CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

1 de agosto de 2017

Revivendo leituras passadas - A chave de casa: Tatiana Salem Levy


 A Chave de Casa

Abrir a porta de casa,
expulsar os meus fantasmas,
sem disfarce, expor-me inteira
a todos e a mim também.
Apresentar essa estranha,
que um dia, sob os escombros,
os silêncios e segredos,
tentou, em vão, se esconder.

E, agora, livre dos medos,
das amarras do passado,
quer fazer a caminhada
gozando o seu renascer.

(Elenir)




Oi Clube

Sei que já estão iniciando a discussão do livro do Padura, mas, como prometido, registro aqui algumas impressões sobre "A chave de casa".

Na minha leitura, a riqueza do livro encontra-se justamente no intervalo: é uma viagem real ou imaginada? Uma busca do avô ou dela própria? Deseja realmente encontrar a casa e a história dos antepassados ou não? É melhor prosseguir na busca ou desistir? Entregar-se ao amor ou reconhecê-lo como dor?  

Outros fragmentos da literatura revelam este campo tenso do diálogo dos opostos...

"Sou entre mim e mim o intervalo." Fernando Pessoa

"Hesito, logo existo." Lena Jesus Ponte

"Gostaríamos de ver e temos medo de ver. Eis o limiar sensível de todo o conhecimento. Nesse limiar, o interesse ondula, perturba-se, volta. [...] Como aumentam as ondulações de medo e curiosidade quando a realidade não está presente para moderá-las, quando se imagina." Bachelard

"Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida." Clarice Lispector

O desconforto da dúvida, da angústia nos faz dar passos, convida-nos (ou joga-nos) ao movimento. Suportar e ouvir a voz do conflito que habita o intervalo é sinal de vida em transformação.

A própria busca da casa é algo muito simbólico.  No livro A poética do espaço de Bachelard, há praticamente 2 capítulos que falam sobre a casa, vejam alguns trechos:

"Porque a casa é o nosso canto do mundo [...], o nosso primeiro universo.[...] A casa natal é um centro de sonhos. Cada um de seus redutos foi um abrigo de devaneios."

"É graças à casa que um grande número de nossas lembranças estão guardadas; e quando a casa se complica um pouco, quando tem um porão e um sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem caracterizados. A eles regressamos toda a vida em nossos devaneios."

A chave igualmente é um poderoso símbolo, relacionado ao duplo papel de abertura e fechamento, de permitir ou não o fluxo, a passagem, do mistério de penetrar, do enigma a resolver, da coragem de empreender etapas que conduzem à descoberta.

Uma história de uma buscadora, de local (fora e dentro de si) que pudesse florescer e renascer.
Neste sentido, cada palavra do livro equivale a um passo neste caminho.

--
Cristiana Seixas
Biblioterapeuta





Santa Sofia
A Mesquita do Sultão Ahmet
A mesquita azul do anjo

Olá Cliceanos, vamos visitar a Mesquita Azul? Tatiana Salem instigou-me a conhecê-la. 

Conhecer a Turquia, vocês já conhecem? Combinar literatura e viagem, do erotismo ao sacro, percorrendo o centro histórico de Istambul. Ainda não cheguei à metade do livro e já encontrei bastante erotismo na Salem, ao descrever sua relação com o amado. 




Caros amigos do Clic

sempre que leio um livro e a obra apresenta uma ambientação geográfica, tento me situar,  ler/ver outras obras onde eu possa estabelecer novas relações. A chave da casa lembrou-me um filme que assisti cerca de 05 anos e hoje corri atrás para revê-lo.

O TEMPERO DA VIDA - a estória inicia em Istambul, cidade onde a família se sente super ambientada e de repente por questões religiosas,sociais e políticas são deportados para a Grécia. Há uma forte relação do neto com o avô e um grande lirismo permeando toda a trama. Há inclusive uma cena onde o neto volta à casa do avô. Vale a pena ver. Penso que encontrarão com facilidade nas locadoras ou baixando na Internet.

grande abraço,  Joana


Fonte

"Nenhuma palavra dói mais do que a ausência de palavras. Você não é tolo e sabe muito bem disso. Você me impunha um silêncio devastador. Sumia, não dava notícias, fazia de propósito, queria me ver chegar perto da morte, paralisada, sem forças. Eu esperava o telefone tocar, ele não tocava.. E se porventura tocasse, não era a sua voz que eu escutava. Esperava o apito do meu computador avisando a chegada de um novo e-mail, ele não apitava. Esperava uma carta, um sinal de fumaça, uma mensagem no celular, esperava que você aparecesse e trouxesse consigo alguma palavra. Esperava e esperava e esperava. E você não vinha. Você me deixava a sós com esse silêncio que dói mais do que um grito arranhado, do que um corte profundo na carne, que dói mais do que a palavra dor”.



