CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

28 de dezembro de 2014

A ficcionista: Godofredo de Oliveira Neto



A ficcionista é uma metaficção?

Mise en abyme é um termo em francês que costuma ser traduzido como "narrativa em abismo", usado pela primeira vez por André Gide na obra "Os moedeiros falsos" ao falar sobre as narrativas que contêm outras narrativas dentro de si. Consiste em um recurso modernista, metalinguístico por excelência. 



A Edukadora
Anteontem você falou um pouco da família, dos teus pais, da mudança de Joinville, do gosto paterno pela marcenaria, pode falar mais sobre essa época?
Não tenho muita coisa a dizer. Família super normal, um irmão enfermeiro que vive nos Estados Unidos desde adolescente, fez lá inclusive o Ensino Médio, trabalhando como cozinheiro para pagar os estudos. Pai torneiro-mecânico, mas marceneiro de paixão, como já disse outro dia, mãe motorista de táxi em São Paulo. Ela compunha o contingente de 180 mulheres exercendo essa profissão em Sampa. Doença dos dois. A dele bem grave, a dela foi primeiro nas pernas, reumatismo logo transformado em osteoporose, aposentadoria pequeninha, a dele menor ainda, câncer de intestino, pensão do INSS uma coisiquinha, os dois em casa impotentes, só eu, ainda estudante do Ensino Médio, para segurar a barra, vestibular para o CEFET, aprovada. E um segredinho: aprovada em primeiro lugar, mas não bota isso no livro, hoje não tem sentido para mim qualquer tipo de vaidade. E mais um: eleita pelos calouros a mais bonita do CEFET (mas também não bota não… rsrsrsrsrsrs).
Algum problema de ordem familiar que te levou para caminhos assim diferentes da média e para o messianismo?
Messianismo voltado para o social?
O messianismo não é sempre assim, Nikki? E por que você volta sempre ao mesmo social, como se estivesse se defendendo de alguma coisa?

Você é que está vidrado nesse tema. Os fiéis podem até imaginar leite nos rios e as montanhas virando chocolate! No fundo nem eu mesma acredito.


A ficcionista

"O vocábulo ficção vem do latim fictione(m), que por sua vez derivou-se de "fingere", e significa ato ou efeito de fingir, imaginar, simular. Encerra, portanto, a ficção, o próprio núcleo do conceito de Literatura: literatura é ficção. Neste caso, qualquer obra literária (conto, romance, novela, soneto, ode, comédia, tragédia) constitui a expressão dos conteúdos da ficção. Entretanto, empregamos, costumeira e restritivamente, o termo ficção para designar a prosa literária, isto é, a prosa de ficção." (Ricardo Sérgio - www.ricardosergio.net)


Hmmm... essa ficcionista, não sei não!

"Durante a história do Brasil, não foram poucos os conflitos armados vivenciados pelos brasileiros. Um desses se deu na divisa entre Santa Catarina, Paraná e Argentina, foi a chamada Guerra do Contestado."



O Monge José Maria – Conselho de Guerra
Obra de Willy Alfredo Zumblick

"P; Não particularmente, é só para ir construindo cenas e personagens, já te disse.
N: Mas não esquece que construir um personagem é também destruir um conceito, trabalha isso com os babacas dos teus leitores.

P: De qualquer maneira, Nikki, escrever é um ato de resistência à linguagem comum, não vou repetir bobamente o que você narra.
N: Então vai te foder!!

P: Sinceramente, Nikki, vou ver se relevo no texto essa grosseria que você acaba de dizer.
N: Grosseria?

P: É . Indelicadeza e descortesia.
N: Então interprete como você e seus leitores acharem melhor. Vai plantar batatas talvez seja menos inconveniente... rsrsrsrsrs"



A que verdade pertence a ficção?





Duas visões 


Em "A ficcionista" lemos:


"Não pegaram ninguém?
Uma caminhonete vermelha dessas último tipo, exuberante, foi parada. Com certeza o veículo denunciado. Quatro passageiros saíram do carro com as mãos para o alto. Os policiais apontavam pistolas e metralhadoras. Na verdade, senti forte emoção pela ideia de tribo, de grupo, de manada, entende? Pelo conceito de nação que os mais de vinte motoqueiros demonstravam para a plateia curiosa. São cenas dessa natureza que me confirmam o fascínio pelo conceito de comunidade, só que ainda não estava claro para mim. Hoje tenho certeza, como te disse há pouco, que as nossas angústias e depressões não vêm de dentro. A história pessoal da gente é pequena comparada às balas traçantes e transfixantes recebidas de fuzis alheios. O mundo exterior é que nos fragiliza. Em grupo reagimos com mais eficácia."


