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3 de maio de 2017

Ingrid Jonker, uma emocionante poetisa africana

Dia desses, uma grata surpresa: em um dos canais da TV por assinatura, assisti à "Borboleta negra", um filme sobre a vida de Ingrid Jonker, poetisa africana. Eu não a conhecia e fiquei realmente encantada com sua produção.

Na cena para mim mais marcante do filme, ela e seu amante estão seguindo de carro quando um bloqueio popular, uma manifestação pelo fim do apartheid, os impede. Os soldados, sem conseguir reprimir a multidão, começam a atirar e uma das balas mata  -como poderia ser diferente? -, uma inocente criança. Ingrid fez o poema abaixo, que anos depois foi lido por Nelson Mandela durante a abertura do primeiro parlamento democrático, em maio de 1994.

Seu fim foi trágico, como o de tantos talentosos artistas. Após ter sido internada em manicômios por duas vezes, ela se suicida atirando-se ao mar. Nunca conseguiu o reconhecimento do pai, um escritor direitista fdp que trabalhava para a censura. Ao saber de sua morte, ele declarou: "They can throw her back in the sea for all I care."




A criança não está morta!
Ela levanta os punhos junto à sua mãe.
Quem grita África ! brada o anseio da liberdade e da estepe,
dos corações entre cordões de isolamento.
A criança levanta os punhos junto ao seu pai.
Na marcha das gerações.
Quem grita África! brada o anseio da justiça e do sangue,
nas ruas, com o orgulho em prontidão para luta.
A criança não está morta!
Não em Langa, nem em Nyanga
Não em Orlando, nem em Sharpeville
Nem na delegacia de polícia em Filipos,
Onde jaz com uma bala no cérebro.
A criança é a sombra escura dos soldados
em prontidão com fuzis sarracenos e cassetetes
A criança está presente em todas as assembleias e tribunais
Surge aos pares, nas janelas das casas e nos corações das mães
Aquela criança, que só queria brincar sob o sol de Nyanga, está em toda parte!
Tornou-se um homem que marcha por toda a África
O filho crescido, um gigante que atravessa o mundo
Sem dar um só passo.
***

Em homenagem à Ingrid, fiz o poema abaixo:


Desmedida intensidade
adoeço no teu excesso
mas só por ele me escrevo
mais que isso: subscrevo-me
escavo, deixo à mostra
todos os buracos
que a hipocrisia não cobriu:
nunca, se me mato
ainda, se enlouqueço
já enlouqueci?

18 comentários:

  1. Rita..Primeiro obrigada por me apresentar àobra de Ingridt Jonker.....
    Mas seu poema é um dos mais belos que li...profundo..que capacidade e sensibilidade vc tem..escreva mais
    publique mais livros...precisamos de vc..vou copiar e guardar .... Abs Ceci

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  2. Ceci, muito obrigada. Vc é uma de minhas grandes incentivadoras. Grande beijo.

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  3. Também adorei e a cada dia me surpreendo com a intensidade da Rita que eu vou conhecendo aos poucos. Rita é cheia de boas surpresas. Adorei conhecer Um pouco sobre Ingridt Jonker e seu poema é ótimo Rita, parabéns.

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    1. Valeu, Rose, vc sempre dando força. Eu tb vou tentando me conhecer mais, acho que a vida é muito essa busca. Beijos.

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  4. Dois belíssimos poemas. Parabéns! Sensibilidade, compromisso, profundidade.
    Se há alguma coisa essencial no mundo, é sem dúvida a poesia.
    Só a poesia dá de comer aos que têm fome de justiça naquele momento em que a realidade teima em dizer morto aquilo que a poesia, só ela, sabe que não.
    Só a poesia pode embalar os sonhos, as lágrimas e as crianças atingidas pela imbecilidade humana. Ao mesmo tempo, nos mesmos braços, com o mesmo acalanto.
    Só a poesia responde ao ódio com a fúria do amor.
    Parabéns poeta Rita Magnago. Você fez com a Ingrid Jonker uma bela homenagem à poesia e à justiça.

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    1. Ter contato com a obra da Ingrid Jonker mexeu comigo. Vira e mexe me lembro das cenas no quarto dela, as paredes cravadas de versos, a personalidade angustiada e desconcertante mas lutadora, gostaria de tê-la conhecido. Sua poesia, porém, fez essa ponte. Que bom que vc tb gostou, Novaes. Obrigada pelo carinho.

