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O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

21 de agosto de 2013

Euclides da Cunha: Da face de um tapuia - Anabelle Loivos e Luiz Fernando Sangenis


Amigos queridos, estamos felizes por participar a vocês o pré-lançamento de nosso trabalho biográfico e de seleção de textos antológicos do escritor cantagalense Euclides Rodrigues da Cunha. O livro Euclides da Cunha: Da face de um tapuiajá se encontra em pré-venda no site da Editora Nitpress, com entrega prevista para o final de outubro de 2013. Vale lembrar que os leitores que adquirirem o livro durante a pré-venda receberão seus exemplares autografados pelos organizadores.

A obra faz parte da coleção Introdução aos Clássicos Fluminenses- que reúne, de forma inédita, os autores clássicos de origem fluminense que contribuíram significativamente para a formação literária brasileira. Além de apresentar às novas gerações os maiores nomes da literatura regional, a série, produzida em parceria com a Academia Fluminense de Letras e o Cenáculo Fluminense de História e Letras, visa a contribuir para o resgate e fortalecimento da identidade fluminense.

A seguir, compartilhamos com vocês um dos textos de apresentação do livroEuclides da Cunha: Da face de um tapuia, preparado para ser um ponto de apoio para professores, alunos e demais leitores de um dos maiores ícones da cultura e da literatura de nosso país. Intentamos, com isto, abrir um canal de diálogo sobre nosso trabalho, ainda que virtual. Contamos com sua leitura, apreciações e sugestões.

Um abraço forte, 

Anabelle Loivos e Luiz Fernando Sangenis.

Pré-lançamento do livro 

Anabelle é participante virtual do Clube de Leitura Icaraí desde 25/03/2013
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Euclides da Cunha – letras fluminenses, letras andarilhas

Pensemos num Euclides da Cunha pouco convencional: um boneco feito em papier-mâché, construído em uma Oficina de Artes do Ponto de Cultura “Os Serões do Seu Euclides”, em Cantagalo, terra natal do escritor. O boneco traja sapatos pretos, terno, gravata amarela de tecido de festim carnavalesco e tem uma cabeça enorme – como devem ter os bonecos folclóricos –, cujo rosto vem adornado pelo indefectível bigode ao estilo “natural moustache”.

Está sentado em uma poltrona de estofado rasgado, cor verde turmalina, que ocupa o mesmo canto numa sala do museu Casa de Euclides da Cunha há pelo menos três décadas (tempo em que esta biógrafa, ainda pequena, começou a frequentar o espaço cultural cantagalense). Este “Euclides” moreno, com aspecto menos troncudo do que o que conhecemos nas fotos que restaram, sentado confortavelmente na poltrona, como quem está à espera de uma visita importante, talvez eu, talvez você, leitor, é a personagem titânica que vimos aqui apresentar.

Outro dia, durante as oficinas de arte, vi uma cena inusitada: dois ou três meninos e meninas de um colégio público de Cantagalo, sem o olhar disciplinador dos monitores, acorreram ao boneco-Euclides. Pegaram a mão dele, fingiram que dançavam. Arrumaram mil vezes a gravata amarela, meio rota. E conversaram com ele, nesses termos: “Oscrides, vamos dar um rolé?”; “Euclides, você é feio!”; “Cabeção!”; “Fala isso, não, senão os tios não deixam mais a gente vir aqui na casa dele...”; “Ele escrevia livros”; “Também construiu uma ponte”; “Você é bem legal, Euclides!”.

Penso que não tem preço ouvir um bate-papo teen como este! Todas as estratégias que construímos, no escopo do Projeto 100 Anos Sem Euclides, de aproximação das novas gerações de leitores à figura e à obra de Euclides da Cunha surtem efeito em observações muito simples, cândidas, até, sobre um homem que foi um gigante. Para aquelas crianças, Euclides-boneco é um gigante. Por metonímia, quero crer que, mais tarde, elas compreenderão em sentido mais amplo essa grandeza.

Lembro-me das palavras do escritor manauara, Milton Hatoum, em entrevista sobre como se deu seu primeiro contato com a leitura de Euclides da Cunha: “Como Euclides entrou na minha vida é uma outra história. Uma longa história que vem da minha juventude. Euclides entrou na minha vida através de um castigo, uma punição coletiva do professor de português do colégio Pedro II de Manaus, no dia em que explodiu uma bomba. Um dos nossos colegas fez uma bomba, destruiu a escada, ele não foi delatado e, por castigo, o professor exigiu que nós lêssemos trechos d’Os sertões. Lêssemos e fichássemos. O que foi um castigo, de fato. Aquilo, para um jovem de 13 anos, foi um horror, aquele vocabulário preciosista, aquela escrita pomposa, o estilo escultural. E foi uma pedrada, porque eu tive que consultar o dicionário o tempo todo – nesse aspecto, foi interessante.”[1] Entre o “castigo” e a “pedrada”, de forma impressionante, o menino Milton se encantou, mais tarde, por Euclides – escrevendo sobre o autor fluminense artigos acadêmicos, uma tese de doutorado (inacabada) e até mesmo uma enigmática crônica, sobre uma carta inédita do escritor, aparecida em Bancroft. Mas, tivesse sido outra a ação pedagógica, não se teria corrido o risco de perder para sempre mais um voraz leitor das coisas de Euclides...

