CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

3 de dezembro de 2014

Pesadelo: Ilnéa País de Miranda

Contar um sonho. Descrever um sonho. Um sonho sonhado dormindo. Ou quase. Mais que um sonho: um pesadelo. Ou quase. Que diferença? Falar sobre ele, ou outro qualquer, nem tão difícil. Existe algo além das palavras que deslizam da mente pela boca: o gesto, a expressão nos olhos, no rosto, no corpo de quem conta e a resposta de quem ouve, também no gesto ou não, na expressão dos olhos, do rosto, do corpo - ou não - e a interferência, o interesse... É como no teatro. O contador é o ator; o ouvinte a platéia - mesmo sem espectadores presentes: há sempre energia nas poltronas de um teatro - e no palco - e na coxia. Personagens e platéia, sempre lá, de alguma forma.

Mas escrever um sonho, eu, a lembrança, a caneta e o papel...apenas isso e nada mais que eu mesma e o meu sentimento, e o meu susto...fica difícil. Nem sei por onde começar. Quem sabe seja melhor começar antes do começo, se é que isso é possível. Começar dizendo que fui deitar sozinha e ocupar uma estreita faixa da cama larga. Televisão ligada. Quase duas da madrugada. Janela - toda de vidro, com a cortina corrida. Olhei para o lado oposto: lá estava a bolsa amarela de nylon com o 38 dentro.  Me incomoda: acho paranóia dormir com revolver pendurado na cama ou andar com ele pela casa. Sempre me vem à cabeça histórias de acidentes com pessoas queridas e posteriores desesperos por perdas irreparáveis. E não é que não saiba usá-las- as armas, digo. Quer dizer, sabia pelo menos. De há muito não as toco. E continuou lá.

Televisão quase sem som, no timer para 60 minutos. resolvi, senão meditar, tentar relaxar, deitada mesmo, dentro do triângulo colorido. E me senti como levitando, sentada dentro de uma pirâmide, suficientemente grande para me conter, quieta. Eu levitava- eu levitava? A pirâmide levitava a alguns centímetros do colchão. E era toda feita de correntes de metal, grossas pesadas, coladas umas às outras. O me sentir suspensa me agradava: não me agradavam as correntes. Queria continuar levitando, por minha própria força. Mas não queria as correntes. E tentei me livrar delas sem desespero, só com o pensamento. Consegui, mas me desestruturei toda. E despenquei na cama, dentro do meu corpo.

E olhei a janela. Não havia cortinas. E não era noite. Estava claro. E lá estava o homem. Forte, claro, não muito alto. Roupa comum, rosto comum, braços cruzados sobre o peito e sorriso sacana, me olhava através do vidro fechado da janela. Não senti que realmente me quisesse agredir fisicamente, mas me sacanear profundamente e me levar ao pânico, ao desespero. Por instantes fiquei olhando aquela cara debochada, sem conseguir nem respirar. Lembrei de Antonieta, minha empregada, que dormia no outro quarto, não por hábito, mas por acaso, me fazendo companhia porque ... disso porém não lembrei. Quer dizer, lembrei de Antonieta, de que ela estava no outro quarto, mas não lembrei porque. E via o homem parado, me olhando através do vidro fechado da janela. O sorriso cretino, o mesmo. Ele não falava, mas era como se eu pudesse ler seu pensamento. Não se movia, mas eu sabia que a qualquer momento ele iria estar dentro do meu quarto. Queria gritar e sufocava. Não podia respirar. Doía a garganta, doía o peito. "Antonieta! Acorda e me socorre!" Nada. Não havia voz. Nem ar . E ele me olhava da janela. Aconteceu, meu Deus, aconteceu. Que é que eu faço agora? Aquele sorriso cretino, aquele olhar obsceno. O que é que eu faço? o que é que eu faço? O revolver. Não me lembro como, mas, de repente estava em minhas mãos. E eu apontei na direção do peito do homem que ria, mais com os olhos que com a boca. Cada vez mais confiante de seu poder sobre mim. E da minha fragilidade, do meu pavor. O primeiro tiro raspou o braço - continuavam os braços cruzados: nada mudara nele ou em sua posição durante todo o tempo - e lhe entrou no peito. Feriu quase nada. Desdém. Ele desdenhou a mim, a minha atitude, minha pretensa coragem de tentar enfrentá-lo. Seu sorriso era quase galhofa. "Que adianta? Você tem uma arma, mas sua munição é fraca. Não adianta. Pode atirar quanto quiser. Não vai conseguir se livrar de mim." Mais um tiro. Mais outro. O grito não saia, o meu grito é que me sufocava o peito. Meu Deus quero gritar eu preciso gritar senão meu grito me sufoca. Antonieta, é dia, por que você não aparece? está dormindo? por que dormindo? E, de repente, ele estava ali, não sei como pois a janela continuava fechada, o dia lá fora, o grito no peito, o revolver na mão direita, um telefone na mão esquerda: chamar a polícia 189, 189, o número que não conseguia discar e o sorriso e o olhar desdenhoso e o pânico e o pavor e os braços dele já não mais cruzados mas em volta de mim sem me tocar mas me impedindo qualquer forma de fugir do desespero! e vi Antonieta, também no meu quarto. Ele não via. Só continuava me olhando, me dizendo que, se quisesse  eu não me livraria nunca daquele abraço que eu não queria, que pressionava, que oprimia,
que não deixava viver, nem respirar, nem gritar - eu não podia nem pedir socorro. Mais um tiro, mais outro e mais outro. Nada. O sorriso, o olhar, o desdém  "Você não consegue, não consegue." Vou morrer. Não vou ser morta. Ele não vai me matar mas vai me fazer morrer. Preciso gritar, preciso gritar para não morrer sem ar. Antonieta tem um telefone e ele não vê. Eu vejo. Eu sei: a polícia já vem. Mas eu preciso gritar. Se eu gritar eu venço esta. E tento. E tento mais uma vez olhando todo aquele desdém e grito, e grito forte e alto e de verdade.

"Dá uma paulada na cabeça dele Antonieta!

Ë acordo no meio do grito, mas não paro. Termino o grito e ouço grito ainda. E espanto o pesadelo.

Respiro.

Não morri. Não ainda. Não dessa vez.

A televisão continua ligada. O filme continua.

A janela continua fechada. As cortinas continuam corridas. A porta do quarto encostada. A noite continua.

Silêncio.

Quanto tempo faz que levitei na pirâmide de correntes? Parece tanto...

Penso em levantar para ver se tudo está bem. Em telefonar para ... quem? Bobagem. Um sonho mau. Só isso. O sonho mau acabou. Posso dormir. Gritei. Respirei.

No cantinho da tela aparece 25. Tudo então não durou mais que 35 minutos. O pesadelo muito menos: ninguém fica tanto tempo sem respirar. Adormeci. Não sonhei mais. Acordei, fui caminhar ainda noite. Vi o dia amanhecer na praia. Sem medo.

O rosto continua. Os braços cruzados, o sorriso sem riso; o olhar desdenhoso ainda me faz pequena e frágil… de algum lugar…

… ah, como é difícil gritar.

Niterói… há algum tempo atrás...




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Prezado leitor, em função da publicação de spams no campo comentários, fomos obrigados a moderá-los. Seu comentário estará visível assim que pudermos lê-lo. Agradecemos a compreensão.