CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

6 de outubro de 2014

Multientrevista com os autores-leitores do CLIc

A ideia partiu da cliceana Helène Camile (Neide), como é carinhosamente conhecida no facebook. Ela me fez o seguinte comentário lá:

"Querida amiga Rita De Cassia Magnago, começando a ler seus poemas das Inquietações, que por sinal, são terríveis de bão rsrsr. Parei no "Liquefazendo" que é simplesmente divino. Já lhe disse isso, poemas leio em doses homeopáticas, esses seus então, diminui ainda mais a dose. Lembrei daquelas entrevistas do blog, se você for a entrevistada, quero, desde já, fazer a minha: de um livro para o outro, você definiria sua escrita como contínua ou houve alguma mudança? Ou cada livro tem uma atmosfera específica?"

Como recentemente tivemos tantos lançamentos no Clic, como os livros de Dília, Cyana, Ilnéa, Inês, Cristiana, Carlos Rosa e o meu próprio, achei que seria interessante abrir aqui uma multientrevista, onde podemos fazer perguntas para qualquer autor-leitor do Clic e até para leitores dos novos livros, por que não? 

Basta escrever no campo "Comentários" a sua pergunta e a quem se destina. Participe!


Neide e eu, no lançamento do meu 1º livro

Livros de cliceanos (em ordem alfabética, para facilitar as perguntas; por favor ajudem a completar a relação que a memória é falha, rsrsrs)

Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros - diversos autores

Carlos Rosa
Cícero
Cristiana Seixas
Cyana
Dilia Gouveia
Gracinda Rosa
Inês 
Ilnéa País de Miranda
Novaes/
Rita Magnago
William Lial



24 comentários:

  1. Querida Helène Camile, fico muito feliz com sua pergunta porque é ótimo quando nosso livro suscita questionamentos no leitor. Bem, eu diria que minha escrita é contínua, porém não assídua, quer dizer, eu escrevo quando acho que tenho o que dizer a mim mesma, e tem dias que estou caladona, rsrsrs.

    Do primeiro para o segundo livro houve mudança sim. Não sei se maturidade seria a palavra para definir essa mudança, mas alguma coisa na linha do amadurecimento ou autoconhecimento. Eu acho que escrever "Travessia do verso" me ajudou a me entender e me conhecer mais, foi um livro de descobertas, talvez por isso tenha usado em tantas poesias a palavra 'desnuda', que foi até motivo de encarnação lá em casa. Já em "Porque a vida pulsa" o sentimento foi diferente. um misto de encantamento e desencanto com a vida, acho que fui mais crítica, mais incisiva, mordaz algumas vezes, tocando mais nas feridas.

    Em comum, acho que ambos os livros guardam um motor, um convite à reflexão e à ação. Isso aí é meu achômetro, quando terminar de ler este segundo, você me diz como percebeu. Beijo grande.

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  2. É sempre bom ouvi os nossos escritores. Minha leitura é sempre leeennnnnnnnnnnta. Fiquei impressionada com a biografia rimada e ritmica da Ilnéa. Tão prazeroso ler as lembranças dela de modo tão vivo. Para você querida, mesmo não tendo lido todo o seu livro, pergunto: é fácil abrir essas gavetas e acessar todas as suas paisagens mentais e transformá-las nessa linha melódica tão íntima Ilnéa em "Eu Menina Toda Prosa"?

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  3. Agora é para o Novaes\, pensando não apenas nas intrincadas histórias de "Letras rebeldes, fluidos insensato", mas indagando a respeito do "A casa de Margarida".

    Comecei a tentar estabelecer dados para analisar e não é que me perdi totalmente Novaes rsrsr (nenhuma novidade, dada a minha instabilidade rsrsrs). Desse modo, lhe pergunto: é fácil estruturar as personagens ou você os cria com a clara intenção de baratinar seus leitores?

    Veja algumas derrapagens de minha vã tentativa analítica, vou deixar isso para os doutos como William Lial, aliás, os ensaios dele são porretas de bão, ele tem uma visão estruturante, que INVEJA kkkk .

