CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

5 de setembro de 2016

O sonâmbulo amador: José Luiz Passos

"...Diante do espelho, olhe nos olhos e repita duas ou três vezes aquele seu nome de infância. Jura, Jura, no meu caso. Vão e façam igual, qualquer coisa lá dentro se abre. Na vertigem dessa palavra, voltarão, tenho certeza, de bem longe, as cenas de um tempo adormecido, o começo das coisas, momentos que passaram a se fazer notar, com gente que não nos pedia nada em troca. Eram apenas o que eram. Não deixa de ser incrível que uma centelha disso tudo sobreviva nas cinzas de um mero apelido defasado".



Os que não nos veem por muito tempo acabam guardando consigo, como se dentro de um refrigerador, conservadas, aquelas nossas vontades de bem antes.

Cada pessoa tem seu modo de atar a razão dos eventos e o laço com os seus semelhantes.

Minie, num momento mais complicado, falou que eu tinha o que ela chamava de disponibilidade zero. Que não prestava atenção às pessoas e só vivia metido dentro de mim mesmo. Não era homem para ela e talvez nem sequer fosse bom amigo, já que ela não podia bater o telefone numa noite em que estivesse mal, pois eu não atenderia. Então que amizade era essa?

Pois é certo que nem o melhor nem o pior bastam ser realizados, precisam também ser comentados com todas as suas expressões. É de seu próprio relato que um beijo tira sua potência maior. De novo, não há mistério aqui. Amor não é mistério, é o gosto continuado na rotina, e tornado ainda mais vivo pela história dessa mesma rotina.






Poema transcrito por Jurubeba para Heloísa

Falem de mim como sou e nada menos, 
nem soado em qualquer malícia.
Digam de alguém que amou sem razão,
porém bem demais.
Alguém sem zelo fácil,
mas se alarmado, 
perplexo ao extremo.
Alguém cujas mãos, como as de um bárbaro,
atiraram fora uma pérola mais rica que seu clã.
Alguém que,
de olhos vencidos,
embora estranhos ao humor dissolvente,
choram tanto quanto as seringueiras que entornam sua pele de goma alva e medicante. 


Aconteceu no Clube das Almas Grátis em Outubro.

Com muito carinho, a própria Heloísa, desde o período mais chegado da nossa convivência, me apanhava na boca, de joelhos ou deitada na cama. Antes de me agradar com a mão e com a língua, ela dizia alguma coisa proibida. Essas coisas hoje me soam tão bobas, e ao mesmo tempo não posso deixar de valorizar o que elas significavam para nós dois. Eram momentos de plena inconsciência, eu acho. Mais ainda, era a confiança em seu estado puro, entre marido e esposa. Heloísa fazia uma voz diferente, como se fosse de manha com criança, as pupilas grandes e paradas, e se dirigia às partes do meu corpo, dizia o que ia fazer, utilizando nisso expressões de baixo calão. O efeito era imediato. Meu corpo ouvia as suas instruções com interesse. Era como se nossa conversinha tola tivesse uma mágica qualquer. E penso que o verdadeiro mistério dos bem casados é que essas práticas mantêm sua eficácia por uma centena de anos. Quem vai explicar isso?  





Mande os seus saírem dos buracos, ele disse.
Não posso tirar ninguém de seu canto.
Já levantei o braço e daqui a pouco duzentos soldados vão estar aqui em cima de você, ele disse.
Então seremos duzentos e dois.
Onde estão os seus?
Hieronymus Bosch: navio dos loucos
Estão do seu lado.
Como assim?
Os meus estão do seu lado, eu disse.
Você agora está sozinho.
Eu estou com você, eu disse.
Você está preso e agora vai morrer.
Você também.
Como assim?
Você também vai morrer.
Eu vou morrer de quê? Quem vai me matar?
Isso importa?
Vou morrer mas não vou morrer agora, ele disse.
Você se importa com a hora certa?
Me importo que você agora esteja preso, ele disse.
Então pode baixar o braço.
Agora você vai ver o que vai lhe acontecer.
Agora somos duzentos e dois, eu disse.
E todos estão do meu lado.
São duzentos e dois os lados, eu disse.




