CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de abril de 2014

A construção de uma amizade: William Lial


William Lial


Como é gostoso e importante para a formação da criança ouvir histórias. Ao contá-las instigamos a curiosidade e o desejo de “quero mais”, expresso pelas crianças no “conta outra vez”. São esses sentimentos que nos movem para conhecer e aprender as coisas que estão no mundo, e, sabendo-as registradas em livros, certamente iremos recorrer a eles, nos tornando, assim, leitores por desejo e motivação. (PERRONE; LARA, 2002, p. 123)



A literatura infantil, felizmente, é base da criação intelectual e prazer pela leitura de muitos de nós. Não são poucos os relatos de quem teve sua infância recheada de livros infantis, de Monteiro Lobato à Ana Maria Machado – para os mais jovens. Muito importante, portanto, como diz a professora e ensaísta Nelly Novaes Coelho,

A Literatura infantil é, antes de tudo, literatura, ou melhor, é arte: fenômeno de criatividade que representa o Mundo, o Homem, a Vida, através da palavra. Funde os sonhos e a vida prática; o imaginário e o real; os ideais e sua possível/impossível realização. (COELHO, 2000, p. 27)

O livro da professora e escritora Francisca Nóbrega, Uma pena, uma saudade (1989), é um bom exemplo dessa presença do imaginário que se funde ao mundo real, representado no encontro de uma menina com um pássaro falante, narrado sem digressões para explicar como esse diálogo fantástico é possível; antes deixando tudo ao correr da pena, como no mundo tradicional, onde todo fantástico é natural, sem estranhamentos da ordem do extraordinário e irreal, como se costuma ver na literatura infantil.


"Uma pena, uma saudade" é um dos livros do debate de julho no CLIc

No seu enredo, a história é de uma menina que conhece um pássaro, um Colibri, e este se torna seu amigo, companheiro das melhores horas, divertindo-a e trocando aprendizado, carinho e amor. Na narrativa, a menina parece ter como único amigo o pássaro que lhe faz grande falta na ausência. E essa amizade vai sendo construída aos poucos, passando pelo período da observação para o do primeiro contato, seguido pelo da descoberta do outro e da necessidade e prazer da sua companhia, como consequência do amor já instalado, chegando à concepção da amizade propriamente dita e à partida do amigo com os seus, no outono, “outro outono” (p. 20), como diz a narradora, sinalizando que esse outono é também de outra ordem, além da tradicional das estações, como veremos mais à frente.

No decorrer da leitura podemos encontrar muitas características que já fazem parte da tradição da Literatura Infantil, dentre elas: o texto conciso, marcado pela oralidade, com vocabulário familiar, o uso da fantasia como forma de experimentação da verdade, personagens impulsionados pelo livre arbítrio, pela aproximação afetiva, pela empatia – que aproxima Carolina do Colibri, além da curiosidade inicial –, pela busca da felicidade, o uso de personificações e antropoformizações (AZEVEDO, 2001), como o pássaro Colibri que age como humano, com sentimentos e reações comuns ao homem; enfim, são características que também contribuem para a concepção de uma narrativa de iniciação, a exemplo do que ocorre em algumas “literaturas para adultos” como Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister (2009), de Goethe, também comumente chamados de “Romance de Formação”. Além disso, essas formas de iniciação são tradicionais nos livros infantis.

Mas o livro é mais do que essas características. Sua narrativa delineia o surgimento e desenvolvimento de uma amizade de encantos, tanto do ponto de vista ficcional e fantástico, como do ponto de vista humano. A amizade retratada na fábula segue um crescendo, constrói-se, como podemos perceber de acordo com algumas observações que julguei mais distintivas, e que procuro desenvolver a partir do parágrafo seguinte.

No que chamo de primeiro estágio da amizade, a menina é atraída pela curiosidade e encanto de ver um passarinho – ou melhor, um bichinho; ela ainda não sabe o que ele é –, a voar sobre flores. Vítima de seu limitado conhecimento do mundo, ao ver o passarinho, julga que ele teria um segredo, “Aquele passarinho escondia um segredo” (p. 5), – suposto segredo que, na verdade, intrigou a menina pelo fato de todos os dias o pequeno pássaro estar a beijar as flores; o que, porém, não se configura num segredo, mas numa falta de conhecimento da atividade trivial do pássaro que não a exerce escondida de ninguém; contudo, sendo a menina uma menina, vivendo a descoberta inicial do mundo, obviamente não sabia o que fazem os Colibris – bichinho que até então ela nem sabia que existia.



