CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

9 de fevereiro de 2017

A Bagaceira: José Américo de Almeida

"ALEGRIA DE POBRE É MAU AGOURO."





"Tudo se desfaz, menos os elos nativos que prendem o homem à terra. 
O homem será sempre o prisioneiro de sua origem".




"Passavam fitas naturais nas auroras e nos ocasos miraculosos. Havia música de graça nos coretos do arvoredo. Perfume de graça em cada floração. E o sol fazia-lhes visitas médicas entrando pelos rasgões dos tugúrios." 

Na verdade, ele não descrevia a natureza. Ele pintava a natureza. José Américo não era apenas um romancista. Era um poeta e um pintor. Ele pintava com as palavras. (Elenir)





Muita vez sonhei assim, em menino, embalado na rede em casa dos avós paternos. Menino cujo futuro era ainda uma promessa vaga, uma bolha frágil, uma estrada incerta...



“E meteram-se na rede que, parada, é feita para se dormir; mas, aos embalos, a voar, é feita para sonhar”.  A bagaceira, p. 108.



Engenho Mazagão e o pátio da bagaceira



O JULGAMENTO

O dr. Marçau entrou a orar neste tom:

— O promotor acusou o réu em nome da sociedade e eu acuso a sociedade em nome do réu .

Quem é mais criminoso — o réu que matou um homem ou a sociedade que deixou por culpa sua morrerem milhares de homens?

E, antes de ser réu , ele é vítima da falta de solidariedade da raça.

A seca chegou a aprazar suas irrupções com a lei da periodicidade . Todo mundo tinha a previsão da catástrofe em datas fatais. E os poderes públicos não a atalharam; não procuraram corrigir os acidentes da natureza incerta que dá muito e tira tudo de uma vez . Essa vitalidade aleatória ficou, até hoje, à espera da intervenção racional que demovesse os obstáculos do seu aproveitamento e fixasse o sertanejo no sertão .
Dispersou-se o povo sedentário e esfacelou-se a família...

— O advogado não pode continuar a atacar os poderes públicos! — advertiu o presidente do tribunal do júri , com a ajuda da campainha enérgica.

Lúcio abreviou a eloqüência forense:

— Eu dou por terminada esta função teatral que avilta a dignidade dos réus, cara a cara, para formar a consciência dos julgamentos espontâneos . . .

Justiça de . . . nulidades é a definição da inópia que só enxerga fórmulas no papel selado dos autos , em vez de uma alma encarcerada nestas fórmulas, da mesma maneira que está presa na cadeia. Não sabe que cada processo é uma palpitação da natureza humana. Atende menos a esse problema moral que à meia-língua das testemunhas.

Justiça falível, és a balança de dois pesos que só não pesam nas consciências! Como eu quisera que fosses cega, de verdade , não pela tua ignorância, mas pela imparcialidade!

O mau juiz é o pior dos homens. Se o juiz tiver de pecar , seja, pelo menos, humano. . Peque pelo amor que é a liberdade e não pelo ódio que é a injustiça mais grosseira. . .

Vingue em cada absolvição de um miserável a impunidade dos grandes criminosos! . . .

(Valentim foi absolvido por perturbação de sentidos e de inteligência.. . dos jurados . )

"Pobre de barriga cheia, Deus te livre!"
Os herdeiros dos passeios pelos shoppings não viram isso que José Américo de Almeida conta em A Bagaceira (p. 76): “Ele forcejava em interessar o coração de Soledade na assistência social aos moradores da fazenda de cana-de-açúcar. Entravam nas bibocas e ela nauseava. Santo Deus! Os guris lazarentos embastidos [cobertos] de perebas não paravam de coçar as sarnas eternas e pareciam laranjas onde enfiaram dois palitos. Mas não choravam, não sabiam chorar. Soledade saia aos engulhos. Não havia choça paupérrima que não tivesse um cachorro gafo. Era o sócio da fome. Os pobres só comiam capim, pastavam como carneiros. Mordiam a própria perna como se fosse um osso para roer”. (Fonte)
O catatau será em fevereiro, não perca!
— Sique! sique! — estumava o dono da casa , com os dentes cerrados, baixinho. Só pelo gosto de se levantar e gritar da porta: Desse modo, descontava o servilismo irremissível.   
 — Ca . . . chor ro ! ' chor ro !  E, num grande entono: 

— Já se deitar!

Voltava a sentar-se com um ar de quem mandou e foi obedecido. 






Eu sofria na minha inocência com pena dos bichos que se amavam. Amor de arranhaduras, de coices e dentadas. E, enfim, creio que os beijos doem muito mais.

Tô com vontade de beijar . Daqueles beijos que deixam cicatrizes na alma. Quero sorver o aroma carnal que se bebe em beijos.

Há muitas formas de dizer a verdade.
Talvez a mais persuasiva seja a que tem aparência de mentira.




Não há deserto maior que uma casa deserta

Você não vem na minha casa, eu não vou na tua.


Resumo do livro “A Bagaceira” de José Américo de Almeida (Spoiler)

O romance se passa entre 1898 e 1915, os dois períodos de seca. Tangidos pelo sol implacável, Valentim Pereira, sua filha Soledade e o afilhado Pirunga abandonam a fazenda do Bondó, na zona do sertão. Encaminham-se para as regiões dos engenhos, no brejo, onde encontram acolhida no engenho Marzagão, de propriedade de Dagoberto Marçau, cuja mulher falecera por ocasião do nascimento do único filho, Lúcio. Passando as férias no engenho, Lúcio conhece Soledade, e por ela se apaixona.
O estudante retorna à academia e quando de novo volta, em férias, à companhia do pai, toma conhecimento de que Valentim Pereira se encontra preso por ter assassinado o feitor Manuel Broca, suposto sedutor e amante de Soledade. Lúcio, já advogado, resolve defender Velentim e informa o pai do seu propósito : casar-se com Soledade. Dagoberto não aceita a decisão do filho. Tudo é esclarecido : Soledade é prima de Lúcio, e Dagoberto foi quem realmente a seduziu. Pirunga, tomando conhecimento dos fatos, comunica ao padrinho (Valentim) e este lhe pede, sob juramento, velar pelo senhor do engenho (Dagoberto), até que ele possa executar o seu "dever": matar o verdadeiro sedutor de sua filha. Em seguida, Soledade e Dagoberto, acompanhados por Pirunga, deixam o engenho e se dirigem para a fazenda do Bondó. Cavalgando pelos tabuleiros da fazenda, Pirunga provoca a morte do senhor do engenho Marzagão, herdado por Lúcio, com a morte do pai. Em 1915, por outro período de seca, Soledade, já com a beleza destruída pelo tempo, vai ao encontro de Lúcio, para lhe entregar o filho, fruto do seu amor com Dagoberto.

Fonte: Resumos para o ENEM

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