CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

4 de junho de 2016

Clube Jovem - O Continente, vol.1: Érico Veríssimo





Ops! ATENÇÃO!

Excepcionalmente este mês, o Clube de Leitura Jovem ocorrerá QUARTA-FEIRA AGORA, dia 22 de julho!

Vocês já sabem que o Clube de Leitura Jovem ocorre a toda penúltima quinta-feira do mês na Livraria Icaraí. Contudo, só dessa vez, tivemos de rearranjar datas.

É com grande prazer que convidamos vocês para o debate do livro "O Continente", de Erico Verissimo, quarta-feira agora (22) às 18h na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9). 


O romance nos ensina sobre os processos de formação do Rio Grande do Sul e do Brasil; uma das obras mais importantes da história do país.


Vem também, tchê! Vai ser ótimo. 





"Uma geração vai, e outra vem; porém a terra para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar donde nasceu. O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo seus circuitos." O Continente, livro do dia 22/07.





Quem anda cego de amor não sabe se é noite ou se é dia






"Nenhum homem é uma ilha, 
mas um pedaço do Continente… 
a morte de qualquer homem me diminui, 
porque eu estou envolvido na Humanidade…"




Aventura, guerra e romance são elementos presentes na história dos Terra e dos Cambará, famílias fictícias que conduzem "O continente", de Erico Verissimo. O romance dá início à saga "O tempo e o vento", cujo pano de fundo são os acontecimentos principais da formação do Rio Grande do Sul.

Apaixone-se pelo povoado de Santa Fé, prepare um mate quentinho e venha compor essa discussão no próximo Clube de Leitura Jovem, dia 23 de julho, às 18h na Livraria Icaraí! wink emoticon Aguarde por mais informações e até lá, tchê!






A Salamanca do Jarau

No tempo dos padres jesuítas, existia um moço sacristão no Povo de Santo Tomé, na Argentina, do outro lado do rio Uruguai. Ele morava numa cela de pedra nos fundos da própria igreja, na praça principal da aldeia.

Ora, num verão mui forte, com um sol de rachar, ele não conseguiu dormir a sesta. Vai então, levantou-se, assoleado e foi até a beira da lagoa refrescar-se. Levava consigo uma guampa, que usava como copo.

Coisa estranha: a lagoa toda fervia e largava um vapor sufocante e qual não é a surpresa do sacristão ao ver sair d'água a própria Teiniaguá, na forma de uma lagartixa com a cabeça de fogo, colorada como um carbúnculo. Ele, homem religioso, sabia que a Teiniaguá - os padres diziam isso!- tinha partes com o Diabo Vermelho, o Anhangá-Pitã, que tentava os homens e arrastava todos para o inferno. Mas sabia também que a Teiniaguá era mulher, uma princesa moura encantada jamais tocada por homem.

Aquele pelo qual se apaixonasse seria feliz para sempre. Assim, num gesto rápido, aprisionou a Teiniagá na guampa e voltou correndo para a igreja, sem se importar com o calor. Passou o dia inteiro metido na cela, inquieto, louco que chegasse a noite.

Quando as sombras finalmente desceram sobre a aldeia, ele não se sofreu: destampou a guampa para ver a Teiniaguá. Aí, o milagre: a Teiniaguá se transformou na princesa moura, que sorriu para ele e pediu vinho, com os lábios vermelhos. Ora, vinho só o da Santa Missa. Louco de amor, ele não pensou duas vezes: roubou o vinho sagrado e assim, bebendo e amando, eles passaram a noite.

No outro dia, o sacristão não prestava para nada. Mas, quando chegou a noite, tudo se repetiu. E assim foi até que os padres finalmente desconfiaram e numa madrugada invadiram a cela do sacristão. A princesa moura transformou-se em Teiniaguá e fugiu para as barrancas do rio Uruguai, mas o moço, embriagado pelo vinho e de amor foi preso e acorrentado.

Como o crime era horrível - contra Deus e a Igreja! - foi condenado a morrer no garrote vil, na praça, diante da igreja que ele tinha profanado.

