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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

3 de outubro de 2015

Clube do Conto - Pintor de paredes: novaes/



Durante todo o tempo ouvi daquela nobre senhora as mais veementes recomendações. A reforma em seu grandioso apartamento de frente para a floresta haveria de ficar perfeita. Meu trabalho era emassar as paredes e pintá-las, tudo com muito cuidado, sem deixar pingo no sinteco e com os recortes feitos na maior retidão. Ouvi daquela senhora todos os avisos, do quão importante seria respeitá-los, segui-los como se minhas mãos robóticas fossem programadas para aquela função precisa, matemática, infalível.

Juro que olhei para sua boca falante espantado com tamanha capacidade de predizer meu fracasso, pois seus repetidos alertas só me faziam acreditar que, de fato, sua reforma corria perigo em minhas mãos. Meu Deus, cheguei a culpar-me pela imprudência e canalhice profissional de aceitar aquele trabalho, pois com certeza meus quinze anos de experiência na profissão não eram suficientes para tamanha responsabilidade na casa de tão importante senhora.

Talvez ali as paredes não fossem de tijolos, nem de blocos de concreto, quem sabe tenham sido feitas de um material flexível, fofo, escorregadio, que me impedisse de aplicar a massa com perfeição. Ao invés de nivelar a parede, minhas tentativas com a espátula criariam ondas, cavidades, bolhas, protuberâncias inconvenientes que me projetariam, de imediato, ao inferno incandescente nas palavras daquela educada senhora.

Confesso que estava trêmulo nas mãos e frouxo nas pernas durante todo o emassilhar, o que fez daquela atividade quase um livre criar de desenhos brancos na parede velha, amarelada. Busquei as falhas na parede, que cobria com golpes de massa, espremida e espalhada como se estivesse em guerra contra aquela alvenaria, ocupando espaços, calando para sempre rachaduras, furos e antigas infiltrações inimigas.

Meu trato com a parede era um só: eu a venceria. Mas admito que meu diálogo com a massa e com a tinta seria muito mais difícil. Ao aplicar a massa, antes da lixa, aquelas ranhuras formavam desenhos, texturas, que me encantavam, me intrigavam e, sobretudo, me paralisavam. Como lixá-los? Como destruir aquelas obras de arte, aquela comunicação visual intensa com os visitantes? Será que aquela instruída senhora não permitiria que sobrevivessem? Não, óbvio que não. Parede é parede, não é obra de arte.

O fato é que sou um operário incomum. Meu pai sempre foi peão de obra e chegou a mestre. Já minha mãe, que era professora e militante comunista, via em meu velho seu operário idealizado, força motriz da sociedade, como dizia, futuro de um sonho igualitário. Aproximara-se dele através de sua militância nas construções, caminhando toda sem jeito entre entulhos, tijolos, tábuas e trabalhadores surpresos com sua presença naquele tumulto rude e masculino. Isto é o que os dois me contaram, mas desconfio de que minha mãe intelectual gostava mesmo era da pegada do meu pai, um cara firme, objetivo, sem refinamento, mas que carregava nas palavras e nas ações o carinho de um grande homem. De meu pai, herdei a facilidade para a ação, não há trabalho que não possa ser feito. O legado de minha mãe é essa coisa de enxergar mensagens humanas na massa espalhada pela parede, é imaginar que espátula, pincel e rolo podem pertencer ao mundo da arte, mesmo que sejam vendidos em lojas de tinta.

Esta senhora distinta que me contratou para regularizar suas paredes castigadas pelo tempo, nada mais esperava além da obviedade: superfícies lisas e cor uniforme. Obviamente, ela desconhece que os trabalhos manuais remontam aos artesãos de uma era anterior às fábricas, às indústrias, à divisão do trabalho, essas coisas que nos tornaram, a cada um, uma pequena parte da produção, onde o toque pessoal, o dom de cada um, foi para as cucuias. Ela desconhece que somos descendentes dos velhos artesãos e que nossas mãos, portanto, não são um dispositivo autômato. Afirmo sem medo de errar que todos nós, pintores de paredes, encaramos com esmero artístico cada empreitada. O mesmo posso dizer dos marceneiros e até no levantar paredes é preciso arte para juntar os tijolos com perfeição.