Ainda como parte do primeiro estágio, e no campo da observação, a menina dá pouca importância ao pequeno voador, como muitas vezes acontece entre os adultos na construção de uma amizade – em princípio, aquele que um dia será nosso amigo do peito, não nos causa grande impressão –, por isso, relata a menina: “[...] logo, logo, [o bichinho] deixou de ser assunto para mim” (p. 7).

Mas como as futuras amizades parecem nos buscar e nos direcionar para o encontro delas, o desinteresse da garota dura apenas “por vinte e quatro horas” (p. 7), até o passarinho retornar no dia seguinte; quando ela toma a iniciativa do primeiro contato – alguém sempre dá o primeiro passo, caso contrário, sem passo inicial, as amizades não existiriam.

No entanto, a menina, que não sabia distinguir se a ave era ave ou inseto (p. 7), interroga a pequena criatura que, blasé, não responde: “— Você é ave ou inseto?” (p. 7). Porém, olhando o passarinho de perto, depois da repentina aproximação deste, quase a tocar o seu nariz, a menina tem sua primeira revelação: ele tem asas, e é um passarinho, não um inseto, como ela julgou possível nas suas especulações iniciais ao observar o pequeno voador. Caso relevante, o da descoberta, no mundo da criança, algo sempre revelador, novo e importante para um cérebro em desenvolvimento que a tudo capta e se maravilha. O ser novo soa encantado.

A partir daí, agora no segundo estágio da amizade, a menina não mais esquece o pequeno pássaro, como podemos ver no exemplo abaixo, em forma de poesia – gênero constante nessa fábula que, vez por outra, se mistura à narrativa em prosa do seu texto.

Vinha a tarde, ele vinha.
E eu ia correndo pra janela.
Louca pra vê-lo. (p. 8)

E dessa forma, foi-se construindo o início da convivência e do acostumar-se com a presença do outro, foi surgindo a necessidade de se verem e a constante dedicação de parte do seu tempo ao futuro amigo, passando a observá-lo e a apreciá-lo, principalmente por parte da menina – o que não é diferente do que fazemos com nossos amigos; normalmente os admiramos por algo, em muitos casos somos seus fãs, orgulhamo-nos de sermos amigos de alguém tão especial. E era especial para a menina o pequeno voador, mesmo que, nesse ponto, ainda não tivessem se comunicado verbalmente, apresentando-se mutuamente e formalmente.

Assim, a menina vem todos os dias a procura do passarinho, e quando não o encontra – por alguns dias em que ele fica sumido –, sente o vazio provocado pela falta: “Confesso que fiquei desapontada, sentindo a sua ausência. Fiquei triste mesmo” (p. 11), lembra a narradora, já deixando clara a necessidade da menina pelo outro.

A essa altura, quando já nos sentimos imersos na leitura e no universo do livro, ressurge o pássaro, que se dirige à menina, agora, por palavras – o que já não nos causa espanto, não por sabermos que se trata de uma fábula, coisa que sabíamos desde o início, mas porque, imersos na leitura e no seu universo, vestidos de observadores, quiçá tomados da própria menina, tudo nos é possível e aceitável, não buscamos diferenciar fantasia de mundo lógico real. Mas enfim, com o contado oral tomado pelo pássaro, a linguagem, antes era apenas corporal, agora se configura em voz e palavras. Então a amizade que, até aqui, parecia uma via de mão única, tendo em vista que o pássaro não havia se comunicado realmente com a menina, além de exibir-se, como julgava ela, a amizade, afinal, toma uma direção mais efetiva, o pássaro não só fala como declara o seu carinho e afeição pela criança: “— Menina sem graça! Eu estive doente, com indigestão de suco de frutas misturadas. Só fiquei bom para poder voltar para você” (p.11).



Com essa confissão, o pássaro não só corrige um caminho de amizade, antes defeituoso pela ausência do discurso de uma das partes, como também demonstra que se preocupa com o que o outro, no caso a menina, pode pensar dele, da sua ausência, já que faz questão de justificar essa ausência, causada por uma indigestão, e, como se não bastasse, ainda dá indícios do seu amor nascente pela criança: “Só fiquei bom para poder voltar para você”.

