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O Clube de leituras não obrigatórias

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4 de agosto de 2014

Ópera dos mortos: Autran Dourado





A gente acaba de ler e acha que foi boa a leitura, mas também acha que foi muito bom sair daquele ambiente claustrofóbico de Duas Pontes, deixar pra trás os relógios parados do sobrado de Rosalina e principalmente aquele mundão do diabo das voçorocas. Foi bom enquanto durou! Uma história quase que arquetípica dos habitantes do interior de Minas que os fazem parecer “quedos” com as “visonhas” que preenchem seu imaginário, o do mineiro, que é um trem difícil de definir pra quem não conhece. O que pra nós pode parecer personagens “estúrdios” é tipico naquelas paragens, a casa grande e seus silêncios, os disse me disses da gente da cidade em relação às pessoas cujo comportamento sai um pouco do padrão geralmente aceito, aquele sentimento comum de que arrastam a bunda no chão os que se rebaixam demais no seu proceder, etc. Em relação à obra, sem dúvida, é trem literário dos bons, com uma atmosfera sombria e asfixiante, de fazer brilhar os olhos.
Ópera dos mortos quer dizer trabalho dos mortos, aquilo mesmo que faz a monotonia de um entardecer no silêncio das cidadezinhas do interior de Minas. Pra saber como é, só vivendo! Parece tudo morto, e ainda tem sempre um cemitério na entrada (ou na saída) da cidade. E o autor ainda coloca relógios parados na sala de Rosalina, fixando a lembrança na hora da morte dos capistranos. E também confronta um cabra falador como Juca Passarinho com uma mulher de silêncios ensurdecedores como Rosalina. O amor entre eles gera um filho oculto, na gravidez, e natimorto.
“Ópera dos mortos” é um livro barroco que nem Minas!
PS: conheci um caso parecido lá em Minas de onde vim. A única diferença é o nome da empregada, que era Bibina ao invés de Quiquina. Certa feita Bibina tomou um copo de suco de maracujá e caiu dura de sono onde estava, não dando tempo sequer de chegar em uma cama.




Lera o livro várias vezes, sabia-o quase de cor. Os três livros que vinha lendo desde mocinha: As pupilas do senhor reitor, as Mulheres de bronze e aquele terrível, a Vingança do judeu. Lia-os repetidamente, passava de um a outro, sempre aqueles mesmos livros. A garrafa debaixo da mesa, o cálice cheio, começava a ler. Tudo esfumado, numa neblina. As personagens saíam do livro, passavam a viver cá fora, chegava a ouvir-lhes as vozes, fantasmas de sua solidão. De vez em quando Emanuel entrava no livro, pegava a dizer coisas tão lindas, de que ele nunca seria capaz. Vestia-o com uma casaca, punha-lhe uma gravata como aquela do desenho da capa. Pegava-a pela cintura, punha-a na garupa de seu corcel branco, raptava-a, levava-a para bem longe, pra um país onde a neve caía branca. Depois o cavalo galopava no ar, cruzavam um campo revestido de flores, ela pedia para ele parar, queria colher um ramo de flores. Ele dizia que não, tinham de fugir, os homens estavam em seu encalço.  

Pina Rosalina Bausch



"Política é assim mesmo, João - mão na bosta."




Considerado um dos renovadores do romance brasileiro, Autran Dourado é normalmente associado à linha do regionalismo introspectivo. Minas Gerais, seu Estado de origem — nasceu em Patos, em 1926 —, é objeto de investigação contínua. Ele imaginou, no sul de Minas, a fictícia cidade de Duas Pontes, onde se passam muitas de suas histórias. Ópera dos Mortos, sua obra mais famosa ao lado de Os Sinos da Agonia (1974), se dá justamente nesse lugar. 


O livro, incluído pela Unesco na Coleção de Obras Representativas da Literatura Universal, conta a história de Rosalina Honório Cota. Última remanescente de sua família, ela vivia praticamente sozinha na companhia de Quiquina, empregada muda. As duas habitavam um sobrado velho e decadente, construído pelos antepassados de Rosalina — o avô, Lucas Procópio, havia erguido a parte térrea, e o pai, João Capistrano, acrescentara o segundo andar. Cada parte da edificação guardava na arquitetura as marcas das personalidades de seus construtores. Rosalina passava os dias fazendo flores de pano entre os relógios parados da casa — cada um desligado no dia da morte dos antigos habitantes. Estava isolada do resto da cidade, cujos habitantes viam na residência um local misterioso e distante. Até que surge o falante empregado Juca Passarinho, que quebra a rotina da casa e se envolve sexualmente com a patroa. Nasce um filho, morto, que é levado da casa pelo pai desconsolado. Rosalina enlouquece e deixa a casa. 



A ópera é dos mortos porque eles determinam a vida do sobrado, principalmente a de Rosalina. São eles que regem o curso das coisas, o destino infeliz reservado a seus sucessores. Para o professor Massaud Moisés, "a tensão romanesca é sufocante, as personagens, loucas ou tangidas por forças indiscerníveis, exterminadoras, diabólicas, parecem arquétipos vivos; o tom, porém, é dum realismo simbólico, em que se defrontam o Mito e a História". Duas Pontes é um microcosmo mineiro e, na visão do crítico Celso Leopoldo Pagnan, caracteriza a decadência do Estado após o ciclo do ouro. A história da família Honório Cota — que se estende por outras obras do autor — abrange o período que vai da República Velha ao Estado Novo, justamente o de uma urbanização crescente. 



Do ponto de vista formal, Autran Dourado optou, assim como Graciliano em Vidas Secas, por utilizar o sistema de blocos narrativos. São nove, cada um contado pelo monólogo interior de um narrador diferente — pode ser Rosalina, Juca Passarinho ou até os moradores da cidade, que falam pelo coletivo. Tudo é permeado por um narrador onisciente. A linguagem, de recursos barrocos, contribui para criar uma narrativa elíptica e labiríntica. Há o anseio por captar os sentimentos — como a descrença e a tristeza — tanto no plano individual quanto no coletivo. A atmosfera negativa vem do embate entre o antigo e o novo, o obsoleto e o moderno, os mortos e os vivos, a permanência e a mudança dos valores — este último um tema comum nas obras do autor, como em Uma Vida em Segredo (1964).







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