Pensemos, agora, numa outra imagem. A de Euclides da Cunha, num velho post karte, vestindo terno de risca de giz, retratado por Joseph Vollsack, em São Paulo, no ano de 1903. No verso do garboso retrato, está o poema dedicado a Coelho Neto:

Felizmente
Esta fisionomia,
De onde ressalta a ríspida expressão
Da face de um tapuia, espantadíssima,
Hás de achá-la belíssima
Porque saberás ver, nitidamente,
Com os raios X da tua fantasia,
O que os outros não veem: um coração.[2]

Este é o Euclides canônico, fazendo o autorretrato que julgava possível legar às gerações vindouras, homem de letras, homem de ciências, filho da terra brasileira, índio brabo dos Sertões das Novas Minas de Macacu. É preciso mesclar todos os Euclides: o de Cantagalo e o da Ouvidor, o de São José do Rio Pardo e o da Amazônia, o dos sertões tapuias e o das selvas do caucho, o de terno verde e o de terno risca de giz.

Dado o primeiro passo – apresentar a crianças e adolescentes, por via das artes, uma figura do passado que ainda tem muito a dizer ao nosso presente –, trata-se de investir em múltiplas formas de ler/reler Euclides, enfeixando um trabalho de diálogo perene entre a obra do escritor e a contemporaneidade. Esta coleção, “Clássicos Fluminenses”, propõe-se exatamente a isto: reatualizar o pensamento de escritores fundantes do Estado do Rio de Janeiro, colocando-os em linha direta com uma nova casta de leitores, advindos da fragmentária e múltipla experiência de comunicação em infovias hodierna. Daí, do boneco-Euclides ao escritor-vingador de tantos sertões e selvas, pode estar uma distância muito menor do que a de uma página a outra desta pequena antologia. Vamos a ela?

Anabelle Loivos Considera Conde Sangenis





[1] HATOUM, Milton. “A peculiar Manaus de Milton Hatoum”. Entrevista publicada em 13-09-2009, concedida a Bruno Dorigatti (Portal Saraiva Conteúdo). In: < http://www.saraivaconteudo.com.br/Entrevistas/Post/10071> (Acesso em 31 de julho de 2013).
[2] CUNHA, Euclides da. Obra completa. V. 1. (Org. Paulo Roberto Pereira.) 2.a ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009. p. 489 [grifo nosso].






3 comentários:

  1. Olá Anabelle, é uma honra para nós tê-la compartilhando seus saberes no CLIc. Gostaria de saber quando foi que você se encantou com Euclides da Cunha?

    Sobre Anabelle, conheci-a em um jantar na casa de um cliceano em Março deste ano e, desde então, ela vem nos acompanhando online no grupo de emails. Anabelle Loivos Considera Conde Sangenis é fluminense, nascida no Município de Cantagalo e, portanto, conterrânea de Euclides da Cunha. É Mestre em Letras - Literatura Portuguesa, na UFF - Universidade Federal Fluminense, e Doutora em Letras - Literatura Comparada, também na UFF. É professora Adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Faculdade de Educação. Pertence a grupo de pesquisa interinstitucional (UFRJ/UERJ), dedicado ao tema “Memória e Identidade Fluminense”. Presentemente, desenvolve na FE-UFRJ o projeto de extensão interinstitucional “100 Anos Sem Euclides” (em parceria com a Faculdade de Letras-UFRJ e com a UERJ-FFP/São Gonçalo-RJ), cujas ações culturais, acadêmicas e educativas visam a destacar a memória e o espólio literário de Euclides da Cunha, especialmente no âmbito do município de Cantagalo-RJ, cidade natal do escritor. Supervisiona as atividades do “Cineclube da Cunha” (contemplado através de Edital público PROEXT-MEC 2010), do “Arquivo de Memória Amélia Tomás” (contemplado através de Edital público PROEXT-MEC 2014) e do Ponto de Cultura “Os Serões do Seu Euclides”, em parceria com o MinC e a Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro.

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  2. Evandro e cliceanos, é uma alegria e um privilégio ver o nosso livro circulando na página de vocês. Além da biografia, a segunda parte do livro apresenta ao leitor uma seleção de textos de Euclides com o objetivo de dar a conhecer textos que vão além de "Os Sertões", como "Contrastes e Confrontos", "Peru Versus Bolívia" e a "Margem da História", não descurando do Euclides poeta. Boas leituras. Luiz Fernando.

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  3. Olá, Luiz Fernando, alegria a nossa também de contar com ambos os escritores interagindo conosco no clube de leitura. De Euclides da Cunha só li "Os Sertões" para o debate que o Clube realizou na bienal do livro no Riocentro em 2009. Vai ser muito legal conhecer outras facetas do escritor, inclusive a de poeta, que eu desconhecia até nosso último encontro gastronômico. Você tem previsão de quando começa o envio do livro para quem encomendá-lo na pré-venda?

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