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29 de outubro de 2013

Uma Imperatriz Despedaçada - por Wagner Medeiros Jr.


O augúrio de D. Leopoldina começou a ser traçado com a chegada de Domitila de Castro do Canto e Melo ao Rio de Janeiro. O príncipe D. Pedro a conhecera em São Paulo, através do irmão, alferes Francisco de Castro, durante viagem para debelar os conflitos que instabilizavam aquela província, dias antes da independência.

Domitila casara-se aos 15 anos, com o alferes Feliciano de Mendonça, com quem teve três filhos. Aos 21 se separara, após ser espancada e esfaqueada. Segundo Feliciano, por “violação da honra”, pois a encontrara “resvalada aos pés de um fauno”, como dizia do coronel Francisco Lorena, que viria a manter relação com Domitila até seus 24 anos, quando ela conhece D. Pedro.

Domitila não tardou a seduzir o regente, pois o primeiro encontro íntimo foi quase imediato, em 29 de agosto de 1822. Também não tardaria a abalar o prestígio do imperador D. Pedro I e o Império nascente. Mas, as feridas mais profundas seriam dilaceradas na Imperatriz, D. Leopoldina, pela ascensão de Domitila sobre D. Pedro. 

Ainda em julho de 1823 D. Pedro I demite José Bonifácio, amigo e confidente de D. Leopoldina, que é forçado ao exílio. Compõe, então, um governo de portugueses. A Imperatriz vai ficando isolada, o que é agravado quando o imperador nomeia a concubina para Primeira Dama da Imperatriz, em abril de 1825, dando-lhe lugar de honra e o direito de acompanhar D. Leopoldina por toda parte.

Segundo Maria Graham, isto causou à Imperatriz “o mais odioso dos incômodos”, pois permitia que Domitila a acompanhasse, desde que ela saía dos seus aposentos. Mesmo assim, pelo amor a D. Pedro e aos filhos, a Imperatriz mantinha-se altiva, por considerar um dever suportar situações adversas. Não raras vezes, ainda era submetida a restrições financeiras e obrigada a recorrer a amigos, enquanto Domitila e os seus eram contemplados por ricos presentes, cargos e títulos honoríficos.

Em 12 de outubro de 1825, no aniversário do imperador, Domitila é elevada à Viscondessa de Castro; no seguinte, à Marquesa de Santos. Antes, porém, em maio de 1826, D. Pedro reconhece publicamente a paternidade de Isabel Maria, filha com Domitila, impondo sua convivência com os filhos legítimos. Um duro golpe, que deixa a imperatriz muitíssimo ressentida.

Outro golpe foi a viagem à Bahia, com o fim de arregimentar tropas para a Guerra da Cisplatina, entre fevereiro e março de 1826. Para o povo baiano foi um escândalo a forma de D. Pedro tratar a concubina, se hospedando no mesmo lugar que ela, em detrimento de D. Leopoldina e da filha Maria da Glória, que ficaram em local mais modesto.

Em decorrência de tantas adversidades a imperatriz entra em grande crise depressiva, que só termina com sua morte, aos 29 anos, em 11 de dezembro de 1826. Deixa cinco filhos: o mais novo, Pedro de Alcântara, com um ano, seria Imperador do Brasil; a mais velha, Maria da Glória, com 7, seria Rainha de Portugal.

Tudo começou no dia 20 de novembro, quando D. Pedro I lhe passaria a Regência, para uma viagem de inspeção às tropas, no sul do país. D. Leopoldina, grávida, se recusara a ser acompanhada por Domitila, o que deixou o imperador furioso, por não poder mostrar aos presentes a “normalidade” da sua vida conjugal.

Na carta derradeira à irmã Maria Luíza, ditada à Marquesa de Aguiar no dia 8 de dezembro, D. Leopoldina diz que D. Pedro “acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento, maltratando-me na presença daquela que é a causa de todas as minhas desgraças. Muito e muito tinha a dizer-te, mas faltam-me forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa da minha morte”.

