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8 de maio de 2014

“A Questão Ucraniana” – Trotsky

[Trotsky*  -  Socialist Appeal, 22 de abril de 1939]

A questão ucraniana, que tantos governos, tantos “socialistas” e até mesmo “comunistas” têm tentado esquecer ou relegar aos baús profundos da história, foi posta mais uma vez na ordem do dia, e desta vez com força redobrada…
Na visão do antigo Partido Bolchevique, a Ucrânia Soviética estava destinada a se tornar um eixo poderoso, em torno do qual os demais segmentos do povo ucraniano se reuniria. É inquestionável que, no primeiro período de sua existência, a Ucrânia Soviética exerceu uma poderosa força de atração, inclusive nas questões nacionais, tendo se levantado para combater os trabalhadores, camponeses e a intelligentsia da Ucrânia Ocidental, escravizada pela Polônia. Durante os anos da reação Termidoriana, entretanto, a posição da Ucrânia Soviética, e a forma como a questão ucraniana como um todo foi posta, mudou drasticamente. Quanto mais profundas as esperanças despertadas, maior a desilusão. A burocracia estrangulou e saqueou o povo dentro da Grande Rússia também. Mas na Ucrânia as coisas se tornaram mais complicadas em virtude do massacre das esperanças nacionais. Em nenhum outro lugar as restrições, expurgos, repressões e formas diversas de vandalismo burocrático, assumiram feições tão violentamente criminosas quanto na Ucrânia, na luta contra os fortes e arraigados anseios de suas massas por maior liberdade e independência…
Não resta um vestígio sequer da antiga confiança e simpatia das massas ucranianas ocidentais pelo Kremlin. Desde o último “expurgo” criminoso na Ucrânia, ninguém no Ocidente quer fazer parte do feudo do Kremlin que ainda carrega o nome de Ucrânia Soviética. As massas trabalhadoras e camponesas na Ucrânia Ocidental, na Bukovina e na Carpatho-Ucrânia estão confusas: Para onde ir? O que reivindicar? Esta situação faz com que a liderança naturalmente acabe nas mãos dos círculos mais reacionários, aqueles que expressam seu “nacionalismo” tentando vender o povo ucraniano a um ou outro imperialismo, em troca de uma promessa de uma independência fictícia…
Para o Kremlin e seus cálculos internacionais, partes do povo ucraniano transformaram-se em mero troco. A Quarta Internacional deve compreender com clareza a enorme importância da questão ucraniana para o destino não somente do Leste e Sudeste Europeu, mas para a Europa como um todo. Estamos falando de um povo que demonstrou sua viabilidade, que é numericamente igual a população da Franca, que ocupa um território excepcionalmente rico que, ademais, é da mais alta importância estratégica. A questão do destino da Ucrânia está posta em toda a sua amplitude. Precisamos de um mote claro, definido, que corresponda à nova situação. Na minha opinião, só pode haver agora um tal mote: Uma Ucrânia Soviética dos trabalhadores e camponeses – unificada, livre e independente.


-     Tradução José Eisenberg, revisão Antonio Engelke.

* Trotsky era ucraniano.

Um comentário:

  1. Interessante a posição do Trotsky, naquela época. Ele continuava defendendo uma Ucrânia Sovética (goverrnada pelos soviets - associações de trabalhadores e camponeses), porém independente do Kremlin, ou seja, da União Soviética. Ao mesmo tempo, era o líder da esquerda que defendia a "revolução permanente" e em todo o planeta. Parece contraditório, mas não é. É dialético. Só com uma verdadeira independência se pode construir uma verdadeira união. No entanto, há de se convir que outras repúblicas integrantes da URSS não possuíam os mesmos potencial e riquezas da Ucrânia. Deixá-las sozinhas, com um governo socialista, naquele mundo, seria entregá-las indefesas à sanha dos países e capitalistas locais e do mundo que não aceitaram de modo algum a "experiência socialista" de Lênin. O discurso de Trotsky era bonito (para quem gosta da ideia do socialismo), mas não sei se era viável na prática de então. A 4a Internacional, criada pelos trotskistas, não logrou êxito no mundo. Alguma coisa aconteceu.

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