CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

9 de fevereiro de 2015

Crônica da casa assassinada: Lucio Cardoso


Somos a verdade do que somos!




Tantos anos passados, e eu ainda não esqueci. Amar, amei outras vezes, mas como se fosse um eco desse primeiro amor. Não são pessoas diferentes a que amamos ao longo da vida, mas a mesma imagem em seres diferentes. Também me desesperei de outras vezes, até que me desesperasse não mais do amor, mas do fato humano. 





Sempre soube, coronel, do sentimento que alimentava por mim. Nunca me passou despercebido que frequentasse nossa casa exclusivamente por minha causa. Dirá você que fui leviana, que aceitei demais não tendo intenção de retribuir coisa alguma. Neste caso é porque você não conhece o coração das mulheres, e nem sabe o que sacrificamos dos outros para satisfazer nossa vaidade. 




Nada existe de mais diabólico do que a certeza.
Não há nela nenhum lugar para o amor.
Tudo o que é firme e positivo é uma negação do amor.





A solidão é um húmus de poderosa fecundidade,
que aduba ricamente terrenos pouco defendidos.




As coisas já estavam preparadas,
eu assistia somente à eclosão de acontecimentos
fermentados no âmago dos seres que de há muito participavam deles.



Senhor dos abismos

Havia nela um fervor diabólico. Solitária, distanciava-se de mim, dos meus problemas, do que eu sabia e sempre havia visto como inerente à natureza humana. Aquela mulher, evidentemente, trazia alguma coisa em si que transcendia minhas possibilidades. Diante dela, não a reconhecia, era como se a visse pela primeira vez - e não pude deixar de reconhecer que era bela, muito bela ainda, com aquelas palavras singulares ardendo em seus lábios, de tão poderoso efeito que parecia banhá-la em uma luz já oriunda do inferno.



Fitava-me, e à medida que assim o fazia, por um estranho processo cuja razão eu não chegava ainda  a entender, sentia aumentar-me aos seus olhos, amadurecer-me e cristalizar-me numa forma definida: alguém. É que pela primeira vez ela me via, e não a um outro qualquer por trás da minha personalidade, um eco, a sombra de um passado. Naquele segundo, quem existia era eu mesmo, e ela escutava minha aparição, atenta, seguindo em meu rosto os sinais dessa metamorfose, e os traços desse processo que me esculpia total.




É possível esconder o amor até certo ponto, depois ele transborda, independente de nossa vontade... Mas em Demétrio o amor não se manifestava como em todo mundo - era para ele uma doença, um mal físico, insuportável. Sua natureza não permitia aquela intromissão, era demais para suas forças, lutava como um homem que estava prestes a naufragar. Aos poucos, à força de encarar Nina como uma ameaça à sua tranquilidade, acabara por supô-la um perigo geral - um mal que, para bem de todos, evidentemente devia ser extirpado...  Mas a verdade, como separá-la, como distingui-la perfeitamente nesses seres conjugados entre a luz, a obstinação e o erro? Eles são a verdade do que são.

Falar seria conceder a esmola de uma explicação.





E tombou sobre a cama, soluçando. Coisa bizarra, suas unhas arranhavam a colcha amarfanhada e, naquele estertor, não parecia entregue ao esforço do pranto, mas a um descontrolado acesso de prazer. Depois foi-se aquietando, o sono ganhou-a.  Uma última vez olhei o corpo estendido, o pensamento perturbado por ideias de ordens diversas: não conseguia odiá-la, tão indefesa me parecia. Pé ante pé abandonei o quarto, indo estender-me na rede da varanda.

Do lado de fora, isolada daquele quadro harmonioso, pensei comigo mesma que eles tinham toda a aparência de uma família feliz. Aparência apenas, porque em todos eles havia um elemento destrutor que os corroía. 





Somos sempre cruéis quando queremos ser nós mesmos... 
mas os outros, o que nos impedem, os que nos tolhem o caminho... 
que dizer deles?

... ela... não possuía natureza para ser feliz; que, ao contrário dos outros, tudo nela aspirava a uma contínua e insaciável desgraça. Nunca os vira de perto, mas eu sabia que existiam seres assim: a infelicidade para eles era tão necessária quanto o ar que respiravam. Naquele minuto, vendo-a caminhar de um lado para o outro, presa às engrenagens de sua própria vida como entre as grades de uma jaula, como entendia que ela jamais houvesse amado o marido, que provavelmente jamais houvesse amado quem quer que fosse! Pois o característico desses seres ávidos de desgraça é uma secura de alma, uma inquietante carência de amor. 

Que é o ciúme senão um zelo angustiado pelo que mais se ama?

Puxou o roupão, endireitou o busto, num gesto de cólera ou de orgulho - e isto, executado de modo simples, ofendeu-me mais do que qualquer palavra. Fora quase um ato de pudor - e eu a supunha à mercê de todos os impudores.




"... pois nele também há qualquer coisa de irreprimível e de fantástico. É um sensitivo, para quem os dados da fantasia valem mais do que os da realidade. Muitas vezes, ao constatar isso, predisse o quanto terá de sofrer, caso não venha em seu socorro os dons da inteligência."