    Difícil e estimulante analisar esse conto Novaes. O que terá acontecido com Margarida? O narrador em primeira pessoa deu uma força intempestiva à narrativa, uma voz testemunhal. Os elementos muito bem amarrados, mas sem a circularidade. Deixa um desvão para o leitor se bifurcar nas interpretações. Há linearidade temporal (antes e depois da experiência vivida dentro da casa), mas a existência no tempo dentro da casa é fugaz e fugidia.

    Era aquela casa que habitava, soberana, seus corpos.
    Ninguém da família dizia, mas o que o vento assoviava nas frestas soava sempre como aviso fúnebre.
    Importava que os antepassados lhes sobreviviam, sobretudo ali, naquela casa, onde continuavam insistentes, feitos de um vazio presente, verdadeiros trans-parentes.
    É o que sinto. É o que sinto, depois do que vi.
    O pai - Paisagem humana entre paredes. Natureza morta na cadeira.
    A mulher - vi a mulher, agachada, a limpar o rodapé daquela sala. (...) Mudava as sujeiras úmidas de lugar. (...) Ela e os rodapés. Uma relação infinita.
    A namorada - Busquei os olhos de minha namorada. ∕ Até hoje penso. Não foi um sorriso amarelo, mas também não foi um sorriso natural.\ Margarida era linda, mas parecia desconjuntada de alma. Confesso que aquilo mexia com as minhas fantasias de homem. O sonho de libertar uma mulher de suas amarras profundas. De fazê-la desabrochar para a vida e o amor. De ser o homem que fez isso. (comparando margarida à porta) - e Margarida, como seria por dentro? Estaria com a alma raspada, como aquela porta, sem tinta e sem manchas, sem marcas do passado? Seria este o seu esforço para sustentar aquele sorriso enigmático, triste e belo?
    Ernesto, o irmão - o rapaz assoprava contra a janela fechada. ∕O rapaz assoprava forte os cantos da esquadria de madeira. Em cima, embaixo, nas laterais. Por todos os limites,∕ Parecia buscar alguma coisa com o sopro.
    Os parentes - entretidos em tarefas insondáveis.
    A porta lixada - O quarto de Margarida. Abriu a porta de madeira, com a mesma tinta envelhecida, corroída pelo tempo, a parte de baixo descascada. ∕Talvez tenha ficado mais anteontem do que a casa, toda feita de ontem.\ Uma porta tosca, mas pelo menos sem vida pregressa, sem manchas.
    As paredes do quarto – frente a porta – parede-livro, a que envolve a porta – parede-arte em movimento, cinema, teatro; oposta aos livros, parede-música; Boa música. Forte, sentida, viva. Aquele quarto, de alguma forma, tenta.; a que envolve a janela – parede-espelhos; E vejo o quarto em continuação, livros, pôsteres, CDs.

    PROMETO QUE AINDA RETORNAREI À CASA DE MARGARIDA e tentarei lembrar das coisas que passaram em minha cabeça quando selecionei esses fragmentos. kkkk


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    1. Oi Helene, obrigado pela pergunta. Como não sou psicólogo e não tenho ciência para observar a alma humana, posso dizer que meus personagens são intuitivos. Tanto que algumas vezes são eles que conduzem a história e ali vão mostrando suas aptidões e contradições. Gosto quando eles me surpreendem. Abraço grande.
      Novaes/

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  4. Rita, faltou Luiza Velloso, minha pergunta vai para ela: Luzia, existe diferença entre produzir artes plásticas e poesia?

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  5. Rita Magnago, no seu livro, "PORQUE A VIDA PULSA", duas palavras saltaram aos meus olhos: fantasia e verdade. Eu pergunto: você se veste de fantasia para compor os seus versos; e como se infiltra a verdade neles?

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    1. Pergunta difícil e astuta, Sonia, fez-me lembrar do livro "Tia Julia e o escrivinhador", de Vargas Llosa. O escritor de lá se travestia para redigir suas estórias mirabolantes. Eu não, embora use a fantasia como inspiração. Um texto, uma foto, um quadro, uma pessoa pode me tocar, me influenciar. Aí meio que me transporto para aquele mundo, aquela situação, me sinto ali e naquele momento é verdade. Outras vezes a escrita me ajuda a materializar o que estou pensando e sentindo e me deixo transbordar. Naquele momento também é verdade. Nos intervalos, como diria Manoel de Barros, só 10% é mentira.

