CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

5 de janeiro de 2016

Revivendo leituras passadas: Trem Noturno para Lisboa - Pascal Mercier





"O romance "Trem Noturno para Lisboa" (Night Train To Lisbon) fez parte da Seleção Oficial do Festival de Berlim e conta a história de Raimund Gregorius (Jeremy Irons), ou ‘Mundus’, como é conhecido por seus alunos. Professor de latim e especialista em línguas antigas, ele sofre uma reviravolta em sua vida quando encontra uma jovem portuguesa numa ponte de Berna, na Suíça. Impedindo que a jovem cometa o suicídio, ele fica intrigado com o desaparecimento dela, que deixa apenas um casaco vermelho para trás, um livro no bolso e uma passagem de trem para Lisboa. A aventura segue na capital portuguesa e faz com que o professor viva uma busca pelo verdadeiro sentido da vida, enquanto se embrenha em quebra-cabeças e mistérios."





"Também destaque da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme que é baseado no best seller homônimo, tem estreia nacional prevista para dia 22 de novembro de 2013."


    Dezasseis pessoas a bordo. Alguns passageiros novos que trouxeram contribuições muito interessantes. Outros passageiros retornaram após um longo período de ausência do Clube. Antes do início das discussões, houve algumas ponderações sobre participação virtual na escolha do livro do mês; que o período de um mês é muito pouco para lermos um livro, tornando as leituras apressadas ou não dando tempo para se ler a obra, e outras considerações bastante polêmicas. Cantamos, então, parabéns para nossa leitora fundadora do Clube nos idos de 1998 e começamos as discussões.

    Embora não podendo participar da reunião por ser um dos participantes virtuais de nosso Clube, as contribuições do nosso leitor de Campinas foram muito citadas na noite. O piano de Jorge, as variações de Goldberg, Estefânia, Maria João, os estados novos português e brasileiro, a tortura em João Eça, o trem como uma alegoria da vida, a intensa identificação de Gregorius e Amadeu, mesma idade dos dois na momento da busca de Gregorius, embora em tempo diferente, mesmo mal físico o “que pode ter sido resultado da profunda identificação”, a intenção de ainda voltar em Salamanca, as línguas antigas e o português, um latim moderno falado nas ruas que ofereceu ao protagonista a ponte para o despertar de sua vida, o evento da ponte que colocou Gregorius diante da questão da finitude da vida, a magia da chuva, da ponte, do encontro com a portuguesa misteriosa que nunca mais reaparece, mas que muda sua vida, etc.

   Nada como outros pontos de vistas, de outros leitores, para nos ajudar a ler um livro e repensar nossa interpretação, nos estimulando a refletir sobre nós mesmos antes de concluir algo.  As primeiras impressões da leitura do “Trem Noturno para Lisboa” não foram nada animadoras. Achava que o escritor suíço, para se distanciar de sua problemática pessoal, teria projetado suas questões em um personagem estrangeiro, no que essa palavra teria de mais remoto para ele, um português atormentado contra o qual ele poderia se sentir bem blindado para expor seu alter ego. E o narrador, meloso e mórbido ao mesmo tempo, parecia-me ser daquelas pessoas que grudam na gente obsessivamente, que tentam viver a nossa vida. Meio obsessivo, não?

   Muita coisa me incomodou no livro: a síndrome do protagonista que enfrenta qualquer oponente no jogo do xadrez, mas acha ridículo enfrentar a vida quando se tem tanto a enfrentar em si mesmo. O questionamento sobre como seriam as coisas se não fossem como são, de como podemos ser aquilo que não fazemos, etc.