Secamento dos rios evidencia o processo de diluição do mundo


Madame Góes é uma personagem dada a frases lapidares, daquelas que vemos nos parachoques de caminhões, balsâmicas às vezes, filosóficas outras, ditas naqueles momentos mais urgentes quando, então, redobra seu tom celestial. Eis algumas frases suas: 
  • Essa tendência de buscar coincidências de gosto e daí tirar um fio para mais, o começo de um contato continuado, ela me disse, isto é que é o verdadeiro sentido de uma vida sadia;
  • Maturidade nenhuma chega com o avanço da idade;
  • ... em matéria de sofrimento tudo é uma questão de memória e sempre, sempre e principalmente, da pura e simples comparação. 
  • A decência é o conjunto das exterioridades que, segundo a época em que se vive, harmonizam entre si a aparência da pessoa com o seu porte, sua linguagem, seu traje, seu modo de receber quem lhe procura, e assim por diante.
  • Para quem não tem vergonha o mundo inteiro parece que é só seu. 
  • O futuro pertence apenas aos espinhos no coração de Jesus.


Nunca entregue o que é seu de uma vez só.
Assim ninguém lhe dá valor;



Estamos sempre sendo arremessados ao confronto com a dureza daquilo que melhor estaria se fosse simplesmente esquecido.






       Na cama deitei Minie de costas e fiquei por cima, com cuidado por causa do meu peso. Ela é miudinha, parece um garoto de escola. Deitei nela e comecei a procurar. Ela afastou mais as pernas. Cheirei o seu pescoço e vi ali ao lado a tatuagem na descida do ombro direito, em direção às costas. Já tinha visto aquilo antes. Era um cavalo-marinho esverdeado, que agora estava de frente para mim, me olhando com aquela expressão curiosa.  Beijei várias vezes essa figura e, enquanto entrava em Minie, comecei a lamber o sal daquele animalzinho que me acenava mergulhado dentro da pele de minha amiga. Digo apenas que, após nosso encontro, quando então me aliviei, prontamente quis saber de Minie se ela precisava de um copo d'água ou que eu fosse buscar papel no banheiro. Ela disse que não. Ficou ali um tempo, de bom humor. Depois levantou e foi fazer alguma coisa no quarto, de que não me lembro, e só então saiu para se lavar. Foi caminhando completamente nua, era a primeira vez que via Minie assim, pelas costas, inteira, desprovida das roupas, indo dali adiante com a precisão ligeira dessas pernas, que agora me pareciam tão compridas. 
       Com essa tranquilidade, sem mostrar vigilâncias nem forçar absolutamente nada, ela fazia de um grande erro algo que nos chegava, de repente, como um bem durável e doce demais. 




A turba, a multidão, o populacho, com as pressões que exercem sobre o tino individual, acabam por nublar decisões que são as mais acertadas, decisões que têm a ver com o destino pessoal que cada qual traça minuto a minuto, dia após dia.






Autor inédito no CLIc
Grande vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2013, O sonâmbulo amador é um romance original, cativante e por vezes irônico, sobre os feitos nem sempre memoráveis de um homem marcado pela perda. Apesar de suas crises e incertezas, ele tenta se corrigir e acertar como marido, como funcionário, como amigo e até mesmo como herói. Jurandir é um pequeno funcionário da indústria têxtil pernambucana. Dias antes de se aposentar como chefe de segurança no trabalho numa tecelagem no interior de Pernambuco, empreende uma viagem ao Recife para resolver um processo trabalhista. A jornada prova-se um pesadelo; sem motivos aparentes, ele incendeia o carro da empresa e perde o controle de suas ações. Dois meses depois, é internado numa clínica psiquiátrica na cidade alta de Olinda e, a pedido de doutor Ênio, começa a escrever seus sonhos, que entrelaça com eventos do passado, relatos da juventude, suas opiniões e sua rotina de interno. Ao perder o limite das suas convicções, esmagado por eventos trágicos, tenta aceitar o passado e conviver com a precariedade do presente com a ajuda de um enfermeiro e de uma interna. Através do que Jurandir vê e narra, através mesmo do que ele tenta esconder, o leitor vai tomando consciência das tragédias que cercam a vida desse homem aflito: o acidente na juventude que o deixou manco; suas reflexões sobre a fragilidade das amizades; a traição e a crise no casamento; o desenlace fatal de seu único filho. Em quatro “cadernos”, José Luiz Passos mescla formas distintas de narrar — a vivência diária de Jurandir, seus sonhos, suas lembranças da juventude e do casamento, seus próprios textos sobre figuras do passado — para compor, gradualmente, um retrato comovente, que revela o personagem tanto no que ele diz quanto no que procura esconder.

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2 comentários:

  1. "O estrangeiro" de Albert Camus, um dos livros citados ao longo do romance "O sonâmbulo amador" será tema de debate no Clube Jovem em Novembro 2015. Imperdível!

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  2. Além de ter gostado desse livro, fiquei ainda mais fã desse autor, diante de sua disponibilidade para falar com os leitores. Mandei algumas perguntas para ele responder pelo facebook, para o meu blog, e ele foi muito gentil e atencioso. Um fofo!

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