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O Clube de leituras não obrigatórias

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10 de janeiro de 2016

A festa da insignificância: Milan Kundera


Uma ode à (in) significância


Durante a matemática da vida, seguimos somando e subtraindo amigos. Próximos ou distantes, amizades são laços, fios que vão crescendo e solidificando-se com o compartilhamento de momentos (alegres ou tristes), confidências, segredos e sonhos. Dizem, que se uma amizade ultrapassar sete anos é muito provável que perdure por toda a vida. Curioso, é que por vezes, já me questionei sobre como uma amizade pode durar por tanto tempo? Seria a admiração e o respeito pela outra pessoa? Preferências de todas as formas em comum entre ambos? Ou seria, na verdade pelo espelho que projetamos nessa pessoa, ao identificarmos algo que (intimamente) possuímos?
A festa da insignificância do escritor tcheco Milan Kundera, tem como pano de fundo da sua narrativa os anseios, desejos e medos de quatro amigos na Paris dos dias de hoje. O autor consegue verter de uma miscelânea sobre Stalin e seus compatriotas comunistas, um câncer, umbigos e toda a sorte de ironia criativa do autor, em uma prosa agradável e reflexiva em pouco mais de 130 páginas.
Pautado pelo banal e mundano, o primeiro romance inédito de Kundera, após um hiato de 14 anos, soa provocativo, despretensioso e por vezes, (in)significante. Publicado no Brasil, pela Companhia das Letras, em uma edição cuidadosa, o título possui tradução da veterana Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. O romance está dividido em sete partes com capítulos curtos, se estabelecendo como uma ode à (in)significância da vida, ao (f)útil do cotidiano e à ironia dos encontros e desencontros entre amigos.
Relatando cenas prosaicas do cotidiano desses personagens, Kundera vai tecendo um retrato fragmentado destes. Um retrato formado por Ramon, Alain, Charles e Calibã. Adicionando mais um elemento (mais um amigo – D’Ardelo – na narrativa), o autor propõe uma leitura aberta e livre de preconcepções que segue inserida entre a filosofia e a sólida literatura.
Um enredo que no Jardim de Luxemburgo e pelas ruas de Paris, vai contando sobre a divagação (e substituição) erótica que determinado personagem faz, ao trocar as coxas e os seios das mulheres, por um símbolo nada usual do corpo feminino, o umbigo. Outro segue relatando sobre as trivialidades da própria existência. Um terceiro assume outra nacionalidade buscando se tornar interessante e concretizar uma paixão platônica. Um quarto é acometido de um (falso) câncer, onde o pronunciamento dessa sentença se faz ocasião, para a reunião dos demais. Esta sendo a verdadeira festa da insignificância que encerra o livro.

“A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la. Aqui, nesta parte, diante de nós, olhe, meu amigo, ela está presente com toda a sua evidência, com toda a sua inocência, com toda a sua beleza. Sim, sua beleza.” 

Elegante, leve, lírico e complexo.

A (in) significância também é encontrada ao fim do livro e no sentimento que o mesmo proporciona ao leitor. Um fim abrupto, mas íntimo e contemplativo. Aberto a interpretações e associações. Cabe ao leitor encontrar a sua (in) significância.

Fonte






"A festa da insignificância, de Milan Kundera, é o tipo de leitura que nos faz acreditar que existe uma beleza imensa em envelhecer e que não se dar muita importância é o único caminho possível." 


(Mônica Montone)



"Na vida dita civilizada, ganha aquele que conseguir tornar o outro culpado. Perde aquele que reconhecer sua culpa."