   Houve um momento da viagem em que, olhando pela janela, avistei “O Homem que Via o Trem Passar” (Georges Simenon) e invejei sua posição. Em outro momento da viagem descobri, enfim, por que não estava gostando do livro: eu me sentia perdendo a partida (o autor nos faz sentir que viver pode ser como se jogássemos uma partida de xadrez). Eu levava cheque-mate sobre cheque-mate, mas persisti na viagem, resistindo às tentações, sem descer nas estações intermediárias, que descobri também, depois, serem meras miragens, porque o trem nunca para nas estações. Lembro-me de ter alegado em uma das minhas postagens que o autor era muito cheio de arroubos, superlativos e adjetivos, mas... a viagem da vida não é assim? Por diversas vezes ameacei pular do trem, estrebuchei, não parecia literatura aquela mania do autor de deixar tudo explicadinho. Houve quem me incentivasse a pular, talvez sensíveis ao incômodo que o culto à personalidade de um personagem que não conseguia superar seus complexos de culpa me causava (será que tenho problema com isso?). Segui o conselho do próprio Amadeu que afirma que devemos buscar as desilusões, continuei me iludindo que o livro poderia melhorar na próxima estação. Ou, quem sabe, no fundo estivesse buscando a desilusão final da última página do romance. O livro mexeu também com o meu lado comodista de sempre aceitar a vontade que não é a minha, minha síndrome do “seja feita a sua vontade”. Ao chegar ao fim dessa viagem devo reconhecer que o livro tem passagens geniais ao lado de outras horríveis, como a vida em geral. 

   E afinal, a vida é o que vivemos ou o que imaginamos viver? E parece, ela, a um jogo de xadrez?







Amigos, para mim, este foi um dos melhores livros lidos no Clube. Espero que o filme lhe faça jus.
Aguardemos. Abs.
Elenir 

Trem Noturno para Lisboa



13 comentários:

  1. Perfeito como sempre! Parabéns pelo relato e pelas reflexões sobre o livro! Foi uma boa reunião e uma excelente votação! Lamentamos somente a ausência de amigos queridos.

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  2. Querida Cintia e amigos do Clube de Icaraí:
    Eu também sinto muita admiração pelo trabalho de vocês.
    Seu clube de leitura é muito legal! Junto com Andréa sempre falamos que algum dia adorariamos conhecer vocês pessoalmente. Desde já estao todos convidados a participar de nossos encontros e de nosso blog.

    Com relação ao Trem Noturno a Lisboa: nosso grupo gostou muito do livro, conseguimos debater e nos fazer bastantes perguntas sobre a vida mesma.
    Copio o link com nossos comentários:
    http://nossoclubedeleitura.blogspot.com/2010/04/abril-de-2010-pascal-mercier.html

    Eu penso que a vida é um jogo. Um jogo de infinitas variáveis, um laberinto de idéias, pessoas, experiências, sensações... Penso que é importante acreditar em nossos sonhos e viver na procura da felicidade sem ter medo de arriscar nem de mudar nosso rumbo.

    Gostei muito da seguinte frase:
    “Força-te, força-te a vontade e violenta-te, alma minha; mais tarde, porém, já não terás tempo para te assumires e respeitares. Porque de uma vida apenas, de uma única dispõe o homem. E se para ti esta já quase se esgotou , nela não soubeste ter por ti respeito, tendo agido como se a tua felicidade fosse a dos outros... Aqueles, porém, que não atendem com atenção os impulsos da própria alma são necessariamente infelizes.” Marco Aurelio.

    Obrigada por seu lindo comentário!
    Um abraço literário!!
    Gabriela
    www.nossoclubedeleitura.blogspot.com

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  3. Adorei a escolha do próximo livro. Philip Roth está na minha lista há anos... Quem sabe eu consiga ler e acompanhar os comentários do Clube de Leitura Icaraí.

    btw, li nos últimos dias o livro de Luzia de Maria - O clube do livro - e lembrei que ela é da UFF. Vocês a conhecem?

    Abraço,
    Andréa

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  4. Acabei de ler Trem noturno para lisboa e senti uma vontade enorme ou melhor uma necessidade de comentar, trocar idéias com alguém, foi uma surpresa boa descobrir um clube de leitura em Icaraí, ruim saber que vocês já leram e discutiram o livro .... Sei que provavelmente ningué lerá esse post, que já é passado, mas mesmo assim vou aproveitar o espaço para colocar aqui uma das coisas que mais me fez pensar, primeiro isso, que ´eum livro qeu faz agente pensar, pensar muito na vida, e nas escolhas na finitude e nas mudanças, sim na força avassaladora de uma mudança inesperada, como ela envolve as outras pessoas, como nós admiramos os capazes de mudar; faz pensar também na força da imagem que temos da nossa vida e em como podemos estar desperdiçando nosso tempo quando fazemos o que não queremos ou nas agastamos com respostas que nunca serão dadas e brigas imaginárias contra pessoas que nos agrediram algum dia (em dúvida nisso não tem nem o que pensar, na hora final certamente todos nós consideraremos esse tempo jogado fora).
    Agora o final do livro foi chato, muito drama, confuso, de dá vertigens não acrescentou nada para história e deixa um ponto de interrogação, no meu ver desnecessário, talvez tenah sido a maneira que o autor encontrou de tirar o protagonista de Lisboa, não sei...
    Já escrevi demais e não sou boa em me expressar assim, tenatrei acompanhar o clube para descutir os livros do momento.

