CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

19 de dezembro de 2013

Prêmio UFF 2013: conto classificado de Rita Magnago



MEU ENCONTRO
















Éramos dez. Achei que seríamos um grupo ainda menor. Confesso que, antes de entrar, pensei várias e várias vezes, perdi o sono, tive muita vergonha, mas enfim, resolvi tirar minhas lentes de contato - não tanto porque não posso enxergar bem os demais, mas porque não posso ter certeza da fisionomia deles quando me vêem. E assim consegui a coragem para comparecer, um pouco menos desconfortável, só um pouco.
Na recepção nos indicaram o local do vestuário. Cada um que entrava se dirigia para lá, onde, no nosso armário, um roupão atoalhado cor bege esperava, dobradinho. Sentamos em círculo com uma cadeira no meio, a do mediador. Quando a moça da recepção avisou que todos os participantes estavam presentes, o mediador levantou-se, trancou a porta, dirigiu-se para a lateral da sua cadeira, tirou o roupão e ficou em pé no meio de nós, inteiramente como veio ao mundo, para explicar o método, melhor dizendo, a experiência.


  Não sei se alguém prestou atenção, eu não consegui. Mesmo sem a minha lente eu ia vendo uma coisa balançando à medida que ele falava e me desconcentrei. Comecei a suar, senti o rosto quente, acho que viajei.
D. Lorena, d. Lorena, a senhora entendeu? Agora todos precisam tirar o roupão. Podem ficar com ele sobre a cadeira mesmo e sentar em cima. É até bom que protege.
Siim, eu disse meio gaguejando e com a voz rouca – sempre que fico nervosa minha voz começa a sumir. Esse homem é um louco, pensei. Protege? Protege? Que é isso? Nunca me senti tão desprotegida. Olhei ao redor e todos já tinham se livrado de suas vestimentas. Quatro homens e seis mulheres. Meu Deus, como é que eu vim parar aqui? Desembaracei-me daquele cordão na altura da cintura desfazendo o meio nó, movi os braços para tirar as mangas sem me levantar, o roupão ficou preso, tive que levantar um pouquinho, que constrangimento! Olhei para baixo, ai que vergonha! Ainda por cima fiquei toda arrepiada - era de frio, mas vai que alguém pensasse diferente... minha nossa senhora, valei-me.

***
O mediador - eu não gravei o nome dele ainda -, sentou-se e pediu que nos apresentássemos e contássemos nossa experiência prévia em tratamentos anteriores. Pediu que o senhor careca começasse.
Essa deve ser minha décima tentativa. Já tentei nutricionista, endocrinologista, ortomolecular, mas o problema sempre volta. Emagrecer eu emagreço, mas não consigo manter. Depois de dois meses começo a engordar tudo de novo e mais ainda.
A seguir veio a moça que estava ao meu lado – eu seria a próxima e já comecei a gelar -, ela disse que tinha ido a médicos, usado produtos naturais, tomado vários tipos de chás e também engordava tudo de novo pouco tempo depois.
        Eu? Bem, como os colegas, fiz inúmeras tentativas. Além de médicos, tentei a dieta Dukan, a mediterrrânea, a de 600 calorias, fiz caminhadas e ginástica. Tive bom resultado em algumas vezes, mas com o tempo...
A dança das cadeiras continuou. Havia entre nós até um senhor que já tinha feito cirurgia bariátrica, aquela que reduz estômago, sabe? e mesmo assim engordou de novo, porque tinha compulsão por leite condensado e bebia direto da latinha toda vez que sentia fome.
Na segunda rodada de perguntas tipo ‘integração’, como chamou Danilo - acho que esse é o nome dele, me recordo agora -, a questão foi porque resolvemos aderir à experiência. 
Na vez da minha resposta, o grupo riu pela primeira vez - precisávamos mesmo de um pouco de descontração, ufa! -, e eu só respondi a verdade: desespero.      
Após a saraivada de comentários que no fundo diziam mais ou menos isso, Danilo começou a falar. Levantou-se de novo, foi até o ‘flip chart’ e desenhou um rosto desconjuntado de um corpo. O rosto era redondo e o corpo, obeso, disforme e assexuado.
Esse, senhores, fui eu, ele disse. Esse, senhores, são vocês hoje. Alguém discorda?
Ninguém falou coisa alguma. Danilo então nos contou de sua formação em psiquiatria e psicologia e que é sabido em todo o meio médico que em um grande número das pessoas que engorda e tem dificuldades para controlar o peso, a causa é emocional, excetuando os problemas na tireoide e outras raras enfermidades. Mas que não convém a tantas especialidades médicas e nichos de mercado abertos com o filão da obesidade divulgar isso. Trata-se o efeito e não a causa, daí o método atual ser inovador, ele disse.
Continuou explicando que optaram por uma abordagem não ortodoxa, “não vamos indicar sessões de psicologia para ninguém” por acreditarem que o resultado seria muito mais rápido. Eu deixei a reunião com dor de cabeça, nunca pensei que vergonha desse enxaqueca, mas enfim, ao menos permanecia viva.