Nesse momento, a amizade se configura com o amor correspondido. O passarinho quer bem a menina, e a menina quer bem ao passarinho; ele esteve doente e voltou por ela, ela esperou por ele, e também esteve doente – embora de forma metafórica, também teve uma indigestão, “indigestão de saudade” (p. 11), feito vazio no estômago provocado pelo vazio circunstancial do outro. E a declaração da narradora aos leitores não deixa dúvida disso:

Naquele exato momento,
Eu entendi o que as pessoas
Sentem quando dizem:
“Eu te amo!” (p. 13)

Nesse ínterim, dá-se a epifania. A menina descobre o que está sentindo, e o pássaro se revela no mesmo nível de querer que ela. Amar, nesse contexto, é sentir esse vazio que comentei acima, é sentir a falta do outro, quando longe, é querê-lo sempre perto, se importar com ele e sentir-se feliz pela atenção recebida. Como dizia Schopenhauer: “a amizade verdadeira e genuína pressupõe uma participação intensa, puramente objetiva e completamente desinteressada no destino alheio; participação que, por sua vez, significa nos identificarmos de fato com o amigo” (SCHOPENHAUER, 2002, p.220); identificação clara no encontro dos dois, passarinho e criança. E este foi mais um estágio da amizade, a descoberta dos sentimentos.

Desse momento em diante, menina e passarinho, não se desgrudam, criam uma parceria; cúmplices, descobrem que para haver amizade, assim como amor, é necessário dois existirem. O amor precisa ser mútuo para se realizar com sucesso e felicidade. Isso é representado pela repetição no texto da palavra francesa “pás de deux”: “Parecia convidar-me para um pás de deux” (p. 14), diz a criança, e mais à frente: “aprendi a fazer ponto, giro, rodopio, corrupio... tudo em pás de deux” (p. 20). A amizade se constrói e caminha a dois, a passos de dois, juntos. Não se é amizade se apenas um caminha sozinho.



E inebriados pelos momentos de alegria vividos juntos, nem percebem que nunca haviam se apresentado formalmente: nem seus nomes sabiam. Quando se expõem com o nome, este se configura em um novo estágio na amizade e numa nova revelação: “— Eu, Colibri, da nobre geração dos Grandes Beija-flores” e “— Eu, Carolina, da geração das garotinhas que ninguém entende” (p. 17), apresentam-se.

Mas há outro dado importante nessa apresentação: eles trocam presentes como faziam muitos de nossos antepassados ao conhecerem alguém ou receberem visitantes em seu mundo. Os presentes, nessas condições, são uma amostra de consideração, de respeito e, no caso específico dessa fábula, de dar ao outro algo seu – percebam que os presentes dados pelos personagens são partes de cada um, inclusive, diretamente dos seus corpos. Literalmente eles dão parte de si, e isso é muito significativo. É como se dissessem “Eu estarei sempre com você!”, firmando um compromisso.

Outro dado relevante é o fato da menina se proclamar pertencente à “geração das garotinhas que ninguém entende”. Suas palavras a colocam dentro do campo das muitas crianças que se sentem pouco ou nada compreendidas, e que, ao encontrarem um novo amigo, ou simplesmente um primeiro amigo, dedicam a esse o seu carinho e com ele compartilham intensamente sua vida. Esse amigo salva seus dias, porque a compreende como ninguém até então, o que, por conseguinte, a aproxima ainda mais do novo companheiro; uma amigo que, na visão da menina, é a poesia, por tudo o que ele representa; pela amizade, pela aparência, pela beleza, enfim, pelo fascínio que lhe causa. Nos olhos repletos de poesia romântica de Carolina, o pássaro transmuta-se em poesia, representa-lhe a harmonia da vida, uma metáfora da liberdade e do viver solto, feliz: “— E os da minha raça vão saber o que é poesia, quando virem um dos teus” (p. 17), diz a menina ao Colibri. A importância disso, desse momento, é declarada pela narradora quando afirma que

Aquela hora foi solene e séria,
Pois é sempre solene e sério
O instante da revelação. (p. 19; grifos meus)