No dia da execução, todo o Povo se reuniu diante da igreja de São Tomé. Então, lá das barrancas do rio Uruguai a Teiniaguá sentiu que seu amado corria perigo. Aí, com todo o poder de sua magia, começou a procurar o sacristão abrindo rombos na terra, um valos enormes, rasgando tudo. Por um desses valos ela finalmente chegou à igreja bem na hora em que o carrasco ia garrotear o sacristão. O que se viu foi um estouro muito grande, nessa hora, parecia que o mundo inteiro vinha abaixo, houve fogo, fumaça e enxofre e tudo afundou e tudo desapareceu de vista. E quando as coisas clarearam a Teiniaguá tinha libertado o sacristão e voltado com ele para as barrancas do rio Uruguai.

Vai daí, atravessou o rio para o lado de cá e ficou uns três dias em São Francisco de Borja, procurando um lugar afastado onde os dois apaixonados pudessem viver em paz. Assim, foram parar no Cerro do Jarau, no Quaraim, onde descobriram uma caverna muito funda e comprida. E lá foram morar, os dois. Essa caverna, no alto do Cerro, ficou encantada. Virou Salamanca, que quer dizer "gruta mágica", a Salamanca do Jarau.

Quem tivesse coragem de entrar lá, passasse 7 Provas e conseguisse sair, ficava com o corpo fechado e com sorte no amor e no dinheiro para o resto da vida.

Na Salamanca do Jarau a Teiniaguá e o sacristão se tornaram os pais dos primeiros gaúchos do Rio Grande do Sul.


Ah, ali vive também a Mãe do Ouro, na forma de uma enorme bola de fogo. Às vezes, nas tardes ameaçando chuva, dá um grande estouro numa das cabeças do Cerro e pula uma elevação para outra. Muita gente viu.





Dona Picucha Terra Fagundes, toda vestida de preto, pele de marfim, olhos de noz moscada, buço cerrado, verruga no queixo, xale xadrez e chinelas de ourelo. 
Dona Picucha Fagundes, uma coisa vou dizer: quem um dia entrou em vossa casa nunca mais há de esquecer 
seu cheiro de flor e pão quente 
o pintassilgo da gaiola 
os manjericões da janela 
os ratos que espiam nos buracos dos rodapés e que vós tratais como pessoas da família. 
Quem passou pela vossa casa, ainda que viva cem anos, há de sempre recordar vossas mãos ágeis que fazem renda de bilro 
vossas mãos frescas e secas, boas para espremer queijo 
vossas belas mãos afeitas a acariciar cabeças de filhos, netos e gatos 
vossas ligeiras mãos que sabem curar feridas de gentes e bichos 
vossas rapadurinhas de leite 
vossos lençóis cheirando a alfazema 
vossos chás caseiros 
vossos óculos na ponta do nariz 
vossas cantigas 
vosso oratório onde sempre há velas acesas 
e a vela solitária que às vezes acendeis no meio do pátio para o Negrinho do Pastoreio. 
Quem um dia passou pela vossa casa há de guardar para sempre na memória 
os causos que contais de Carlos Magno e os Doze Pares de França 
os vossos fabulosos causos de assombrações e mistérios, princesas e fadas, lagoas brabas e salamancas. 
Dona Picucha Terra Fagundes: 
Quem vos ensinou essas histórias e rezas e receitas, essas cantigas antigas e essas estranhas simpatias que tudo podem curar?




O pe. Lara sabia como era custoso obter informações certas. As pessoas dificilmente contavam as coisas direito. Mentiam por vício, por prazer ou então alteravam os fatos por causa de suas paixões. Cenas da vida cotidiana que se tinham passado sob o seu nariz, ali mesmo na praça de Santa Fé, eram depois relatadas na venda do Nicolau duma maneira completamente diferente. Como era então que a gente podia ter confiança na história? Passou-lhe, então, pela mente a lembrança da importância que tinha para a Igreja Católica a tradição oral... Ora, estava claro que com a Igreja, que era divina, a coisa era diferente. Mas seria mesmo diferente? 





O mundo do capitão Rodrigo

Rodrigo não podia esconder seu orgulho e sua satisfação por ter um filho macho. Brincava com a criança como uma menina brinca com sua boneca e às vezes não podia deixar de dar voz à sua impaciência diante do fato irremediável de que a criança levaria anos para crescer, fazer-se homem e poder chegar à idade de botar pistola e espada na cintura e sair a burlequear pelo Continente. 