Estávamos na cama quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, uma voz grossa e firme perguntava se eu estava bem e dizia que tinha conseguido o meu número com uma amiga e comum, a dona da festa onde tínhamos nos encontrado havia cerca de uma semana. Como quem não quer conversar, mas precisa falar alguma coisa, ele disse: adorei nosso papo, apesar de rápido, e queria conhecê-la melhor. Só respondi com interjeições, mas nem por isso ele se apressou em desligar. Quando começou a falar dos meus olhos, dos meus cabelos, fiquei sem graça, afinal, você estava do meu lado. Como se não o conhecesse, levei um susto quando você, em vez de me pedir para arranjar uma desculpa e me livrar do telefonema, sussurrou baixinho: não desligue, continue falando. Nem tive tempo de esboçar resposta, de me opor à sua decisão. Quando me dei conta, você já tinha tirado a minha roupa e , olhando para o meu sexo, era a sua caeça que eu via. Tentei afastá-la. Você me fixou com um olhar de quem diz para não impedi-lo, um olhar que me afirmava com segurança que eu não me arrependeria. Então me deixei levar. Enquanto ouvia a voz de um estranho, sentia sua língua me umedecendo. Eu tinha o sexo todo depilado, e você passeava livremente por ele, como se agora, que estava descoberto, à mostra, ele escondesse ainda mais segredos. Não foi nada fácil controlar o tom da conversa, prestar atenção ao que ele dizia, para ao menos poder lhe responder: claro, vamos combinar alguma coisa, sim. Você não quer anotar meu e-mail? Minhas pernas se contorciam enquanto eu falava. Temi que ele desconfiasse de alguma peculiaridade na minha voz e me pus a falar como se estivesse com pressa. Você reparou e me repreendeu. Queria ir até o fim. Então, tive de inventar histórias, iventar assuntos, perguntei-lhe de onde conhecia a nossa amiga em comum, o que fazia da vida, entre outras coisas que não me interessavam absolutamente em nada. Enquanto isso, a sua língua ia ganhando mais intimidade com o meu sexo, e os dois se encaixavam de tal maneira que pareciam duas bocas se beijando, um beijo longo e molhado. Eu tinha a sensação de que os lábios de baixo eram comos os lábios de cima, decididos, independentes e, o que era mais inusitado, tinham paladar. Eu sentia o gosto da sua língua, o gosto que tanto conhecia, mas que sentido ali, naquele lugar e naquele momento inesperados, era completamente diferente. Quando, finalmente, resolvi desligar o aparelho, foi porque a minha boca estava entre as minhas pernas, e seria estranho continuar falando, se meus lábios estavam tomados pelos seus."


by Sara Augusto

[Você nunca pensa em coisas boas? Não tem sonhos?] Tenho, claro que tenho. Sonho que um dia um príncipe chegará montado num cavalo branco para me buscar.Não precisarei fazer esforço algum, ele saberá que sou a mulher por quem ele procura. Bastará nos olharmos para saber que fomos feitos um para o outro. Ele me pegará pela mão e me levará, a cavalo, para um lugar lindo, onde haverá uma grande festa, onde encontrarei todos que já partiram deste mundo e todos que nele ainda estão. Lá viveremos felizes, numa terra que não conhece a morte, não conhece tempo, não conhece a dor. [Então você sonha?] Sonho, claro. Tenho ainda outros sonho, que nunca contei a ninguém. [E o que é?] É tenho esse sonho impossível: escrever escrever escrever.