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  5. Rita
    Jogo doloroso e dilacerante, esse, o da escrita poética, que tu administras cada vez mais com maestria.
    Heroínas da negatividade moderna que dão conta do esfacelamento de si e da incomunicabilidade acerca do desespero da existência. Verbo negro triste e fulgurante aquele que usas para mostrar a caoticidade e o absurdo do real.
    Clareza que ofusca, a tua forma de interrogar o nosso mundo de avassaladoras contradições e perplexidades.
    Um efeito de perturbação que não é apenas de superfície, a leitura que o teu poema revela.
    Salve!
    dília

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    1. Dília, querida, sem palavras para responder. Seu texto é pura poesia e você extremamente benevolente comigo. Obrigada, amiga.

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  6. Rita, adoro essa forma que você tem de transpor seus sentimentos com relação a um livro ou um filme por meio da poesia. Seu poema é maravilhoso, acho que Ingrid gostaria de também ter te conhecido. É uma grande verdade que muitas pessoas se perdem na intensidade de seus próprios sentimentos, mas essas pessoas são mais reais.

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  7. Acabo de ver o filme Borboletas Negras. Gostei do filme e dos seus comentários e o poema, Valeu!

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  8. O último verso do poema de Jonker (no original em africâner , "Sonder 'n pas" ; na tradução em inglês "without a pass") não quer dizer "sem dar um único passo" como na tradução em português acima, mas sim "sem um passe" , onde "passes" eram documentos que os negros tinham que carregar consigo na época do apartheid para poderem circular legalmente pelas "zonas brancas". No filme, os negros estão justamente queimando seus "passes" em frente da delegacia em sinal de protesto quando o soldado atira na criança.

    A propósito, "passo" (dado com o pé) em inglês é "step" e, em africâner ("holandês da África do Sul" e língua materna de Ingrid), é "stap" (como no holandês europeu, aliás).

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  9. Rita, só hoje, revendo meus e-mails, li sua matéria e seu poema.
    LINDÌSSIMO !
    Que força sua poesia tem!
    Parabéns, estamos esperando seu novo livro.
    Beijos ternos,
    Vera.

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    1. Puxa, Vera, muito obrigada. Esse ano vai ter livro novo sim. Muitos beijos.

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  10. Terminei de ver o filme Borboletas Negras sobre a poetisa Ingrid Jonker, desafeta do pai. Pessoa especial, linda, com transtorno depressivo, não sendo entendida em suas crises- episódios. No comentário da Rita aparece o poema lido por
    Mandella em 1994 e também um "resposta" de Rita no poema de Rita.

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  11. Pelo que entendi no filme, um detalhe muito importante não tem sido mencionado nas análises deste: Seu pai foi responsável por sua morte ao autorizar os eletrochoques em sua última internação que resultaram na sua impossibilidade de voltar a escrever e como consequência, seu suicídio.

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  12. Oi Rita, parabéns pela sua postagem e pelo belo poema que fizeste. Saiba que está realmente é a unica tradução para português de algum poema dela. Também descobri o filme ao acaso zapeando na TV a cabo, eu o assisti ontem 22/09/16 no canal Art1. O filme em si é mediano, ele se torna interessante pela beleza e intensidade da história de vida de Ingrid Jonker e pela excelente interpretação da atriz holandesa Carice van Houten, que a interpreta no filme. Também se torna importante, porque dificilmente nós brasileiros teríamos acesso a obra desta poetisa, ou sequer conhecimento de sua existência pela simples ausência de publicações em português de seus poemas e pelas raras abordagens sobre a Africa do Sul pela nossa mídia. Francisco - email gauchobah@yahoo.com.br

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  13. Muito bom o filme. A poesia é linda. Valorizo muito o esforço da tradução, mas gentilmente acredito terem havido algumas pequenas imprecisões. Who pode ser "que" quando relativo a alguém; peer é assomar, emergir ou perscrutar. seja como for, manteve-se a clareza, a beleza e o sentido da poesia. Parabéns!

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    1. Obrigada, eu não traduzi, apenas reproduzi uma tradução que encontrei disponível na internet e de que gostei. Quem sabe você nos brinda com uma mais acurada? Já o segundo poema foi feito por mim. Abraços

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