luís da Silva qualquer” (p. 35), como ele mesmo se define; porém consciente do mundo em que vive e dos seus atos. Como Raskólnikov no livro do russo. Semelhança que não pode nos causar estranhamento.

Entre Graciliano Ramos e os russos, sobretudo Dostoiévski, alguns pontos convergem: o estilo seco, duro, de traços naturalistas, sem pedantismo de linguagem ou mesmo maneirismo com o fim de suscitar esperanças românticas, e um forte apelo psicológico como, especificamente, ocorre em Angústia, à semelhança dos romances do autor de Crime e Castigo (1866), O idiota (1869) e Irmãos Karamázov (1881) — parte da obra que foi objeto dos primeiros estudos de Freud sobre a psicologia humana, segundo este revelou, tamanha é a carga humana e psicológica dos personagens do russo. Assim, se Freud é o pai da psicanálise, Dostoiévski seria uma espécie de avô?

Mas nos atendo ao romance do Velho Graça, através dessa enxurrada psicológica que quase transborda pelos quatro cantos do texto, toda a vida de Luís parece ter sido uma maçada, um incômodo. Oprimido pela realidade social e por si mesmo, via o mundo distante como se não vivesse realmente nele por inteiro. Havia sempre entre ele e os outros uma distância, um fosso de desconfiança e ódio. Não se entregava, não confiava em ninguém, não era parte de nada verdadeiramente. Até mesmo sua paixão por Marina era desconfiada e se assemelhava à posse e paixão sexual, e não a amor.

Ouvindo os relatos de Luís — digo ouvindo e não lendo porque, dada a qualidade deles, na sua força expressiva, podemos ter a impressão de que ele está a nossa frente nos narrando tudo, como num depoimento policial —, mas enfim, ouvindo Luís percebemos vários traços de sua personalidade, como certo ar de demência ranzinza: um homem distante, frio muitas vezes, e com atitudes sovinas que iam além da necessidade de seu estado de pobreza, e das exigências descabidas de Marina, como quando, conversando com esta e sua mãe, d. Adélia, sobre o casamento, considera razoável dispensar até mesmo o véu da noiva, normalmente um sacrilégio para esta:

— Estávamos combinando, Marina. Quanto mais depressa melhor, foi o que eu disse a d. Adélia. Gente pobre não tem luxo.
— É preciso fazer as coisas com decência, opinou Marina.
— Claro. Mas com modéstia. Não é, d. Adélia? Dispensa-se o véu. Para quê véu? Eu por mim casava hoje (2011, p. 81-82, grifo nosso).

Além disso, essa pressa para casar, “Quanto mais depressa melhor” e “Eu por mim casava hoje” mostram o medo da perda, a necessidade de se ver logo tudo decidido, irremediável, definido entre ele e a noiva, buscando com isso evitar um novo malogro na sua vida, uma nova decepção e tristeza; o que não consegue evitar, como sabemos.

Contudo, outros traços de sua personalidade nos surgem, como seu complexo de inferioridade; mas um complexo, por assim dizer, que não o reduz a zero, o diminui, mas o colocando dentro da sociedade, com certo valor, porém um valor baixo, o que indica que sofre, no entanto, não está de todo ausente de esperança ou algum amor próprio. Diz ele: “Considerava-me um valor, valor miúdo, uma espécie de níquel social, mas enfim, valor” (p. 50).

Possivelmente se considerava miúdo porque, vindo do mato para a cidade grande, primeiro sofre no Rio de Janeiro, passa fome, depois em Maceió, vive essa vida subjugada pelos boçais como Julião Tavares e pelos trabalhos que realiza para sobreviver — funcionário público e redator de textos políticos tendenciosos em troca de dinheiro, uma espécie de ghost writer. Enfim, um homem que se encolhe, como faz no café: “A mesa a que me sento fica ao pé da vitrina dos cigarros. É um lugar incômodo: as pessoas que entram e as que saem empurram-me as pernas. [...] passo ali uma hora, encolhido junto à porta, distraindo-me” (2011, p. 35), e completa na página seguinte: “Uma criaturinha insignificante, um percevejo social, acanhado, encolhido para não ser empurrado pelos que entram e pelos que saem” (2011, p. 37).

