CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

16 de dezembro de 2015

Angústia: Graciliano Ramos


Amigos, não foi um crítico conhecido, mas, sim, uma revista americana que falou de Angústia. Vejam as palavras do filho Ricardo Ramos:

"E não sei de uma alegria maior, nunca o vi tão satisfeito como após a leitura numa revista americana, de artigo considerando Angústia não apenas o romance de um drama pessoal, um ensaio sobre a loucura chegando ao crime, mas, e principalmente, a crônica da condição do intelectual nos países subdesenvolvidos da América Latina."


Elô




Ao Clube de Leitura,

Obrigada, Elô, por ajudar-nos a conhecer melhor  o nosso grande escritor Graciliano Ramos. Angústia me deprimiu, me angustiou, mas, por isso mesmo, considero-o um grande romance. Sobre ele disse Ferreira Gullar:


...Graciliano, na sua aparente rudeza, comovia-se com o desamparo de seus personagens, nos quais identificava o seu próprio desamparo e de todo ser humano, "este bicho da terra tão pequeno".


E, Luiz Gutemberg disse: Luis da Silva somos nós.

Abraços.

Elenir


As meninas da foto são Elô e Elenir, por ocasião de outro livro do velho Graça debatido no CLIc


Sinto uma comichão nos braços, as mãos se mexem como se eu estivesse com câimbra, oito dedos se dobram em pressão máxima, comprimindo as palmas. Só os polegares estão livres numa posição que me lembra figa. Preciso de sorte. Sorte para não esvair-me nessa angústia do Luis da Silva que mora aqui perto. Sorte para não sucumbir a essa ameaça imprecisa, porém avassaladora, que quer abrir caminho pelo meu ventre acima, gritar impropérios e partir para o ataque.

Tenho uns vidrinhos invisíveis onde guardo a raiva, de vez em quando eles enchem e eu tenho que levar para o depósito de Gramacho, mas agora esse lixão fechou e não sei como fazer. Se não jogo fora, volta tudo para o meu sangue quente e me contamino com mais de mim. Ah isso não, já estou em fervuras, examine minhas bolhas que você vai ver que é verdade.

A face mais bela da vida, a face mais bela da vida, olhe para ela, me diz a voz do bem que anda perdendo ultimamente. Não está do lado esquerdo nem do direito. Onde então? Pescoço pra cima, procuro no alto e nada, pescoço pra baixo, ai, é aí, acorda, a corda, essa não, está me apertando, as letras saem mais finas, quase não consigo escrever, o sangue segue de va gar, o  san gue  cor re  len to , cor re  l en do,  es cor re, c or re  que  is so  pe ga.


Rita Magnago


Luís da Silva

O que é Angústia:

Angústia é a sensação psicológica que se caracteriza pelo sufocamento, pelo peito apertado, ansiedade, insegurança, falta de humor, e com ressentimentos aliados a alguma dor. No campo psiquiátrico a angústia é considerada uma doença e precisa ser tratada.

Para a psiquiatria, a angústia está muito próxima da depressão, embora que, nem sempre quem tenha angústias periódica pode estar sofrendo de depressão e sim uma manifestação da ansiedade que é o receio do futuro.

A angústia também pode estar ligada a causas psicológicas como, complexos, traumas, meio familiar repressores ou desgastantes, podem desencadear sensações de opressão. A angústia somente será considerada uma doença, quando aparecerem outros sintomas, como falta de concentração, tristeza permanente, inquietação, pensamentos negativos.

As pessoas que apresentam quadro de angústia e não tem acompanhamento profissional desenvolvem outros distúrbios emocionais, como cansaço físico e mental, comportamento inadequado e baixa auto-estima.

A angústia é uma emoção que está à frente de um acontecimento, uma circunstância, ou ocorre por lembranças traumáticas. A angústia acontece também em estados paranóicos onde a percepção das coisas é muito maior e destorcida.

Entre os povos da antiguidade, os gregos procuravam combater a angústia, criando uma sociedade baseada no principio do equilíbrio, isto é, nada em demasia, como forma de combater nossos instintos e paixões. Assim surgiram as tragédias gregas que como arte da representação e da aparência nos coloca em contato com toda a tragégia e angústia da existência.

Alguns filósofos dizem que a angústia surge no momento que o homem percebe a sua condenação à liberdade, por isso se sente angustiado já que sabe que é o senhor do seu destino.