***
  Em casa me esmerei ao máximo na ingestão de poucas calorias, comprei peixes, fiz legumes ao vapor, caminhei a semana quase toda, fugi dos doces como o diabo da cruz. No encontro nudista da semana seguinte, digo, no encontro para emagrecer, eu tinha perdido dois quilos. Quase todos os companheiros de opróbrio também foram vitoriosos e aos poucos íamos deixando, junto com os quilos a mais, a timidez.
Falávamos de nossos sentimentos durante a semana, do que nos motivava a continuar prestando atenção à alimentação, aos exercícios. Vomitávamos sapos, derramávamos hipócritos conceitos, chutávamos o balde mesmo, como se diz. O olhar do outro ali sempre tinha um grande peso, mas esse era incrivelmente leve e só nos ajudava nas balanças, tanto na física quanto na emocional.
De minha parte, o que eu queria era parecer melhor e mais agradável aos colegas e a mim mesma. Mudava por dentro para transparecer por fora. Em casa sentiam a diferença. Minha forma de tratar a família era outra, o tom crítico dava lugar a uma abordagem mais compreensiva. A assertividade das colocações aumentava no trabalho também e a descontração com os amigos era evidente. Mudei as cores das minhas roupas, meu estilo, cortei o cabelo, caprichei nas unhas. Queria refletir o novo eu que estava reconstruindo.
Ao cabo de três meses de programa nosso incentivador mor, no início do encontro, fez outro desenho no quadro. Era um rosto com um corpo; não tinha nada de atlético, mas era uno. Muitos sorrisos iluminaram aquela reunião. Sabíamos que, na realidade, o tratamento ia muito além do corpo, o foco era a auto-estima, mas, que importa? Ela estava lá no alto mesmo.

***
Fiquei no programa durante uns sete ou oito meses. Saí de lá com o que a ciência diz ser a faixa recomendável para minha idade, altura e sexo, mas isso nem de longe foi o principal. Eu agora me gostava, estava feliz e confiante. Não que eu ache que os obesos tenham problemas com a felicidade, cada um com seu cada um, com seus parâmetros e seus conceitos, mas, admito, eu tinha. Aliás, eu e todos os que estavam naquele grupo. Isso descobrimos depois, quer dizer, nosso mediador nos contou que o critério usado para selecionar o grupo-teste incluía os que já tinham feito várias tentativas de emagrecer sem sucesso e se sentiam mal com isso. Eu superei o medo de me encarar desnuda e sei onde estão cada uma das minhas muitas máscaras. Só que eu, eu não preciso mais delas.
Três anos já se passaram. Sim, se você quer saber, continuo magra. Fome? Normal, quer dizer, até hoje de manhã, quando li no jornal a seguinte manchete, título e subtítulo: Charlatão vende filmes com obesos nus. Falso psicólogo prometia método inovador de emagrecimento. E na matéria, minha foto, eu ali, nuzinha em pelo, só com um quadradinho disfarçando meu rosto.  Alguém me compre um chocolate, URGENTE!



8 comentários:

  1. Muito interessante a idéia.
    Despir-se é desnudar nossas máscaras,desfazer o peso das nossa teias psíquicas ,transformá-las em mente.
    Parabens! Ceci lohmann

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    1. Obrigada, Ceci. Vc sempre grande incentivadora. Fico engrandecida por sua abordagem psicológica, não apenas neste meu conto, mas em todos os textos que lemos no Clic.

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  2. Coitados dos gordinhos!... rsrs... Bom conto, divertido, com o inequívoco estilo da Rita. A gente lê desde o início com um sorriso nos lábios. E assim, devagarinho, nos fala sobre como gostamos de nos enganar com "novidades" e falsos profetas.
    Novaes/

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    1. Depois penso em escrever um sobre "a vingança dos gordinhos". É bom poder exorcizar o que me apavora através da literatura, rsrsrs.

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  3. Que bom texto, Rita, também acho, tem a sua marca. Meio crônica, meio conto, leve, instiga a gente: será verdade?
    Parabéns e um grande abraço.
    Carlos Rosa

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    1. Obrigada, Carlos. Adorei o adjetivo leve, em se tratando de pesos pesados, rsrsrs. Grande abraço também.

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  4. História fervente, autora enigmática, revelações paradoxais, finais paroxísticos, cada texto de Rita que leio me questiono em que ponto de seu movimento literário pendular, dessa feita, captarei sua narrativa. A prova disso é que, se lemos uma segunda vez, a compreensão é outra, e nunca saberemos, principalmente, se a incerteza provém do texto, ou de nós mesmos. É sempre uma surpresa. Parece haver uma música no conto, fruto de seu vigor poético, de sua vis viva. Este conto lembra "Felicidade Suprema" que consta no livro do clube recém publicado. Ainda não sei o que pensar, não menos o que sentir com a leitura deste conto.

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    1. Caramba, esse anônimo é que me surpreendeu, obrigada por sua análise e por ter lido também "Felicidade suprema". Realmente esse tema de 'gordura' mexe comigo. Grande abraço.

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