CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

12 de fevereiro de 2017

Um ouriço

Em 27 de março de 2009, o clube de leitura se reuniu para discutir “A Elegância do Ouriço”, da francesa Muriel Barbery. As trocas de mensagens tiveram como assinatura o entusiasmo contagiante dos participantes do clube.

A estória contada em “A Elegância do Ouriço” gira em torno de Renée, mulher de meia-idade que trabalha como concierge (zeladora) de um luxuoso prédio num elegante bairro parisiense, e de Paloma Josse, uma adolescente rica de 12 anos. Ambas, Renée e Paloma, cada qual por razões próprias, vivem vidas reclusas, isoladas, como ouriços. Renée teme seguir o destino dos marginalizados (pobre, sem beleza nem charme) e, numa mistura de auto-proteção e conformismo por pensar não ser possível mudar o destino, vive uma vida clandestina, que é seu alento. Por trás de uma aparência ranzinza e desconfiada, protege um espaço interior, cheio de cultura e requinte, de devoção à arte e à literatura. Já Paloma, uma esperta mocinha de personalidade rica e autêntica, mostra-se sempre calada e pensativa, e dedica seu tempo à duas séries de anotações: pensamentos profundos e o diário do movimento do mundo. “Vidas atrás de espelhos” é o emblema dos personagens principais e do universo no qual vivem. Porém, a vida de ambas muda com a chegada de um novo morador ao prédio, o rico e misterioso Kakuro Ozu. Kakuro consegue ultrapassar a barreira do espelho e enxergar, mais do que a si mesmo, mas às pessoas que existem em Paloma e Renée. Kakuro é chamado um “estranho no ninho”: “...uma pessoa de fora, que não precisa nem saber, nem se limitar às regras sociais estabelecidas, ele consegue estender sua amizade às duas mulheres ... quebrando as rígidas convenções sociais dentro do condomínio.” Além de alusão à arte, literatura e filosofia, o livro contem fortes críticas sociais e as protagonistas do romance mostram um sarcasmo tipicamente francês.

Ao longo do mês de leitura, “A Elegância do Ouriço” foi elogiada de modo entusiasmado por grande parte dos leitores do grupo:

“… a leitura foi um presente . Tamanha sofisticação e delicadeza do início ao fim.”

Este livro exprime a arte em diferentes palavras, em diferentes formas.”

“… não esperava me apaixonar pela narração na primeira hora de leitura.”

Achei muito sutil essa construção de idéias e palavras, me encantou essa alegoria.”

A escritora Barbery foi meio médica neste livro, usando tão bem sua inteligência, suas palavras.”

A Elegância do Ouriço é realmente uma elegância de texto e uma leitura muito gostosa. Estou achando fantástico.”

A leitura flui naturalmente e quando vemos, já acabou.”

Estou muito emocionado… o mergulho que fiz neste livro tão delicado e bonito. Desde o preâmbulo ('Marx', que também mudou totalmente a minha visão do mundo, como o jovem Pallières), o livro me envolveu numa espécie de curiosidade, encanto e perplexidade.”

“… terminei de ler o livro ontem e - what a book, hein, my friend!!! Em função certamente dele, meu dia hoje foi diferente. Situações outrora vistas e sentidas como corriqueiras, enfanhonhas ou mesmo desagradáveis, tiveram um novo significado.”

O texto é divertido, é profundo, é belo. Feliz por ter lido!

Quanta coisa aprendi nestes dias de leitura!!!!!!!!!!!! Que maravilhoso foi poder viver isto intensamente com este grupo.”