— O mundo está errado! — disse ele um dia ao vigário, quando ambos conversavam na frente da venda, após o jantar. — Por que é que cavalo cresce tão depressa e gente leva tanto tempo? 

O padre, que palitava os dentes com um espinho de laranjeira, encolheu os ombros e respondeu, meio vago: 

— Deve ser porque cavalo vive menos. 

— Também está errado. Um cavalo devia viver tanto como uma pessoa. 

O pe. Lara olhou para o capitão longamente antes de falar. Fazia meses que vinha notando mudanças nele. O homem simplesmente andava desinquieto, irritadiço. Tudo indicava que aquela vida sedentária, atrás dum balcão, começava a entediá-lo. Não fora feito para aquilo. Para falar a verdade, também não fora feito para o matrimônio, ou melhor, para ter uma mulher só. E o vigário se inquietava, pois de certo modo se sentia responsável perante Pedro e Arminda Terra por aquele casamento, do qual era uma espécie de fiador. Se o signatário da letra de que ele era avalista fugisse e ele fosse chamado a pagar a dívida, que poderia fazer ou dizer? Soltou um suspiro e perguntou: 

— Se vosmecê fosse o criador do mundo, como é que fazia as coisas e as pessoas? 

Rodrigo apanhou um seixo, fez pontaria numa árvore e arremessou-o, errando o alvo. 

— Se eu fosse dono do mundo, fazia algumas mudanças... 
— Por exemplo... — pediu o padre. 

— Acabava com essa história de trabalhar... 

— Sim, e depois? 

— Fazia os filhos virem ao mundo de outro jeito. Eu vi o que a Bibiana sofreu. É medonho. 

O vigário sorria. Aquelas palavras, partidas dum egoísta, não deixavam de ter seu valor. 

— E depois? 

— Dividia essas grandes sesmarias de homens como o coronel Amaral. 

— Dividia? Como? Pra quê? 

— Dividia e dava um pedaço pra cada peão, pra cada índio, pra cada negro. 

— Não vá me dizer que ia libertar os escravos... 

— E por que não? Acabava com a escravatura imediatamente. 

O padre ria, e o riso encatarroado que o sacudia todo depois se transformou num acesso de tosse que acabou por deixá-lo ofegante e cansado. 

— Vosmecê é das arábias, capitão. Mas continue com o seu mundo... Que mais? 

Dentro da casa Bolívar chorava. E Bibiana, ninando-o, cantava as cantigas de Ana Terra. 

— Ah! Eu ia m’esquecendo. Pra principiar, fazia o mundo mais pequeno, pra gente poder atravessar todo ele a cavalo, sem levar muito tempo. 

— E como é que vosmecê ia se arranjar, indo dum país pra outro sem conhecer outra língua senão a sua? 

— Eu acabava com esse negócio de línguas diferentes... 

Rodrigo fez uma pausa e ficou pensativo. 

— Que mais? 

— Acabava também com a velhice. 

— Acabava? 

— Quero dizer, ninguém envelhecia mais... 

— Nem morria? 

— Morrer... morria. Mas se morria era de desastre, nos duelos, nas guerras. 

O vigário mordeu o palito, fez avançar a cabeça na direção do outro: 

— Vosmecê não ia também acabar com as guerras? 

Rodrigo por um instante pareceu confuso. Depois respondeu, lento: 

— Bom...Acabar de todo, não acabava. Porque guerra é divertimento de homem. Sem uma guerrinha de vez em quando ficava tudo muito enjoado. 

— Ia ser um mundo bem esquisito... 

— Mas não mais esquisito que este nosso, padre. 

— Se Deus fez o mundo assim foi porque achou que era o direito. 

— Mas hai muita coisa torta por aí. 

— Que há, há... 

Rodrigo abafou um bocejo. Depois, olhando para os lados como para ver se ninguém o escutava, cochichou: 

— Outra coisa, padre. No meu mundo não ia haver casamento. Um homem podia ter quantas mulheres quisesse. Dez, quinze, vinte, mil... 

— E se dois homens desejassem a mesma mulher? 

Rodrigo respondeu indiretamente com uma pergunta: 

— Pra que é que serve a espada? Pra que é que serve a adaga? E a pistola? 

