CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

6 de março de 2016

Prêmio UFF 2013: conto classificado de Novaes/



ELA MORAVA SOZINHA

Ela morava sozinha. Não era bonita, era linda. Há uma diferença, explico. Não é que linda seja apenas mais bonita do que a bonita. Linda é que, além de bonita, ou mesmo que não seja tão bonita, linda tem personalidade, tem charme, exala inteligência. Tudo isso faz da linda muito mais bonita do que a bonita. Linda, é a tal coisa, extrapola limites, medidas, altura ou idade. Está acima dessas coisas que as bonitas precisam e se apegam como se fosse tudo o que têm na vida. Linda é outro departamento. É como se a lindeza vivesse dentro dela e, mais que isso, e por causa disso, também ao redor. Uma aura. É por isso que é difícil para os homens se aproximarem das lindas. Aquela aura dourada, ou lilás, ou roseada (a tonalidade depende das peculiaridades da linda), cria um campo de exclusão que seres inferiores, como eu, sequer conseguem se imaginar adentrando. Ela era assim, linda, inacessivel. E morava sozinha. E, repare bem, eu digo sozinha, não digo . Porque só, só no mundo, era eu. Estou só desde que me entendo por gente, criança, pelas ruas. Eu sou o próprio . Ela, não, ela era o próprio Universo. Morava sozinha, como se fosse impossível habitá-la. Não era um planeta, era uma estrela, um sol, e a luz e o fogo eram demais para nós, pobres mortais. Morar sozinha era só um detalhe do seu charme.



Conto tudo isso para o senhor entender como cheguei a esse ponto, doutor.

Havia esse meu amigo, o Jessé. Ele gostava de ser chamado de Jece, como o Jece Valadão, fama de cafajeste, de comedor, mas ele é Jessé mesmo, nome bíblico, não comia nem... deixa pra lá. Jessé era um cara doce, sabe, mas só que ele não sabia disso. Ele pensava que era coração mole, que era otário, babaca, quase florzinha porque não conseguia pegar numa arma, porra, como pode alguém na nossa profissão ter essa caraminhola na cabeça? O cara só queria saber de roubo de casa vazia. Sem contato com a vítima. Não é que ele tinha medo de ser pego; ele tinha medo é de olhar nos olhos da pessoa. Não aguentava ver o medo estampado na cara do assaltado. Uma vez ele tentou, mas quando viu o olhar da mulher ficou paralisado, confuso, quase foi pego pela polícia. Ficou um tempo atormentado. Não sabia que era doce. Jessé era quase um poeta metido no crime, uma aberração. Só voltou a roubar depois que enviou uma carta pedindo desculpas para aquela senhora, acredita? Foi aí que decidiu só roubar casa vazia. Eu acompanhava, né? Alguém tinha que tomar conta daquele maluco. É meu amigo, gente boa, mas quando entrava numa casa vazia parecia que queria tomar posse da própria casa. Abria geladeira, comia, bebia, usava o banheiro. Via televisão, deitava na cama. Isso era lei pra ele. Parecia o dono. Um prazer maluco, enquanto eu tinha que ficar apressando o cara, “vambora rapaz, daqui a pouco os donos chegam”. Bem dizer, quem fazia a limpa era eu, pegava os badulaques enquanto Jessé curtia a casa.

Até que ela apareceu, para enlouquecer a nossa vida.

Ela morava sozinha. Eu e o Jessé sabíamos. Ela chamou nossa atenção, e, o senhor sabe, nosso ofício é roubar. Foi aí que ele disse: essa mulher deve ter som, tevê de plasma e o escambau. E jóias, laptop, dinheiro em casa, talvez até dólar – eu completei. Daí foi só fazer o plano para entrar. O prédio é pequeno e não tem porteiro depois das cinco da tarde. Observamos que toda quarta-feira ela saía por volta das sete da noite. Foi só esperar ela sair. Cruzamos com ela em frente ao portão como se estivéssemos indo para algum apartamento (assim que ela apareceu, larguei o dedo do interfone e gritei “abriu!”), dei um boa-noite com um sorriso agradecido e segurei com a mão o portão antes que batesse. Lá em cima, arrombamos a porta e entramos. Nisso o Jessé era bom. Abria portas como um mágico. Parecia uma criança diante de um jogo.

