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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

10 de junho de 2014

A CHAVE DA CASA - poema de Rita Magnago inspirado na leitura do livro




Saio de dentro dessa vida-piscina
quando a falta de ar já me levava ao desmaio
aí abro a boca em desespero
e bebo toda a atmosfera que há para beber.
Acalmo meu coração
a hora chegou, mas já se foi
e eu ainda estou aqui
essa chance...

Todo começo é o meio
o caminho, a procura
os desencontros do encontro
o eu estar aqui e você não
o você e eu estarmos
e não estarmos
só você ficar.

Dos instantes intensos e eternos
é curiosa a contagem do tempo
sou só eu que estou comigo 24 horas
mas é a você que dou o crédito de perdurar.

Na minha memória
a fotografia se esvai
rachaduras trincam a imagem perfeita
e lapsos cobrem de nuvens as cores do passado.
Eu preencho com a dor
- ela sempre dá conta -
reinvento contornos
reconto a história da vida
construo o presente
que vai me permitir abrir portas
mesmo as das casas que não existem.

Derrubo o silêncio
atravesso as fronteiras
desenterrando raízes
daí sairão meus frutos
acres e doces
daí sairei eu
como quem renasce de si.

8 comentários:

  1. Lindo poema, Rita!!! Eu acho muito interessante esse mover que faz o poeta escrever, produzir através das leituras. você está de parabéns! Que beleza!!!

    Abraços! Sonia Salim

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  2. Querida Rita, como sempre você me encanta, não mais me surpreende, pois espero sempre o belo brotando de você.
    Beijos ternos,
    Vera.

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  3. Seu poema é perfeito!Exprime a angustia da existencia,busca pela chave que poderia nos responder algo que desse sentido à vida...Ceci

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  4. Queridas Sonia, Vera e Ceci, muito obrigada pelo feedback. É tão bom poder partilhar o que sinto com vocês e encontrar leitores sensíveis e abertos a experiência do outro. Beijos.

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  5. Concluí ontem a minha leitura do livro do mês. Estava curioso para terminar e vir aqui ler seu poema. Muito bom, capta essencialmente o livro e transforma em versos a busca da personagem principal, em sua solene viagem de si a si mesma. Gostei especialmente do fim, perfeito!

    "Derrubo o silêncio
    atravesso as fronteiras
    desenterrando raízes
    daí sairão meus frutos
    acres e doces
    daí sairei eu
    como quem renasce de si."

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    Respostas
    1. Fiquei com essa dúvida na leitura do livro do mês: a viagem da protagonista aconteceu de fato ou foi apenas uma viagem de si a si mesma, já que ela estava entrevada em sua própria casa?

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    2. Obrigada, Antonio. Eu também só gosto de ler coisas sobre o livro depois que termino a leitura, para não me deixar influenciar, eu acho. Sobre a pergunta do Evandro em relação à viagem da protagonista, concordo com você. Me parece que a Tatiana quis mesmo deixar margem a ambas as interpretações, cada um pode escolher a que mais preencher seu imaginário. Minha escolha é de que a viagem foi apenas na cabeça dela, o que não é pouco. Até sexta.

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  6. É uma bela pergunta, Evandro. Acho que não é possível definir se a viagem ocorre mesmo, fisicamente, ou se é uma viagem interior, através das memórias da história familiar. O narrador é muito dúbio, às vezes contraditório. Há uma passagem, por exemplo, que põe em cheque a ideia da viagem física: "Essa viagem é uma mentira: nunca saí da minha cama fétida. Meu corpo apodrece a cada dia, as pústulas corroem a minha própria carne e em pouco tempo serei apenas osso [...] Como poderia fazer essa viagem?" (p.151 do livro eletrônico da Livraria Cultura). Pois é, Evandro, isso dá uma bela discussão...

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