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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

2 de julho de 2015

No Clube da 7 - Mar inquieto: Yukio Mishima



A rotina no navio era de trabalho incessante. Aos novatos, foram impingidas incontáveis tarefas de natureza múltipla, começando pela limpeza do convés às primeiras horas da manhã. Aos poucos, a atitude negligente de Yasuo começou a ser notada. O rapaz nunca fazia mais que o estritamente necessário.







Entre o par de morros altos, encimado por botões cor-de-rosa, havia um vale bem bronzeado, de pele acetinada e frieza virginal, onde pairava ainda uma fresca aragem primaveril. Acompanhando o desenvolvimento dos braços e das pernas bem torneadas, os seios também haviam crescido com igual presteza. Contudo, as proeminências algo duras pareciam dormir um sono leve, à espera apenas de um toque suave como o de penas ou de uma carícia gentil como a da brisa para despertar.





Shinji não tinha relógio. Na verdade, não precisava. Em compensação possuía o dom instintivo de perceber as horas, fosse dia ou noite.
As estrelas se moviam. Muito embora não tivesse nenhum conhecimento especial para medir com precisão a velocidade desse deslocamento, Shinji era capaz de sentir fisicamente a noite passar em seu vagaroso movimento circular e, em seguida, o dia palmilhar essa mesma rota. E estando ele próprio num determinado ponto dessa cadeia natural, como não haveria de entender a ordem exata da natureza?




Shinji estava com pressa. Chiyoko sabia disso e se sentiu ainda mais ansiosa. Não achava as palavras certas para se despedir, muito menos para confessar o que fizera. Desejou apenas que Shinji continuasse mais um segundo diante dela e fechou os olhos. E então percebeu que o absurdo desejo de ser perdoada nada mais era que seu velho e conhecido anseio de aproximar-se dele e de sentir-lhe o carinho, apresentando-se sob novo disfarce.






- Sei muito bem no que vocês estão pensando. Querem esmurrar Yasuo, não é? Mas ouçam o que eu digo: não será desse jeito que irão resolver este problema. Ignorem o pateta. Sei que é difícil para você, Shinji, mas o mais importante, neste momento, é ter paciência e suportar tudo em silêncio. Você tem de ser paciente para pegar um bom peixe. Logo, logo as coisas vão melhorar, você vai ver. O justo sempre vence, mesmo sem se justificar. O velho Terukichi não é tolo. Impossível que não distinga o certo do errado. Ignore o Yasuo. No final das contas, o justo sempre vence, Shinji.





Um vento gelado passeava pelo cemitério. A superfície do oceano permanecia escura na área à sombra da ilha, mas as águas de alto-mar já se tingiam com as cores do arrebol. O perfil das montanhas em torno da baía de Ise mostrava-se com nitidez. À luz pardacenta do amanhecer, as lápides lembravam incontáveis barcos de vela branca ancorados em porto próspero. Velas que o vento nunca mais desfraldaria, velas que penderam pesadamente e se petrificaram no decorrer de uma parada longa demais. As âncoras jamais tornariam a ser içadas, tão encravadas se achavam no seio escuro da terra.


Chiyoko percebeu, na animação desse rapaz da sua idade e de ar vivido, a segurança do macho que despertou o interesse do sexo oposto. Ele parecia estar afirmando: "Esta menina está muito interessada em mim!". Isso foi suficiente para exasperá-la. "Cá estou eu na mesma situação de sempre", pensou Chiyoko. Influenciada talvez por livros e pelos filmes a que assistira em Tóquio, a moça sonhava com uma situação exatamente oposta, a de ver um olhar masculino declarando com todas as letras: "Eu a amo". Chiyoko, porém, estava convencida que essa oportunidade jamais chegaria.


O jovem pescador Shinji conhece Hatsue, uma mergulhadora de beleza inquietante, na orla da praia de Utajima, onde mora com a mãe e o irmão. Hatsue é filha de Terukishi Miyata, um dos homens mais ricos da pequena vila pesqueira japonesa.
Shinji e Hatsue se apaixonam e frustram a vontade do pai da garota de vê-la casada com Yasuo, pretendente a quem ela fora prometida. Tem início uma história de amor proibida, de desenlace imprevisível.
Mar inquieto acompanha as venturas e desventuras do jovem casal, que logo faz pensar em Romeu e Julieta. No embate com os obstáculos que colocam em perigo seu amor, Shinji e Hatsue assumem feições exemplares, que os transportam do mundo do romance para o universo da fábula.
Publicado em 1954, Mar inquieto confirmou a reputação de grande narrador que Yukio Mishima conquistara com seus primeiros livros. Em contraste com as obras complexas e polêmicas que, poucos anos antes, haviam proporcionado um sucesso clamoroso ao autor - como Confissões de uma máscara e Cores proibidas -, este romance breve impressiona pela singeleza de seu tom e pela discrição de um estilo cristalino. O livro ganhou adaptações para o cinema, a primeira delas realizada pelo diretor Senkichi Taniguchi no mesmo ano de lançamento do livro.





O mal não é capaz de viajar tão longe quanto o bem.


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