O vigário procurou resumir as aspirações do amigo através do que ouvira e do que sabia dele por observação direta durante aquele ano: 

— Noutras palavras, capitão, seu desejo mesmo é andar correndo mundo, sem pouso certo, sem obrigação marcada, agarrando aqui e ali uma mulher como quem apanha fruta em árvore de beira de estrada... De vez em quando uma partidinha de truco ou de solo, um joguinho de osso, umas carreiras e, para variar, uma peleia... Não é isso? 

Rodrigo sacudiu a cabeça lentamente. 

— Mais ou menos. 

O choro do menino cessara, mas Bibiana ainda cantava baixinho. Um cão ladrou para os lados da casa dos Amarais. Por longo tempo os dois amigos ficaram em silêncio, olhando o céu estrelado. Rodrigo pensava na mulher com quem dormira todas as noites que passara no Rio Pardo: era uma mulata clara, de olhos verdes, com uma voz doce como arroz de leite e um corpo que cheirava a fruta madura quente de sol. O pe. Lara pensava na noite que iria passar... horas de aflição, sem ar e sem sono. A solidão de seu quarto era tão grande que ele às vezes ia para a capela e lá ficava orando e meditando, olhando para a imagem de Nossa Senhora, como que a buscar-lhe a companhia. Quase ao amanhecer caía no sono e dormia no chão, sobre as tábuas duras. 

— Mas o mundo não é o que a gente quer — disse ele, quebrando o silêncio. — É o que é. 

— Eu sei que ele é o que é. Mas a gente não deve se entregar. Deve lutar para conseguir as coisas que quer. Não há muita gente disposta a dar. Às vezes é preciso tirar à força. 

— Cada qual luta a seu modo, meu filho. Cada qual luta por um ideal. Houve homens que lutaram para libertar o Brasil dos portugueses. 

— Mas os galegos estão aí mesmo — retorquiu Rodrigo. — Nas tropas os oficiais portugueses mandam mais que os brasileiros. No fundo a independência não mudou nada. 

— Mas deixe-me terminar o pensamento. Uns lutam de arma na mão pela sua pátria. Eu luto pela minha fé. Vosmecê não acha que eu podia encontrar uma vida melhor se tivesse ficado em São Paulo e seguido o comércio como os meus irmãos fizeram? 

— Rodrigo sacudiu a cabeça. 

— Pois é. Estou aqui porque esta gente em geral vive sem Deus.Vosmecê sabe que um padre também é chamado um pastor. É porque os paroquianos são como ovelhas. É preciso proteger os rebanhos contra os guarás, os tigres, as onças-pintadas. Mas de que é que vosmecê está rindo? Ao luar ele via a cara do capitão, toda aberta num sorriso irônico. 

— Me lembrei do coronel Amaral. 

— E que é que ele tem a ver com a nossa conversa? 

— Tem muito. Ele é um leão baio. E dos grandes! E vosmecê parece ser mais do lado dele que do lado das ovelhas, padre. 

O pe. Lara empertigou-se sobre a banqueta. 

— Não compreendo — disse. Mas compreendia perfeitamente o que o outro insinuava. 

— Vosmecê sabe como ele trata os escravos... — continuou Rodrigo. — Para ele negro não merece ser considerado gente. Vosmecê sabe como ele trata os peões e os agregados. E vosmecê não ignora que ele tem mandado matar gente... 

O pe. Lara estava meio sufocado. Que conversa para depois do jantar! Seu ressentimento, sua confusão lhe tiravam a clareza das ideias e ao mesmo tempo lhe roubavam o fôlego. Passaram-se alguns momentos antes que ele pudesse falar. 

— Mas não há provas! — exclamou por fim. 

— Provas do quê? 

— De que foi o coronel Amaral que mandou matar aqueles homens. 

E ao dizer essas palavras ele baixou a voz e olhou a medo para os lados. 

Rodrigo soltou uma risada: 

— Ora, padre, todo mundo sabe! 

— E depois vosmecê deve saber que muitas vezes fui falar com o coronel para interceder por um escravo, por um peão. Ele me ouve muito. 

Rodrigo desabotoou a camisa e puxou-a para fora das bombachas. Sentia calor. Não havia a menor viração na noite cálida. 

— Conheci muitos padres por esse mundo velho que tenho corrido. Eles nunca estão contra o governo. 

