CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

20 de fevereiro de 2017

Astronomia Literária com W.G. Sebald

"Somente no observatório astronômico octogonal acima da residência do antigo astrônomo da corte, onde Austerlitz e eu reatamos gradualmente nossa conversa interrompida, apareceu, se bem me recordo, um solitário turista japonês que, depois de surgir silencioso e repentino na soleira da porta, fez uma volta no octógono vazio e logo tornou a 
desaparecer, seguindo a seta verde que indicava a direção. Nesse recinto, como Austerlitz observou, ideal para o seu propósito, fiquei surpreso com a beleza simples das tábuas corridas de diversas larguras e com as janelas excepcionalmente altas, cada qual dividida em cento e vinte e duas vidraças quadradas emolduras por chumbo, pelas quais antigamente longos telescópios eram assestados contra eclipses do sol e da lua, contra as interseções das órbitas das estrelas com a linha do meridiano, contra a chuva de meteoritos das Leônidas e os cometas de cauda longa que voavam pelo espaço. Como era seu costume, Austerlitz bateu algumas fotografias, em parte das rosas de estuque no friso de flores que corria ao redor do teto, em parte também do panorama da cidade que se estendia a norte e a noroeste para além do parque, tiradas através dos quadrados de vidro chumbado e, enquanto ainda manejava a câmera, iniciou uma longa perquirição sobre o tempo, boa parte da qual retive claramente na memória. O tempo, disse Austerlitz no observatório astronômico de Greenwich, era de todas as nossas invenções de longe a mais artificial e, por estar vinculada aos planetas que giram em torno do próprio eixo, não menos arbitrária do que seria, digamos, um cálculo baseado no crescimento das árvores ou na duração necessária para uma pedra calcária se desintegrar, sem falar que o dia solar pelo qual nos orientamos não fornece uma medida precisa, de modo que para calcular o tempo temos de inventar um sol imaginário médio, cuja velocidade de movimento não varia e que não se inclina para o equador em sua órbita. Se Newton supunha, disse Austerlitz apontando pela janela para o cotovelo do rio que abraçava a chamada ilha dos Cães e que rebrilhava no último reflexo do dia, se Newton realmente supunha que o tempo era uma corrente como o Tâmisa, então onde está a fonte do tempo e em que mar ele por fim deságua? Todo o rio, como sabemos, tem necessariamente limites dos dois lados. Mas quais seriam, nessa perspectiva, as margens do tempo? Quais seriam as suas qualidades específicas que corresponderiam talvez àquelas da água, que é fluida, bastante pesada e translúcida? De que modo diferem as coisas imersas no tempo daquelas que jamais foram por ele tocadas? Por que razão as horas da luz e da escuridão são mostradas na mesma circunferência? Por que o tempo fica eternamente parado em um lugar e voa e se precipita em outro? Não se poderia dizer, disse Austerlitz, que o tempo ao longo dos séculos e dos milênios foi ele próprio pouco contemporâneo? Afinal de contas, não faz muito que ele começou a se difundir por toda parte. E não é verdade que até hoje a vida das pessoas em muitas regiões da Terra é regida menos pelo tempo que pelas condições climáticas e, portanto, por uma grandeza não quantificável que não conhece a regularidade linear, não avança de forma constante, mas se move em redemoinhos, é marcada por estagnações e irrupções, repete-se de forma alterada e evolui sabe-se lá em que direção? Mesmo em uma metrópole regida pelo tempo como Londres,  disse Austerlitz, ainda é possível como antes estar fora do tempo, coisa que até recentemente era tão comum em regiões atrasadas e esquecidas no nosso próprio país quanto costumava ser em continentes ainda inexplorados no além-mar. Os mortos estão fora do tempo, os moribundos e todos os doentes nos leitos das suas casas ou dos hospitais, e não só eles, pois um tanto de infelicidade pessoal já basta para nos cortar de todo o passado e de todo futuro. De fato,  disse Austerlitz,  eu nunca tive nenhum tipo de relógio, nem um relógio de pêndulo, nem um despertador, nem um relógio de bolso, muito menos um relógio de pulso.  Um relógio sempre me pareceu algo ridículo, algo absolutamente mendaz, talvez porque sempre resisti ao poder do tempo em virtude de um impulso interno que eu mesmo nunca entendi, excluindo-me dos chamados acontecimentos atuais, na esperança, como penso hoje,  disse Austerlitz, de que o tempo não passasse, não tivesse passado, de que eu pudesse me virar e correr atrás dele, de que lá tudo fosse como antes, ou melhor, de que todos os momentos do tempo existissem simultaneamente uns ao lado dos outros, ou seja, de que nada do que nos conta a história seja verdade, o acontecido ainda não aconteceu, mas só acontece no momento em que pensamos nele, o que por outro lado, é claro, abre a perspectiva desoladora de uma tristeza eterna e de um sofrimento sem fim. - Eram quase três e meia da tarde e já começava a escurecer quando deixei o observatório com Austerlitz." (p. 102)




