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O Clube de leituras não obrigatórias

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19 de agosto de 2017

Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa


video



17/08/2017
19:00h

Varanda do Teatro da UFF







“Diadorim levantou o braço, bateu mão. Eu ia estugar, esporeei, queria um meio-galope, para logo alcançar os dois. Mas, aí, meu cavalo f’losofou: refugou baixo e refugou alto, se puxando para a beira da mão esquerda da estrada, por pouco não deu comigo no chão. E o que era que estava assombrando o animal, era uma folha seca esvoaçada, que sobre se viu quase nos olhos e nas orêlhas dele. Do vento. Do vento que  vinha, rodopiado. Redemoinho: o senhor sabe – a briga de ventos. O quando um esbarra com o outro, e se enrolam, o dôido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no alto, o ponto às voltas, folharada, e ramarêdo quebrado, no estalar de pios assovios, se torcendo turvo,
esgarabulhando. Senti meu cavalo como meu corpo. Aquilo passou, embora, o ró-ró. A gente dava graças a Deus. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam lá adiante, por me esperar chegar. – “Redemunho!” – o Caçanje falou, esconjurando. – “Vento que enviesa, que vinga da banda do mar…” – Diadorim disse. Mas o Caçanje não entendia que fosse: redemunho era d’Ele – do diabo. O demônio se vertia ali, dentro viajava. Estive dando risada. O demo! Digo ao senhor. Na hora, não ri? Pensei. O que pensei: o diabo, na rua, no meio do redemunho…Acho o mais terrível da minha vida, ditado nessas palavras, que o senhor não deve nunca de renovar. Mas, me escute. A gente vamos chegar lá. E até o Caçanje e o Diadorim se riram também. Aí, tocamos.” (p.262)





NONADA!

O alemão Berthold Zilly foi o tradutor da última versão de Grande Sertão para o alemão. Quando estava em processo de tradução, o "Jornal Cândido", da Biblioteca Pública do Paraná, publicou uma entrevista com ele, que já havia traduzido para o alemão "Lavoura Arcaica", Os sertões e "O triste fim de Policarpo Quaresma. Deixo aqui a pergunta sobre a questão da palavra "nonada": 

- A primeira palavra de Grande sertão: veredas é “nonada”, um termo que tem um significado enigmático na boca de Riobaldo. O senhor poderia explicar como verterá ao alemão esse tipo de palavra, que, ao longo das mais de seiscentas páginas do livro, se prolifera?


- “Nonada” realmente é uma palavra-chave, com seis ocorrências no total em Grande sertão: veredas, a primeira abrindo o romance e a última, de certa maneira, fechando-o, já que ocorre na penúltima linha da última página. Esta palavra constitui, além disso, o antônimo ao último sinal gráfico do livro, que é o símbolo do infinito. Assim, o movimento da trama e das ideias de certa maneira vai do quase nada ao infinito. Assim como muitas outras palavras e frases do livro, esta é por um lado coloquial e quase banal, tão banal quanto o sentido dela, ou seja: “coisa sem importância, um quase nada”, sendo por outro lado palavra estranha, rara, enigmática, principalmente no início, sendo esclarecida depois, parcialmente, pelo contexto. Esta tensão entre o corriqueiro, o popular, o cotidiano por um lado e o estranho, o enigmático, o hermético, por outro lado, é também uma característica do romance todo. Aliás, diferentemente de muitas outras palavras do livro, esta não é um neologismo rosiano, pois é uma palavra popular e meio antiquada, caída em desuso hoje, que se encontra em vários autores do século XIX e do início do século XX, inclusive em Os sertões, de Euclides da Cunha. Como vou traduzi-la? Ainda não sei, estou procurando uma expressão mais ou menos equivalente que também seja curta e concisa, popular, meio datada, e que tenha, no plano sonoro, pelo menos um elemento repetitivo, já que “nonada” tem até dois fonemas repetidos, o “n” e o “a”. Infelizmente, em alemão não temos uma palavra equivalente em termos semânticos, estilísticos e fonéticos, diferentemente do italiano, que tem “nonnulla”, ou o francês, que tem “que nenni”, e também não posso fazer o que fizeram os tradutores para o espanhol, que simplesmente mantêm “nonada”, que é neologismo em espanhol, mas que funciona nesse idioma, já que tem aí uma qualidade auto-explicativa. Em quatro das seis ocorrências, a palavra “nonada” constitui uma frase, o que não facilita a tarefa do tradutor. Estou cogitando diversas soluções, mas nenhuma me agrada muito. Antes de tomar uma decisão sobre a tradução desta palavra introdutória do livro todo, tenho que ver como os possíveis equivalentes funcionam nas outras cinco ocorrências de “nonada”. Pois quando a gente traduz uma palavra-chave com várias ocorrências, a gente deve tentar manter essa isotopia, ou seja, a igualdade do meio expressivo em todas as suas ocorrências, para que ele possa ser identificado pelo leitor do texto-alvo como elemento estruturador e orientador, função que tem no texto de partida e que o tradutor precisa respeitar. Em outras palavras: é desejável traduzir “nonada”, nas suas seis ocorrências, sempre de modo idêntico.





Viver - não é? - é negócio muito perigoso!




2 comentários:

  1. Um dos livros desta minha vida.

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  2. Olá amigas e amigos do providencial e agradável Clube de Leitura Icaraí, aposto que vocês irão gostar do vídeo abaixo. Curtinho (cinco minutos) e substancial. Parabéns pra YUDITH ROSENBAUM e pra Casa do Saber idem.

    https://www.youtube.com/watch?v=MNASGOrgG5c

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