CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

29 de abril de 2017

Vermelho Amargo: Bartolomeu Campos de Queirós



"A mãe partiu cedo — manhã seca e fria de maio — sem levar o amor que diziam eu ter por ela. Daí, veio me sobrar amor e sem ter a quem amar. Nas manhãs de maio o ar é frio e seco, assim como retruca o coração nos abandonos. Ela viajou indignada, por não ser consultada. Evadiu-se, sem suplicar um socorro. Nem murmurou um “com licença” — eu confirmo — para adentrar em outra vida, como nos era recomendado. Já não cantava, sobrevivia isenta, respirando o medo pelo desconhecido. A mão da morte soterrou até sua sombra. Foi um adeus inteiro, definitivo, rigoroso, sem escutar nosso pesar. Eu pronunciava, seguidamente, a palavra amor, amor, sem ter a presença amada."






O tempo ancora no corpo da gente!

Toda memória é fantasiosa!

O que não foi esquecido merece ser repensado...

Sempre que a gente escuta o silêncio, a poesia se manifesta!

 ...A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas capaz de envenenar a todos. Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência. Com a saudade evaporando pelos olhos, eu insistia em justificar a economia que administrava seus gestos. Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro como se degolasse um de nós. 

"Eu suspeitava que o embaraço das letras amarrava segredos
que só o coração decifra. Mas uma certeza me vigiava: ler
era meu único sonho viável."

(Lilian)




VERMELHO DE PAIXÃO

O tomate diário
em finas fatias
indicava o quanto de fome
ali havia.

O vermelho alcoólatra,
cor da vergonha,
instigava a criança:
vai, garoto, sonha!

A família, a madrasta,
a faca e a fome
que diminui sua presença
a cada filho que some.

Há mais tomate no prato
a cada um que se vai,
mas o amor pela mãe, este
nunca se esvai.

(novaes/)


DOR

Ficou no peito um tipo de amargor

Talvez pelo grito contido da dor
A cada dia denunciado no olhar
Não sei, mas chorei sem lágrimas
Acho que o tempo frio e seco
Impediu que desprendessem
Há sentimentos, mas calados

De um amor assim isolado
Que mudo vive sufocado
Surgindo em prosa e verso
Solitário, contundente, cruel
Ensurdecedor

Sonia Salim




Janeiro... Vermelho Amargo,
seja lá isso o que for!
Quem sabe um sorriso largo
adoce o beijo... e a cor? 

(I)




O que há dentro de mim,
e dentro de mim esqueço,
sou eu, vestindo em carmim,
esse eu... que desconheço. 

( I )


"Impossível adivinhar, ao certo, ...

Nascer é entrar em um trem,
sem se saber o destino.
Sem bilhete de viagem
e uma só baldeação.
(Elenir)



No vermelho do tomate
a degola diária do desamor
no cheiro desinfetante do ar
a omissão do sentimento
que eu não conhecia
fantasia de esperança
teimando em vestir-me
daquilo que me era maior
e não cabia.
Rubro espelho
onde não me reconhecia
memórias de aromas e amoras
furtadas em alheia menina dos olhos
quero ser o livro
quero ter o sonho
quero tecer rendas
em bifes espancados
e cheirar alecrim
sentir a comida leve
como os passos do gato
.



"Oh, anda, desanda a roda
deixa a roda desandar...
Evandro, vermelho é moda
com ele vamos trovar...

(Ilnéa)


Vermelho amargo, acridoce...
eu soube dentro de mim,
que o que era doce… acabou-se:

nunca mais amei assim. 

(I, 19/11/2012)


Preencher um dia é demasiado penoso se não me ocupo das mentiras.

Ser gente Vermelho Amargo,
ser gente triste ou contente,

é gente que "joga largo",

tantinho, assim... diferente!



(I... "gorinha")


5 comentários:

  1. Lindas imagens, através delas lembrei-me do filme "A lista de Schindler". Tem uma cena toda em PB em que aparece uma menininha de vermelho. Com Bartolomeu, o tomate para mim tornou-se inesquecível.

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  2. Fico maravilhada com as postagens que vcs colocam sobre os livros..um primor!
    vermelho...lembrei-me do filme da Trilogia do Kieslowski(cineasta polones),o filme A Fraternidade é vermelha.
    Ceci

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Poetas do Clube, maravilhei-me com todos.Vermelhos dentro de mim, tomates a se recompor.
    Beijos.
    Elô

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  5. Eu terminei a leitura e também achei maravilhoso o livro.
    Até arrisquei uns rabiscos poéticos acerca da dor.
    Abraços!
    Sonia

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