Alain pensa sobre o umbigo

Era o mês de junho, o sol da manhã surgia das nuvens e Alain caminhava lentamente por  uma  rua  parisiense. Ele observava as moças que, todas, mostravam o umbigo entre a calça de cintura  muito baixa e a camiseta cortada muito  curta.  Estava encantado; encantado e até mesmo perplexo:  como se o poder de sedução delas não se concentrasse mais nas coxas, nem na bunda,  nem nos seios, mas naquele  pequeno  buraco  redondo situado  no meio do corpo.
Isso o incitou a refletir: se um homem (ou uma época) vê o centro da sedução feminina nas coxas, como descrever e definir a particularidade dessa orientação erótica? Improvisou uma resposta:  o comprimento das coxas é a imagem metafórica  do caminho, longo e fascinante (é por isso que as coxas devem ser longas), que leva à realização erótica; de fato, pensou Alain, mesmo no meio do coito, o comprimento das coxas empresta à mulher a magia romântica do inacessível.
Se um homem (ou uma época) vê o centro  da sedução feminina na bunda, como descrever e definir a particularidade dessa  orientação erótica?  Improvisou uma resposta:  brutalidade; alegria; o caminho  mais curto em direção  ao objetivo;  objetivo  ainda  mais excitante  porque duplo.
Se um homem (ou uma época) vê o centro  da sedução feminina nos seios, como descrever e definir a particularidade dessa  orientação erótica?  Improvisou uma resposta:  santificação da mulher;  a Virgem Maria  ama- mentando Jesus; o sexo masculino  ajoelhado diante  da nobre missão do sexo feminino.
Mas como definir o erotismo  de um homem (ou de uma época) que vê a sedução  feminina  concentrada no meio do corpo, no umbigo?


Ramon passeia no Jardim de Luxemburgo 


Mais ou menos no mesmo instante em que Alain refletia sobre as diferentes fontes de sedução feminina, Ramon se encontrava perto do museu situado bem próximo ao Jardim de Luxemburgo, onde estavam expostos, já fazia um mês, quadros de Chagall. Queria vê-los, mas sabia de antemão que não encontraria forças para se deixar transformar de bom grado numa parte daquela interminável fila que lentamente se arrastava em direção ao caixa; observou as pessoas, as fisionomias paralisadas pelo tédio, imaginou as salas, onde seus corpos e seus comentários cobririam os quadros, de modo que um minuto depois se virou e foi passear numa aleia do parque. 

Lá, a atmosfera estava mais agradável; o gênero humano parecia menos numeroso e mais livre: havia os que corriam, não porque estivessem apressados, mas porque gostavam de correr; havia os que passeavam e tomavam sorvete; havia no gramado discípulos de uma escola asiática que faziam movimentos bizarros e lentos; mais adiante, no imenso círculo, havia grandes estátuas brancas de rainhas e de outras nobres damas de França, e, ainda mais adiante, no gramado entre as árvores, em todas as direções do parque, esculturas de poetas, de pintores, de sábios; parou na frente de um adolescente mulato que, sedutor, nu sob um calção curto, lhe ofereceu máscaras que representavam o rosto de Balzac, de Berlioz, de Hugo, de Dumas. Ramon não pôde conter um sorriso e continuou seu passeio naquele jardim de gênios que, modestos, cercados pela gentil indiferença dos passantes, deviam se sentir agradavelmente livres; ninguém parava para observar o rosto deles ou ler as inscrições nos pedestais. Essa indiferença, Ramon a respirava como a uma calma que consola. Pouco a pouco, um largo sorriso quase feliz apareceu em seu rosto.





O câncer não acontecerá 


Mais ou menos no mesmo instante em que Ramon renunciava à exposição de Chagall e preferia passear no parque, D’Ardelo subia a escada que levava ao consultório de seu médico. Estávamos, naquele dia, a exatamente três semanas do aniversário dele. Já muitos anos antes, ele tinha começado a detestar os aniversários. Por causa dos números que se colavam neles. No entanto, não conseguia esnobá-los, pois a felicidade de ser festejado superava nele a vergonha de envelhecer. Ainda mais que, dessa vez, a visita ao médico acrescentava à festa uma nova cor. Pois era hoje que ele iria conhecer os resultados de todos os exames que lhe diriam se os sintomas suspeitos descobertos em seu corpo se deviam ou não ao câncer. Entrou na sala de espera e repetiu interiormente, com voz trêmula, que dali a três semanas festejaria ao mesmo tempo o nascimento tão distante e a morte tão próxima; que celebraria uma festa dupla. 

Assim que viu o rosto sorridente do médico, compreendeu que a morte tinha se desconvidado. O médico apertou-lhe fraternalmente a mão. Com lágrimas nos olhos, D’Ardelo não pôde pronunciar uma só palavra. O consultório do médico ficava na avenida do Observatório, a cerca de duzentos metros do Jardim de Luxemburgo. Como D’Ardelo morava numa pequena rua do outro lado do parque, ele o atravessou novamente. O passeio pelo verde tornou o seu bom humor quase incontrolável, sobretudo quando ele deu a volta no grande círculo formado pelas estátuas das antigas rainhas da França, todas esculpidas em mármore branco, de pé, em poses solenes que lhe pareceram engraçadas, quase alegres, como se aquelas damas também quisessem comemorar a boa notícia que acabara de receber. Não conseguindo se conter, ele as saudou duas ou três vezes com a mão erguida e desatou a rir. 