"Iver Grove fora construída por volta de 1780 por um antepassado de Ashman, disse Austerlitz, que sofria de insônia e se dedicou a diversos estudos astronômicos, em particular à chamada selenografia ou mensuração da Lua, em um observatório por ele montado no telhado da casa, razão pela qual, explicou Ashman, ele tivera contato frequente com John Russell de Guildford, um miniaturista e pintor de pastéis famoso além das fronteiras da Inglaterra, que na época trabalhou durante várias décadas em um mapa da Lua de um metro e meio por um metro e meio, que superava de longe em precisão e beleza todas as representações anteriores do satélite da Terra, as de Riccioli e Cassini, bem como as de Tobias Mayer e Helvelius. Nas noites em que a Lua não se erguia ou permanecia oculta atrás das nuvens, disse Ashman quando entramos no salão de bilhar ao término da volta que ele fez conosco pela casa, seu antepassado jogava uma partida atrás da outra contra si mesmo nesse recinto por ele mobiliado, até o raiar do dia." (p.106) 


CLIc na imagem

"Mais tarde, quando descrevemos um grande arco na escuridão sobre a Picardia e retomamos a rota para a Inglaterra, se erguêssemos os olhos dos instrumentos de bordo iluminados, víamos através dos vidros da cabine toda a abóbada celeste como eu nunca vira, aparentemente estática, mas na verdade girando lentamente, com as constelações do Cisne, de Cassiopeia, das Plêiades, do Auriga, da Coroa Boreal e tantas outras, quase perdidas na poeira cintilante, disseminada por toda parte, das miríades de estrelas anônimas. Foi no outono de 1965, prosseguiu Austerlitz depois de permanecer imerso por um instante em suas lembranças, que Gerald começou a desenvolver sua tese pioneira, hoje sabemos, sobre a chamada nebulosa da Águia na constelação da Serpente. Ele falava de regiões imensas de gás interstelar que, à maneira de nuvens de tempestade, se condensavam em formações distendidas no universo por vários anos-luz e nas quais novas estrelas nasciam em processo de condensação que se intensificava constantemente sob a influência da gravidade. Eu recordo Gerald dizendo que lá fora existiam verdadeiros jardins-de-infância de estrelas, uma afirmação que recentemente descobri confirmada num comentário de jornal sobre umas fotografias espetaculares que o telescópio Hubble nos enviou para a Terra em sua viagem pelo espaço. De todo modo, disse Austerlitz, Gerald se mudou então de Cambridge para dar sequência ao seu trabalho em um instituto de pesquisas astrofísicas em Genebra, onde o visitei várias vezes e fui testemunha, enquanto caminhávamos juntos para fora da cidade e ao longo das margens do lago, de como as suas ideias, como as próprias estrelas, emergiam gradualmente das ondulantes nebulosas das suas fantasias físicas." (p. 116)


Nebulosa da Águia

Não me parece, disse Austerlitz, que compreendemos as leis que governam o retorno ao passado, mas sinto cada vez mais como se o tempo não existisse em absoluto, somente diversos espaços que se imbricam segundo uma estereometria superior, entre os quais os mortos e os vivos podem ir de lá para cá como bem quiserem e, quanto mais penso nisso, mais me parece que nós, que ainda vivemos, somos seres irreais aos olhos dos mortos e visíveis somente de vez em quando, em determinadas condições de luz e atmosfera.  (p.182)




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