Enquanto que em "a ausência que seremos", de héctor abad, podemos ver o outro lado da moeda:


"não cometi aquele ato idiota e brutal por decisão própria nem por pensar nada de bom ou de mau sobre o povo judeu, mas por puro espírito gregário. Talvez seja por isso que, depois de adulto, fujo de grupos, partidos, associações e manifestações públicas; de todo e qualquer tipo de ajuntamento que possa me levar a pensar, não como indivíduo, mas como massa, e a tomar decisões, não por reflexão e avaliação pessoal, e sim por essa fraqueza que vem da vontade de pertencer a uma manada ou a um bando. "







Uma mistura de espiritualismo cristão e paganismo, uma nova religião do universo. O subjetivo e o universal se abraçando, se beijando numa grande festa carnal e mística.


É essa a tua filosofia que atrai tanta gente?

É. E que te atraiu também.


Tento encontrar a paixão, Nikki, só ela pode afastar a razão mortífera. Só então o impulso do coração pode aflorar livre, o amor puro, Dante e Beatriz, Petrarca e Laura, saca?


Entendi.



Hino à morte, Nikki, o amor de Novalis por Sophie, dá para entender? Um astro noturno brilhando sempre para os amantes, sempre. É o luto derrotado pelo amor, a morte derretida, transformada em pó.



Aparados da Serra: Divisa Santa Catarina & Rio Grande do Sul 



"Para você, aquela beleza toda te deixava deprimida ao pensar na condição humana?


Pode parecer estranho, mas aquela comparação, a gente do tamanho de uma formiguinha, nos fazia bem, relativizava a nossa vida, as nossas virtudes, os nossos deslizes, os nossos medos. E principalmente, relativizava o tempo, como se as pedras acrescentassem nós vamos ficar para sempre, vocês vão durar pouco, logo, logo serão barro. E nós, em profundo e respeitoso silêncio, concordávamos resignados. Drogas, dinheiro, moral, poder, guerras, identidades, traições, tudo parecia ridículo comparado com a grandiosidade do cenário.”








Breve entrevista com Godofredo de Oliveira Neto.

- Com as lições do Brasil homenageado em Frankfurt, como você entende o seu "A ficcionista" (Imã Editorial) na literatura contemporânea e como se estabelece a questão do cânone?

Godofredo: A literatura de hoje é extremamente variada, esse é um ponto importante. A personagem Nikki do A ficcionista abraça um humanismo crítico, ou seja, ela não opta pela cultura brasileira hegemônica, nem abraça um relativismo cultural que guetifica as ideologias e as culturas. A narradora busca um horizonte de expectativa. Tenta entender as diferenças mantendo a sua opção de vida. Descreve mais as diferenças do que as julga. Legitima assim a variedade em tudo.

- Como estabelecer então um cânone?

Godofredo: Um é optar pela ideia de herança cultural, que é o que o universo acadêmico normalmente faz, e daí estabelecer esse cânone, ainda que em progresso. Outro é entender que , em função das variedades e do fim das escolas literárias, não é possível estabelecer cânones únicos.



Livro em foco

Godofredo
de Oliveira 
Neto
Um escritor em busca de histórias, ideias, acontecimentos, vida. Uma mulher cheia de histórias, ideias, acontecimentos, vida. Com hora marcada e valor combinado, os dois estabelecem um acordo entre escritor e personagem. E durante dez dias é travado e registrado o conflito entre fato e verossimilhança, desejo e delírio, relato e devaneio. Uma ficcionista construída pela própria vida. Drogas, messianismo, assalto, polícia, música, sexo, amizade, espiritualidade, loucura, morte. Godofredo de Oliveira Neto é autor de nove romances. Premiado no Jabuti 2006 com o livro Menino oculto, é autor de O Bruxo do Contestado e Amores Exilados.



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Debate contará com a presença do escritor Godofredo de Oliveira Neto em Janeiro



A morte de Sardanapalo - Delacroix


5 comentários:

  1. Esta deverá ser uma leitura fascinante por apaixonados da literatura! Ansiosa por ela!
    Elô

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  2. Ler o Godofredo de Oliveira Neto estava em nossos planos há um bom tempo, Elô. Que bom que surgiu essa oportunidade de ler sua última obra e ainda contar com a preciosa presença do autor, que ficou entusiasmado ao receber o convite e se disponibilizou a comparecer ao debate. Certamente será mais uma noite memorável no CLIc, especialmente para o escritor que encontrará leitores apaixonados por literatura como você. Também estou curioso para conhecer essa fascinante ficcionista!

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  3. Tambem estou esperando ansiosamente por Godo!!!!!

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