O charme secreto de uma doença grave 


Foi em algum lugar por ali, nas proximidades das grandes damas de mármore, que Ramon encontrou D’Ardelo, que, um ano antes, ainda era seu colega numa instituição cujo nome não nos interessa. Pararam um em frente ao outro e, depois das saudações habituais, D’Ardelo, com uma voz estranhamente excitada, começou a contar: 

— Amigo, você conhece La Franck? Há dois dias seu grande amor morreu. 

Ele fez uma pausa, e na memória de Ramon apareceu o rosto de uma bela mulher famosa que ele conhecia apenas de fotografias. 

— Uma agonia muito dolorosa — continuou D’Ardelo. — Ela viveu tudo com ele. Ah, como ela sofreu! 

Interessado, Ramon olhou para o rosto alegre que contava uma história fúnebre. 

— Imagine que na noite do mesmo dia em que, de manhã, ele morria em seus braços, ela jantou comigo e com alguns amigos, e, você não vai acreditar, estava quase contente! Eu a admirei! Aquela força! Aquele amor pela vida! Com os olhos ainda vermelhos de choro, ela ria! E, no entanto, nós todos sabíamos como ela o amara! Como deve ter sofrido! Aquela mulher tem uma força! 

Exatamente como quinze minutos antes no médico, as lágrimas brilharam nos olhos de D’Ardelo. Pois, ao falar da força moral de La Franck, ele pensava em si mesmo. Não tinha ele vivido também um mês inteiro na presença da morte? A força de seu caráter não teria também passado por uma rude prova? Mesmo transformado numa simples lembrança, o câncer continuava com ele como a luz de uma pequena lâmpada que, misteriosamente, o encantava. Mas conseguiu dominar seus sentimentos e assumiu um tom mais prosaico: 

— A propósito, se não me engano, você conhece alguém que sabe organizar coquetéis, cuidar das comidas e de tudo mais. 

— É verdade — disse Ramon. 

E D’Ardelo: 

— Vou fazer uma pequena festa no meu aniversário. 

Depois dos comentários excitados sobre a famosa Franck, o tom leve da última frase permitiu que Ramon sorrisse: 

— Estou vendo que sua vida está divertida. 

Curioso; essa frase não agradou a D’Ardelo. Como se o tom muito leve anulasse a estranha beleza de seu bom humor magicamente marcado pelo páthos da morte cuja lembrança não deixava de existir dentro dele: 

— É, estou bem — disse, e depois de uma pausa acrescentou: — … mesmo que… 

Fez mais uma pausa, depois: 

— Sabe, acabo de voltar do médico.

O constrangimento no rosto de seu interlocutor agradou-lhe; prolongou o silêncio, de modo que Ramon teve que perguntar: 

— E então? Algum problema? 

— Sim. 

Mais uma vez D’Ardelo se calou, e mais uma vez Ramon teve que perguntar: 

— Que foi que o médico disse? 

Foi nesse momento que D’Ardelo viu nos olhos de Ramon seu próprio rosto como num espelho: o rosto de um homem já velho, mas ainda bonito, marcado por uma tristeza que o tornava ainda mais atraente; pensou que aquele belo homem triste em breve iria celebrar seu aniversário e a ideia que ele tinha alimentado antes da visita ao médico lhe veio novamente à cabeça, a ideia encantadora de uma festa dupla celebrando ao mesmo tempo o nascimento e a morte. Continuou a se observar nos olhos de Ramon, depois, com uma voz muito calma e muito suave, disse: 

— Câncer… 

Ramon gaguejou alguma coisa e, desajeitadamente, fraternalmente, encostou uma das mãos no braço de D’Ardelo: 

— Mas isso tem tratamento… 

— Tarde demais, infelizmente. Mas esqueça o que acabei de dizer, e não conte a ninguém; prefiro que pense no meu coquetel. É preciso viver! — disse D’Ardelo, e, antes de seguir seu caminho, como despedida levantou a mão e, nesse gesto discreto, quase tímido, havia um charme inesperado que emocionou Ramon.

Um comentário:

  1. Olá! Gostei desse livro, que é filosófico e profundo. Bjs Andreia www.mardevariedade.com

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