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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

9 de outubro de 2014

Crônica Off-UFF 2014, autor Carlos Benites


Além dos textos classificados no Prêmio UFF de Literatura deste ano, cuja publicação não pode ocorrer antes da data da premiação, descolados cliceanos liberaram seus textos não classificados, os Off-UFF, no caso melhor seria um Out-UFF. O intuito é mesmo rir de si, mostrar que para sair algo bom é preciso ousar, tentar. Com vocês a crônica de Carlos Benites.

Aquela moça

Tenho recebido cartas me perguntando sobre meu começo aqui no jornal. Comecei a escrever crônicas quase como uma única saída. Ou escrevia ou corria risco de ser despejado e moraria debaixo do viaduto. Não, não estou fazendo pouco caso desse espaço e nem dos meus fiéis leitores desse jornal de bairro, tanto que hoje só escrevo por prazer e não por necessidade. Renato, o dono do jornal Lig, era meu amigo e soube do famoso caso em que me envolvi e, imaginando as conseqüências que viriam, tratou de pedir a todos os amigos comuns pelo número de meu celular. Ele só me encontrou três meses depois daquele 10 de outubro de 2009. Renato sabia que eu rabiscava uns versos e que até já tinha tentado a sorte escrevendo em parceria a letra de um samba enredo para a  Viradouro, que para a sorte de nossa escola de samba, não foi o escolhido. Mas crônicas nunca. Porém, como ele insistiu e não tinha outra oferta, aceitei o desafio. Li crônicas do Veríssimo, depois vi num dicionário de termos literários que “o cronista é essencialmente um observador, um espectador que narra literariamente a visão da sociedade em que vive, através dos fatos do dia-a-dia”.  Percebi que se me preocupasse em atender às definições teóricas ou se procurasse imitar alguém, me estreparia e dois meses depois estaria na rua. Então decidi que deveria seguir meu instinto e aqui estou.

Meus leitores devem estar curiosos sobre o que houve em 2009. Mas eu tenho certeza absoluta que alguns de vocês devem conhecer o fato, e vão lembrar quando eu terminar de narrá-lo. Em 2009 eu desempenhava o importante cargo de diretor de imagens da Sportv, ofício que, tal qual ocorreu com as crônicas, aprendi na marra. Era eu quem decidia, diante de todas as imagens das diversas câmeras num estádio, qual que iria para a sua televisão.  Na época, eu era um ser solitário, mas que tinha um único e grande amigo, ali mesmo na emissora.  Ambrosio era um cinegrafista boa praça, que era escalado comigo em todos os jogos. Ele ficava naquelas gruas, suspenso no ar, pegando lances dos jogos e imagens da arquibancada. Sua especialidade era captar imagens de beldades. Estádio vazio ou cheio, ele sempre conseguia achar uma linda mulher, mesmo se tivesse só uma, e mandava para nossa central num caminhão fora do estádio. Tínhamos um canal secreto no nosso rádio para que não fôssemos escutados pelo restante da equipe e enquanto mandava as imagens das beldades, fazia seus comentários, sempre com tiradas espirituosas. A que eu mais gostava era “abriram as portas do céu e fez cair um anjo aqui no estádio, Carlitos”. Naquele dia estávamos em Curitiba, no Estádio Couto Pereira, num dia chuvoso e com o estádio recebendo um  público pequeno, pois o Coritiba estava tentando escapar do rebaixamento contra o modesto Grêmio Barueri. 


  Eu pensava que seria um dia como outro qualquer, mas parecia mesmo que estava escrito que não seria como os outros. Para começar, fatos inexplicáveis fizeram com que a equipe naquele dia estivesse reduzida à metade.  Faltou gente justamente no caminhão.  Entre as causas teve até um caso de adultério, que foi descoberto pelo marido da amante de um dos funcionários. Mas eu e o Ambrósio estávamos lá, firmes e fortes, como em todos os jogos. De repente, no nosso canal exclusivo ouço o meu amigo falar: “olha esse pitel de cabelo colorido. Parece a Lola daquele filme alemão que vive correndo pela rua. Conhece, Carlitos? Corra, Lola, Corra! Me apaixonei. É a nora que minha mãe sempre sonhou”. Sorri, mas dessa vez não fixei na musa escolhida pelo meu amigo. Meu olhar mirou a cadeira ao lado. Desconsertado, por pouco não deixo passar um lance de perigo para o Coritiba, que tentava abrir o placar. Voltei para a imagem do Ambrosio e ele ainda mostrava a sua Lola em close, reagindo com um grito depois do gol perdido pelo Coxa.  Mas antes dele voltar com a imagem ao campo, ele tirou o zoom e pegou por dois segundos a responsável pela minha ligeira desatenção ao jogo. Era uma morena clara, um misto de Sandra Bulock com Scarlet Johanson morena e Diane Lane, tão bela que justificaria qualquer distração. Durante o jogo Ambrosio nos brindou com várias imagens da dupla e as mandei para a rede duas ou três vezes, sendo uma em câmera lenta – ah, bendito inventor da câmera lenta! - A Lola mexia em seus cabelos, fazendo caracóis, arregalava os olhos, socava o ar, esbravejava com o atacante do Coritiba. A minha musa mordia os lábios, nervosa, se assustava, pulava, voltava a sentar-se, pegava sua câmera, fotografava alguém, depois parecia filmar lances do jogo. Certa hora virou-a para a câmera do Ambrosio. Estavam ambos filmando e sendo filmados, mas a impressão era que eu estava sendo filmado. O segundo tempo já estava na metade final e a torcida aborrecida com o time perdendo por um a zero. 