— A Igreja não é revolucionária — exclamou o vigário. — A Igreja não é lugar de conspirações. Ela representa o poder espiritual, que está acima, muito acima do temporal. 

— Não me venha com essas palavras difíceis, padre, que eu não entendo. Fale claro. Temporal pra mim é mau tempo. Mas, falando sério, amigo Lara, cá pra nós no maior segredo, vosmecês nunca se arriscam a ir contra o governo, não é mesmo? 

O padre rosnou alguma coisa ininteligível. Depois sua voz se fez clara e ele murmurou: 

— Não é a Igreja que está com o governo. É o governo que está com a Igreja. 

— Ahá! — e a gargalhada de Rodrigo encheu aquele pedaço da noite que parecia envolver a casa. — Quando nós brigamos com os castelhanos, nossas bandeiras e nossas espadas eram benzidas aqui pelos padres católicos. E os padres católicos lá da Banda Oriental faziam o mesmo com as bandeiras e as espadas dos castelhanos. Como é que se explica isso? 

— Isso prova que a Igreja Católica é universal. Está acima das paixões e dos interesses dos homens, que são todos iguais perante Deus. 

— Iguais? Até os negros? 

O padre teve um levíssimo instante de hesitação — não porque considerasse os negros animais, mas porque lhe passou pela cabeça uma dúvida quanto à maneira como o outro podia usar sua resposta. 

— Até os negros, claro. 

...

— Meu filho, aprenda uma coisa. Por que é que a Igreja tem sobrevivido através de todos estes séculos?

 - Por quê?

- Passam os reis, os conquistadores, os generais, os filósofos... passa tudo. Mas a Igreja fica. Alguns pensam que é porque ela é de origem divina. — Piscou um olho e pegou na fralda da camisa do outro. — Mas eu acho, e Deus me perdoe a irreverência, que é um pouco porque nós os sacerdotes somos realistas. Realistas, está ouvindo? Vosmecê sabe o que é um realista?

— Um homem do lado do rei?

O pe. Lara sacudiu a cabeça numa ardorosa negativa.

— Não. Um realista é um homem que nunca dá murro em ponta de faca. Deixa que os outros deem... Boa noite, capitão, durma bem.

— Boa noite, vigário.



Bibiana

- Mas quem foi que lhe disse que a Bibiana gosta dele?

Só naquele instante é que o padre percebeu que os Terras quase sempre principiavam suas sentenças com um mas; era o sinal de que estavam sempre discordando do que os outros diziam. Era a gente mais cabeçuda, mais teimosa que ele conhecia.

...

- Ela pode gostar um pouco dele. Mas vai acabar esquecendo.

Arminda ergueu a cabeça.

- Esquecendo? - repetiu. - A Bibiana é bem como a avó, dessas que só gostam dum homem em toda a vida. Essas nunca esquecem.

...

Pedro pôs-se de pé e gritou:

- Bibiana!

A moça apareceu.

- É verdade que vosmecê gosta deste tal Cap. Rodrigo?

Bibiana baixou os olhos. Viu as botas embarradas do pai, mas viu principalmente a face do Cap. Rodrigo. Tinha chegado a hora decisiva. Se mentisse, perderia o homem que amava. Se dissesse a verdade, poderia perdê-lo também, mas pelo menos ficaria, com o consolo de não ter mentido. Aconteça o que acontecer - resolveu - vou dizer a verdade. Sem erguer a cabeça, balbuciou:


- Gosto, papai.



- E vosmecê sabe que eu não gosto dele?



- Sei, sim senhor.



- E mesmo assim quer casar com ele?



- Eu não sei se ele quer casar comigo . . .



- Está visto que quer! Mas vosmecê está resolvida a arriscar a ser infeliz?



Ela ficou em silêncio por alguns segundos.



- Estou - disse, erguendo o rosto e encarando o pai.



O padre olhou para Pedro e sentiu um calafrio. O que via nos olhos, no rosto daquele homem era ciúme, um ciúme surdo, escondido, que ardia como brasa viva sob a cinza.



- Vosmecê alguma vez falou com esse homem? - tornou a perguntar Pedro Terra.



- Nunca, papai.



- E se eu lhe proibisse de falar com ele, que é que vosmecê fazia?



- Obedecia.



- E ficava triste?



- Ficava.


- Ficava com raiva de mim?

- Como é que a gente vai ficar com raiva do pai?