Mas esta senhora tão chique desconhece esses assuntos, não tem tempo para meus alongamentos filosóficos (enquanto meu pai gostava de malhar o corpo de vez em quando, minha mãe me ensinava a fazer alongamentos na mente). O que esta senhora requintada me pede é para lidar, unicamente, com as paredes. O mais engraçado é que ela quer ter paredes que não se notem. Tão regulares que passem despercebidas. Jamais se ouviu alguém dizer: “nossa, que linda parede!”, “veja, que parede tão bem emassada e pintada!” Nada disso. Se não houver quadros e a parede estiver exposta, o que se comenta é que está nua, ausente de arte. A parede pode ser perfeita, lisa, sem estrias, sem desconformidades, com o melhor colorido, mas sua nudez é mal vista. Vá entender!

Lixei todas as ranhuras e excessos de massa e encarei todo aquele pó branco que se espalhou pela sala como um subproduto cultural. Havia naquelas partículas poesia e fiquei com o corpo impregnado de versos. Minhas pegadas ficaram marcadas no chão empoeirado, como se fossem marcações de um balé único, dedicado à importância das paredes na vida humana. Estes limites criados pelo homem que, se ensina desde criança, devem ser resistentes a tudo, e sem os quais não teríamos casas, escritórios, fábricas, prisões. 

Alisadas as paredes, muni-me dos galões da tinta branca que iria descolorir o ambiente. A sala daquela impecável senhora seria alva como supõe-se a pureza, casta de emoções, neutra como se pretendem os hospitais e os hospícios. É de se imaginar que nestes locais as paredes são brancas numa tentativa desesperada de que elas não participem, de forma alguma, dos dramas contundentes que ali se desenrolam. Chega a impressionar como loucos, doentes e ricos precisam do branco em volta de si.

Após o primeiro banho de tinta branca fosca e de ter completado a segunda demão em três das quatro paredes, percebi que o último galão de tinta disponível não era fosco. Havia um brilho intenso naquele branco e decidi que aquilo só poderia ser um aviso, um convite, uma oportunidade para que eu desse meu toque pessoal. A parede faltante era a de fundo, que acolhia e apresentava a todos a mesa de jantar, a localização perfeita para uma obra de arte. Busquei na mochila um livro de Vinícius de Moraes, presenteado por minha mãe, e, com um pincel fino e a caligrafia que se assemelhava aos manuscritos portugueses de antanho, nos azulejos de séculos passados, reproduzi naquela parede os versos mais lindos que encontrei. A escrita com tinta brilhosa sobre o fundo fosco não era percebida à primeira vista, senão quando sobre ela batiam os raios de sol das seis horas da manhã ou, à noite, quando eram acesas as dicróicas que se ocultavam no gesso a fim de iluminar as obras de arte que ali se imaginava pendurar. Terminei a obra satisfeito e fui-me embora.

Soube mais tarde que a elegante senhora que me contratara, ao ser surpreendida pela artimanha criativa, tivera uma síncope, um faniquito daqueles, e ameaçara com todas as salivas caçar-me por toda a cidade, estrangular-me com as unhas, derrubar aquela parede infame e outras providências escalafobéticas. Fora impedida por sua filha, uma jovem cheia de decisão que estudava filosofia, contestava os valores burgueses da família e que, encantada, vira em meu trabalho o anúncio de um mundo novo, onde as capacidades individuais podem florescer sem as amarras de um capitalismo que precisa predeterminar todos os papéis sociais.

Hoje aquela agradável senhora é minha sogra. Permaneço estarrecido com sua capacidade de predizer o fracasso do nosso casamento. Sua filha ama esse meu jeito de tratar o trabalho como poesia e espera que, seguindo a evolução da espécie, nossos filhos cuidem da poesia como trabalho. Isto é o que ela diz. Mas eu acho mesmo é que ela gosta da minha pegada. 

18 comentários:

  1. Bem escrito, simples, sofisticado. Um conto, realmente, muito bom. Newton é craque, é um contista nato. Vê-se domínio nessa narrativa, o uso elegante das palavras, um final excelente. Parabéns, meu caro Barra, fez coisa boa pra valer.
    Um abração.
    Carlos Rosa.

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  2. From reading this short story, I will be more attentive to the servants who attend my dwelling.

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  3. Esse conto é um sopro suave de brisa, leve, doce, gostoso, ardiloso e com a marca do humor que eu gosto tanto. Parodeando o título, uma verdadeira pintura.
    De sua fã nº 1.