Como uma das consequências, tudo isso o deixa mais distante do mundo. E essa distância é mais sentida quando nos deparamos com seu relato sobre a morte e o velório do pai, quando Luís tenta chorar, mas não consegue; o pai é outro, distante dele, não lhe comove realmente, portanto, ele nada sente. Sua distância é marcada pela ausência de sentimentos, de lágrimas pelo pai; na verdade, todo aquele clima incomoda-lhe:

Penso na morte do meu pai. [...] Fui sentar-me numa prensa de farinha que havia no fundo do nosso quintal. Tentei chorar, mas não tinha vontade de chorar. [...] Sentia frio e pena de mim mesmo. A casa era dos outros. Eu estava ali como um bichinho abandonado, encolhido na prensa que apodrecia (2011, p. 31).

E quando chorou, não foi pelo pai: “Na verdade chorava por causa da xícara de café de Rosenda, mas consegui enganar-me e evitei remorsos” (2011, p. 33). Rosenda havia acordado Luís com um café no dia do enterro.

Já sua desilusão com a vida era fruto de uma forma de determinismo:

Estudava-me ao espelho, via, por entre as linhas dos anúncios, os beiços franzidos, os dentes acavalados, os olhos sem brilho, a testa enrugada. Procurava os vestígios das duas raças infelizes. Foram elas que me tornaram a vida amarga e me fizeram rolar por este mundo, faminto, esmolambado e cheio de sonhos (2011, p. 164).

Referia-se, quando falava das duas raças, ao avô negro chicoteado pelo feitor há 200 anos e ao avô caboclo, emboscado pelos brancos. Mas ainda sobre o determinismo, Jean-Paul Sartre dizia que, “[...] qualquer que seja o nosso ser, é escolha; e depende de nós escolhermos como ‘ilustres’ e ‘nobres’, ou ‘inferiores’ e ‘humilhados’” (SARTRE, 2001, p. 581). Ao contrário disso, o protagonista de Graciliano Ramos se vê escolhido.

Assim vive Luís da Silva, tomado pelo passado e pela fúria com o presente opressor. Sua angústia é a de Kierkegaard, que alega que a angústia surge da impossibilidade de realização de algo. Há a possibilidade, mas esta não se transforma em algo real, não se executa, daí a angústia pelo nada, pois essa realidade existe apenas como possibilidade e não como realidade, feito o que acontece com Luís da Silva que quer um mundo novo, diferente da dor em que vive, mas isso não acontece, e esse não acontecer o angustia. A falta de uma família feliz, de um amor verdadeiro, de amigos verdadeiros, tudo se mostra como a irrealização da possibilidade, ficando apenas na realidade do seu espírito. Nas palavras de Kierkegaard:

[...] A realidade do espírito mostra-se continuamente como uma forma que atrai sua possibilidade, todavia ela desaparece, tão logo que essa a agarra; é um nada, que nada pode, a não ser, angustiar. Mais ela não pode, enquanto ela meramente se mostra (KIERKEGAARD, 1952, p. 39).

Essa é a realidade da liberdade como possibilidade para a possibilidade, ou seja, o indivíduo tem na angústia uma forma de liberdade, porém, cativa, liberdade que só existe na possibilidade, que vive na angústia, e a angústia é a liberdade presa ali:

[...] a possibilidade da liberdade não é poder escolher entre o bem e o mal. [...] A possibilidade é o poder. Num sistema lógico é bem cômodo dizer que a possibilidade transforma-se na realidade. Na realidade, isso não é assim tão fácil e precisa-se de uma determinação intermediária. Essa determinação intermediária é a angústia, que tampouco explica o salto qualitativo como o justifica eticamente. A angústia não é nenhuma determinação da necessidade, mas também nenhuma da liberdade, ela é uma liberdade cativa, onde a liberdade em si mesma não é livre, mas sim cativa, não na necessidade, mas sim em si mesma (KIERKEGAARD, 1952, p. 47-48).

Aqui Luís da Silva aproxima-se ainda mais de Kierkegaard, essa angústia provoca uma ação, um salto para um novo estágio; estágio que, em Luís da Silva o leva ao assassinato, como uma busca pela liberdade de tudo o que o aflige. E na tentativa de realizar essa liberdade que, como eu disse, está apenas na possibilidade, presa na angústia, ele percebe que, após a morte, a liberdade seria impossível; daí vem a culpa, das consequências da ação que a angústia o levou a cometer.