- Mas não acha que um dia vosmecê podia esquecer esse homem?

- Não acho, não senhor.

- Por quê?

- Porque sei o que sinto.

- Escute, minha filha. - A voz de Pedro ficou mais branda e ele chegou a dar um passo na direção da moça. O padre olhou para Arminda e viu que as mãos dela tremiam. - Vosmecê nunca se interessou por homem nenhum . . .

Bibiana meneou a cabeça afirmativamente.

- E vosmecê não sabe - continuou o pai - que esse homem não tem nada de seu a não ser um cavalo, um violão e uma espada? Que esse homem não tem nenhum ofício e nenhuma serventia? Não vê que vosmecê pode ser infeliz com ele, sempre com medo que ele possa abandonar a casa duma hora pra outra, e ir pra alguma aventura ou seguir outra mulher? Não sabe?

- Sei.

- E assim mesmo quer casar com ele?

- Se ele quiser, eu quero.

O padre agora via na moça a decisão de Ana Terra: o mesmo jeito de falar, quase a mesma voz. Teve saudade da velha, com quem costumava manter longas conversas ao pé do fogão, nas noites de inverno.







"E ao outro dia, como saíssem de Betânia, teve fome. E tendo visto ao longe uma figueira, foi lá a ver se acharia nela alguma coisa; e quando chegou a ela, nada achou, senão folhas, porque não era tempo de figos. E falando-lhe disse: Nunca jamais coma alguém fruto de ti para sempre; o que os discípulos ouviram. E no outro dia pela manhã, ao passarem pela figueira, viram que ela estava seca até as raízes." 

















"Noite de vento, noite dos mortos...”   






Observo que quanto mais simplicidade de maneiras e conversa imprimo a meus atos, menos deferência recebo. Os habitantes da Capitania do Rio Grande estão de tal modo habituados ao militarismo e ao ar carrancudo dos oficiais, que não acreditam em que uma pessoa simples e honesta possa ter importância.     




Pedro Terra


Sou valente com as armas,
sou guapo como um leão. 
Índio velho sem governo
Minha lei é o coração.

Fui soldado, sentei praça,
já servi numa guarita,
agora sou ordenança
de toda moça bonita.

Esta noite dormi fora,
na porta do meu amor;
deu o vento na roseira
me cobriu todo de flor.


Ana Terra & Pedro Missioneiro

Sempre que me acontece alguma coisa importante, está ventando.
— Ana Terra


Noite medonha... Noite medonha... Rodrigo não se erguia. Não sabia que era que o prendia àquela cadeira. Uma teimosia, uma vontade de contrariar os outros, um medo de... Medo de quê? Escutou o vento. "Sua filhinha está muito mal..." Pois que esteja. Mulher não faz falta no mundo. Que morra! As mulheres são falsas. Helga Kunz é uma cadela. Que morra! Não sou curandeiro. Melhor é não ver nada. Não tem mais remédio. É questão de horas. Não me adianta nada ir. Não gosto de choro. Um dia a guerra vem. Tudo se resolve. A guerra e o tempo. Remédio pra tudo.


A Rosa Mística de Dali

— Nossa mente é como uma grande e misteriosa casa, cheia de corredores, alçapões, portas falsas, quartos secretos de todo o tamanho, uns bem, outros mal iluminados. No fundo desse casarão existe um cubículo, o mais secreto de todos, onde estão fechados os nossos pensamentos mais íntimos, nossos mais tenebrosos segredos, nossas lembranças mais temidas. Quando estamos acordados usamos apenas as salas principais, as que têm janelas para fora. Mas quando dormimos, o diabo nos entra na cabeça e vai exatamente abrir o cubículo misterioso para que as lembranças secretas saiam a assombrar o resto da casa.


Teiniaguá 
a malvada princesa moura que desgraça nossa vida

Eta mundo velho sem porteira!



Quais são teus inimigos?


Os bugres, as feras, as cobras, os castelhanos e o Regimento de Dragões.

E teus amigos?

Meu cavalo, meu mosquete, minhas garruchas, meu facão.




Não sou como quero-quer, que canta pra um lado e tem ninho pra outro.

Não só de pão vive o homem, mas só de carne pode viver. 




O Continente - Érico Veríssimo
O Continente - Érico Veríssimo

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