PRÊMIO SÃO PAULO DE LITERATURA

MELHOR LIVRO DE AUTOR ESTREANTE 2008


Eu sabia que ao tocar pela primeira vez a campainha da sua casa estava assinando um contrato sem vencimento. Se existisse alguma possibilidade de desistência, ela deveria ser fincada ali, naquele momento, antes de atravessar a porta. Mas como não atravessá-la? Por que não atravessá-la? Meu corpo ainda não estava paralisado, eu queria caminhar, queria ir ao encontro do que tinha me pego na esquina, descobrir o que me aguardava do outro lado da rua. Naquele início, a paixão se manifestava como fome - de novidades, conversas, toques, sexo -, eu queria engolir tudo o que estivesse à minha frente, tudo o que viesse de você. E assim foi. Toquei a campainha. Suava. Minha camiseta molhada se colova ao busto, marcando levemente os seios. Quando você abriu a porta, eu não podia esconder o desejo de pular em cima do seu corpo, ali, no corredor de entrada da sua casa. Tenho certeza que você sentiu meu cheiro de sexo prestes. Deslizou delicadamente a mão direita sobre meu rosto, demorando-se atrás da orelha, no pescoço. Arrumou meu cabelo e com a outra mão segurou minha nuca. Você me exigia demais naquele momento: exigia-me paciência. Deixei-me ser levada, controlando minha fúria e meu desejo de controlar. E nisso estava o meu prazer, em ser surpreendida, em ser guiada numa direção inusitada. A cada toque seu, a cada dedo, lábio, nariz, a cada extremidade sua esbarrando na minha pele, sentia os poros se eriçando, se antenando numa velocidade simetricamente oposta à de seus movimentos. Você demorou a me beijar, a enroscar sua língua na minha até quase a garganta. Antes disso, ficou me acariciando, aproveitando todo o deleite que eu estava disposta a lhe dar. Você me olhava - nos olhos, no queixo, nos seios, no ventre - como se quisesse me tirar toda a estabilidade, como se quisesse tirar meus pés do chão. E conseguiu. Naquele instante, eu já não pisava em lugar algum. Já não tinha os pés na terra, Não sabia onde estava, mas ao mesmo tempo tinha toda a certeza de que era ali que queria estar. Você não tinha dúvida, eu já era sua. E, como se quizesse me mostrar que estava ciente disso, me segurou com força, apertou meus braços e colou a boca à minha, sua língua à minha. Deslizou suavemente a mão pelo meu corpo. Quanto mais seus dedos descobriam o caminho, mais vulnerável eu me sentia. Nesse momento sabia que não haveria volta, já estávamos amarrados. Sua língua estava em meus seios - um e outro -, contornando os mamilos, deixando-os quase tão encharcados quanto meu sexo, ainda à espera. Não por muito tempo, é verdade, pois não demorou para você colocar, certeiramente, a mão por debaixo da minha saia. A calcinha abafada, úmida. As pernas se abrindo ligeiramente, o convite já feito. E, como pude confirmar tantas outras vezes, poucas coisas me excitavam tanto quanto seus dedos afastando a parte de baixo da calcinha para um lado só, deixando meu sexo descoberto. Para logo cobri-lo de novo, com seus dedos. Leve-me para a cama, eu disse. Você fingiu não ouvir. com as duas mão, levantou minha saia, arrancou minha calcinha e se abaixou aos poucos. Continuei de pé, enquanto você, ajoelhado, implorava não sei o que entre as minhas pernas, numa língua que só vocês dois entendiam, o meu sexo e a sua boca.



5 comentários:

  1. Olá, Evandro. Fiquei contente por me ter associado a este seu trabalho. Um abraço da Sara Augusto.

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  2. Elenir, lindo seu poema sobre "A chave de casa", parabéns!

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  3. Rita querida, obrigada! Um elogio seu representa muito para mim.
    Elenir

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  4. A última escritora que lemos no clube de leitura foi Tatiana Salem Levy em Junho de 2014. Não estaria na hora de escolhermos o livro do mês de alguma escritora?

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  5. Que feliz coincidência! Acabei de conhecer essa autora lendo contos inspirados em músicas de Legião Urbana e um dos meus favoritos foi da Tatiana. Pensei em indicar ao clube a leitura do premiado "A chave de casa", mas soube pelo Antônio que vocês já tinham lido e discutido esse livro. Que bacana! Isso só mostra que o clube faz ótimas escolhas!

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