A angústia para Kierkegaard permite que o homem descubra a diferença entre o bem e o mal; contudo, esse conhecimento também o angustia, pois percebe que não pode ser livre porque vive numa realidade de pecado. Dessa forma, a angústia é inerente ao homem, ela nos proporciona saltos, evoluções, faz-nos procurar ir adiante, e nos acompanha a vida inteira.

Outro ponto onde a angústia de Kierkegaard encontra a do protagonista de Graciliano Ramos é quando o filósofo afirma que não é possível angustiar-se do passado. E aí vocês me perguntam: mas no livro do Velho Graça não é também o passado que angustia o anti-herói? Sim, é. Por isso Kierkegaard diz que não é possível angustiar-se do passado, a não ser que haja uma relação de futuro com o indivíduo, ou seja, o que ocorreu no passado tem, no sentimento de culpa por ele, ou simplesmente na crença do indivíduo, a possibilidade de se repetir:

O passado, do qual eu devo me angustiar, precisa estar numa relação de possibilidade comigo. Se me angustio de uma desgraça passada, então, neste caso, não é que ela é passada, mas sim que ela pode, neste caso, se repetir, i. é, tornar-se futura. [...] Se ela é mesmo [realmente] passada, então não posso me angustiar, mas somente me arrepender. Se eu não o faço, então eu me permiti antes fazer minha relação com ela dialética, mas com isso, a infração se tornou ela mesma uma possibilidade e não algo passado. Se me angustio diante do castigo, então este é posto somente, tão logo, numa relação dialética com a infração (caso contrário, carrego meu castigo) e, então, eu me angustio diante da possibilidade e diante do futuro (KIERKEGAARD, 1952, p. 93).

E assim é Luís da Silva, constantemente relembrando o passado, a solidão, a tristeza, os dias de miséria, a falta de amor familiar e sua inadaptação ao mundo, fatos que ele teme se repetirem indefinidamente no futuro. O medo desse futuro ser um eterno moto-contínuo, a se repetir como um feitiço do tempo, quando os dias renascem iguais e a vítima desses dias revive tudo outra vez do mesmo jeito, provoca sua angústia. Daí, nesse sentido, o passado angustia e Luís da Silva encontra Kierkegaard.

Mas a angústia desse Silva também é a de Heidegger,

A angústia se angustia pelo próprio ser-no-mundo. [...]. O mundo não é mais capaz de oferecer alguma coisa nem sequer a co-presença dos outros. A angústia retira, pois, do ser-aí a possibilidade de, na decadência, compreender a si mesmo a partir do mundo e na interpretação pública (1986, §40, p.254).

A angústia do anti-herói de Graciliano Ramos é fruto do embate com a realidade, da sua presença nela, da sua existência em um mundo que não pode oferecer-lhe nada, ou pelo menos o que ele almeja. O ser-no-mundo de Heidegger, em Luís da Silva é a falta de compreensão com o outro, do seu papel, ou o que julgaria merecer, é a incompreensão da injustiça que julga sofrer. Angustia-se por não se realizar como ser-aí, que não vai a lugar nenhum.

Mas deixando a filosofia de lado e nos dirigido ao texto como estrutura, como construção. Para alcançar todo esse campo magnético de sombra e angústia, Graciliano Ramos não fez uso apenas de conhecimentos filosóficos, ou mesmo de suas próprias concepções do terror humano; uma boa dose de preocupação estilística foi usada em metáforas, em termos pesados, em declarações sufocantes, repetições que soam como redundâncias para alguns, mas que na verdade são formas de alcançar uma expressão que dê ao texto e, sobretudo à figura do anti-herói, a densidade necessária para ele ser quem é e para dar aos leitores a verossimilhança exigida que nos fará acreditar na história e no estado de ânimo de Luís, assim como no mundo existente no livro.

