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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

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22 de abril de 2016

Bartleby, que reunião! - as impressões de Rita Magnago




Bom dia, cliceanos,

Sobre a reunião de ontem (8/5/2015), atendendo a pedido de Norma, teço alguns comentários.

Um pequeno grande livro. A frase poderia ser um resumo do que representou a leitura do mês para mim. Muito rico e questionador, dando ensejo a múltiplas interpretações, que é uma das coisas que mais adoro no CLIc. Bartleby, personagem enigmático, impressionou a todos, assim como seu chefe. Na volta para casa, eu e Newton continuamos debatendo sobre o livro, e debatendo sobre o debate, tirando ainda novas e possíveis interpretações que ele também vai dividir com o grupo.

Bem, pinçando o que me lembro da reunião:

Katia - nos falou de uma experiência própria semelhante e identificou que o chefe do escriturário foi profundamente atingido pela honestidade e caráter de Bartleby, sugerindo que ele, chefe, que inclusive tinha um principal cliente meio que desonesto, também deveria sê-lo, daí  esse impacto, mais pelo respeito e até admiração do que por piedade de Bartleby.

Joana – também compartilhou uma experiência pessoal e enfatizou como o que não compreendemos mexe e desestrutura os que estão em volta, nossas tentativas de fazer o ‘estranho’ se enquadrar no sistema.

Rose P. – destacou a tristeza e melancolia do livro, coisa não usual para a literatura da época, ‘mais alegrinha’.

Newton – abordou sobre a inverossimilhança do escriturário, se isso teria realmente  importância ou se muito mais relevante não seria a que construções e questionamentos o personagem nos leva, destacando ainda o caráter vanguardista de Melville, nos contemplando com um escrita tão atual.

Benito – perguntou se não seríamos nós, leitores, o personagem principal, já que o narrador leva a questão não para o lado do escriturário, mas para o chefe, o que fazem as pessoas , como reagem a esse estranho desestruturador presente na humanidade. Analisou também que o escritor  já falava de uma subversão ao capitalismo, representada pelas atitudes do escriturário, que se recusava a trabalhar em um país onde o dinheiro e o trabalho eram as bases da sociedade americana. Citou as cartas extraviadas, enviadas a mortos e a correlação que elas poderiam ter com a situação do escriturário, metaforicamente.

Rita – indagou o que é isso de se viver em um mundo próprio, a tênue fronteira entre loucura e realidade. Todos nós não vivemos em uma realidade meio que só nossa? Destacou como uma só pessoa pode mudar tantas outras e o mundo ao seu redor, a potência latente no ser humano e ainda a influência do que pensam os outros sobre o que fazemos, o medo do julgamento alheio, questionando também a aparente generosidade do chefe, que se achava uma boa pessoa.

Tânia (nova participante) – destacou, entre outros pontos, a potência do não, e o impacto desta ‘negativa educada’, prefiro não.

Daniel – considerou Bartleby consciente e refratário, comparando-o, neste sentido, a Jesus Cristo, Marx, e outros que mantiveram sua opinião a despeito das consequências. Daniel nos deixou uma pergunta que poderá render muito: o que faríamos no lugar do chefe do Bartleby? Qual seria nossa reação?

Gracinda – provocada pelo concièrge, disse em tom de brincadeira que ficou impaciente com o chefe, que não tomava atitude diante da situação.

Dília – abordou o pré-existencialismo da obra, fez referências a Kafka, Camus, Sartre, mostrando como a obra de Melville estava muito na vanguarda do seu tempo. Além do viés filosófico, mostrou também o literário, lendo uma passagem considerada pelos críticos primorosa e perfeita. Quem lembrar a passagem, por favor transcreva. Era sobre a mudança no rosto do personagem que acontece ao longo do dia, em uma poética comparação com o nascer do sol, o sol a pino e seu poente.

Evandro, quero dizer que gostei muito de a reunião de ontem não ter tido bastão da fala. Apesar de reconhecer que o bastão ajuda a ordenar o debate, não sei se já atingimos a maturidade de escutar e respeitar o outro para também poder exigir a recíproca, mas o fato é que fluiu muito gostoso. Todos participaram, inclusive os que não citei em falas específicas (por incapacidade minha, ó memória) como Cícero, você mesmo, Elô, Beth, Cyana, Niza, a advogada nova que também prestigiou o encontro, enfim, me senti assim como no anarquismo que utopicamente vislumbro um dia para os países desenvolvidos. Houve muita interação entre as falas dos participantes, concordâncias e discordâncias e complementos e novas visões que se entrecruzavam praticamente todas as vezes que nós leitores nos expressávamos. Meio que uma produção conjunta, sei lá, foi diferente.
Agradecemos à Cristiana pela indicação e pelo e-mail com suas impressões sobre o livro, que foi  impresso pelo concièrge e lido logo no início da reunião por Kátia e Beth.

Last but not least, senti falta de muitos cliceanos (em ordem alfabética) : Angela Stieger , Antonio, Benites, Cris, Elenir, Ilnea, Inês, Maria Marlie, Norma, Vera ...

Desculpem o tamanhão das anotações, mas é ainda pequena comparada à riqueza da reunião. Poderia falar menos, mas eu prefiro não, rsrsrs.

Beijos e até o Trópico de Câncer,


2 comentários:

  1. Acho que a passagem que Dília mencionou foi essa:

    "Turkey era um Inglês baixo e gordinho, mais ou menos da minha idade - ou seja, ai não muito longe dos sessenta. Digamos que de manhã o seu rosto apresentava um agradável matiz rosado, mas que após o meridiano - doze horas -, hora do seu almoço, brilhava como a grelha de um fogão de carvões de Natal; e continuava a brilhar - mas, mesmo assim, com uma diminuição gradual- até cerca das seis horas da tarde; após o que eu deixava de ver o proprietário do rosto, que alcançando o seu meridiano com o sol, parecia igualmente pôr-se com aquele, levantar-se, atingir o zénite, e declinar no dia seguinte, com a mesma regularidade e idêntica glória."

    Achei interessante a comparação que Daniel fez de Bartleby com o Messias, com a diferença de que Bartleby veio salvar o que não aconteceu e Jesus, o acontecido. Muito legal a metáfora das cartas mortas agindo sobre a psicologia do personagem, sua negação de continuar escrever, como se fosse um escritor que para de escrever romances que nada vendem, um deus que se frustra com a própria criação e se decide pela impotência.

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  2. "'Entretanto, após o meio-dia — seu horário de almoço — ele queimava como uma lareira repleta de brasas; e continuava ardendo do mesmo modo, mas arrefecendo-se pouco a pouco até aproximadamente as seis da tarde, a partir de quando eu não via mais seu rosto, que, atingindo o meridiano com o sol, parecia também anoitecer com ele, para, no dia seguinte, surgir, atingir seu ápice e pôr-se, com igual regularidade e glória indefectível. Durante o curso de minha vida, tomei conhecimento de inúmeras coincidências peculiares, e entre as não menos importantes, estava o fato de que, precisamente no momento crítico em que a fisionomia vermelha e radiante de Turkey exibia seus raios mais ardentes, começava o período do dia a partir do qual eu considerava suas capacidades profissionais seriamente prejudicadas pelo restante das vinte e quatro horas...."

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