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  6. À Rita eu gostaria de perguntar o que vem primeiro, a convicção de ser um poeta ou a experiência para descobrir se podemos nos tornar poeta?

    À Cris, estou curioso para saber se o seu livro tem como público alvo os leitores que buscam um caminho bom através da Literatura ou se é mais dirigido a profissionais da área de psicologia.

    Da Inês, gostaria de saber como está sendo a experiência de publicação do seu primeiro livro. É um descaminho ou um caminho que vai dar em outros livros?

    De Carlos, gostaria de saber se "A água estava clara" está mais para a claridade de "A montanha, o mar e a cidade" ou para as sombras de "Histórias da noite".

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    1. Caro Evandro, obrigada pela pergunta. Acho uma ótima oportunidade para inclusive incentivar quem tem guardados em gaveta a libertar-se dos armários. Às vezes somos nós mesmos nossos carcereiros.

      Respondendo à sua questão, no meu caso, sem dúvida, a experiência, o tentar fazer, o ir à luta e viabilizar, sonhar e realizar. Não tenho convicção de ser poeta, estou poetando neste intervalo, o que me faz muito bem, mas sem compromisso com o futuro. Não é uma profissão, antes é um prazer. Aqui na minha pastinha de arquivos do computador eu guardo as poesias dentro de uma pasta maior que se chama Lazer. É uma delícia poder fazer o que a gente gosta.

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  7. Olá, Evandro. Obrigado pela pergunta, mas acho que os leitores poderão responder melhor. Posso dizer que "A água estava clara" segue a linha de "a montanha, o mar, a cidade", são dois livros de crônicas e a minha ambientação é semelhante. Já "Histórias da noite" é um suspiro proposital (embora haja experimentos)dos contos que escrevo, coisa que não mais farei.
    Um grande abraço.
    Carlos.

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  8. Gostaria de saber da Cyana sobre a importância para o(a) escritor(a) de uma boa recepção de seus livros pelos leitores e por seus pares, ou se isso é algo que o escritor não se deva preocupar, principalmente se estiver convicto que está inovando literariamente.

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  9. Queria fazer uma pergunta para o Benites, o Benito e a Elenir. Vocês que já tiveram contos/poesias premiados em concursos, publicados em antologias, o que falta para lançarem seus respectivos livros?

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    1. Oi, Rita... Vou falar por mim e acredito que o Benito falaria algo parecido. O que falta para publicar um livro? Bem, meu sonho de criança era escrever um livro, e eu lembro que a cada passagem de minha vida, ou às vezes até em fantasias minhas, eu me imaginava escrevendo sobre a tal cena dentro de um livro. Eu sinto falta do conhecimento do caminho das pedras, do que fazer, como e quanto precisaria. Eu também sinto falta de uma produção mais consistente. Não me sinto suficientemente bom para poder me expor assim. Gosto de alguns textos meus, mas não tanto, e alguns eu acabo incorporando o espírito de Graciliano e destilo ironias sobre a qualidade desses textos. E não é falta modéstia, é que alguns eu acho realmente ruim.
      A Biblioteca Cora Coralina me consultou em maio, durante uma mesa redonda se eu não me interessaria de lançar um livro com o selo que os apoia. Já pensei em dois textos, que seriam voltados para o público infantojuvenil. Agora que minha cabeça está mais calma pode ser que eu pare pra pensar mais seriamente. Vocês que já publicaram seus livros poderiam nos ensinar esses caminhos das pedras...rs

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  10. Oi Evandro - acredito que meu livro seja como a própria biblioterapia: tão plural que se encaixa em várias áreas do saber, propósitos e públicos. Tanto irá alimentar quem ama literatura, como quem quer trabalhar com isto, quem precisa se cuidar e por aí vai. O retorno tem sido maravilhoso e o semear só começou. Obrigada por sua pergunta. E você, deseja escrever e publicar algum livro? Sobre o que seria?

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  11. Não consigo me organizar, quase tudo me interessa. Acho que estou muito no início de tudo, em pleno big bang pessoal. Talvez daqui a uns bilhões de livros lidos eu consiga me orientar. Aquele seu livro na estante está sendo um grande atrator, que eu só não cedi ainda à leitura por receio de ser, na verdade, um vórtice.

