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O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

6 de fevereiro de 2018

Conto de Carnaval 2018






Os confetes,  como uma chuva de alegria, iam displicentemente  nos envolvendo. Eu, muito tímida,  me escondia atrás  das serpentinas  coloridas. Foi, então, que um Pierrot de olhos verdes me notou ali meio escondida. Deu um sorriso e me chamou para dançar... Estava dançando bem animada,  quando reparei... Um moreno de olhos negros profundos, um pirata me observava. Vagamente lembrei de sua fisionomia... pra ser sincera,  o reconhecimento foi imediato. Era o atrevido da Amaral Peixoto. O mesmo que me levantara um fio de cabelo, arrepiando-me a nuca.. O ar de libertação escondido por trás da máscara me contagiou. Embalada em um ritmo viciante, dancei e cantei ao luar. Quando dei por mim, as horas passaram voando, mas… a festa apenas começara e eu já estava dividida entre o Pierrot de olhos verdes e o pirata de olhos negros profundos, um autêntico Arlequin daqueles que só aparecem para nos azarar, e como sabem mexer com a gente esses danados! Contudo a minha exaltação durou pouco!  O Pierrot tinha a sua Colombina, e não era eu!  A dama com o vestido esvoaçante colorido aproximou-se no meio da multidão e enlaçou-se no pescoço do Pierrot! Mas,ao me encaminhar, muito animada, em direção daqueles estonteantes olhos... Mesmo sabendo que piratas são saqueadores e infiéis e que a fantasia revela muito mais do que apenas a folia do Carnaval: viva a alegria que vira cinzas no final! Ainda assim, antes das cinzas, o fogo da emoção e do encantamento está aceso prevendo aventuras por entre serpentinas e confetes. Corri para meu pirata saqueador tentando esquecer o lindo olhar esmeralda do Pierrot. Dançávamos rodopiando pelo salão, eu e meu pirata, mas às vezes esbarrávamos  noutro par de enamorados e fortuitamente meus olhos procuravam os do Pierrot, que dissimulava não perceber... Aqueles olhos... Onde eu já vira aqueles olhos cor de esmeralda? Não eram olhos passíveis de esquecimento, entretanto, diariamente cruzava  com pessoas: professores, alunos, funcionários da universidade. Pessoa que iam e vinham em minha rotina  caótica de trabalho. Esqueci-os então. Pensei em mim flutuando no salão, na noite que passava como uma brincadeira excitante, nos meus desejos tão romanescos. Segura de mim, senti que nada mais importava além da minha alegria de carnaval. Então, abri meus olhos e percebi... Essa mulher toda dourada, que surgiu do nada, para meu sonho acordar. Por um instante me senti covarde, mas, num rompante de coragem, continuei a rodopiar pelo salão. Meus olhos procurando meu pirata marrom, alto, forte e sedutor. Quando percebi, ele estava na minha frente, com seus olhos negros profundos , penetrantes, desvendando meus segredos... Deslizando pelo salão como uma serpente com seu chocalho de paetês e lantejoulas, como num passe de mágica, surgiu uma piriguete arrastando os olhares de todos a sua volta, inclusive de meus dois cortesãos, irresistivelmente, uma aventureira desestabilizando minha frágil segurança recém conquistada. Era certamente uma provação, que me fez lembrar de um outro momento da minha vida que sempre voltava à baila nas situações de fortes emoções. É a vida nos confrontando em todos os momentos. A segurança e a alegria, o encantamento e a leveza de alma não resistiram e os pensamentos começaram a ofuscar o brilho dos meus olhos. Por questão de segundos um desmaio teria jogado o meu corpo ao chão. Eu resisti, firmei as pernas com todas as minhas forças e consegui afugentar para bem longe a nuvem negra que queria sequestrar meus momentos felizes. Eram sombras de outros carnavais, momentos de tristeza e traição.

Autores: Vera, Andreia, Eloisa, Elena, Evandro, Adriana, Mariney, Hilda, Foucault, Sol e Sônia. 


3 comentários:

  1. É para todos participarem! O conto ainda não está terminado! Estou adorando!

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  2. Deslizando pelo salão como uma serpente com seu chocalho de paetês e lantejoulas, como num passe de mágica, surgiu uma piriguete arrastando os olhares de todos a sua volta, inclusive de meus dois cortesãos, irresistivelmente, uma aventureira desestabilizando minha frágil segurança recém conquistada. Era certamente uma provação, que me fez lembrar de um outro momento da minha vida que sempre voltava à baila nas situações de fortes emoções.

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  3. É a vida nos confrontando em todos os momentos. A segurança e a alegria, o encantamento e a leveza de alma não resistiram e os pensamentos começaram a ofuscar o brilho dos meus olhos. Por questão de segundos um desmaio teria jogado o meu corpo ao chão. Eu resisti, firmei as pernas com todas as minhas forças e consegui afugentar para bem longe a nuvem negra que queria sequestrar meus momentos felizes. Eram sombras de outros carnavais, momentos de tristeza e traição.

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