CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

28 de fevereiro de 2015

Livro revela como foi articulado assassinato de Trotski

Leituras relacionadas: 

  1. O homem que amava os cachorros: Leonardo Padura (grupo);
  2. Trótsky, exílio e assassinato de um revolucionário: Bertrand M. Patenaude (subgrupo);



POR  


Pavel Sudoplatov

A biografia clássica e detalhada de Liev Trotski (1879-1940) é a escrita pelo historiador Isaac Deutscher, publicada no Brasil em três volumes. Como parte dos arquivos soviéticos foi aberta, depois da queda do comunismo, a pesquisa está, em alguns pontos, datada, o que animou o general e historiador russo Dmitri Volkogonov a escrever “Trotsky — The Eternal Revolucionário” (Free Press/Simon & Schuster, 524 páginas, 1996). Trata-se de um livro notável, dado o acesso de Volkogonov aos arquivos abertos em 1991 e à sua experiência como militar que participou dos governos comunistas. O caráter autoritário de Trotski é rastreado e explicado com mestria, bem como sua excelente formação intelectual. Mas sobre o assassinato de Trotski o livro mais importante é “Operações Especiais — Memórias de uma Testemunha Indesejada” (Publicações Europa-América, 543 páginas, 1994), de Pavel Sudoplatov, com a colaboração de seu filho, Anatoli Sudoplatov. Como chefe das Operações Especiais (assassinatos e terrorismo), Pavel Sudoplatov foi o homem que coordenou o assassinato do revolucionário ucraniano, no México, em 1940, e o roubo dos segredos atômicos dos Estados Unidos. Com o apoio do filho e dos pesquisadores Jerrold L. Schecter e Leona Schecter, Sudoplatov decidiu contar histórias sobre as quais não há informações precisas nem nos arquivos soviéticos (Stálin tinha o hábito de dar ordens verbais, sobretudo quando se referia a assassinatos e envenenamentos). No prefácio, o historiador inglês Robert Conquest, dos primeiros e mais gabaritados analistas do stalinismo, escreve: “Esta é a mais sensacional, a mais devastadora e a mais informativa autobiografia que alguma vez emergiu do meio stalinista. Um documento único”. O livro de Conquest “O Grande Terror — Os Expurgos de Stálin”, publicado na década de 1960, permanece atualíssimo, em linhas gerais.
O capítulo mais espetacular, “O assassinato de Trotski”, tem 22 páginas. Finalmente, depois do interessante mas ainda insuficiente livro “Operação Trotski — Levantando o Véu de Mistério que Cobria o Brutal Assassinato Ordenado por Stálin” (Record, 192 páginas, 1972), de José Ramón Garmabella, o crime é explicado detalhadamente. Sudoplatov abre seu baú de memórias e conta tudo, ou quase. Relata até fatos menores, que nada mudam, mas mostram sua intimidade com o assassino de Trotski, o “espanhol” (há quem diga que nasceu em Cuba) Ramón Mercader. Os livros registram que Mercader fechou os olhos ao agredir o revolucionário soviético. A Sudoplatov, Mercader esclareceu que atingiu Trotski de olhos abertos.
Sudoplatov conta que, em 1938, foi convocado ao Kremlin por Lavrenti Beria, o chefão da NKVD, a polícia política. “Stálin estava diferente. Estava concentrado, equilibrado e calmo.” Beria disse para Stálin: “Sugerimos que o camarada Sudoplatov seja nomeado diretor-adjunto do Departamento de Informações Externas do NKVD”. A indicação tinha o objetivo de destruir Trotski, porque Sudoplatov era tido como profissional do melhor quilate. “A minha missão seria mobilizar todos os recursos disponíveis do NKVD para eliminar Trotski, o pior inimigo do povo.”
Stálin explicou o motivo pelo qual Trotski deveria ser morto: “Não há figuras políticas importantes no movimento trotskista, à exceção do próprio Trotski. Se este desaparecesse, a ameaça seria eliminada. (...) Trotski deve ser eliminado no prazo de um ano, antes do eclodir inevitável da guerra. Sem a eliminação de Trotski, não poderemos confiar nos nossos aliados do movimento comunista internacional. Eles enfrentarão grandes dificuldades no cumprimento do dever internacional de desestabilizar a retaguarda dos nossos inimigos através de operações de sabotagem e atividades de guerrilha se tiverem de lidar com infiltrações traidoras de trotskistas nas suas fileiras”.
O ditador prometeu que os assassinos de Trotski seriam lembrados “para sempre” pelo Partido Comunista e suas famílias seriam beneficiadas. Stálin cumpriu a promessa, mas, no governo de Nikita Kruchev, Sudoplatov acabou preso. Kruchev queria esconder seu stalinismo.
Sudoplatov recrutou veteranos soviéticos que atuaram na Guerra Civil Espanhola. Stálin disse que deveria se reportar unicamente a Beria e destacou: “A responsabilidade completa pelo cumprimento da missão pertence-lhe”. Nota-se, pois, a importância do articulador do assassinato de Trotski.
