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3 de janeiro de 2015

Personagem foge da vida real em "A ficcionista" de Godofredo de Oliveira Neto







Personagem foge da vida real em novo livro de Godofredo de Oliveira Neto Artur Moser/Agencia RBS
Godofredo: " O romance vem com nome de outro autor, para quem ela vende suas histórias"Foto: Artur Moser / Agencia RBS
Do encontro de um escritor com uma narradora peculiar, em uma região isolada do Oeste de Santa Catarina, nasce um relato construído a partir de uma série de entrevistas: ele paga R$ 100 por sessão para ela lhe contar histórias que se transformam em material literário.
Nesta relação, muito baseada em perguntas e respostas, uma questão se mantém: quem é - caso exista - o autor? O novo livro de Godofredo de Oliveira Neto, A Ficcionista, apresenta Nikki, espécie de fugitiva do mundo real que vive em um posto de gasolina abandonado. 

O escritor vai ao seu encontro na esperança de reunir material para um romance e, aos poucos, os papeis de ambos se tornam menos nítidos, até que a entrevistada assume o controle.


A personagem central do livro, Nikki, é real?

Nikki é uma personagem de ficção baseada em dados colhidos no dia a dia. Uma jovem que se sente derrotada pela sociedade competitiva e bestializada. Ela então parte para um tipo de exílio: um posto de gasolina abandonado numa estrada também desativada no Oeste de Santa Catarina, ou seja, o máximo fora do real que consegue. Lá no seu novo espaço, ela vai criar um mundo ficcional, messiânico (sentimento não raro na região por conta do Contestado), fragmentado, meio ilógico, como qualquer mundo em formação. E Nikki vai radicalizar essa última experiência de criar um outro mundo escrevendo anonimamente um romance, um outro real. O romance vem com nome de outro autor, para quem ela vende suas histórias. A arte se torna então um instrumento de resistência.

Você acha que Nikki iria aos protestos que estão acontecendo nas ruas do Brasil?

Acho que ela, num primeiro momento, quando se afastou para o seu posto de gasolina abandonado, não iria aos protestos. Achava que tinha perdido a batalha para sempre. Mas como no final do livro ela retoma as rédeas, na medida em que passa de entrevistada a entrevistadora, e se coincidisse então, com o momento em que se dessem as manifestações, ela iria sim. E daí... sai da frente!

Por que um posto de gasolina abandonado? Esse lugar de passagem onde ninguém passa e ela permanece...

O posto de gasolina abandonado numa estrada também desativada é o espaço mais fora do "real" que ela encontrou em vida. Lá ela pode construir um outro mundo ficcional/virtual na cabeça. Gostei também desse teu "onde ninguém passa e ela permanece". Vou usar, se me permite. (Risos)

A escolha da entrevista como "método" de construir a história também é inusitada.

Pois é. Não é autobiográfico, apesar de conter temas que me são caros como escritor, tais como o exílio. Ela se exilou no seu posto de gasolina como muitos jovens exilados na sua própria cidade devoradora, sou autor de Amores Exilados; o messianismo, sou autor de O Bruxo do Contestado, onde imperam os milagres de João Maria, na mesma região do posto, e tudo se passa em Santa Catarina, onde se passam também os outros romances e de onde venho. Quanto ao "método": a morte do autor. O autor cede total e integralmente a sua narração a outra pessoa. Vem ressaltada assim a morte dupla do autor. Primeiro porque é o personagem que fala numa entrevista, sem a intromissão do narrador normalmente presente em tudo (onisciente). E, segundo, nem mais é ele o autor (é ela, que não aparecerá).

Algumas falas de Nikki me fizeram pensar na escritora Hilda Hilst, tipo sensível e selvagem. Alguma relação?
Li, sim, como muitos, a Hilda Hist. Mas ela não me veio à cabeça (pelo menos conscientemente) quando redigi o livro. Talvez na construção da personagem "tipo sensível e selvagem", como você diz. Vou pensar. Conscientemente, pensei mais na Marguerite Duras.

Ficha:
A Ficcionista. De Godofredo de Oliveira Neto. 
Editora Imã, 115 págs.
DIÁRIO CATARINENSE

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