CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

3 de setembro de 2016

As intermitências da morte: José Saramago



Nos vemos em breve
Naquele dia, ninguém morreu. É assim que se inicia a obra. Seguidamente, tomamos conhecimento das preocupações de setores como a Igreja (a qual, sem a noção de morte, e consequentemente de paraíso e ressurreição, deixa de ter sentido, bem como a figura de Deus), o governo, os hospitais, os lares, tudo visto por Saramago com grande ironia.

          É então que um velho moribundo tem uma ideia para morrer, juntamente com o seu neto bebé, também sem salvação: serem transportados para o país vizinho.

          A notícia deste ato espalha-se e a família é condenada pelos media e pela população, até se ficar a saber que práticas semelhantes começam a ocorrer por todo o país, nuns casos por misericórdia, noutros para as famílias se verem livres dos pesos mortos que os seus velhos e moribundos constituem lá em casa.

          O governo decide, discretamente, vigiar determinadas zonas fronteiriças para controlar esta prática. Surge, então, em cena um grupo que organiza o transporte dos moribundos, auto-denominado máphia, que chantageia o governo, com base na violência (quatro vigilante em coma por dia), conseguindo que a maior parte dos vigilantes seja desativada e que 35% passem a trabalhar para si, máphia.

          Certo dia, o Diretor da Televisão Nacional lê, em direto, uma carta da Morte, onde esta esclarece que, a partir das zero horas desse dia, tudo voltará ao normal. Quem imediatamente vê nisto uma extraordinária oportunidade de negócio são as agências funerárias, os carpinteiros que fabricam caixões, os coveiros (por exemplo, exigem um aumento substancial de ordenado). O primeiro a morrer, em cima da meia-noite, é o presidente da associação das agências funerárias (oh, ironia!).

          A intenção da Morte com a sua «greve» é mostrar aos seres humanos o que seria viver para sempre,  mas, ao constatar os resultados dramáticos de tal experiência, decide fazer regressar tudo à primeira forma. E, assim, as pessoas voltam a morrer, com uma pequena diferença: as pessoas serão avisadas da sua morte uma semana antes, para que possam resolver os últimos assuntos (testamentos, por exemplo, etc.)

            Passado algum tempo, uma das fatídicas cartas anunciadoras da morte é devolvida várias vezes, o que faz com que a vítima - um violoncelista - permaneça vivo para além da data estipulada para a sua morte. Esta decide, então, alterar o verbete do violoncelista, mudando-lhe o ano de nascimento para o seguinte, o que faz com que o homem se torne «um ano mais novo».

          A Morte decide disfarçar-se de mulher, instalar-se num hotel e ir vê-lo atuar ao vivo. Os dois conhecem-se, encontram-se um par de vezes e, certo dia, ela encontra-se com ele na casa deste, transportando consigo no bolso a carta fatídica. No entanto, os dois acabam por dormir juntos e ter relações sexuais. A Morte queima a carta.

          No dia seguinte, ninguém morreu.

(Fonte)





DEBATE ANTECIPADO PARA 14/07/2016 - 19:00H

VARANDA DO CENTRO DE ARTE UFF

Foi dar uma voltinha


“Aprende, pensava, aprende de uma vez, pedaço de estúpido, portaste-te como um perfeito imbecil, puseste os significados que desejavas em palavras que afinal de contas tinham outros sentidos, e mesmo esses não os conheces nem conhecerás, acreditaste em sorrisos que não passavam de meras e deliberadas contracções musculares, esqueceste-te de que levas quinhentos anos às costas apesar de caridosamente to haverem recordado, e agora eis-te aí, como um trapo, deitado na cama onde esperavas recebê-la, enquanto ela se está rindo da triste figura que fizeste e da tua incurável parvoíce.” José Saramago (As Intermitências da Morte)






MEMENTO, HOMO, QUIA PULVIS ES ET IN PULVEREM REVERTERIS



Acherontia Atropos

"É o costume, as pessoas dizem cousas à toa, lançam palavras à aventura e não lhes passa pela cabeça deter-se a pensar nas consequências. "

Retrato musical do violoncelista 58 s que seduziu a morte

Saberemos cada vez menos o que é um ser humano
(Livro das Previsões)

As intermitências da morte e Todos os nomes



Aqui, na sala da morte e da gadanha, seria impossível estabelecer um critério parecido com o que foi adoptado por aquele conservador de registo civil que decidiu reunir num só arquivo os nomes e os papéis, todos eles, dos vivos e dos mortos que tinha à sua guarda, alegando que só juntos podiam representar a humanidade como ela deveria ser entendida, um todo absoluto, independentemente do tempo e dos lugares, e que tê-los mantido separados havia sido um atentado contra o espírito. Esta é a enorme diferença existente entre a morte daqui e aquele sensato conservador dos papéis da vida e da morte, ao passo que ela faz gala de desprezar olimpicamente os que morreram, recordemos a cruel frase, tantas vezes repetida, que diz o passado, passado está, ele, em compensação, graças ao que na linguagem corrente chamamos consciência histórica, é de opinião que os vivos não deveriam nunca ser separados dos mortos e que, no caso contrário, não só os mortos ficariam para sempre mortos, como também os vivos só por metade viveriam a sua vida, ainda que ela fosse mais longa que a de matusalém, sobre quem há dúvidas de se morreu aos novecentos e sessenta e nove anos como diz o antigo testamento masorético ou aos setecentos e vinte como afirma o pentateuco samaritano. Certamente nem toda a gente estará de acordo com a ousada proposta arquivística do conservador de todos os nomes havidos e por haver, mas, pelo que possa vir a valer no futuro, aqui a deixaremos consignada.




"...as esperanças tem esse fado que cumprir, nascer umas nas outras, por isso é que, apesar de tantas decepções, ainda não se acabaram no mundo..."

"Isso a que chama mistérios é muitas vezes uma proteção, há os que levam armaduras, há os que levam mistérios."




As Intermitências é uma fábula contada em 200 paginas. 
Uma fábula sobre a importância de morrer e como esse simples fato altera a vida de todos que vivem.


Franz Von Stuck, The Murderer


«No dia seguinte ninguém morreu.» 


Arnold Böcklin – Self Portrait With Death

“É assim a vida, vai dando com uma mão até o dia em que tira tudo com a outra.” 






2 comentários:

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