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  4. Esse é um conto que gostaria de ter escrito. Um primor!
    Um conto que é uma defesa, como tudo que Newton faz, do ser humano e seu respeito, do inusitado, do especial. Poético como a alma desse poeta em prosa, de uma ironia fina. Seu texto possui brilho das palavras que dizem muito mais do que o habitual, dos sentidos variados. E deixa-nos ainda a pensar, qual seria o verso de Vinicius? Escolha o seu verso, que ele seja o de um operário dentro de você, leitor. Muito bom!!!!
    Elô.

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  5. Elô, você tirou as palavras de minha boca garota. Eu também pensei que verso ele havia escrito? Acho que cairia muito bem "que seja eterno enquanto dure". Newton, que conto lindo. Fico me coçando só de imaginar um livro com esses contos. Por sua causa, foi ao depósito de meus escritos e lá encontrei um poema que fiz, devia ter uns 25 ou 26 anos, em que desejo ter uma casa que tenha paredes emassadas (ainda não a tenho, mas terei). Neste conto encontrei um artífice do simplório glorioso. Isso é o que eu acabei de pensar e classificar como contista-midas, pois transforma o simplismente mero em algo puramente grandioso e luxuriante de sentido poético e filosófico. Todo este conteúdo que dá relevo as ações humanas, que a Elô bem ressaltou, é de machucar o peito de tão bom que foi para mim ler.

    Bem, como não sou uma Midas como você, repito o repetível: Parabéns!!!!!!!!!!!!!!!

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  6. Valeu Carlos, pelas palavras gentis e a força de sempre. Os seus comentários, como escritor de qualidade que é, têm um valor muito especial.
    Prezado Anônimo "in English": se só agora vc vai prestar mais atenção nos prestadores de serviço que põe dentro de casa... Sorry! Você já dançou... hehehe...
    Oh, my love, thank you! Pintura mesmo são os quadros poéticos que vc cria usando versos, sra. Magnago.
    Querida Elô, é mesmo, qual seria o poema de Vinícius?... Alguma sugestão? Você, como a sacerdotisa do CLIc, tem primazia nas sugestões.
    Helene Camille (que nome interessante!), que bom que vc gostou e sentiu dessa maneira. Isso emociona e anima muito a gente. Fiquei curioso para conhecer o seu poema. Sobre o livro, está no forno. Em breve, nas melhores casas do ramo! rsrsrs... Prazo máximo: janeiro 2013.
    Abs,
    novaes/

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  7. Newton, parabéns pelo conto. O homem é industrioso por natureza, então trabalhar não é simplesmente cumprir uma tarefa. Entre o real da atividade e a prescrição da tarefa existe uma história de luta, do trabalhador consigo mesmo e dele com o coletivo. Tem subjetividade. Tem criação. A saúde do trabalhador passa por aí. Pintar uma parede não é só aplicar as regras prescritas para essa atividade. Trata-se de algo para além disso: trata-se da construção de um ofício. E das renormatizações necessárias para se chegar ao fim da tarefa com saúde. Muitos não conseguem. O seu conto dá destaque a esse drama com muita propriedade. E com humor, uma de suas características pelo visto.
    Parabéns!!!
    Niza

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  8. Newton, que conto delicioso de se ler. Um pintor de paredes e de poesias - coisa bonita. Nesse conto, meu amigo, você nos trouxe algo interessante para pensar. O pintor transgrediu para mostrar sua arte. Saiu da "mesmice" da parede branca, sem vida, sem atrativos, e colocou poesia nela. Assim é a vida: uns não se contentam em fazer apenas o "necessário", vão mais além do que se tem para fazer, transgridem e mostram algo de novo, incomum, para as pessoas. Uns têm olhos para ver a arte, outros não, que foi o caso da senhora. Sua filha, ao contrário, além de ver a arte na parede, admirá-la, ainda "fisgou" o pintor-artista. O mais surpreendente no final do conto (aliás, isso é sua marca registrada nos seus contos, Newton) é que o narrador-pintor levanta a dúvida se a mocinha se apaixonou pela sua "arte" mesmo ou se foi pela "pegada" dele. Eu arrisco a dizer que foi pelas duas coisas (rs). Enfim, Newton, todas essas linhas escritas são para te dizer que adorei seu conto. Gosto do seu estilo. Gosto das suas histórias, sempre muito bem escritas, com finais curiosos, surpreendentes. Parabéns e continue nos brindando com seus deliciosos contos. Beijos... Angela Ellias.

