CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

4 de junho de 2015

A casa dos budas ditosos: João Ubaldo Ribeiro

Me perdoe João Ubaldo:
ditosos budas reli,
das "sopas" ... tomei o caldo...
ossos?... Larguei por aí. (I...)


'Museu do amor' fica em Seul, capital da Coreia do Sul


... a vida não é um campeonato de futebol, 
em que a gente fica procurando o melhor, 
cada instante é um, 
comparar é impossível. 




─ Mas, sim, mas então eu estava dizendo que os católicos são politeístas, botaram os santos no lugar dos deuses especializados. Os gregos e os romanos tinham um deus menor para cada coisa, regras atrasadas, artistas falidos, transações impossíveis, dívidas falimentares, casamentos, músicos, bêbedos, agricultores, criadores de cabra, tudo, tudo, tudo. Os católicos substituíram os deuses pelos santos. Os músicos? Santa Cecília. Os ruins da vista? Santa Luzia. As solteironas? Santo Antônio. E por aí vai, como você sabe. Até lugares. São José de Não Sei Onde? Diana de Éfeso, a mesmíssima coisa. Os deuses não foram derrotados ou eliminados, continuam imortais com sempre foram e somente mudaram de nome, se adaptaram às mudanças. Eu pronuncio verdadeiras conferências sobre isso, sou a rainha da conferência, às vezes devo ficar chatíssima. Mas pode permanecer tranqüilo, que eu não vou fazer conferência para você, afinal você está sendo pago, temos que trabalhar vamos trabalhar. Somente uma última referenciazinha a São Gonçalo, porque agora já comecei e sou compulsiva; comecei tem que acabar. São Gonçalo não existe. Ou melhor, existe mas nunca existiu. Para a Igreja, não há nenhum São Gonçalo, nunca houve. Mas se declarou, na minha opinião por falta de Príapo, uma grande lacuna, que clamava por ser preenchida. Não existe São Gonçalo, mas já vi procissão dele com padre e tudo, e as mulheres cantando obscenidades baixinho, é um santo deflorador e consolador para as solitárias. No arraial junto à fazenda da ilha, segundo até meu avô contava, havia uma imagem de São Gonçalo com um falo de madeira descomunal, maior que o próprio corpo dele. O corpo era de barro, mas o falo era de madeira de lei e fixado pela base num eixo, de maneira que, quando se puxava uma cordinha por trás, ele subia e ficava ali em riste. Eu nunca vi, mas as negras velhas da fazenda garantiam que antigamente, todo ano, faziam uma procissão com essa imagem de São Gonçalo e as mulheres disputavam quem ia repintar o falo, era sucesso garantido no mundo das artes, para não falar que a felizarda ficaria muito bem assistida nos seguintes 364 dias.


Doce de São Gonçalo


"A vida devia ser duas; uma para ensaiar, outra para viver a sério. 

Quando se aprende alguma coisa, está na hora de ir."

(Vittorio Gassman)




Romance de João Ubaldo retrata luxúria sob a ótica feminina (por Debora de Lucas) Fonte

“As mulheres, pensava eu, eram mais aptas a fundir sexo com emoção ou amor, assim como a se dedicar a um único homem em lugar de se tornarem promíscuas”.
Esta citação é de Anaïs Nin. A escritora, extremamente conhecida pelo affair com Henry Miller e pela publicação de seus diários, chegou a essa conclusão no começo dos anos 1940, quando escrevia literatura erótica por um dólar a página a um anônimo colecionador norte-americano.
A Casa dos Budas Ditosos revisita histórico sexual da quase septuagenária CLB/Arlen Roche/SXC
A Casa dos Budas Ditosos revisita histórico sexual da quase septuagenária CLB/Arlen Roche/SXC
Mas até que ponto a afirmação acima é verdadeira? Será que em nenhum momento da História a mulher desassociou o sexo da emoção? Nem mesmo durante a famosa Revolução Sexual? Atualmente, há livros que tratam exclusivamente da sexualidade feminina ao longo da evolução, no entanto, nenhum nos traz uma protagonista tão ávida pelos prazeres carnais, sem recalques e culpas como A Casa dos Budas Ditosos.
Capa da obra/Reprodução
Capa da obra/Reprodução
A obra é o quarto volume da coleção Plenos Pecados (Editora Objetiva, 164 páginas, R$ 36,90) e é creditada ao escritor baiano João Ubaldo Ribeiro que, logo no prefácio, atribui a autoria do livro a uma conterrânea de 68 anos, residente na cidade do Rio de Janeiro, tal como ele.
Segundo o membro da Academia Brasileira de Letras, a mulher, CLB, ao saber que ele fora incumbido de escrever um romance sobre a luxúria, lhe enviou suas memórias que, para a própria, são um depoimento “sócio-histórico-lítero-pornô” de uma pansexual.

A declaração de um dos mais importantes expoentes da Literatura Brasileira contemporânea é uma mentira? A quase septuagenária não seria o alter ego do autor de Sargento Getúlio e O Sorriso do Lagarto?  Mistério…
Em uma narrativa linear, direta e permeada por considerações morais e filosóficas, CLB relata suas experiências sexuais desde a sua iniciação até a sua vida adulta, podendo levar alguns leitores a se perguntarem qual é o limite entre a liberdade e a libertinagem para essa senhora.
O texto é rico em minuciosas descrições de experiências eróticas com seu irmão Rodolfo, seu tio Afonso, amigos, amigas, orgias, drogas, entre outras, vividas pela misteriosa protagonista, que desde o princípio da narrativa define a sua voluptuosidade como um dom divino.

Gostou? Então, leia para debater no Clube de Leitura Icaraí em Março de 2015

5 comentários:

  1. Gosto deste livro. Vi a peça. Eu também sempre tive curiosidade de saber por que os homens gostam tanto de coçar os territórios baixos. Será cacoete ou tem algo de buda ditoso nisso?

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  2. Debater esse livro vai ser um problema, porque além dele não ter um enredo, erotismo varia de pessoa para pessoa. Quem entende o que João Ubaldo diz provavelmente vai gostar, quem não tem a mesma sensibilidade nesse terreno, vai odiar. E é sempre problemático tratar dessas questões que nos tocam tão intimamente, se posso dizer assim, sem duplo sentido. Alguns leitores vêem o tema com bastante pudor, enquanto outros são escrachados, havendo todo um espectro de nuances pessoais. Essa Reunião eu não vou perder!

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  3. Eu desconfiava mesmo que São Gonçalo nunca existiu.

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  4. Gostei do livro.

    http://numadeletra.com/a-casa-dos-budas-ditosos-de-joao-ubaldo-67028

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  5. Eu gostei.

    http://numadeletra.com/a-casa-dos-budas-ditosos-de-joao-ubaldo-67028

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