CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

11 de julho de 2014

Medo da libertação




"Se eu me demorar demais olhando Paysage aux oiseaux jaunes, de Klee, nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito de olhar através das grades da prisão, o conforto de segurar com as duas mãos as barras, enquanto olho. A prisão é a segurança, as barras o apoio para as mãos. Então reconheço que a liberdade é só para muito poucos. De novo coragem e covardia se jogaram: minha coragem é possível. Começo então a pensar que entre os loucos há os que não são loucos. É que a possibilidade, que é a verdadeiramente realizada, não é para ser entendida. E à medida que a pessoa quiser explicar, ela estará perdendo a coragem, ela já estará pedindo; Paysage aux oiseaux jaunes não pede. Pelo menos calculo o que seria a liberdade. E é isso que torna intolerável a segurança das grades; o conforto desta prisão me bate na cara. Tudo o que eu tenho agüentado – só para não ser livre..."

Texto Paul Klee de Clarice Lispector extraído do livro Para não esquecer. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1999.


2 comentários:

  1. Que linda postagem, concièrge. Profunda, para extrema reflexão. Aliás, o blog traz grande contribuição para a secura de alimentos da alma que felizmente temos. Sou fã. Obrigada.

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  2. Coragem e Covardia. Sentimentos que nos levam, realmente, como disse Rita, a uma enorme reflexão. Necessária para ajudar-nos a viver. Quantas vezes tomamos certas atitudes que nos fazem imaginar sermos corajosos, valentes, desafiadores, e, na verdade, estamos agindo impulsionados pela covardia, defendendo-nos contra um suposto mal que tememos enfrentar. Obrigada, Evandro!

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