Pintura de Lucio Cardoso



Crônica de Clarice para Lúcio Cardoso



Lúcio, estou com saudade de você, corcel de fogo que você era, sem limite para o seu galope.


Saudade eu tenho sempre. Mas, saudade tristíssima, duas vezes.



A primeira quando você repentinamente adoeceu, em plena vida, você que era vida. Não morreu da doença. Continuou vivendo, porém era homem que não escrevia mais, ele que até então escrevera por uma compulsão eterna gloriosa. E depois da doença, não falava mais, ele que já me dissera das coisas mais inspiradas que ouvidos humanos poderiam ouvir. E ficara com o lado direito todo paralisado. Mais tarde usou a mão esquerda para pintar: o poder criativo nele não cessara.



Mudo ou grunhindo, só os olhos se estrelavam, eles que sempre haviam faiscado de um brilho intenso, fascinante e um pouco diabólico.



De sua doença restaria também o sorriso: esse homem que sorria para aquilo que o matava. Foi homem de se arriscar e de pagar o alto preço do jogo. Passou a transportar para as telas, com a mão esquerda (que, no entanto, era incapaz de escrever, só de pintar) transparência e luzes e levezas que antes ele não parecia ter conhecido e ter sido iluminado por elas: tenho um quadro, de antes da doença, que é quase totalmente negro. A luz lhe viera depois das trevas da doença.



A segunda saudade já foi perto do fim.



Algumas pessoas amigas dele estavam na ante-sala de seu quarto no hospital e a maioria não se sentiu com força de sofrer ainda mais ao vê-lo imóvel, em estado de coma.



Entrei no quarto e vi o Cristo morto. Seu rosto estava esverdeado como um personagem de El Greco. Havia a Beleza em seus traços.



Antes, mudo, ele pelo menos me ouvia. E agora não ouviria nem que eu gritasse que ele fora a pessoa mais importante da minha vida durante a minha adolescência. Naquela época ele me ensinava como se conhecem as pessoas atrás das máscaras, ensinava o melhor modo de olhar a lua. Foi Lúcio que me transformou em “mineira”: ganhei diploma e conheço os maneirismos que amo nos mineiros.



Não fui ao velório, nem ao enterro, nem à missa porque havia dentro de mim silêncio demais. Naqueles dias eu estava só, não podia ver gente: eu vira a morte.



Estou me lembrando de coisas. Misturo tudo. Ora ouço ele me garantir que eu não tivesse medo do futuro porque eu era um ser com a chama da vida. Ora vejo-nos alegres na rua comendo pipocas. Ora vejo-o encontrando-se comigo na ABBR, onde eu recuperava os movimentos de minha mão queimada e onde Lúcio, Pedro e Míriam Bloch chamavam-no à vida. Na ABBR caímos um nos braços do outro.



Lúcio e eu sempre nos admitimos: ele com sua vida misteriosa e secreta, eu com o que ele chamava de “vida apaixonante”. Em tantas coisas éramos tão fantásticos que, se não houvesse a impossibilidade, quem sabe teríamos nos casado.



Helena Cardoso, você que é uma escritora fina e que sabe pegar numa asa de borboleta sem quebrá-la, você que é irmã de Lúcio para todo o sempre, por que não escreve um livro sobre Lúcio? Você contaria de seus anseios e alegrias, de suas angústias profundas, de sua luta com Deus, de suas fugas para o humano, para os caminhos do Bem e do Mal. Você, Helena, sofreu com Lúcio e por isso mesmo mais o amou.



Enquanto escrevo levanto de vez em quando os olhos e contemplo a caixinha de música antiga que Lúcio me deu de presente: tocava como em cravo a Pour Élise. Tanto ouvi que a mola partiu. A caixinha de música está muda? Não. Assim como Lúcio não está morto dentro de mim.



( In: A Descoberta do Mundo, Clarice Lispector. Publicado originalmente em 11 de janeiro de 1969, no Jornal do Brasil.)




Talvez eu não devesse mentir-lhe, pois ele contava comigo para aquilo que chamava "o nosso pacto" - talvez eu devesse dizer-lhe que suas palavras eram para mim obscuras e sem sentido. Mas, repito, mesmo sem entender, havia em meu espírito uma aquiescência, compreendia-o sem compreender, sentia-me ao seu lado, sem saber que lado fosse esse. 





Mas é um selvagem que você está criando!

LITERATURA

Crônica da Casa Assassinada




Decadência de família rural de Minas Gerais é mote para Lúcio Cardoso descrever um clima de pesadelo por meio da mente atormentada dos personagens


11/07/2011 18:34 
Foto: BRAZ BEZERRA
Lucio Cardoso
Descoberto pelo poeta poeta Augusto Frederico Schmidt, Lucio Cardoso publicou mais de uma dezena de trabalhos

Obra máxima de Lúcio Cardoso, um dos mais densos e originais ficcionistas da prosa brasileira surgidos nos anos de 1930, Crônica da Casa Assassinada (1959) é um livro de extrema complexidade, composto de um entrelaçamento de perspectivas e de recursos narrativos como trechos de diários, anotações, confissões, flash-backs, além de modos de expressão que se aproximam da mais pura poesia. Na verdade, todos esses meios são empregados para que o autor possa atingir seu objetivo principal: revelar o estado de alma angustiado de seus personagens e retratar o clima de pesadelo que permeia a história. 