Alguns exemplos deixam clara essa intenção de intensificar o sentido do texto, como quando Luís da Silva está num bonde e este segue cruzando a cidade. Observando o tempo lá fora ele vê “os focos de iluminação pública, espaçados. Cochilando, piongos, tão piongos como luzes de cemitério” (2011, p. 26). Observação que dá vida a esses postes, na sua visão interior; vida bastante para cochilarem melancólicos (piongos), de uma tristeza tão profunda que se assemelham a “luzes de cemitério” — expressão que, assim como “cochilando” e “piongos”, remetem-nos à tristeza, a pesar; sensações presentes no ânimo de Luís, e imagens difíceis de serem lidas sem nos submeter à densidade do estado de espírito do personagem e do mundo segundo seus olhos.

Densidade que também recai sobre a chuva que envolvia Luís nos seus dias de inverno na serra: “Nos meses compridos daqueles invernos de serra muitas vezes fiquei tardes inteiras sentado à porta da nossa casa na vila, olhando a rua que desaparecia debaixo de um lençol branco de água em pó” (2011, p. 28, grifo meu). A cena traz solidão e desolação, vendo a rua sumir no véu da chuva, chuva que Luís descreve como “lençol branco de água em pó”. A densidade está na água que se assemelha a pó, embota a visão, turva, encobre e pesa. A água é quase sólida, é pó, e representa a vida de Luís, assombrada, sem limpidez. Por isso, seus olhos tristes já sofrem tendenciosos quanto a tudo o que presencia. Cada visão é distorcida para a sua dor da existência. No seu modo de ver, nada é claro e puro, nem mesmo a água que cai do céu.

Em outro momento, Luís da Silva nos descreve sua visão sobre si mesmo; um ponto de vista depreciativo e bastante significativo para que entendamos como ele mesmo se via e como queria que nós o víssemos, numa espécie de tentativa de nos causar empatia reversa, ou contraditória, como se buscasse nos impingir repulsa pelo seu estado miserável e pelo estado do mundo que o cerca, mas também nos causar pena, dó e sentimento de afeição e piedade pelo que ele tem se tornado. Seu mundo e sua vida claustrofóbica pela empatia, desejada ou imposta, causa-nos também claustrofobia. Acompanhamos sua história sempre com a sensação de que as paredes se fecham sobre nós, e a imagem de Luís pode nos dar pena ou repulsa. Enfim, diz ele sobre si: “Não sou o que era naquele tempo [da infância]. Falta-me tranquilidade, falta-me inocência, estou feito um molambo que a cidade puiu demais e sujou” (2011, p. 34, grifo meu). A cidade não o salvou do passado, ela potencializou seu estado de miséria.

Usei essas passagens, todas ainda do começo do texto, para mostrar que o narrador/personagem nos quer fazer entender sua condição desde o início do seu relato. Seu flashback vai gradualmente, e por intermédio de imagens fortes e histórias tensas de solidão e angústia, apresentando-nos seu mundo e o que construiu, o que pavimentou o caminho até este desembocar no assassinato.

Em suma, a vida de Luís da Silva é miserável como tudo o que ele descreve. O mundo parece acabar-se aos poucos, perder o sentido — se é que já teve um algum dia —, a depravação domina o mundo e a natureza de todos — menos a dele que, apesar de se esfregar com Marina no quintal, não se identifica como um depravado também, apenas como um infortunado miserável vítima das circunstâncias de sua vida passada e presente. Enquanto isso, a sombra que lhe embaçou os delírios na febre é a sombra que lhe embaçou toda a vida, mantendo-o sempre longe e distante da vida pulsante, deixando-lhe na eterna modorra, quebrada apenas pela agitação mental do romance com Marina e pelo crime que vem a cometer, em parte por ela, mas ainda mais por vingança contra toda a miséria que o subjugou, contra todos os folgados e inúteis Julião Tavares que lhe cruzaram o caminho, tomando seu lugar, empurrando-o para a mesa do canto do café.




BIBLIOGRAFIA

KIERKEGAARD, Søren A. Der Begriff Angst, Vorworte. Düsseldorf: Eugen Diederichs Verlag, 1952. [Trad. Iuri Andréas Reblin. In: Revista Eletrônica do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Protestantismo (NEPP) da Escola Superior de Teologia Volume 16, mai.-ago. de 2008]

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Trad. Márcia de Sá Cavalcanti Schuback. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2011. Edição comemorativa.

SANTIAGO. Silviano. “Posfácio”. In: RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2011. Edição comemorativa.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. Trad. Paulo Perdigão. Petrópolis: Ed. Vozes, 2001.