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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

14 de junho de 2016

Recordando - O ano da morte de Ricardo Reis: José Saramago

O melhor livro de 2013 lido no Clube de Leitura Icaraí segundo os leitores



Quero dos deuses só que me não lembrem,
Serei livre -- sem dita nem desdita.
Como o vento que é a vida 
Do ar que não é nada.
O ódio e o amor iguais nos buscam: ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.
A quem deuses concedem
Nada, tem liberdade.



SEGUE O TEU DESTINO
(Ricardo Reis)

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dora nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

(Quando fui outro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006, p 71)



José Saramago dá continuidade à história de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, em O ano da morte de Ricardo Reis, romance que tem como pano de fundo o início das ditaduras fascistas na Europa, na década de 1930. O livro entra em debate no encontro do Clube de Leitura de Icaraí, no dia 7 de junho, de 19 às 21h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9 – Icaraí – Niterói). A entrada é gratuita.

Através de dados biográficos deixados por Fernando Pessoa, Saramago constrói a história de um médico português que vive no Brasil, mas que retorna a sua terra natal após 16 anos distante. O ano é 1936, o mesmo em que Fernando Pessoa faleceu. Quando chega a Portugal, Ricardo Reis se hospeda em um hotel, onde começa a se relacionar com o fantasma de Pessoa, com quem o personagem trava longas conversas.



A primeira frase do romance “aqui acaba o mar e a terra principia”, é uma alusão ao canto terceiro, estrofe vigésima da epopeia “Os Lusíadas”:

"Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.

Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora, e lá na ardente
África estar quieto o não consente.”

--

“The God of labyrinth” de Hebert Quin não é nada mais do que um conto de Jorge Luis Borges 
(e aqui temos um caso de um livro dentro de outro livro).


O mundo não é verdadeiro,
mas é real.

(Fernando Pessoa)




"... em todas as ocasiões se encontra alguém para dar opiniões, mesmo quando não lhe são pedidas." (p. 417)

* * *

Vida Grata

Feliz aquele a quem a vida grata
Concedeu que dos deuses se lembrasse
E visse como eles
Estas terrenas coisas onde mora
Um reflexo mortal da imortal vida.

(Ricardo Reis)


* * * 

“Neste livro nada é verdade e nada é mentira”. (Saramago)



* * *


"Chove lá fora, no vasto mundo, com tão denso rumor é impossível que, a esta mesma hora não esteja a chover sobre a terra inteira, vai o globo murmurando águas pelo espaço, como pião zumbidor, E o escuro ruído da chuva é constante em meu pensamento, meu ser é a invisível curva traçada pelo som do vento, que sopra desaforado, cavalo sem freio e á solta, de invisíveis cascos que batem por essas portas e janelas, enquanto dentro deste quarto, onde apenas oscilam, de leve, os transparentes, um homem rodeado de escuros e altos móveis escreve uma carta compondo e adequando o seu relato para que o absurdo consiga parecer lógico, a incoerência rectidão perfeita, a fraqueza força, a humilhação dignidade, o temor desassombro, que tanto vale o que somos como o que desejaríamos ter sido, assim o tivéssemos nós ousado quando fomos chamados a contas, sabê-lo já é metade do caminho, basta que nos lembremos disto e não nos faltem as forças quando for preciso andar a outra metade."




Sábio é o que se Contenta com o Espetáculo do Mundo  


 

Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,
          E ao beber nem recorda
          Que já bebeu na vida,
          Para quem tudo é novo
          E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
          Ele sabe que a vida
          Passa por ele e tanto
          Corta à flor como a ele
          De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
          Que o seu sabor orgíaco
          Apague o gosto às horas,
          Como a uma voz chorando
          O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
          E apenas desejando
          Num desejo mal tido
          Que a abominável onda
          O não molhe tão cedo.