O enredo, porém, é simples. Trata da decadência dos Menezes, uma família de fazendeiros das Minas Gerais. Movidos por fortes sentimentos de inveja, incesto, desamor e ambição, os Menezes devoram-se uns aos outros até a mais completa desintegração financeira e moral. O fulcro da ação se dá no relacionamento amoroso entre Nina, mulher de um dos irmãos proprietários da fazenda, e o suposto filho deles, André. "Entre as várias implicações que a ligação André-Nina pode ter com o tema central do romance (a descoberta de Deus no Mal)", afirma a crítica literária Nelly Novaes Coelho, "parece-nos que a mais importante é [...] a dupla ânsia de sobreviver e de vencer as forças que se opunham à total expansão do ser." 



O que interessa ao autor não é contar uma história nos moldes tradicionais, mas mergulhar na febre dos sentimentos conflituosos dos atores do drama, que faz par com a atmosfera de morbidez e de trevas que ronda a propriedade rural e o declínio da família. Essa preferência por explorar os fatores psicológicos e existenciais dos personagens, em cuja descrição se revelam traços de delírio, de terror, de anormalidade, já fazia parte dos romances anteriores de Lúcio Cardoso, como A Luz no Subsolo (1936), A Professora Hilda (1946) e O Enfeitiçado (1954). É o próprio romancista quem revela essa sua opção estética em nota ao A Professora Hilda: "O que neles [nos personagens] me interessa, o que quis mostrar nos seus destinos atormentados foi a força selvagem com que foram arrastados para longe da vida comum, sem apoio na esperança, sem fé numa outra vida, cegos e obstinados contra a presença do Mistério". 



Nascido em Curvelo, Minas Gerais, em 1913, Joaquim Lúcio Cardoso Filho logo se transferiu para Belo Horizonte, onde completou sua formação escolar, e, depois, para o Rio de Janeiro. Foi na capital fluminense que, recebendo as influências do ambiente intelectual que freqüentava e de inúmeras leituras, iniciou suas experiências literárias. Antes dos 20 anos, já tinha guardadas centenas de páginas de prosa e de poesia. Foi descoberto pelo poeta Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), que em 1934 editou seu primeiro livro, Maleita, obra ainda presa à estética regionalista que fazia sucesso na época. Publicou mais de uma dezena de romances, além de escrever poesia, peças de teatro e roteiro de cinema. Crônica da Casa Assassinada virou filme de Paulo César Saraceni, em 1967. Lúcio Cardoso morreu no Rio, em 1968.

(Fonte)




... os seres mudam,
não são arquiteturas fixas,
mas forças em propulsão a caminho do seu estado definitivo. 


... para grande desgraça da minha vida, essa mulher sempre exerceu uma nefasta influência sobre os meus sentidos. Nunca pude vê-la perfeitamente calmo. Agora, depois de quinze anos de ausência, durante os quais a achava conspurcada por mãos alheias, esgotada e sem chama, ainda não posso fitá-la sem emoção, tanto é o prestígio de sua beleza, e a graça feminina de seus movimentos...


um ser egoísta e definido que parece irradiar a própria luz e o calor da paisagem.

Meu tormento maior é precisamente esta incerteza, e um dos poderes desta mulher é fazer-nos duvidar de tudo, até mesmo da realidade.

... de que estranhos recursos de malícia e fingimento aquela mulher era dotada, como sabia de um simples detalhe, de um olhar, de uma palavra sem importância, compor a atmosfera precisa de um engano!


Há verdades que só devem e só podem ser ditas uma vez na vida.

A explosão do paiol de Deodoro - episódio que ocasionou a reserva do pai de Nina

Morremos quase sempre da crueldade ignorada dos seres que nos cercam.

O espírito dos Menezes: vontade de permanecer nos limites de um sólido realismo, de jamais ultrapassar uma determinada esfera de bom senso, essencial ao manejo usual das coisas deste mundo.

Ninguém pode imaginar jamais até onde vai a lealdade das almas simples.

Está escrito que ressuscitaremos um dia e tão mais moços e mais belos quanto menor for a extensão dos nossos pecados.


De volta ao subsolo!






3 comentários:

  1. Um livro constrangedor! Só mesmo uma psicóloga para sacudir o CLIc com uma indicação dessa!

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  2. Não sou lá muito chegado a psicanálise. Sempre achei obsceno esse negócio de ficar contando intimidades e fraquezas a um estranho. (CLB)

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  3. Fiquei absolutamente encantada com as primeiras páginas de "Crônica de uma casa assassinada". A descrição do amor que André sentia pela falecida é muito emocionante e lindíssima. Só um grande poeta seria capaz de escrever assim em prosa. A capacidade literária de Lúcio Cardoso é incrível.

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