CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

23 de janeiro de 2014

Clube de Leitura Icaraí: 15 anos entre livros - Eloisa


Nova elegância do ouriço: Eloisa Helena

(Crônica extraída do livro do CLIc) 

Eloisa Helena

              A tarde ia nublada. Correra ao salão. Cortara os cabelos. Unhas, tratadas com antecedência. Percorrera as lojas em busca de um agasalho. Bem que gostaria de um casaco vermelho. Nada agradava. Nada era bom demais para aquele dia. Um dia de alvoroços que lhe lembrava estreias. Havia sensações adormecidas querendo vir à tona. O mesmo alvoroço. Há dias pensava naquele dia. Em casa, depois de ajeitar-se com a ajuda da filha, já tinha vontade de desistir. Por que fora se comprometer? Poderia criar mais laços e os que possuia já eram fortes, muitas vezes, dolorosos... Sempre o medo! Medo dos envolvimentos, da perda deles. Colocava sempre a paixão em tudo... Tanto tempo sem sair à noite!... Não seria mais cômodo ficar de chinelos, com seus livros e o PC? No entanto, abre a porta e sai.

         Recebe os beijos da noite, do vento... O frio percorre seu corpo. A noite está bem mais fresca do que imaginara. Vai com passos vacilantes, vai... Enfrenta um trânsito confuso. Está atrasada!

         Nada pode fazer. Parece uma sina, sempre atrasada para os momentos mais importantes. Vai cantarolando mentalmente uma música dos anos sessenta..setenta? do Tremendão, sim, do Erasmo e do Roberto:

"Em frente ao coqueiro verde
esperei uma eternidade
já fumei um cigarro e meio,
e Narinha não veio "





           Seria a Nara Leão? Não, era outra, a mulher dele. Coqueiro verde, praia... violões, UFF, juventude... O ônibus já ia pela praia... Agora se dera conta de que não fora à toa ter escolhido um penteado que resgata os anos setenta. Respira o ar do mar... O ônibus já fizera a curva. Dá o sinal. Emoções afloradas, misturadas aos receios. Tem de atravessar a rua, chegar à praça. Desespera-se: "Não respeitam mais os sinais!" Consegue a travessia dolorosamente preocupada. Chega à praça que de longe vislumbrara. Meu Deus, está cercada de grades! Onde as crianças nos balanços, os jovens namorando, as filas do cinema? A praça parece-lhe mal iluminada. Grades, grades... Seus olhos ficam embaçados. Vacila. Quase retorna. O coração dá pinotes... Covarde, pensa! Mas olha melhor para o possível lugar do Encontro. Há uma placa, linda placa: EdUFF. Falta pouco, mais alguns metros.

            Chega. Há guardas protegendo a casa e parecem recepcioná-la, pensa. A casa é envidraçada, há muita luz. Haveria uma lareira e vinho? Entra, que coisa mais atraente: pelas paredes, e perto delas, os objetos de seu desejo: vários livros. Há calor, vinho, luz! Sorrisos afetuosos, palavras sobre paixão. Só faltava mesmo a lareira... Pensando bem, ela lá está, depois de alguns minutos, sentada, percebe que está sim. Uma roda humana, cheia de vida, abraça a mulher... Ela foi fisgada. Não pode mais fugir deste amor. No fim da noite, guarda, na bolsa, mais um ovo da serpente sedutora: seu Crime e castigo.

            Poderia terminar aqui sua noite. Já estaria feliz. Mas não, a noite é abençoada. A faxineira da cunhada, da casa onde fora dormir, ali mesmo no bairro, diz-lhe, mais tarde, que adora romances. Ela pensa consigo: Júlia, Sabrina, livrinhos de bolso. Discretamente sonda. E constata, feliz, que não é bem assim. São romances dos bons. Aprendera a ler como as patroas, onde trabalhara. Ela, então diz:

            — Vou-lhe trazer uns romances. Já leu A elegância do ouriço?

            — Não. É sobre o quê?

            — É sobre nós: a senhora e eu!

            A senhora, dona Juciara, sorri, com poucos dentes, toda feliz.

            E ainda dizem que nosso povo não lê!




