CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

31 de dezembro de 2015

A Caixa Preta: Amós Oz


"Que tipo de amor é este?"




"A maldade gélica que emana de você como um brilho polar azulado e que o tornou odioso ao ponto da histeria para as outras moças do batalhão - foi isso que prendeu meu coração. Seu ar de domínio indiferente. A crueldade que emana de você como um perfume. O cinzento dos seus olhos, como a fumaça do seu cachimbo. A ferocidade cortante de sua língua diante de qualquer sinal de oposição. O seu prazer de lobo com o prazer que impunha. O desprezo que sabia  emitir como um lança-chamas, e disparar num jato causticante sobre seus companheiros, seus subordinados, no grupo de secretárias e escreventes, que sempre ficavam petrificadas na sua presença. Como enfeitiçada, fui atraída para você das profudidades lodosas da subserviência feminina ancestral, uma servidão anterior às palavras..." p. 167




Hermosa Beach, 5 de novembro de 1983

                                                                                                                          Mãe,

     Se D'us me pedisse opinião sobre qual deveria ser a ordem de acontecimento das coisas na minha vida, eu certamente apresentaria um plano completamente diferente do que Ele fez acontecer e ainda anda fazendo, claro. Eu apresentaria um plano certinho, coerente, lógico. Mas D'us botou no lixo o meu certinho, tornou incoerente a ordem dos acontecimentos segundo meu ponto de vista, segundo a minha lógica. Será porque D'us prepara riquezas inimagináveis para seus filhos? Será porque a minha lógica apenas me encerraria num mundo menor do que aquele que Ele reserva para mim? Será porque, dentre os seus filhos, Ele escolhe aqueles com quem acha ser divertido brincar e dar-lhe toda sorte de acontecimentos, descarregar sobre ele Seu amor e Seu ódio? Ou talvez D'us esteja apenas querendo me ensinar que a verdadeira felicidade segue outro rumo que aquele que eu poderia desejar para mim mesmo.

...

Todo amor da filha,

                                                                                                                          M.Y.


Volteemos um pouquinho no tempo:


para onde ele olha, o que vê?

os olhos bebem brilho e sombra.

quais palavras mal pôde exprimir
- verdade, novela, incenso - 

antes que o repouso dos lábios
dissessem silêncio, e antes espera?

que ideias pressionam agora
por dentro, o crânio? quase posso

com a ponta dos dedos, tocá-las:
uma censura, uma saudade bem física.

na parede ao fundo, a  imagem
a mesma dos últimos vinte ou trinta

anos, uma expressão, apenas
algo que talvez pudesse legar de si.

os braços tentáculos, extensão
daqueles quase mouros (na infância

pendurávamos neles o corpo
no cipó dos pelos resistentes, nas mãos

ásperas de polegares diferentes).
o traje folgado, a tensão no cinto
de onde vem, para onde vai...
ah, o futuro, os passos miúdos no chão

se chegou, quem sabe? quem diz
o que será depois dos 80?

                                                                                                                            d.


Niterói, 5 de Abril de 1981

                                                                                                                    Mamãe,

     Como vai você e como vão todos aí? Tudo O.K. com o Boaz, tudo odara com titia, tudo final de linha com Alec, tudo gostoso com a merência e tudo tranquilo com você? Tem tomado guaraná? Ou pelo menos tem sonhado com alguém te dando guaraná? E a coluna, tem alguém aí fazendo do-in nela para ela ficar duim-duim-duim? E o cigarro, diminuiu? O quê, parou? Esplêndido! Não, sonhar que está fumando não faz mal.

...

                                                                                          abraços e beijos da filha

                                                                                                                           M.Y.


Saúde
           Força
                      Coragem
                                     Ânimo
                                                Graça
                                                           e
                                                              Beleza

Pra você, com muito amor.


* * *


Colinas de Golã, 12 de Maio de 1982 - quarta feira

I,

...

     Mas agora é olho de águia e ouvido de coelho. Aproveito o exceço de tempo com pequenas utilidades e lendo alguns livros que há muito pensava ler mas o estudo escolar impedia. Aos poucos vou vencendo as iluzões.

     O que nos enche de alegria aqui no kibutz é saber que estamos livres da mesquinhez e dos mechericos conjugais que enfrentávamos nos sommos. O que nos enche de determinassão para a luta é a decizão de que este kibutz é um pouzo provizório.

Saudassões,

Boaz


* * *


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Veja a entrevista que Amós Oz deu à TV Cultura


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