Tudo ia como de praxe, Jessé já estava deitado na cama da lindona, abraçava o travesseiro, dizia que sentia o perfume, enquanto eu recolhia tudo que pudesse caber na mala que levamos. Não sei, doutor, se ela voltou antes do previsto ou se foi o Jessé que se demorou demais nos salamaleques com as coisas do apartamento. Dessa vez ele quis até tomar banho. só pra usar a toalha da mulher. Bem, isso foi o que eu pensei de início, mas depois vi que ele pegou uma toalha nova, cor de vinho, que, depois de usar, pendurou bem dobrada ao lado da toalha da dona, que era rosinha. Ficaram lá, as duas toalhas, de cores que pareciam formar um casal. Meus apelos de apressura não adiantaram, doutor, e ademais eu já estava ficando meio atordoado com aquela coisa toda do Jessé, aquele ritual, aquele teatro, o cara não via outra coisa, só a vida que havia naquele apartamento, impregnada nos móveis, nos objetos, ele ficava imaginando os passos, os gestos da mulher pela casa.

De repente ela chega no apartamento e nos vê em seu quarto. Foi um susto. Nenhum daqueles olhos queria estar ali vendo o outro. Ela olhou para a mala, aberta, com as coisas dela ali. Entendeu. Eu me adiantei, puxei o canivete e gritei “perdeu, dona!” Ela não se perturbou. Fechou a cara, com
aquela personalidade, mas não disse um “ai”. Jessé e eu, com a maior cara de culpa, tratamos de encerrar os trabalhos, fechar a mala. Mas eu ainda não havia achado dinheiro. Fui pra cima dela, apontei a lâmina e perguntei da grana. Ela olhou fixo nos meus olhos. Juro que achei que seu olhar me dizia “seu incompetente... há tanto tempo aqui e ainda não achou o dinheiro!” Aquilo me deu raiva e saí esbravejando com ela. Foi quando a desgraçada disse “isso não é justo!”. “Mas, dona, desde quando assalto é justo?”, respondi. Ficou essa conversa de maluco, e o Jessé mudo, abobalhado, sem saber o que fazer. Eu pedia o dinheiro e ela se fazia de difícil. A coisa estava saindo de controle. Comecei a gritar, ameaçar. Aí ela falou: vocês querem abusar de mim. Não sei de onde ela tirou isso, eu juro. Jessé deu um salto apressado e se pronunciou: nós não fazemos estrupo não, senhora! “Es-tu-pro” – ela corrigiu, humilhando o coitado. E continuou a humilhação: “vocês não sabem português mesmo... quando eu falei vocês querem abusar de mim, aquilo foi uma pergunta, imbecis”. Jessé abriu um olhão esbugalhado. E eu não sabia se estava entendendo o jogo daquela mulher. Aquilo estava ficando perigoso. Abusar? Abusar como? Se a gente quer? Porra... que papo é esse? “É uma questão de justiça”, voltou ela com esse argumento de doido. “Vocês vão me levar tudo e não vão dar nada em troca? Ah, não...”

A coisa estava nesse ponto quando as sirenes da polícia soaram lá embaixo. Olhei pela janela e vi uma patrulha e um camburão e os homens entrando no prédio fortemente armados. Olhei para a vaca. Ela sorriu. Saquei que havia ligado pro 190 quando viu o apartamento arrombado. Jessé estava apavorado, não juntava as ideias, muito menos as palavras. Ela fechou a porta do quarto, trancou, pegou duas camisolas curtas, transparentes, com rendinha, daquelas bem sex, e disse: “vistam!” Eu nem sabia que existia camisola daquele jeito nesse mundo, doutor. “Se quiserem que eu livre a cara de vocês, vistam!”, ela mandou. Mas antes, orientou. Virou pro Jessé e disse: “você, veste a branca”. Jessé, que é negro, vestiu a camisolinha branca e eu, branco, vesti a preta. “Sempre tive essa fantasia e a transa vai ser assim, ok?” A situação obrigava, doutor, fazer o quê?


Quando a polícia entrou no quarto, ela já estava com dinheiro na mão. Virou pros polícias e deu uma bronca, “mas o que é isso?” Nessa hora, entregou o dinheiro na minha mão e convenceu os meganhas de que eu e Jessé estávamos ali “prestando serviços”. “Olha só a roupinha deles, não estão umas gracinhas?”, ela disse. A poliçada caiu na gargalhada e foi embora, convencida de que a ligação havia partido de algum vizinho moralista ou invejoso. Sabe, doutor, aquilo foi humilhante, mas também foi um alívio. Jessé estava quase infartando, o negão já estava branco. E não é pelo fato de que ela é linda, mais gostosa do que a imaginação é capaz de imaginar, o caso é que temos que ter ética. Ela livrou nossa cara. Tínhamos que cumprir o combinado. Ela veio para a cama e a coisa aconteceu, nós três lá, tudo junto e misturado, eu e Jessé com as camisolas de rendinha.