            (Dedico o texto aos companheiros do Clube de Leitura Icaraí, em Niterói, RJ)


13 comentários:

  1. Este texto da Eloísa é meu preferido do livro do CLIc - 15 anos entre livros! A vida vale muito pelos belos encontros que nos ocorrem, aqueles momentos verdades que nos marcam, sobretudo quando podemos desfrutar os instantes que os antecedem. Aquela ansiedade gostosa de saber que algo muito bom vai nos acontecer, a emoção do (des)conhecido e tão esperado, a plenitude do prazer, o fim da festa quando temos a certeza de ter vivido algo inesquecível. Eloisa consegue retratar magistralmente esta onda de felicidade que caracteriza nossa busca incessante de saber viver como se deve.

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    1. Obrigada,Concièrge!
      Suas palavras são o que de melhor poderia ler! Valeram por todo esses anos de frequência no Clube. Você sempre manifestou satisfação por ele, pelo texto. Creio que muitos participam desse sentimento de alegria, de magia,ao ingressar no Clube. Cada um tem seus motivos. Ele , o Clube, tem sido salvação, resgate de muitas pessoas. E você é responsável sempre pela bela acolhida que recebemos. Vida longa ao CLIc! Parabéns pelos 15 anos e por seu trabalho de acolhida!
      Elô.

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  2. Um delicioso texto da Elô. Delicadamente franco. Um texto que possui o componente "exposição", algo do qual, dificilmente, um escritor pode escapar. Num só momento da vida dois encontros, duas descobertas. Bacana, Elô, muito bom ler você.
    Carlos.

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    1. Carlos, você captou mesmo a sinceridade , as emoções , as descobertas que fiz ao escrever esse texto. Uma sensível que capta verdades , é essa sua alma. Obrigada!
      Elô

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  3. Querida Elô
    acabo de abrir o blog e dou com seu texto.
    ADOREI!
    Estava esperando para falar pessoalmente. Procurei você no último encontro mas você não estava. Guardei então para o dia do lançamento.
    Temos alguns "preferidos", o seu é um deles...
    Beijinhos ternos,
    Vera.

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  4. Querida Elô, minha conta do google anda pirada.
    Escrevi um email anterior mas não sei se vai sair. Como coisa boa nunca é demais...
    Gostei muito de seu texto, ele está entre os meus "preferidos".
    Queria comentar com você pessoalmente, mas você não foi ao último encontro, assim deixei para o dia do lançamento.
    Que bom abrir o blog e encontrar seu texto !
    ADOREI!
    Acho que o Carlos descreveu muito bem.
    Parabéns amiga.
    Beijos ternos e cheios de esperança,
    Vera.

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  5. Vera, você é a expressão da ternura, Fiquei muito feliz ao receber seu comentário e nem me continha de alegria ao saber que na reunião intencionava me parabenizar e claro me abraçar, como é próprio de sua natureza gentil e terna..Agora, fico até sem jeito de expressar minha preferencia por seu texto. Vai parecer troca de gentilezas....Mas é vero, ele está entre os meus preferidos. Nele percebo seu toque de ternura , de amor pelo Clube Mas, aguarde, vou postá-lo ainda se conseguir. Bjs ternos tb.
    Elô

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  6. Este conto é realidade ou ficção?

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    1. NEM TUDO É VERDADE, NEM TUDO É MENTIRA!RS

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  7. Que bom que esse texto tornou-se conhecido por mais pessoas.

    Assim como muitos relataram aqui, gostei do texto, metáfora de nós mesmos, seduzidos pela leitura, por isso resolvi escrever algo sobre ele - como já fiz algumas vezes com outros membros do clube. Então saiu um pequeno exercício crítico, um pequeno ensaio, para irmos mais longe no texto da Elô - mas não tão longe que podemos nos perder.

    Se quiserem conhecer, está aqui mesmo no blog do CLIc, no link abaixo:

    http://clubedeleituraicarai.blogspot.com.br/2014/01/no-ourico-um-leitor.html.

    Um abraço a todos!

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  8. Jamais sonhei , nem delirei, ver meu amoroso texto pelo CLI, receber tantas palavras atenciosas, senhor Lial! Conhecer Chico Lopes e vc, foi algo que, via Clube,me trouxe grandes alegrias.
    Bjs ternos(com diz a Vera) nesse seu coração de poeta.Merci;

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