O experimentado Leonid Eitingon, que havia lutado na Espanha, foi o primeiro recrutado por Sudoplatov. A operação contra Trotski recebeu o nome de Utka (Pato), termo usado para “desinformação”. O chefe dos assassinos soviéticos conta que a rede trotskista estava infiltrada por agentes stalinistas, como Maria de la Sierra, secretária de Trotski na Noruega e no México. (A história de Maria de la Sierra é impressionante e merece um livro. Era uma espiã tão ou mais experimentada do que Olga Benario.)
Além do grupo chefiado pelo pintor mexicano David Álvaro Siqueiros (um aloprado), que comandou a primeira tentativa de matar Trotski, Eitingon recrutou a aristocrata decadente Caridad Mercader e seu filho, Jaime Ramón Mercader del Rio Hernández (“assemelhava-se ao ator francês Alain Delon”). Mercader, que havia sido guerrilheiro na Espanha, aproximou-se de Sylvia Ageloff, secretária de Trotski, em Paris. Ageloff apaixonou-se pelo bonitão espanhol. Eitingon disse-lhe para não manter atividades políticas e apresentar-se como empresário. Para que, obviamente, os alertas Trotski e seus familiares e aliados não desconfiassem.
Beria informou Sudoplatov que não devia se preocupar com contenção de despesas, pois a operação era de alta prioridade. Custasse o que custasse, Trotski deveria ser assassinado. Eitingon abriu uma empresa de importações-exportações, em Nova York, em 1939, com o objetivo de acobertar as ações de Mercader, agora com o nome de Frank Jacson. Mercader apresentava-se como empresário canadense. Ao saber que a primeira tentativa de matar Trotski havia falhado, Stálin insistiu: “A eliminação de Trotski significará o colapso total da globalidade do momento trotskista e não precisaremos gastar qualquer soma de dinheiro no combate aos trotskistas e às suas tentativas para nos enfraquecer ou ao Comintern”.
Sob pressão de Stálin, Sudoplatov decidiu apressar a operação para matar Trotski. Mercader disse a Sudoplatov que preferiu agir sozinho, para não levantar suspeitas. Em 20 de agosto de 1940, entrou na casa de Trotski, para este examinar um artigo do novo “aliado”, e enfiou uma picareta de montanhismo na cabeça do rival de Stálin. “No último instante, quando Mercader estava prestes a atingi-lo, Trotski, que estivera absorvido na leitura do artigo, mexeu a cabeça. Isso mudou a direção do golpe, enfraquecendo o seu impacto. Foi por este motivo que Trotski conseguiu gritar por socorro e não morreu instantaneamente. Ramón estava demasiado nervoso e não conseguiu esfaquear Trotski, embora transportasse consigo uma faca. ‘Embora fosse um guerrilheiro experiente que esfaqueara um guarda até a morte durante a Guerra Civil Espanhola, o grito de Trotski paralisou-me quase totalmente’, explicou Ramón.” Trotski morreu no dia seguinte.
Stálin aprovou o “trabalho bem-feito”. Durante seis anos, Mercader, conhecido na prisão como Frank Jacson, manteve a versão de que matou Trotski porque havia se decepcionado com suas ideias e que os trotskistas queriam explorá-lo financeiramente. Estava muito bem treinado pelo serviço secreto soviético e, mesmo torturadíssimo pela polícia mexicana, nada confessou.
A identidade de Mercader só foi revelada quando um parente desertou da União Soviética, em 1946, e contou sua história à imprensa. Mesmo assim, Mercader “nunca confessou que assassinara Trotski por ordem dos Serviços de Informação soviéticos”.  Era, repetia, um “decepcionado”.
Libertado, em 1960, mudou-se para a União Soviética, com a mulher Raquelia, e foi condecorado com a medalha de Heroi da União Soviética pelo presidente da KGB, Alexsandr Nikolayevich Shelepin. “Foi nomeado membro-investigador sênior do Instituto de Marxismo-Leninismo”, recebeu uma dacha (uma casa de campo) do Partido Comunista e “uma pensão equivalente à de um general importante reformado”. Stálin pagou o prêmio prometido.
Em meados de 1970, Mercader foi para Cuba, como conselheiro de Fidel Castro, de quem era “parente afastado”. Morreu em Cuba, em 1978, pranteado por Fidel e Raúl Castro, de quem era íntimo. Sem autorização de sua mulher, o corpo foi levado secretamente para Moscou com o nome de Ramón Ivanovich López.
A história de Mercader é contada pelo cubano Leonardo Padura na biografia romanceada “El Hombre Que Amaba a los Perros” (Tusquets, 584 páginas, R$ 68,10). O livro pode ser pedido no site www.livrariacultura.com.br (em inglês, no site da livraria Amazon, é mais barato).


Fonte: É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte. 
© Copyright 2015 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — seutexto@uol.com.br 
wilder morais

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Prezado leitor, em função da publicação de spams no campo comentários, fomos obrigados a moderá-los. Seu comentário estará visível assim que pudermos lê-lo. Agradecemos a compreensão.