Agradeço ao grupo de leitura por pôr em meu caminho um livro tão bonito!
Um marco dentre as leituras do clube, “A Elegância do Ouriço”, foi chamada por alguns de “memorável”. O romance de Barbery foi tão envolvente, que muitos dos leitores se sentiram instigados a procurar ler ou conhecer algumas das obras artísticas, literárias e filosóficas citadas no livro. A temática artística do livro foi: pintura holandesa, livros de autores russos, cinema japonês (“As Irmãs Munakata” (“Munakata Shimai”), com direção de Yasujiro Ozu), gastronomia japonesa e francesa com toque português. Apesar do requinte artístico, a narrativa não mostra esnobismo por parte das personagens principais. Renée ouve os clássicos Mozart, Gustav Mahler, Sebastian Bach, Frideric Handel, assim como o hip hop e rapper do francês Mc Solaar (1969- ). Ouriços, ou não, a discussão foi de um requinte singular!

A personagem Reneé cita pintores do período barroco, como Willem Claesz Heda (1594 - 1680), Pieter Claesz (1596/1597 - 1660), Willem Kalf (1622 - 1693) e Osias Beert (1580 - 1624), todos holandeses que, dentre outros, brincam com o tema da mesa arrumada para refeição. Em particular, as obras do Willem e Pieter Claesz são muito semelhantes em estilo. Em um dos trechos, Renée descreve de modo emocionado a reprodução de um quadro de Pieter Claesz, exposta na entrada do apartamento de Ozu. Numa tentativa de vivenciar o ambiente do livro, alguns leitores se lançaram na procura da obra, mas logo descobriram que achar o quadro do rico e encantador senhor japonês poderia ser um exercício enlouquecedor, visto que existem muitas variedades do gênero natureza-morta (“still life”), com breakfasts e banquetes para todos os gostos: com nozes, ostras (com ou sem limaozinho), cerveja, presunto, peixe, caranguejo, sem pãozinho. Ao final, exceto pelas pimentinhas num pratinho de estanho, a mesa arrumada para uma refeição leve, de ostra e pão, de Pieter Claesz, parece ter sido encontrada como descrita no livro.


Pintura à óleo de Pieter Claesz (1597 - 1661), do gênero natureza-morta (“still life” - obra de 1633). Tentativa de encontrarmos a reprodução do elegante Kakuro. É possível que na reprodução de Kakuro Ozu, o artista quis dar um toque particular e não pôs as pimentinhas num pratinho de estanho.


Outras obras vivenciadas pelos leitores, foram Moça com Brinco de Pérola, de Johannes Vermeer (1632 - 1675), e O Homem na Latrina, de Bacon, ambos mencionado no romance por Paloma. Moça com Brinco de Pérola é por vezes referido como a “Mona Lisa do Norte” ou “Mona Lisa Holandesa” e há filme e livro (“Girl with a Pearl Earring”, de Tracy Chevalier) de mesmo nome inspirados na pintura.

A arte no esporte foi vivenciada através do Haka, dança tradicional dos Maori, da Nova Zelândia. De movimento vigorosos e ritimados, a dança é assinatura do time de rugby neozelandês, que faz a performance antes de partidas internacionais (Haka é AWESOME!!).

Em relação à música, o clube ouviu Dido and Aeneas, de Henry Purcell, (a mais bela obra de canto do mundo, segundo a ouriço), o Confutatis do Réquiem, de Mozart (a música que quase mata Renée de susto no banheiro do Sr. Ozu), e Erik Satie (música que Paloma e Kakuro ouvem ao piano no final do livro).

Finalmente, fomos apresentados à obra poética de Bashô, o poeta preferido de Paloma, e pela primeira vez o clube falou sobre haicais:

Antes eu não entendia como um haicai poderia ser considerado poesia, mas hoje percebo que a imagem nele contida expressa mais do que mil palavras.”

Num atalho da montanha
Sorrindo
uma violeta
(Matsuo Bashô)

terceto com 5, 7 e 5 sílabas métricas”:


O que é haicai?
É o brilho das estrelas
na gota de orvalho...

