CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

7 de janeiro de 2014

Sinuca de bico: Emmanuel




Dois dias foram suficientes pra devorar Malagueta, Perus e Bacanaço. A fome era grande. Muito tempo de leitura técnica seguida. Saudade do Clic! E o que eu fiz de descoberta no retorno, não tá no gibi! Dá vontade da gente sair escrevendo joãoantoniamente. Entendi e gostei do poema da Rita Magnago.

Eu achava que sabia tudo sobre paulistês. Só porque sabia dizer “um chopps e dois pastel” meu! Qual o que! Lendo o João Antonio é que fui ver, não sabia nada de nada. Eu achava que “malandragem” era carioca. Qual o que! Descubro que malandragem é universal e se manifesta em malandrês onde quer que aconteça. E malandrês é camaleônico. Toma a cor do lugar. Aliás, descobri, como a Ceci lembrou em seu e-mail comentando trecho de Antonio Cândido que prefacia o livro, que “uma das coisas mais importantes da ficção literária é a possibilidade de “dar voz”, de mostrar em pé de igualdade os indivíduos de todas as classes e grupos, permitindo aos excluídos exprimirem o teor da sua humanidade, que de outro modo não poderia ser verificada” (p. 11).

Eu achava que “trouxas” eram os não-bruxos do Harry Potter. Qual o que! Bruxos são os malandros que conhecem tudo de um mundo diferente, romântico, com suas regras e ética próprias e trouxas são os que, do lado de cá do mundo, só enxergam até aonde a vista alcança.

Já estive atazanado muitas vezes na vida, mas só agora descubro que “atenazado, mergulho a cabeça na bacia” (p. 122). 

Descubro que velho acordado como Malagueta, é acordado porque é “sem aposentadoria, sem chinelos, sem pijama, sem quarto onde pousar e que tem de seu a cara e a vontade. Enfrentam as virações e a polícia porque têm fome. E vão como viradores, sofredores, pés-de-chinelo. E só”. Se não é a versão romântica do sujeito histórico que no seu esvaziamento é o agente da mudança, então não sei o que é o sujeito histórico!

“Boas, meus” (p. 174). Vivendo e aprendendo! 

Também lá, no mundo de Malagueta, Perus e Bacanaço, existem aquelas figuras estranhas, com palavras estranhas. Tinha aquele “velho gordo e estranho, conselheiro dos mais moços, naquelas bocas do inferno, e que usava palavras desusadas de quando em quando. – É uma veleidade. Só por um lance de um parceirinho que se arriscara numa bola cinco desnecessária”(p. 166). 

Ali também “... as minas, faziam a vida nas virações da hora... e os invertidos proliferavam, dois passaram agora, como casal em namoro aberto. [...] aqueles faziam São Paulo àquela hora” (p. 184).

E os da lei? Aprontavam como aprontam ainda. “Piranhas esperando comida. Pisando o menino, azucrinando, tentando surrupiar o menino... Os tais da lei. Encarou Silverinha, a raiva arranhava” (p. 193). Se eu fosse a Rita Magnago, faria um poema só dedicado a essa frase: “a raiva arranhava”. 

E para os que ainda se indignam, para os que a “raiva arranha” com tanta coisa esquisita nesse mundo esquisito que vivemos, onde heróis são construídos sem mais nem menos, surfando na onda de uma imprensa que de livre só tem o poder de impor a sua interpretação como se fora a interpretação, aprendo que“a gente fica até coisa, meus. Aquilo nem é cinismo; é cinidez” (p. 198). Piranhas esperando comida.

Enfim, é muito bom saber que mesmo não estando dentro, ou tendo estado temporariamente fora, quando a gente ensaia um mergulho de volta a esse lugar fantástico que é o Clic, o que nos recebe, além do calor humano, é claro, é essa riqueza de expressões e possibilidades que atravessaram os 15 anos do Clic e que, se Deus quiser, e os cliceanos também, ainda atravessarão muitos outros 15 anos. 

Abraço forte pra todos e um feliz 2014. Minha meta, além de diminuir a cerveja (na verdade, quero mesmo diminuir é o abdomen), é participar de 12 encontros do Clic em 2014. O primeiro já é!


Emmanuel,
07/01/2014

4 comentários:

  1. Que surpresa boa de ano novo! Bacanaço! O bom cliceano à casa retorna! Emmanuel que nos frequenta desde os primórdios do CLIc. Sua primeira reunião no clube foi no meu apartamento, em dezembro de 1999. Frequentou bastante a Ver&Dicto e nos resgatou da diáspora quando essa charmosa livraria fechou suas portas, nos trazendo para a UFF. Boas, meus!

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  2. Boa forma de RETORNAR! E que seja constante, Emmanuel Texto delicioso! Boa falas. Espero que possamos realmente poder dizer "já é"! Que João Antônio, de onde estiver, perceba que Emmanuel é bola na caçapa! Felicidades ao CLIc , com este grande retorno. Obrigada a São João Antônio!

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  3. Esse ano promete!Emmanuel,talvez seja o presente tão desejado:sua presença no CLIC,colaborando nosso conhecimento e percepção.
    Fico feliz pois torci muito para que esse livro fosse lido pelo clube.E nessa releitura tb entrei nesses poroes do dito sub mundo,e acima de tudo resgatei a presnça dos nossos malandros,dos, como diz Baumann,que fazem parte da sujeira(no sentido de exclusão).Gostei do trecho que vc escreveu: :"E para os que ainda se indignam, para os que a “raiva arranha” com tanta coisa esquisita nesse mundo esquisito que vivemos, onde heróis são construídos ............"
    Raiva arranha para nos despertar da imposição dos falsos heróis,das falsas idéias.
    Bem ,vamos para o nosso CLIC,jogar nosso "bilhar de sonhos" Ceci ATÉ!

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  4. Salve, Emmanuel. Belo texto. Tive sentimentos muito parecidos com os seus durante esta leitura deliciosa. Agradeço a você, e também à Norma e Ceci, a menção elogiosa ao meu poema. Aceitei sua sugestão. Esse trecho da raiva arranhando é muito bom demais mesmo. Que se cumpram seus planos para 2014!

    A raiva arranhava
    comichão no addômen
    por trás do diafragma
    me impedindo de respirar direito
    é aí que fica o fígado é?
    se for, o meu tá vertendo fel
    e é agora
    corpo todo ardendo
    vontade de arrancar a pele
    daqueles pulhas com máscara de lei

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