Se a Imperatriz morreu por septicemia puerperal após ser agredida por D. Pedro, não há provas. Do que há é que Domitila ainda tentou adentrar nos aposentos onde a Imperatriz agonizava, mas que foi impedida pela pronta ação dos que a acompanhavam  em sua agonia mortal.
e-mail: wagnermedeirosjr@gmail.com
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7 comentários:

  1. Caraca! Desconhecia completamente essa história!

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  2. Wagner, não sei o que aconteceu mas não saiu o meu último comentário.
    Estou adorando seus textos.
    Continue nos brindando!
    Obrigada,
    Vera Freire.

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  3. Wagner, aí vai meu terceiro comentário. Finalmente?
    Estou adorando seus textos.
    Continue nos brindando...
    Parabéns e, obrigada!
    Vera Freire.

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  4. Como dizem meus colegas marxistas, o discurso dominante é sempre belo, poético e justo. Não nos questionamos sobre o que ha por trás, o pano de fundo é sempre mais real do que o que está a nossa frente. Tenho uma amiga que depois de ler a história de D. Leopoldina, passou a odiar intensamente D. Pedro I. É claro que eu, enquanto mulher, também me ressinto da forma como esse homem tratou a imperatriz. Mas fico a me indagar se uma imperatriz é tratada como foi Leopoldina, imagine uma plebeia? Nem quero pensar nas agruras. No entanto, como não ver a figura de Domitila como uma mulher que sabia sobreviver muito bem em detrimento de sua condição feminina, ao contrário, se aproveitava justamente disso para conseguir o que desejava.

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  5. Wagner,

    Muito bom seu texto" Uma imperatriz despedaçada",adorei!

    Sobre a morte de D.Leopoldina, eis o que nos diz Paulo Rezzutti, em "Domitila", Geração Editorial, 2012, que li recentemente:

    " "Dona Leopoldina não quis comparecer ao evento, sobretudo ao lado da marquesa. D.Pedro teria perdido a cabeça e, numa alteração com a esposa, provocado nela hematomas que foram notados pelo embaixador francês, o marquês deGabriac"p.124

    "Uma lenda diz que, durante a discussão,D.Leopoldina teria caído por uma escada interna que seria utilizada para ligar a parte íntima aos aposentos oficiais." p.125

    "Na madrugada de 19 para 20 de março de 2012, na Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo,uma tomografia computadorizada realizada nos restos mortais da imperatrz constatou apenas que D.Leoplodina não tinha um dos dentes do siso. Nenhum osso quebrado, nenhuma marca de trauma, nem mesmo a suspeita de reumatismo levantada por um dos seus biógrafos."

    p.125-126

    E aí, Wagner, a exumação do corpo de nossa imperatriz despedaçada na presença de médicos forenses, físicos e demais técnicos da USP, um representade da família de Orleans e Bragança, e outras autoridades, inocenta D. Pedro I, o Demonão da Titìlia?

    Confesso que o absolvi -ufa!com grande alívio- desta acusação! E você, que acha?

    Abraço,um bom dia!

    Vera Leite

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  6. Dom Pedro I era um homem do seu tempo - e um homem jovem - que teve atitudes ainda hoje existentes no gênero masculino. Mas, casamentos arranjados, como este com Leopoldina, estão ainda mais sujeitos a este tipo de ocaso. Lendo "Histórias íntimas", de Mary Del Priore, verificamos que a relação entre Pedro I e a Marquesa de Santos era de uma paixão bastante erotizada. O imperador era simplesmente doido por Domitila, a ponto de nublar por longo tempo seu bom-senso. Além de penalizar injustamente a imperatriz, foi alvo de fofocas e chacotas por conta da amante que todos sabiam. Houve um momento, no entanto, após a morte de Leopoldina, que D. Pedro I caiu em si e terminou a relação para se preservar e ao seu governo. Creio que tudo que Pedro I fez, na vida pessoal ou na política, o fez de forma apaixonada, com todos os erros que advêm dos impulsos emocionais.

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  7. Agradeço a todos pelos comentários.É gratificante escrever para um grupo tão seleto.

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