CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

6 de janeiro de 2014

Sob o Signo do Equador: Cícero Coelho Lapa

Ai que calor!


Nuit De Feu - H Howse

"O comunismo é o possível paraíso terrestre."





Cícero Coelho Lapa é a voz da Terra de Mafrense no nosso clube de leitura Icaraí, um filho do sol do equador, como diz o hino piauiense. O pai sonhou um filho super homem, a mãe lhe legou fibra de cangaceiros. Tornou-se objeto de maldição da vingança de um suposto gênio de garrafa de cerveja para uma bela estudante da zona da mata que veio estudar em terras de Arariboia. Qualquer semelhança com histórias narradas em "Sob o Signo do Equador" é mera coincidência.

Quando jovem, Cícero veio para o sul maravilha estudar Economia.  Aqui, na terra dos papa goiabas, e no clube de leitura Icaraí, é conhecido por suas assertivas contundentes, francas. Quem o conhece pessoalmente sabe do que estou falando. Pois é a mesma forma direta e perturbadora de expressar suas convicções que pode ser encontrada também em seus textos. Lemos suas histórias como se colhêssemos caules de mandacaru.

Muitas passagens de "Sob o Signo do Equador" são inesquecivelmente deliciosas e os leitores se surpreenderão com l'ambiance de bas-fond rustique et voluptueuse. Recomendo a aquisição da obra (R$ 20,00) através da Estante do Concierge (conciergeclic@gmail.com). Não esperem, portanto, encontrar na leitura as memórias líricas de um escritor romântico, embora haja muito romance no quartinho de fundos da casa grande. Longe disso. Prepare-se também para momentos de emprego da linguagem rude de um pau de arara contando casos de intensa experiência humana, atravessando a solavancos as estradas poeirentas e áridas da existência humana, para tantos.

Em “A vingança do gênio” o protagonista é um jovem piauiense que se retirou para o sul maravilha do país, encontrando uma jovem cujo nome já lhe era familiar, o nome de uma das fazendas de seu pai. Eles se casam e a sulista vai, então, conhecer a terra natal do marido. O choque com a realidade social do nordeste assusta a esposa de apenas 19 anos. Ela passa a atribuir a um fantástico gênio “filho da puta” a maldição daquele casamento. O irmão o adverte de que ela certamente se separará dele assim que voltarem à corte, no Rio de Janeiro. Confiante na boa formação cristã da moça, o marido se mostra paciente para que desperte na amada sua boa índole, levando-a para conhecer a terra e os costumes locais, entre os quais o de assistir o ritual da quebra do côco babaçu. Uma mudança de sentimento, a exemplo do que aconteceu com Euclides da Cunha em “Os Sertões”, ocorreu com a fada mineira (foi essa a impressão que causou no ancião de 80 anos que lhe demonstrou o processo). Se a princípio a percepção que tinha dos nordestinos era a de serem uma espécie de subgente, a princesa aos poucos descobriu neles a autêntica matriz da brasilidade. 



Uma experiência vivida nos cafundós do Brasil fez soçobrar a vaidade quase infinita da "ariana". Foi num acidente na travessia do rio Parnaíba, a passeio numa canoa bastante primitiva que virou e por muita sorte não acabou em tragédia. Ficou o aprendizado como se fora uma experiência espiritual e salvadora, que promoveu uma verdadeira restauração interior da vida fragmentada que nossa heroína levara até então no Rio de Janeiro; foram seis meses de mortificação corporal causada pela malária, o trauma psicológico que a fez buscar auxílio numa intensa religiosidade e, enfim, a intervenção do marido para que ela buscasse ajuda terapêutica.

Floriano - terra natal do autor


Nos demais contos é possível perceber, pelo estilo narrativo, a visão de mundo do autor, desde suas convicções políticas até sua visão da vida. A entrevista com Seu Antônio é extraordinária, um tabaréu analfabeto que se transformou numa das pessoas mais poderosa daquelas terras, apoiando Antonio Conselheiro em Canudos, Lampião no cangaço, amigo de personalidades como padim Ciço, Mal. Floriano Peixoto, Presidente Getúlio Vargas, além de mantenedor de jagunços. As declarações sobre Canudos, o cangaço e outros eventos históricos do início do século passado contam outra história que não a oficial. Será real este personagem? Em "O Incêndio", Cícero demonstra seu domínio na arte de contar histórias, denunciando a corrupção no serviço público, os apadrinhamentos políticos que tanto mal fazem às nossas instituições. Em "Conflito com a Lua", dessa vez, denuncia a destruição criminosa de nossas matas, mas mais surpreendente do que a mobilização dos símios na estória se mostrou, para mim, as dimensões da lua no céu: "mais de 1 (um) metro". Em "Debaixo das verdes bananeiras" o autor retoma o mito de Lolita, da obra prima de Nabokov, mostrando que no caso de Rosa, a protagonista, antes de se envolver sexualmente com o patrão, a inspiração e o aprendizado se deu pela observação dos porcos e dos cães no quintal da casa. Mas o leitor apressado se equivoca pois o desfecho da estória é inesperado, embora não mais que surpreendente: as analogias apresentadas são inquietantes e polêmicas. Em "Sentimento transcendente" o leitor se depara com as mesmas causas profundas de indignação e revolta que levaram milhões de brasileiros às ruas nas manifestações populares ocorridas durante a Copa das Confederações no Brasil. Vale a pena conferir!


Se Adolf dançasse, não se tornaria Hitler


"De tanto ver os corruptos e as nulidades proclamarem suas vitórias, o honesto põe em dúvida suas virtudes; chega até a ter vergonha delas." (Ruy Barbosa)

Um filme sobre o poeta maior do Piaui - Da Costa e Silva


Além de brasileiro, Deus é piauiense!


6 comentários:

  1. Oi Cícero, que bom conhecer um pouco do seu livro. Bem que você poderia fazer um relançamento para os amigos, não? Eu gostaria muito. Fico aguardando a divulgação do preço na estante do concièrge para encomendar.

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  2. Cadê o livro? Cadê o livro??? Cícero, não nos sonegue este prazer!! Aguardo ansioso. Abs!!

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  3. Parabéns, Cícero. Livro bem escrito, assuntos interessantes abordados com franqueza. Li, gostei, recomendo a todos.
    Carlos Rosa.

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  4. Cícero, você escondeu isso da gente ? Lamentável!

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  5. Parabéns, prezado Cícero! Mais um grande escritor descoberto entre nós. Excelente!
    Elenir

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  6. Cícero, seu livro é muito bom, agradável de ler! Estou terminando. Abraços!

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