CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

9 de fevereiro de 2014

Ceci Lohmann está no Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros


Hawkwood: Extreme Love

Fragmentos de "Memórias"


            Nessa tarde especial, um cheiro conhecido despertou-lhe. Sobressaltado, olhou ao seu redor e buscou-a, tateando o tecido da poltrona, como se ela estivesse ali viva, sorridente. Mas foi se dando conta de que apenas aquele aroma permanecia: tentou reconhecê-lo. Ah! Era um chá com folhas da caneleira que a empregada há anos lhe trazia sempre naquela mesma hora, no mesmo local, hábito comum entre os dois...

            ... Lembrou-se dos tempos de exílio, onde nos momentos em que os pássaros entoavam seus cantos, sentia a extrema angústia, pela distância dos que lhe eram queridos. Mas ela o acompanhara e juntos se abraçavam para suprir esse vazio.

            Ambos estiveram exilados em outro país: tempos difíceis que viviam.

            Lutaram e acreditaram ser possível a realização de um ideal, o desejo de uma sociedade mais justa. Participaram de movimentos de reforma agrária e tantos outros e foram perseguidos. Conseguiram se asilar e depois se exilaram, mas com grande dor.

            O sofrimento do exílio os entristecia: a casa, o jardim, os livros dispersos em tantas prateleiras, o desamparo... deles e de seus elos. Já não eram tão jovens, e chegavam àquele momento cruel da perda da esperança em realizar os ideais. Talvez essa tenha sido a maior tortura pela qual passaram...

Bruno Balegas de Sousa



            ... Já cansados e envelhecidos, retornaram ao país e à casa que sempre amaram. Retorno entremeado de novas buscas, de reconstrução de suas vidas. Refizeram a casa e a si mesmos...

            ... Numa manhã, ela acordou com fortes dores. Precisou acordá-lo, embora nunca o incomodasse. Como ex-guerrilheira era difícil mostrar-se frágil. Mesmo frente às torturas e interrogatórios manteve-se resistente. Há tempos sentia alguns enjoos, vertigens, fortes dores, mas não quis preocupá-lo. Recordava-se desses sofrimentos e atribuía às suas consequências, já que era comum àqueles que a sofreram. Agora, precisava dele, de seus cuidados e de seu abraço tranquilizador. Ele prontamente procurou medicações que pudessem aliviá-la. Mas no decorrer da manhã, seu estado foi piorando e, muito resignada, aceitou ir ao hospital. Sentia que piorava e angustiava-se por vê-lo assustado. Seu amor por ele era maior do que as dores que sentia. Ela nunca mais retornou... ( o Conto continua no livro do CLIc, onde se pode ler na íntegra esta bela e emocionante história da Ceci)





Ceci Lohmann é psicóloga pela UFRJ com formação psicanalítica na Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro, atuando em consultório.

"A curiosidade em conhecer o Clube me acompanhava há muito tempo: finalmente foi possível este contato, por volta de 2005.

A leitura do livro Memória de minhas putas tristes parece ter sido um convite ao momento que eu vivia: eu havia perdido meu marido,que era bem mais velho do que eu e uma pessoa muito vibrante, tal como o personagem de García Márquez. Assim, personagem e pessoa se multiplicaram na minha mente e a emoção foi profunda. A acolhida do grupo frente àquele momento foi ímpar. A partir daí veio minha paixão em pertencer e participar de um grupo de tal porte."




4 comentários:

  1. Estou emocionada em ver o conto aqui no blog.

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  2. Bela história Ceci. É você que nos emociona! Parabéns.

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  3. Bela história Ceci. É você que nos emociona! Parabéns.

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  4. Ceci, em seu conto vc passa emoção e luta, desejo de justiça, amor, sofrimento, beleza, os antagonismos que formam e forjam um animal racional em um ser humano na plena concepção da palavra. Sentimentos complexos que vc nos ajuda a desvendar através de sua mente bela e estimulante. Parabéns!

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