    Obrigada
    Tatiana

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  5. Que bom que escreveu, Tatiana! É para isso mesmo que existem os clubes de leitura, para que possamos dividir nossas opiniões com outros que também leram o mesmo livro, mas, não necessariamente fizeram a mesma leitura. Assim trabalhamos melhor o que lemos, além que descobrir coisas novas com o que nossos amigos nos contam.
    Continue participando e, se tiver a change, apareça nas reuniões!

    Um abraço!

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    1. Bom dia Clube de leitura de Icaraí. Navegando pela internet, e postando no recente blog que lancei - Chaliterariodatereza - fiquei atraída por desconhecer este clube de leitura. Acabei fazendo o blog por incentivo de amigos e parentes que, sempre me vendo ler e sabendo do meu gosto pela escrita, me orientaram a criar o blog. No entanto, com o blog, parece que todos sumiram, e fico eu, em monólogo comigo, lendo e colocando em pequenos textos o que de interessante aquele livro trouxe para mim, com qual personagem houve identificação ou simplesmente como exercicio de leitura apenas escrever sobre o que se leu. Hábito meu antigo, aliás. Por isto saber deste clube abriu meu interesse em vcs. Me de mais noticias de como posso participar. Um abraço e boas leituras.

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  6. ola! acabo de passar pela mesma experiencia. Acabei de ler esse livro e com vontade de conversar com alguem e dividir impressoes acabei vindo parar aqui.. ..fiquei surpreso ao ler que ha alguem de Campinas participando do grupo. Também moro em Campinas e gostaria de manter contato com esse participante. Um grande abraço, Wande (wandefilho@hotmail.com)

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  7. Elenir, querida, que boa lembrança você teve com esse livro do Pascal Mercier. Eu não participava do grupo quando de sua leitura, mas o li depois e amei. Também considero um dos melhores lidos pelo CLIc. Na nossa reunião de sexta, selecionamos uma frase dele, que agora reproduzo maiorzinha, para reflexão. Está na pág 233:

    A desilusão é considerada um mal. Trata-sede um preconceito irrefletido. Como, se não através da desilusão, iríamos descobrir o que esperamos e desejamos? E onde encontrar um momento de auto-conhecimento, senão precisamente a partir desta descoberta? Como alguém poderia ter clareza acerca de si próprio sem a desilusão?

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  8. Vi o trailer do filme e parece muito bom!
    Ceci

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  9. Respostas
    1. Estava esperando alguém ver o filme para saber porque o 'bonequinho' até dormia, eu desanimei de ver, mas agora com seu aval, verei. Se bem que eu adorei o livro do Pascal Mercier, se o filme for parecido já vou gostar.

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  10. Filme vs Livro.

    Somente tive oportunidade de ver o filme ontem (15/03/2014), um "gap" grande entre a leitura do livro e o filme. Recordava que havia gostado do livro, principalmente dos trechos do livro do Amadeu, mas que a narrativa nos últimos 2/3 se tornava enfadonha e até confusa, culminando num final que não gostei. O filme, ao contrário, enxuga a narrativa, corta personagens, sequências de fatos, torna a história mais limpa e, ao final, pude dizer: " Gostei, mas não é o livro de Pascal Mercier". A relação que o leitor pode ter com as palavras de um livro, até ao ponto de sair pelo mundo buscando conhecer esse escritor capaz de por em palavras a sua (e a do leitor) própria alma ( eu sairia por Lisboa buscando Fernando Pessoa, sem dúvida!), o filme, infelizmente, não chegou nem perto de conseguir. Eis o que faz um bom livro: fazer com que a vivência de lê-lo, torne-se maior do que a própria história.

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  11. O filme vale ser visto. Li o livro e recomendo o filme.

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