CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

25 de setembro de 2014

O livro dos lobos: Rubens Figueiredo




"Talvez fosse isso que ela queria. 
O que não se pode possuir, tem que ser destruído. 
Meu erro foi não entender que era melhor ficar sozinho. "

A arte de tornar-se um lobo

"Se a ambiguidade pode servir como um disfarce, certa margem de sobrenatural também pode ser necessária quado se pretende explicar aquilo que, na verdade, não se quer entender. "



Os biógrafos de Albernaz provavelmente não se antagonizam mais que ele próprio talvez se questionasse em suas reflexões. Nestor e Torres, o Cego, podem ser vozes interiores de Albernaz, uma voz que se afirma, enquanto a outra a questiona. A história é cheia de escaramuças e no fim a gente não sabe quem enganou quem. Será que o Cego não deixou aquele documento dentro da revista que entregou ao Nestor para que fosse justamente ele, que tinha uma posição crítica, fosse quem divulgasse informações que não cabiam no livro que o Cego estava escrevendo sobre seu mentor Albernaz? O Cego pode ter deixado intencionalmente a parte podre pro Nestor revelar, para quem o que importava mesmo era o escândalo, e o bobo caiu direitinho na armadilha. Pois não era o Cego mesmo que com seu óculos escuros e a fisionomia inalterada, fazia da confiança e da fraqueza suas armas inexpugnáveis?

"Até os maiores farsantes às vezes se viam colhidos de surpresa pelo olhar de desaprovação do seu próprio rosto refletido na lâmina da faca ou no cromado da maçaneta."


A terceira vez que a viúva chorou foi por Antônio. Mas não devemos nos iludir pois, feito uma Hécate lupina, ela conduzia ao além todos de quem se aproximava. Cabral contemplava o destino das vítimas mas sabia da impossibilidade de corrigi-lo. Antônio tentou despistar a morte enquanto pode, quis enganar o tempo, desacreditou das certezas, buscou sempre as experiências dos descaminhos, esperava não sabia o quê. Encontrou  o lobo onde menos esperava.

"Antônio desconfiava da fidelidade da mulher. Com a satisfação de quem sabe admirar a lógica das coisas, Cabral entendeu que aquela desconfiança era inevitável. Era uma parte do mesmo impulso que fazia Antônio olhar meio na diagonal - na inclinação da faca que corta o rosbife - para as pernas das moças que passavam desinfetante no chão da enfermaria. Ou para a viúva que todo dia vinha cuidar do seu enteado paralítico na enfermaria em frente."


Um certo tom de preto, será que também existe cinquenta tons dele?, é quase shakespeariano. Ser ou não ser Isabel, eis a questão. Assim como a narradora, eu também me perdi naquela escuridão, o apagão foi geral. Continuo sem saber quem é quem, qual delas foi a destruída de forma humilhante. Uma bela alegoria sobre como destruir alguém de forma silenciosa e paulatinamente, de como estar morto em vida. Um trabalho do mal, feito com paciência e diligência, a que todos estão sujeitos se não souberem reagir e indignar-se, e deixar a maldade agir sem restrição. Porque é sempre mais fácil deixar a vida nos levar, deixar-se levar pelas aparências, sem examinar coisa alguma, aceitando passivamente que é natural e satisfatório, tomar sempre o lado do mais fraco. O tempo cobra juros, ele é o agiota de todas as alegrias. Voltarei ao assunto na reunião de Outubro, antes de me calar com a ênfase do silêncio. 

"Admito que acreditar em mim se tornou difícil... Mas nunca me senti culpada pelas mentiras que inventei. Ainda mais por terem sido as verdades que me trouxeram os piores castigos."


O caminho de Poço Verde parece a história de um pesadelo, desses que nunca acabam e são muito reais. Também conheci uma Ifigênia na serra por onde passei pra chegar aqui na cidade. Assim como a personagem do Conto, ela emanava uma estranha luz de seu corpo ao falar. Certa feita, enquanto a observava, os pés fincados no chão feito garras, a mão fechada na cintura com os braços voltados para trás enquanto olhava para algum ponto acima de minha cabeça, assumiu uma postura solene que não combinava com a simplicidade de sua figura e o que seu rosto contraído revelava. Uma chama parecia subir de seus cabelos em direção ao meio do céu, e meus olhos de criança ficaram estatelados fitando-a incrédulo com o que via.  Minha mãe tinha me levado até sua casa pra fazer uma reza contra um "aruê" que tinha tomado conta de mim, me deixando com a espinhela caída. O quarto onde pernoitei dava para um chiqueiro e os oinc-ooincs dos porcos interromperam meu sono várias vezes ao longo da noite.  Numa certa hora, levantei-me para tomar um pouco d'água, que ficava numa tina bem ao lado do fogão de lenha. Tive que pegar água com uma concha e colocar na caneca, e lembro que a tina estava quase vazia e precisei me debruçar sobre ela quase derrubando-a. Enquanto tomava a água meus olhos bateram dentro da caneca, avistei dentro dela um caroço de feijão desses já cozidos. 


Em Os anéis da serpente, quem a gente pensava que sonhava era, na verdade, o sonho sonhado. O que a gente pensava que era o sonho era de fato o sujeito que estava sonhando que pensava sonhar. Que enrolo!



Em A escola da noite... pânico! Este é o único conto do livro que desloca um pouco a abordagem para um cunho social, a protagonista enfrentando a insegurança pública existente em uma cidade grande. Tem lobo pra todo lado, não é só no caminho para a escola: os próprios colegas de trabalho da protagonista revelam suas naturezas ardilosas. Andréia não concorda que as zonas desassistidas da cidade sejam a causa das mazelas sociais nem que as circunstâncias de vida de quem quer que seja possam justificar atos de violência, por isso o pavor e repulsa que a invade no que vê contrastam com aquilo em que ela quer acreditar... isso até que ela também se transforme segundo as influências do meio.  

"Sem que Andréia percebesse, essa contradição, esse atrito entre o que ela experimentava na pele e o que tramava no pensamento ia pouco a pouco esgotando suas energias.  Todo o seu esforço para fabricar raciocínios e justificações tinha o único efeito de tornar mais contundentes as sensações negativas.


Um comentário:

  1. É, pode ser um acerto ficar sozinho antes de se re-encontrar. Mas certos erros precisam preceder os acertos para fazê-los valerem a pena.

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