O jogo nervoso me fez sentir saudade das imagens de minha tágide. Então Beto, o rapaz que ficou mais sobrecarregado por conta das ausências em nossa equipe, me pediu para sair para fumar um cigarro. Eu iria negar, pois quem teria que assumir suas funções seria eu, mas vi que ele merecia o descanso e o autorizei, pedindo que não demorasse. “Só umas tragadas, hein”. Lembrei-me dos anos em que era eu quem sentava na cadeira do Beto e me senti tão à vontade que relaxei demais e chamei o Ambrosio no nosso canal. “Manda as imagens das nossas musas novamente. Estou sentindo falta”. Então Ambrosio me presenteou com a minha Scarlet Bullock em close. Estava atenta ao jogo, com um ar sereno. Percebi que ela tinha uma mecha descolorida, e começou a brincar com ela. Fiquei hipnotizado com sua beleza na tela inteira, tanto que esqueci do jogo, e fiquei ali olhando seus movimentos. Batia palmas e seus lábios pintados de vermelho claro cantavam e incentivavam o time. Olha para o lado, comenta algo com a Lola, estica o pescoço e fala com um senhor (seria seu pai?). Ela canta, se acalma, se decepciona e senta. Novamente se levanta, de repente, arregala os olhos.  Algo acontecia, um sorriso se forma.  Ouço um grito ao longe vindo da pequena multidão do estádio e minha musa começa a pular de alegria, abraça-se a todos em volta. Só aí percebi que não estava mostrando o jogo, e puxei a imagem de uma das câmeras mostrando o gol do Coxa Branca para passar o replay, quando Beto voltou. Vi que fizera uma grande besteira, mas não sabia que a besteira tinha sido maior ainda. Ouço conversas de canto do restante da equipe que a chefia fora notificada . Mas não liguei. A imagem da musa da mecha descolorida não saía de minha cabeça. Fui ao banco de vídeos e gravei a imagem congelada da moça, depois passei para um pendrive e fui rapidamente em meu notebook. Entrei no facebook, usando um perfil fake que tinha e postei num grupo de torcedores do Coxa a foto daquela linda mulher, pedindo que ela entrasse em contato, deixando um email que só Ambrosio conhecia - oreportermaislegaldomundo@gmail.com - e também um número de telefone que igualmente só o Ambrosio tinha. Estavam todos ainda no estádio, quando meu celular apita avisando a chegada de uma mensagem.  Como meu celular era de dois chips, pensei que fosse já alguma resposta sobre o que postara no facebook no meu número alternativo.  A mensagem dizia “Veja seu email. É urgente”.  Fui no notebook e chequei primeiro o email do repórter mais legal do mundo, mas só havia duas mensagens e, pelos assuntos, eram trotes. Os títulos das mensagens eram “TÁ A PERIGO” e “É TRAVECO”. Nem me dei ao trabalho de ler o que era. Fui então ao meu email profissional. Nesse momento chega Ambrosio, um pouco assustado, dizendo que recebera um torpedo pedindo para abrir seu email. Abro meu email e vejo que tinha uma mensagem do chefão, com cópia para Ambrosio. Tinha um link do youtube e mais abaixo eu leio: “Depois de assistirem, procurem o RH”. Chamo Ambrosio e levo o notebook para um canto e abro o link.  Aparece um vídeo postado naquele dia já com 300 mil visualizações e cujo título era “As gostosas no Couto Pereira e o chilique do chefe”.  Atrás da gente ouço o Beto comentando com uma amiga: “ele trocou os canais de áudio e deixou  vazar tudo ao vivo para todo o Brasil”. Ponho o vídeo pra rodar e ouço a voz do Ambrosio : “Aí, Carlitos! Sua gata balzaca não é de se jogar fora não, mas prefiro minha Lola. Gostosa! A sua também. Vai, Lolinha, pula mais e balança esse cabelo. Vai, danada! Sabe de nada, inocente! Sorria, você está sendo filmada pelo tio Ambrosio. Carlitos, Carlitos, se você bobear, eu fico com as duas”. Então, junto com a voz do Ambrosio aparece uma voz mais forte, berrando, justo quando sai o gol do Coritiba: “QUEM É O IMBECIL QUE FEZ ESSA MERDA? JURO QUE MATO, MAS ANTES DE MATAR EU COLOCO NA RUA. PORRA, AGORA SOU EU QUE ESTOU NO AR“.


            Pois é, amados leitores, foi assim que parei aqui. Ambrosio? Ele está trabalhando num site especializado em flagras de atrizes e outras celebridades famosas. E está faturando alto.

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