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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

5 de janeiro de 2015

A ficcionista segundo Elenir


Elenir

Acabo de ler "A Ficcionista". 

Excelente livro! Parabenizo quem o sugeriu. 

Através de entrevistas gravadas, Nikki, uma garota de uns 20 anos, personagem que amei, conta sua história, suas memórias, ora com   passagens saborosas, ora com cenas violentas e cruéis, com referência à música clássica e à dança perpassando o texto. Tudo, sob a grande técnica literária de Godofredo de Oliveira Neto.


Godofredo

Ex-aluno de Roland  Barthes e Jacques Derrida, em vários diálogos, sente-se a influência desses  pensadores. Para Rolan Barthes, quando um escritor termina o livro este já não lhe pertence, dá-se sua morte. Pronuncia-se, igualmente, o filósofo francês Jacques Derrida, autor da Teoria da Desconstrução, ao abordar instigantes questões sobre a literatura: 

“Quando o livro fica pronto, ele segue vida própria. É o parricida de seu autor, na medida em que permite sua desconstrução em infinitas interpretações, de acordo com o olhar de cada leitor."




Pág.62

--- Não sou personagem de ficção! Sou de carne e osso, pô! Mas, de fato, homens , na minha vida, apareceram muitos, se é que te interessa.

---Não particularmente, é só para ir construindo cenas e personagens.

---Mas não se esqueça que construir um personagem é também destruir um conceito, trabalha isso com os babacas dos teus leitores.

---De qualquer maneira, Nikki, escrever é um ato de resistência à linguagem comum, não vou repetir bobamente o que você narra.

Pág.68:

---As interpretações de sociólogos e políticos publicadas pelos jornais, não tinham nada a ver com o que a gente fazia. Aliás, como vai acontecer com o teu romance. Cada leitor lerá do seu jeito, e o mesmo leitor, se ler o romance de novo, descobrirá novos horizontes  novas realidades . Cada leitura corresponde a um novo mundo, não é assim? 

---Essa é a luta de qualquer escritor, Nikki. Deixa isso comigo.

---Estou deixando, só fiz essa observação por fazer. Sempre que releio um texto, sinto e vejo coisas que não tinham me chamado a atenção na leitura anterior.

Pág. 104:

---Você tem dúvidas sobre a existência de um mundo ficcional, Nikki?

---Claro que não, mas o dito e o relatado até agora são a pura verdade. E quem garante, que você, como leitor, não vai entrar na minha história e modificá-la? E quem garante a transcrição fiel da minha narração? 

Pág.114:

Literatura é técnica, Nikki. Não é imitação ou descrição do real. É herança cultural.


E, para terminar, transcrevo as palavras de Nikki, às fls. 32:

"...as nossas angústias e depressões não vêm de dentro. A história pessoal da gente é pequena comparada às balas traçantes e transfixantes recebidas de fuzis alheios. O mundo exterior é que nos fragiliza. Em grupo, reagimos com mais eficácia.  

Desculpem-me! Estendi-me muito. Culpa da Ficcionista e de seu criador. 

Abraços a todos desse grupo que me fortalecem com sua amizade.

Elenir







3 comentários:

  1. Salve, Elenir! Bela análise do livro do mês!

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  2. "---Você tem dúvidas sobre a existência de um mundo ficcional, Nikki?"

    Certa vez um dos escritores que frequenta nosso Clube de Leitura confidenciou-me que acredita que os personagens ficcionais vivem de fato em algum lugar, que ele considera impossível que um Dom Quixote, um Raskólnikov, um Zeno, personagens que atravessarão os séculos povoando a mente de bilhões de indivíduos, sejam menos reais que nós, homens comuns,de quem ninguém mais se lembrará em pouco tempo depois que já não estivermos mais neste mundo. Que um dia acessaremos essas dimensões que ficam além de nosso universo, e que a Literatura é o verdadeiro caminho que nos conduz para esse multiverso!

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