What is a haiku?
It is the dazzling of stars
in a drop of dew...
(Luiz Antonio Pimentel)
No dia da reunião, o entusiasmo dos participantes foi tamanho, que esta se tornou uma verdadeira celebração, externando o que antes estava no livro. A conversa foi regada a vinho tinto e camembert; torradas e patêzinhos, chás e gourmandise française (“tuiles aux amandes”, “madeleines”, “glutofs”, “mediants” de chocolate preto e “tarteletes”. Só faltou geléia de mirabela, a qual ficou na fenomenologia). Foi um dos mais festivos e animados encontros, além de agradável e descontraído. Os que não puderam comparecer sentiram ter perdido um daqueles momentos que Paloma registraria no seu "diário do movimento do mundo":

Sinto não ter estado com vocês. Preparei-me para a festa, mas a vida é imprevisível... deixei rolar pela face uma singela lágrima...”
Quanto às críticas ao livro, alguns participantes citaram o excesso de maturidade da personagem Paloma:

Uma garotinha de 12 anos citar Roman Jakobson, é brincadeira!!!!!!

Eu fiquei impressionada com a leitura de Paloma! Eu aos 12 anos era só poeira... e olha que ainda não cheguei nem perto de ser (ou ter sido) estrela!
O livro também foi indagado como auto-ajuda por gerar reflexões ao abordar questões fundamentais, que todos nós formulamos, e respondemos de modos tão distintos:

Qual o sentido da vida? Que conhecemos do mundo? O que te move? O que fazemos de manhã? Por que ficar nesse mundo? Qual a natureza da consciência humana?

“... fatalismo estarrecedor… O nome desse livro deveria ser “O fel da vida”. Adorei!

Quando se é um peixe vermelho no aquário, é preciso da camélia para criar a vacuidade para podermos responder a questão de Paloma: a vida tem algum sentido?
Para alguns a resposta a estas perguntas é muito simples :

“... a vida faz toda sentida”!
Em outubro de 2008, Le Hérisson, filme inspirado no livro, estreiou nas telinhas de Paris, sob direção da jovem cineastra Mona Achache. Nos papeis principais Josiane Balasko (Renée), Garance Le Guillermic (Paloma), Togo Igawa (de “Memórias de uma Gueixa”, fazendo Kakuro), Anne Brochet e Ariane Ascaride. Será bom?

A “Elegância do Ouriço” está entre os poucos romances lidos pelo grupo, que tem uma mulher como autora.

Recomendadíssimo!!!!!!!!!!!!

5 comentários:

  1. Parabéns. Este texto vai para o Livro das Discussões.

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  2. Cintia,

    Que prazer ler o relato sobre o livro "A Elegância do Ouriço". Com certeza a obra entrará como uma sugestão futura para o Nosso Clube de Leitura.

    Grande abraço,
    Andréa
    www.nossoclubedeleitura.blogspot.com

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  3. Andréa,

    Obrigada pela visita e participação. Uma honra... Seja bem vinda!

    Quanto a “A Elegância do Ouriço”, reforço o recomendadíssimo e acrescento a informação de que há pouco tempo, foi feita a votação do melhor livro lido pelo grupo em 2009 com os participantes do grupo no Google. Dentre os 13 romances lidos, “A Elegância” foi a vencedora.

    Um abraço

    Cintia

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  4. Li o livro faz um bom tempo, e sempre que tenho um tempo livre, releio. Sempre me identifiquei muito com Paloma, porque também tenho 11 anos e não sou, digamos, uma adolescente normal (sem querer soar pedante!). Além disso, a concordância de gostos entre mim e Renée é curiosa: me interesso muito por filosofia, literatura russa, arte holandesa e o Japão. E gostaria de agradecer, por colocar qual a pintura descrita no livro, que aparece na casa de Ozu. Procuro-a há muito tempo.

    Um abraço,

    Isabela.

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  5. Olá Isabela!

    Talvez tenha razão em se identificar. Assim como Paloma, o seu texto não lembra o de uma jovem de 11 anos. A Elegância do Ouriço é mesmo um ótimo livro. Que bom que gostou da pintura!

    Bem, continue lendo, e, se curtiu outras leituras deixe seus comentários!

    Abraços!

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