Depois daquele dia, mantivemos toda semana o nosso encontro a três. Usávamos a indumentária, sempre, ela não abria mão. Mas ela era tão linda, tão inacessível para nós, que valia a pena. Já estávamos até acostumados. Um dia, Jessé chegou a comprar espartilho e cinta-liga. Ela ficou doida, foi uma festa.

O desencontro aconteceu por causa disso. O Jessé. Pirou o cabeção. Se apaixonou. Começou a viver no mundo da lua, a cabeça nas nuvens. Eu disse pra ele: “meu amigo, acorda!, o que você está pensando?!” Sabe o que ele me respondeu? “Depois dela, não tenho mais pensamento, só pensavento”. Porra, um poeta no crime! Anarquizou a coisa toda. Eu querendo sexo com a lindona e ele falando de amor. Eu querendo roubar umas casas e ele falando em casar, em ter a casa dele, com a mulher dele. Eu disse: “escuta aqui, ô Jessé, você está subvertendo as coisas. Deixa eu te lembrar: ladrão só tem apego pelas coisas dos outros! Onde já se viu ladrão se preocupar com seus próprios pertences? Tá virando burguês, é? Quer uma vidinha assentada, com patrimônio e coisa e tal? Tem certeza de que quer mudar de lado? Passar a ser vítima de ladrões? Já pensou? A cidade anda muito perigosa...”

Eu avisei, doutor, que aquilo não ia dar certo. O pior foi o ciúme. Nosso encontro tinha um limite e ele não entendeu. Confesso pro senhor que aquilo também me afetou. Eu sempre fui só, o Senhor Só, e bem ou mal eu tinha ali uma família. Depois da cama rolava um jantarzinho, eu fazia um macarrão, ela abria um vinho. Durante o jantar ela conversava com a gente, perguntava da nossa vida, parecia que se importava. Eu sabia que não, na verdade não, mas gostava de ouvir ela perguntar.

De repente ela parou de nos chamar pro apartamento dela. Um mês, dois meses, e nada. Agora estamos aqui, nós dois. O senhor podia ser o delegado e eu estaria aqui contando os meus crimes e o meu envolvimento com essa linda. O doutor podia ser um psicólogo e eu aqui, tentando entender meu destino. Mas, não. O senhor é o filho-da-puta que apareceu na vida da nossa lindona. Tá feliz?... Tá achando que encontrou o amor de sua vida?... É... Mas foi por causa do doutorzinho que ela deu um chute de vez na nossa bunda. Até avisou pelo telefone: “estou comprometida, sumam!” Meu amigo Jessé está inconsolável. Chora de um jeito que nem a poesia conhece. E eu perdi a minha família. Voltei a ser só, só no mundo, estou só até dentro de mim. Não tenho nem mais aquela mentira pra me consolar. Só que, veja bem doutor, o Jessé é doce. Eu não. Eu arranjei esse companheiro aqui. Conhece? É um 38. E sabe com quem eu vou gastar a primeira bala?



11 comentários:

  1. Newton, maravilha de conto, bem construído, engraçado, personagens fortes, mostra o bem e o mal em todos nós. Bom de ler e reler e reler e reler. Parabéns!!!

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  2. Inusitada a personagem feminina, muito gostoso de ser lido! Valeu a pena!

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  3. Gostei do Senhor Só,e doestar só...narrativa leve com um tema tão denso....Parabens!Como disse a Rita,vc arrazou! Ceci

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  4. Novaes, mergulhei na sua narrativa, maravilhosa! Que personagens! Que arrojo! Parabens!Zeze

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  5. Um conto com o já reconhecido estilo do autor, e com aquela pegada típica do Brocador.

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  6. Parabéns, Newton. Você enganou bem o leitor para chegar a um final inusitado e surpreendente.

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  7. que maravilha de conto, ameiiiiiiiiiiii. espartilho,camisolinha sexys rsrsr, suspense para o leitor imaginar quem é o doutor, um triângulo amoroso muito bom. Você sempre a me surpreender com suas narrativas intensas e filosóficas.

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  8. Newton não me canso de ler esse conto. E quanto mais leio, mais encantada fico. Escreva muitos outros. Aguardamos.
    Mais uma vez, Parabéns!
    Elenir

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  9. Newton, amei!
    Quanta imaginação!
    Parabéns!
    Beijos ternos, Vera.
    Que "dupla" você e Rita fazem...

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  10. Excelente, meu caro Barra. Conto danado de gostoso e bem escrito. Bom de verdade.
    Carlos Rosa

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