(Extraído do site http://www.significados.com.br/)

Mariana Novelli Hardman


Título: Angústia

Ano de Produção: 2009

Técnica: Pastel oleoso sobre papel

Dimensão: 46,0 x 33,5 cm






“Os vagabundos não tinham confiança em mim. Sentavam-se, como eu, em caixões de querosene, encostavam-se ao balcão úmido e sujo, bebiam cachaça. Mas estavam longe. As minhas palavras não tinham para eles significação. Eu queria dizer qualquer coisa, dar a entender que também era vagabundo, que tinha andado sem descanso, dormido nos bancos dos passeios, curtido fome. Não me tomariam a sério. Viam um sujeito de modos corretos, pálido, tossindo por causa da chuva que lhe havia molhado a roupa. A luz do candeeiro de petróleo oscilava no balcão gorduroso. Homens de camisa de meia exibiam músculos enormes, que me envergonhavam. Encolhia-me timidamente. Não simpatizavam comigo. Eu estava ali como um repórter, colhendo impressões. Nenhuma simpatia. A literatura nos afastou: o que sei deles foi visto nos livros.” 






 
Auto-retrato de Graciliano Ramos aos 56 anos

O velho Graça
Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas
Casado duas vezes, tem sete filhos
Altura 1,75
Sapato n.º 41
Colarinho n.º 39
Prefere não andar
Não gosta de vizinhos
Detesta rádio, telefone e campainhas
Tem horror às pessoas que falam alto
Usa óculos. Meio calvo
Não tem preferência por nenhuma comida
Não gosta de frutas nem de doces
Indiferente à música
Sua leitura predileta: a Bíblia
Escreveu "Caetés" com 34 anos de idade
Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados
Gosta de beber aguardente
É ateu. Indiferente à Academia
Odeia a burguesia. Adora crianças
Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz
Gosta de palavrões escritos e falados
Deseja a morte do capitalismo
Escreveu seus livros pela manhã
Fuma cigarros "Selma" (três maços por dia)
É inspetor de ensino, trabalha no "Correio do Manhã"
Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo
Só tem cinco ternos de roupa, estragados
Refaz seus romances várias vezes
Esteve preso duas vezes
É-Ihe indiferente estar preso ou solto
Escreve à mão
Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio
Tem poucas dívidas
Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas
Espera morrer com 57 anos



Aos amigos do CLIC e a Elô, especialmente,

Obrigada, Elô,  pela divulgação da entrevista com a neta do Graciliano, Elizabeth Ramos, que ajuda muito a compreender a obra. Sinto a angústia de Luiz da Silva, O livro me angustia. A repetição das palavras, das frases, a monotonia, a história de cada uma das personagens daquele ambiente miserável e, principalmente, a de Luiz da Silva, com aquela corda no bolso, por toda essa angústia crescente, cresce, cada vez mais, minha admiração por esse grande romancista. Estou satisfeita por estar lendo mais uma grande obra no nosso CLIC.

Desejo a todos um domingo leve, prazeroso, nada angustiante.

Abraço.

Elenir

<==>


Elenir, boa tarde e  bom fim de domingo. Boa noite,Clube!

Seu e-mail vem aliviar a minha  angustia pessoal, com certeza, ao ver o silencio que se fazia em torno do livro. Graciliano merece toda nossa atenção. É demais!! ...

Eloisa Helena (Elô).

* * *

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.


Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."                  




"...Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição... os autores resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres da Rua da Lama."


"Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente! Vamos andando sem nada ver. O mundo é empastado e nevoento. Súbito uma coisa entre mil nos desperta a atenção e nos acompanha. Não sei se com os outros se dá o mesmo. Comigo é assim. Caminho como um cego, não poderia dizer porque me desvio para aqui e para ali. Frequentemente não me desvio - e são choques que me deixam atordoado: o pau do andaime derruba-me o chapéu, faz-me um calombo na testa; a calçada foge-me dos pés como se se tivesse encolhido de chofre; o automóvel pára bruscamente a alguns centímetros de mim, com um barulho de ferragem, um raspar violento de borracha na pedra e um berro de chauffeur. Entro na realidade cheio de vergonha, prometo corrigir-me. - "Perdão! Perdão!" digo às pessoas a que me abalroam porque não me afastei do caminho. As pessoas vão para os seus negócio, nem se voltam, e eu me considero um sujeito mal-educado. Tenho a impressão de que estou cercado de inimigos, e, como caminho devagar, noto que os outros têm demasiada pressa em pisar-me os pés e bater-me nos calcanhares. Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. Quero recolher-me, afastar-me daqueles estranhos que não compreendo, ouvir o Currupaco, ler, escrever. A multidão é hostil e terrível. Raramento percebo qualquer coisa que se relacione comigo: um rosto bilioso e faminto de trabalhador sem emprego, um cochicho de gente nova que deseja ir para a cama, um choro de criança perdida. (...) Tudo foi visto ou ouvido de relance, talvez não tenha sido visto nem ouvido bem, mas avulta quando estou só - e distingo perfeitamente a criança, o operário faminto, os namorados que desejam deitar-se. Eles me invadiram por assim dizer violentamente."