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  9. Newton, acho que vc pensou em Operário em Construção, mas eu escreveria "A vida é a arte do encontro", já que a poesia proporcionou o encontro da amada e do amado.
    Neide (Helene Camille), a gente anda pensando bem parecido! Bjs.
    Elô

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  10. Obrigado Niza, falou aí a psicóloga, desvendando relações interessantes, conflitos presentes entre o homem, o seu ser e o seu fazer. Assim entendi - e gostei. Valeu Angela Ellias, doce e entusiasta como sempre. Saudades de vc nas reuniões do CLIc. Salve, Elô. O poetinha tem muitos poemas lindos. Eu, se fosse o pintor de paredes, não escreveria naquela parede "O Operário em Construção" não. Muito óbvio e pouco lírico para a ocasião. Mas talvez a mãe dele tenha dado Vinícius para ele ler pensando neste poema, já que ela tinha ideias socialistas.
    Abs,
    novaes/

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  11. Grande Newton, este seu conto é realmente singelo, como você mesmo definiu um tempo atrás. É um conto que possui um ritmo gostoso. Flui como água de um ribeirão, suave e calmo. Interessante como as releituras sempre nos despertam novas sensações. E ler este seu conto novamente foi como reencontrar algo familiar. Dos contos seus que já li, este é um dos que mais gosto. Um abraço.

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  12. Newton, fui apresentada ao seu conto no blog de minha amiga (ainda virtual) helene Camile.
    A leitura foi suave, simples e gostosa.
    Obrigada por nos proporcionar momentos lúdicos(você escreve e nós, leitores, visualizamos à nosso maneira) como este.
    Parabéns pelo talento!

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  13. Ah, desculpe, esqueci de comentar que pelo que você escreveu, concordo que sua mãe gostava era da pegada de seu pai...rs

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  14. Newton, reli seu conto e gostei ainda mais. Acredito numa coisa: você deve ser um excelente cronista. Experimente, Newton, fazer uma crônica reflexiva. Acho que vai sair coisa muito boa.
    Um abraço.
    Carlos.

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  15. Grande Antonio, obrigado pelas palavras gentis. Você é sempre um incentivador!
    Oi Jaqueline, obrigado pela leitura e comentários. Pegada, poesia, tudo faz parte, né? Ainda mais para as mulheres que, maduramente, costumam levar em conta "o conjunto da obra" quando escolhem um homem, ao contrário dos homens, que muitas vezes permanecem garotos fixados em partes da mulher (não que as partes não tenham sua importância! rsrs...). A música Garotos, pelo Kid Abelha, já disse tudo. Aqui o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=9uaRTLQo8wU
    Salve Carlos. Crônica? Sei não... A crônica, mais que imaginação, exige um olhar apurado sobre fatos, muitos deles aparentemente simples. O cronista é um gênio que transforma matéria simples encontrada na realidade, nos fatos reais, nas histórias já acontecidas, em algo mais, algo maior, para além da compreensão comum dos mortais. O contista inventa histórias, mesmo quando se apropria - e é legítimo isso - de fatos verdadeiros. Mas o cronista, a princípio, não inventa nada. Ele faz mais que isso: percebe. Descobre o que está por trás daquele fato real. Interpreta. Percebe a mensagem que a vida incluiu naquele fato sem contar a ninguém. É o cronista que vai contar. É outra arte e eu não tenho esse olhar, pelo menos não o desenvolvi ainda e nem vislumbro essa hipótese. Por isso, por enquanto vou me ater aos contos, até por que ainda estou amadurecendo nessa técnica. Além disso, creio que um bom cronista surja de um trabalho metódico, diário se possível. A "obrigação" de escrever força os temas a surgirem e acaba "treinando" o olhar, a percepção. E esse tópico também pesa contra para mim, pois escrevo, em geral, ao sabor da inspiração, quando a "invenção" vem à mente.
    Enfim, desculpe o alongado da resposta. Então, sobre crônica, prezado amigo Carlos Rosa, prefiro continuar lendo cronistas competentes e sensíveis como você. Isto sim me faz bem! Mas obrigado pelo encorajamento!
    Abs,
    novaes/

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  16. Que belo conto, Newton! Ele vem escorrendo pela parede como tinta fresca e espalhando um aroma suave de palavras que se encaixam com delicadeza mostrando beleza e artimanha ao leitor.
    Parabéns! Essa pegada caiu bem!

    Abraços!

    Sonia Salim

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  17. Será esse pintor de paredes o mesmo serial killer das manchetes do dia?

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    1. Tadinho do meu pintor... tão singelo... será que a madame do conto correria algum risco?
      Abraços.
      N/

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