Ricardo Reis, in "Odes"

 

* * *


    Ricardo Reis lê os jornais. Não chega a inquietar-se com as notícias que lhe chegam do mundo, talvez por temperamento, talvez por acreditar no senso comum que teima em afirmar que quanto mais as desgraças se temem menos acontecem, Se isto assim é, então o homem está condenado, por seu próprio interesse, ao pessimismo eterno, como caminho para a felicidade, e talvez, perseverando, atinja a imortalidade pela via do simples medo de morrer. Não é Ricardo Reis como John D. Rockefeller, não precisa que lhe peneirem as notícias, o jornal que comprou é igual a todos os outros que o ardina transporta na sacola ou estende no passeio, porque, enfim, as ameaças, quando nascem, são, como o sol, universais, mas ele recolhe-se a uma sombra que lhe é particular, definida desta maneira, o que eu não quero saber, não existe, o único problema verdadeiro é como jogará o cavalo da rainha, e se lhe chamo verdadeiro problema não é porque o seja realmente, mas porque não tenho outro. Lê Ricardo Reis os jornais e acaba por impor a si mesmo o dever de preocupar-se um pouco. A Europa ferve, acaso transbordará, não há um lugar onde o poeta possa descansar a cabeça. Os velhos é que andam excitados, e a tal ponto que resolveram fazer o sacrifício de comprar o jornal todos os dias, ora um, ora outro, para não terem de esperar pelo fim da tarde. Quando Ricardo Reis apareceu no jardim a exercer a caridade habitual, puderam responder-lhe, com altivez de pobre afinal mal-agradecido, Já temos, e ruidosamente desdobraram as folhas largas, com ostentação, assim mais uma vez se provando que não há que fiar na natureza humana.



   
    "A treze de Maio, na Cova de Iria, de súbito faz-se um grande silêncio, está a sair a imagem da capelinha das aparições, arrepiam-se as carnes e o cabelo da multidão, o sobrenatural veio e soprou sobre duzentas mil cabeças, alguma coisa vai ter de acontecer. Tocados de um místico fervor, os doentes estendem lenços, rosários, medalhas, com que os levitas tocam a imagem, depois devolvem-nos ao suplicante, e dizem os míseros, Nossa Senhora de Fátima dai-me vida, Senhora de Fátima permiti que eu ande, Senhora de Fátima permiti que eu veja, Senhora de Fátima permiti que eu ouça, Senhora de Fátima sarai-me, Senhora de Fátima, Senhora de Fátima, Senhora de Fátima, os mudos não pedem, olham apenas, se ainda têm olhos, por mais que Ricardo Reis apure a atenção não consegue ouvir, Senhora de Fátima põe neste meu braço esquerdo a tua mirada e cure-me se puderes, não tentarás o Senhor teu Deus nem a Senhora Sua Mãe, e, se bem pensasses, não deveria pedir, mas aceitar, isto mandaria a humildade, só Deus é quem sabe o que nos convém. 

     Não houve milagres. A imagem saiu, deu a volta e recolheu-se, os cegos ficaram cegos, os mudos sem voz, os paralíticos sem movimento, aos amputados não cresceram os membros, aos tristes não diminuiu a infelicidade, e todos em lágrimas se recriminam e acusam, Não foi bastante a minha fé, minha culpa, minha máxima culpa. Saiu a Virgem da sua capela com tão bom ânimo de fazer alguns feitos milagrosos, e achou os fiéis instáveis, em vez de ardentes sarças, trémulas lamparinas, assim não se pode ser, voltem cá para o ano." 

* * *


"Algumas crianças brincavam ao pé-coxinho, saltando sobre um desenho traçado a giz no chão, de casa em casa, todas com seu número de ordem, muitos são os nomes que deram a esse jogo, há quem lhe chame a macaca, ou o avião, ou o céu-inferno, também podia ser roleta ou glória, o seu nome mais perfeito ainda será jogo do homem, assim de figura parece, com aquele corpo direito, aqueles braços abertos, o arco de círculo superior formando cabeça ou pensamento, está deitado nas pedras, olhando as nuvens, enquanto as crianças o vão pisando, inconscientes do atentado, mais adiante saberão o que custa, quando lhes chegar a vez." (p.233)


* * *

Quero dos Deuses só que me não lembrem  

Quero dos deuses só que me não lembrem.
Serei livre — sem dita nem desdita,
Como o vento que é a vida
Do ar que não é nada. 

