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O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

22 de fevereiro de 2017

O deserto dos Tártaros: Dinno Buzzati




Mortos estamos todos e sempre estivemos.

Na vida, cada um tem que aceitar o papel que lhe é destinado.




Depois, o areal extenso
Depois, o oceano de pó
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...

(Navio Negreiro - Castro Alves)

ISMAEL MONTICELLI


   Mesmo que tivessem tocado os clarins, que fossem ouvidas as canções  de guerra, que do norte chegassem mensagens inquietantes, se fosse somente  por isso, Drogo teria igualmente ido embora; mas já havia nele o torpor dos hábitos, a vaidade militar, o amor doméstico pelos muros cotidianos. Quatro meses haviam bastado para amalgamá-lo ao monótono ritmo do serviço. 

    Tornara-se hábito para ele...


Finalmente Drogo entendeu, e um lento arrepio percorreu-lhe a espinha. 
 Era a água, era uma longínqua cascata rumorejante, a pique nos despenhadeiros 
 próximos. O vento que fazia oscilar o longo jorro, o misterioso jogo dos ecos, o 
 diferente som das pedras em percussão, formavam uma voz humana, que falava, 
 falava: palavras de nossa vida, que se estava sempre prestes a entender, mas que 
 na verdade nunca se entendia.   





"Mas alguma coisa no fim da linha vem. Ela nos espera e, finalmente, para todos nós, chega o dia, a hora, o momento do acontecimento extraordinário. Não era exatamente o que estivemos ansiando, e só nos resta aceitá-lo com dignidade e estoicismo, como um soldado. Será que a última chance de uma vida equivocada é uma morte digna? Será o que resta? A única saída?"







O tempo entretanto corria, sua batida silenciosa marcando cada vez mais precipitadamente a vida, não se pode parar um segundo sequer, nem mesmo para olhar para trás. "Pare, pare!" se desejaria gritar, mas vê-se que é inútil. Tudo se esvai, os homens, as estações, as nuvens; e não adianta agarrar-se às pedras, resistir no topo de algum escolho, os dedos cansados se abrem, os braços se afrouxam inertes, acaba-se sendo arrastado pelo rio, que parece lento, mas não para nunca 



“Estirado na cama, fora da zona iluminada pelo lampião de querosene, enquanto devaneava sobre a própria vida, Giovanni Drogo foi repentinamente invadido pelo sono. Entretanto, justamente aquela noite — oh, se o soubesse, talvez não tivesse vontade de dormir —, justamente aquela noite iria começar para ele a irreparável fuga do tempo.
Até então ele passara pela despreocupada idade da primeira juventude, uma estrada que na meninice parece infinita, onde os anos escoam lentos e com passo leve, tanto que ninguém nota a sua passagem. Caminha-se placidamente, olhando com curiosidade ao redor, não há necessidade de se apressar, ninguém empurra por trás e ninguém espera, também os companheiros procedem sem preocupações, de-tendo-se frequentemente para brincar.
Das casas, a porta, a gente grande cumprimenta-se benigna e aponta para o horizonte com sorrisos de cumplicidade; assim o coração começa a bater por heroicos e suaves desejos, saboreia-se a véspera das coisas maravilhosas que aguardam mais adiante; ainda não se veem, não, mas é certo, absolutamente certo, que um dia chegaremos a elas.
Falta muito? Não, basta atravessar aquele rio lá longe, no fundo, ultrapassar aquelas verdes colinas. Ou já não se chegou, por acaso? Não são talvez estas árvores, estes prados, esta casa branca o que procurávamos? Por alguns instantes tem-se a impressão que sim, e quer-se parar ali. Depois ouve-se dizer que o melhor está mais adiante, e retomasse despreocupadamente a estrada. Assim, continua-se o caminho numa espera confiante, e os dias são longos e tranquilos, o sol brilha alto no céu e parece não ter mais vontade de desaparecer no poente.
Mas a uma certa altura, quase instintivamente, vira-se para trás e vê-se que uma porta foi trancada às nossas costas, fechando o caminho de volta. Então sente-se que alguma coisa mudou, o sol não parece mais imóvel, desloca-se rápido, infelizmente, não dá tempo de olhá-lo, pois já se precipita nos confins do horizonte, percebe-se que as nuvens não estão mais estagnadas nos golfos azuis do céu, fogem, amontoando-se umas sobre as outras, tamanha é sua afoiteza; compreende-se que o tempo passa e que a estrada, um dia, deverá inevitavelmente acabar.
A um certo momento batem às nossas costas um pesado portão, fecham-no a uma velocidade fulminante, e não há tempo de voltar. Mas Giovanni Drogo, naquele momento, dormia, inocente, e sorria no sono, como fazem as crianças.
Passarão alguns dias antes que Drogo entenda o que aconteceu. Será então como um despertar. Olhará à sua volta, incrédulo; depois ouvirá um barulho de passos vindo de trás, verá as pessoas, despertadas antes dele, que correm afoitas e o ultrapassam para chegar primeiro.
Ouvirá a batida do tempo escandir avidamente a vida. Nas janelas não mais aparecerão figuras risonhas, mas rostos imóveis e indiferentes. E se perguntar quanto falta do caminho, ainda lhe apontarão o horizonte, mas sem nenhuma bondade ou alegria. Entretanto, os companheiros se perderão de vista, um porque ficou para trás, esgotado, outro porque desapareceu antes e já não passa de um minúsculo ponto no horizonte.
Além daquele rio — dirão as pessoas —, mais dez quilômetros, e terá chegado. Ao contrário, não termina nunca, os dias se tornam cada vez mais curtos, os companheiros de viagem, mais raros, nas janelas estão apáticas figuras pálidas que balançam a cabeça.” 



Não é sobre a vida militar que fala o livro, mas sobre a vida de todos nós.

Fala da vida como uma aposta na imobilidade.  Se não fizermos nada além de aceitar as coisas como são, um dia algo virá para redimir nosso pobre cotidiano, algo notável e brilhante que a vida nos reserva mais para frente.


Embora escrito quase setenta anos atrás, o livro parece endereçar-se diretamente ao século XXI e nos atinge profundamente. Ou não é exatamente isso que diz a publicidade, a televisão, enfim, o pensamento médio reinante: seja disciplinado e trabalhador. Não mude sua vida. Trabalhe infatigavelmente que um dia algo maravilhoso vai lhe acontecer. Algo glorioso, que vai justificar sua existência, não uma batalha, claro, mas talvez uma linda mulher inatingível, uma esperada promoção, uma casa cercada de árvores, ou muito dinheiro. Só que isso sempre virá mais adiante. Cada vez mais adiante. Até que um dia nos damos conta que fizemos a aposta errada.

Os tártaros não vieram. 



"Era um trabalho monótono e aborrecido e os meses passavam, e passavam os anos e eu me perguntava se seria sempre assim, se as esperanças, os sonhos, inevitáveis quando se é jovem, iriam se atropelar pouco a pouco, se a grande ocasião viria ou não."



Viver a vida não possui outra finalidade senão deixá-la escorrer e a morte é a única justificativa. 




Aqui ou onde quer que seja, 
estamos todos em algum lugar por engano. 




A vida como exercício de espera jamais satisfeita, a morte como única resposta aos amores impossíveis, às amizades traídas e às esperanças frustradas. 


2 comentários:

  1. A esperança é a última que mata.

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  2. Estou lendo e gostando do "Deserto dos tártaros". Diria que é um livro morno, tanto me aquece um pouco quanto é agradável, sem exigir muito do leitor.

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