                                    (Trecho do romance Angústia)

Iberê Camargo

Table rase.
J'ai tout balayé.
C'en est fait.
Je me dresse nu sur la tierre vièrge,
derrière le ciel à repeupler.

(Gide)


10 comentários:

  1. Linguagem com firmeza viril.

    ResponderExcluir
  2. Uma pena que as pessoas não estejam dando tanta atenção ao livro do mês.

    ResponderExcluir
  3. Uma pesquisa:
    http://www.significados.com.br/angustia/

    ResponderExcluir
  4. Muito boa a entrevista. Esclarecedora.
    Mesmo estando nas últimas páginas me ajudou muito. Uma coisa que notei logo foi a repetição de algumas palavras (rato) entre outras. Ela fala também sobre isso...
    Me deu vontade de fazer uma releitura.
    A reunião promete ser muito interessante.
    Beijos ternos,
    Vera.

    ResponderExcluir
  5. Belo comentário, Rita. Poesia, com algo de concreta ao final. Bela homenagem ao autor e seu romance.

    ResponderExcluir
  6. Rita, que bom vê-la expressar desta forma tão subjetiva , mesmo que ficcional, criativa, sua angustia diante da leitura. Se isso pega? Pega mesmo!! A angustia , tão bem expressa por Graciliano em seu romance, pegou muita gente. Um rapaz, depois de ler Angústia suicidou-se.Isso desgotou imensamente a Graciliano Ramos. Por outro lado, o livro recebeu fortes elogios de um grande crítico americano, o que lhe deu imensa satisfação. Depois localizarei o nome do crítico.O livro onde li isso, anda sumido...
    Parabéns. Ah, esse livro, Angústia, era o preferido de Graciliano, mesmo que nunca o tenha declarado.Seu filho é quem declara isso.
    Parabéns!
    Elô

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Newton e Elô. Acho que este romance tem o nome justo, a coisa vai num crescendo e consome tudo. E para a gente se livrar dessa angústia sem enforcar ninguém tem que deixar fluir de alguma forma. Creio que na reunião muitos rios passarão, ou nós passarinhos.

      Excluir
  7. Amigos, não foi um crítico conhecido , mas, sim, uma revista americana que falou de Angústia. Vejam as palavras do filho Ricardo Ramos:
    "E não sei de uma alegria maior, nunca o vi tão satisfeito como após a leitura numa revista americana, de artigo considerando Angústia não apenas o romance de um drama pessoal, um ensaio sobre a loucura chegando ao crime, mas , e principalmente, a crônica da condição do intelectualnos países subdesenvolvidos da América Latina."

    ResponderExcluir
  8. Querida Rita, Parabéns pelo seu texto! Você conseguiu colocar no papel a angústia de Luiz da Silva que passou a ser, também, a sua. Jorge Amado em resenha publicada no "Boletim de Ariel", em 1936, traduziu muito bem a angústia que se apropria do leitor ao ler esse magistral romance:
    "[...]Mais uma vez eu quero dizer aqui uma coisa que já escrevi a respeito de Graciliano Ramos: os romancistas, em geral, nos dão diversas sensações fortes ou amáveis: nos comovem, por vezes nos fazem chorar; nos revoltam, nos põem melancólicos ,enfim, fazem muita coisa. Porém, o romancista de Angústia nos arranca o estômago. Nos põe meio alucinados, doentes enraivecidos, nervosos. Todas as sensações juntas ele nos dá. Aí é que está a sua força".
    Parabéns, mais uma vez, Rita.
    Elenir

    ResponderExcluir
  9. Obrigada, Elenir. O romance de Graciliano passa muita verdade. Embora esteja longe de ser dos meus temas favoritos, gosto dos livros em que creio, em que a situação vivida pelo protagonista é presente e contaminante, onde parece que respiramos a sua angústia e seguimos transpirando suores misturados, fundindo sensações com o autor.

    ResponderExcluir

Prezado leitor, em função da publicação de spams no campo comentários, fomos obrigados a moderá-los. Seu comentário estará visível assim que pudermos lê-lo. Agradecemos a compreensão.