O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.
          A quem deuses concedem
          Nada, tem liberdade.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa


* * *




7 comentários:

  1. O que vocês acharam das relações de Ricardo Reis com as personagens femininas do livro, Marcenda e Lídia? Achei um horror! Pensava que os poetas fossem sempre gentis e amáveis com as mulheres. Achei o poeta oportunista com Marcenda e irresponsável com Lídia, não perfilhando o próprio filho. Faltou amor ao poeta, o que lhe foi pago abandono em troco, pelas duas.

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  2. Sr Anônimo, parabéns! UM PELO MENOS interessado no livro do mês!Talvez fosse preciso se identificar para obter alguma resposta dos amigos!

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  3. Cara anônima, sobre o livro do mês de Saramago, tenho a dizer que de minha parte gostei de ambas as relações. Com Marcenda há um quê de lirismo, inocência, mistério, cuidados especiais, afinal trata-se de uma jovenzinha quase sempre acompanha pelo pai, e ainda mais com um problema físico que poderia ser passível de solução médica, fosse outra a especialidade de RR. Além disso, há o primeiro beijo, a primeira visita ao apto de um homem solteiro, cartas romanceadas, cheiro de amor em botão que, porém, não se abre.

    Com Lídia, ao contrário, a relação é mais no plano real: é sexo, quase nenhuma conversa; é praticidade junto à utilidade, já que ela também limpa e arruma a casa. Trata-se de uma mulher feita, dona do seu nariz, que resolve, após ter engravidado, ter o filho por conta e risco. Acho muito legal que a mulher tenha essa postura e a assuma. Se o filho não foi planejado/desejado por ambos, não se pode esperar que o homem o perfile. Eu acho o fim da picada mulheres que, por exemplo, usam desse expediente com jogadores bem sucedidos ou outros executivos que possam lhe ‘garantir um futuro’. Isso denigre nosso gênero. Então, a meu ver, RR tem todo o direito de resolver a coisa na sua cabeça unilateralmente, tal como fez Lídia.

    Quanto ao fato dos poetas serem sempre gentis e amáveis, acho que isso é uma idealização. Não são não, talvez Vinicius o fosse, porque lhe convinha já que era também grande conquistador, mas outros são simplesmente humanos como todos nós. Podem ser afáveis ou não, depende de muita coisa. Semana passada mesmo, assistindo a um programa sobre o poeta Jorge de Sena, entrevistaram sua filha, e ela disse que o pai não era carinhoso nem atencioso, no entanto, era poeta. O papel aceita tudo e muitas vezes revela desejos e anseios muito mais que realidade.

    Deixo um poema para você

    Amo-te Muito, Meu Amor, e Tanto Amo-te muito, meu amor, e tanto
    que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
    depois de ter-te, meu amor. Não finda
    com o próprio amor o amor do teu encanto.

    Que encanto é o teu? Se continua enquanto
    sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
    por uma paz da guerra a que se vendem,
    a pura liberdade do meu canto,

    um cântico da terra e do seu povo,
    nesta invenção da humanidade inteira
    que a cada instante há que inventar de novo,

    tão quase é coisa ou sucessão que passa...
    Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
    sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

    Jorge de Sena, in “Poesia, Vol. I”

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    1. Muito bom e belo poema!Valeu,Rita!

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    2. Temos que levar em conta, também, que o protagonista é um poeta, e todo poeta é um fingidor.

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    3. http://blog.josesaramago.org/saramago/detalle.php?id=781
      A existencia de Herbert Quuain...Um jogo de verdades e ficções.

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  4. Olá , passei pela net encontrei o seu blog e o achei muito bom,
    li algumas coisas folhe-ei algumas postagens,
    gostei do que li e desde já quero dar-lhe os parabéns,
    quando encontro bons blogs sempre fico mais um pouco meu nome é: António Batalha.
    Que haja muita felicidade e saúde em toda a sua casa.
    PS. Se desejar seguir o meu blog,Peregrino E Servo,
    fique á vontade,repare siga só se gostar, eu vou retribuir seguindo também o seu.

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