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  12. Hummm, quanta provocação. O Sorókin, que escreveu o Dostoiévski-trip, disse que consome "literatura narcótica", mas também é capaz de produzi-la. Nietzsche e Shopenhauer defenderam que quem lê o tempo todo não cria espaço para pensar suas próprias ideias, o que é gravíssimo. Quanto ao vórtice, deixe fluir... Como sabiamente disse Clarice: "Perder-se é um achar-se perigoso."

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    1. Então é isso, Cris: tenho lido muito e ando sem ideias. Que me sirva de consolo ao menos que as leituras estejam evitando as más ideias.

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  13. Oi, Rita... Vou falar por mim e acredito que o Benito falaria algo parecido. O que falta para publicar um livro? Bem, meu sonho de criança era escrever um livro, e eu lembro que a cada passagem de minha vida, ou às vezes até em fantasias minhas, eu me imaginava escrevendo sobre a tal cena dentro de um livro. Eu sinto falta do conhecimento do caminho das pedras, do que fazer, como e quanto precisaria. Eu também sinto falta de uma produção mais consistente. Não me sinto suficientemente bom para poder me expor assim. Gosto de alguns textos meus, mas não tanto, e alguns eu acabo incorporando o espírito de Graciliano e destilo ironias sobre a qualidade desses textos. E não é falta modéstia, é que alguns eu acho realmente ruim.
    A Biblioteca Cora Coralina me consultou em maio, durante uma mesa redonda se eu não me interessaria de lançar um livro com o selo que os apoia. Já pensei em dois textos, que seriam voltados para o público infantojuvenil. Agora que minha cabeça está mais calma pode ser que eu pare pra pensar mais seriamente. Vocês que já publicaram seus livros poderiam nos ensinar esses caminhos das pedras...rs

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    1. Gostei da resposta, franca e direta. Não sabia que vc escrevia para o público infantojuvenil tb, legal essa diversidade. Sobre o caminho das pedras, tem muitos caminhos, e muitas pedras, rsrsrs, mas é claro que podemos trocar figurinhas a respeito. Qdo eu lancei meu 1º livro a Cris me passou umas dicas, a Dília também. No 2º foi mais fácil. Vou separar um material aqui e levo pra vc na próxima reunião, quando falaremos dos "Lobos".

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  14. Rita, eu mesma já me fiz essa pergunta várias vezes e não soube me responder. Certa vez, aqui no blog, na oportunidade de uma entrevista mútua com Sônia Salim, sugerida por você, eu lembrei-me das palavras de José Castelo: "Todo escritor é vaidoso. O que publica sua obra para mostrá-la e o que não a publica por não suportar a =deia de receber uma crítica negativa". Como sou muito vaidosa, confesso, com minha aparência, será que também com meus escritos? Com relação à participação em concurso, você não se expõe, vai com pseudônimo, só aparece se for classificada e, aí, aprovaram. Poderia, ainda haver a vaidade, Mas, na Antologia, eu me exponho. Realmente, não me entendo. Por outro lado, confesso outro defeito além da vaidade: a preguiça. Ela só é superada por duas grandes virtudes: a responsabilidade e a gratidãol. Por isso, no trabalho, seja ele qual for, a responsabilidade supera sempre a preguiça . Para publicar o livro tenho que encontrar um jeito de responsabilizar-me por isto. Vencer a preguiça. Agradar e agradecer à minha família? aos meus amigos? Como fiz com meus oitenta? Prova de gratidão, atividade e diligência? e coragemPreciso ouvir meus escritos pedindo-me para mostrá-los. Aí, certamente, os atenderei. Qual é a mãe que, por preguiça, deixa de atender os seus filhos? Quando me convencer da resposta, Rita, volto ao assunto.

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    1. Elenir, você é uma gracinha. Se falta um pouco de coragem, recomendo a leitura do novo livro da Cris. Beijo grande.

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  15. Eu quero dirigir a minha pergunta ao escritor, William Lial. O que o Brasil precisa fazer para incentivar os novos escritores a publicarem os seus livros? Os escritores encontram apoio aqui no nosso país? Grata. Abraços!

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  16. A Ilnéa anda por aí? Da menina toda prosa eu queria saber se lhe parece que corpo & alma têm caminhos opostos ao longo da vida, com nossa alma sendo uma espécie de Benjamin Button que se rejuvenesce a cada ano que passa?

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