Entre os motivos que podem fazer de uma revelação algo solene e sério, no caso específico desse texto, e nesse momento, está a possibilidade dessa revelação tratar-se de uma nova entrega. Em nosso mundo, onde os nomes são tão importantes, onde eles nos antecedem e nos apresentam, fazê-los conhecidos é revelar-se mais; nomear é revelar, é confirmar a existência, a realidade, a presença como ser presente, real. E para uma criança que encontra alguém (se me permitem a personificação do Colibri) que a compreende e a acompanha nesse mundo de sonho – a amizade parece um sonho para Carolina –, isso é fundamental, dá um sabor especial a sua vida. Essa revelação dos nomes, e espécies (Colibri e garotinha), fortifica a relação. Além disso, o nome dado à menina pelo Colibri também é muito significativo: Menina-Flor.

Este nome entra no plano das proposições, ou seja, o nome se propõe a significar, a definir a menina; por um lado por que o pássaro a conheceu entre as flores, onde ele costumava passear; por outro, por que a delicadeza e a importância de Carolina para ele parece se assemelhar à atração e importância da flor para os Colibris; e tudo isso somado representa a importância das flores para ambos: foi entre as flores que se conheceram, é entre elas que se encontram, é delas que o Colibri vive e foi graças a elas que ele veio à casa da menina e ganhou uma amiga. As flores ainda aparecem mais à frente no texto como fonte de amizade, amor e mais, como veremos adiante. Assim, o que o nome Menina-Flor invoca não é exatamente o que o nome significa, como diria Agamben sobre as proposições dos nomes (2012, p. 102-103), porém está relacionado, representa o que significa a menina para o pequeno pássaro.

Dessa forma, a amizade dos dois segue seu caminho. Construída, não da noite para o dia, mas com o tempo, com a maturação, como costumam construírem-se as amizades. E ambos vivem esse sentimento por vasto tempo: “E nossa vida era uma longa caminhada que não acabava nunca” (p. 20), diz a narradora.



A amizade dos dois era uma parceria, um companheirismo e uma cumplicidade que representava uma caminhada a dois, o “pas de deux”, já dito antes e repetido nesse ponto da narrativa, corroborando com a ideia de parceria. Além disso, havia uma troca entre eles, “Eu tinha sempre coisas para contar e ele, coisas para ouvir. Depois ele contava e eu ouvia” (p. 20), como declara Carolina; uma troca que define toda amizade, proporcionando o enriquecimento e o crescimento mútuo dos amigos, sempre a dois, juntos e iguais.

E ser iguais é mais um ponto expressivo na narrativa e na amizade de ambos: não há diferença real entre os dois, desenvolvem-se e descobrem um mundo novo lado a lado. Não há diferenças, um voa com asas e coração, outro voa com a satisfação e coração; ele é pequeno diante dela, e grande, diante dos beija-flores, não colibris; ela é grande, diante dele, e pequena diante dos homens; contudo, os dois são grandes diante de si mesmos – grandes um para o outro.

Enquanto isso, imperceptível em meio a essa construção da amizade, o tempo é força estranha. Imersos no prazer da companhia, o tempo inexistiu para os dois. Nem sequer foi eliminado, pois não foi percebido, não existiu até então – existir é característica imprescindível para se fazer presente e, assim, ser eliminado. Desprendidos das amarras do tempo que os obrigaria a medirem-se diante o tempo do mundo, viveram livres, cada dia como o mesmo dia – estendido eternamente – e, ainda assim, como um novo dia – revitalizado e redescoberto, nascido a cada reencontro. Sobre isso diz Carolina: “Fazia tanto tempo que brincávamos juntos, que dava a impressão de que não tinha havido o ‘antes dele’” (p. 21).

Essa declaração de que parecia não ter existido “o antes” do pássaro, portanto, “o antes” desse tempo em que Carolina e o Colibri vivem agora, no momento da percepção do tempo, assemelha-se à definição de tempo na Física projetada por Aristóteles, ao afirmar que o tempo é “a medida do movimento segundo o anterior e o posterior” (apud NUNES, 2002, p.29). Nas palavras de Carolina, permite-se vislumbrar que ela sabe que o tempo se dá entre o antes e o agora (o posterior ao antes), porém, ela percebe que, durante o tempo compartilhado com o Colibri, não houve esse antes e depois, só o presente.

Apesar disso, como nada é para sempre, já dizia o ditado popular, um dia, de acordo com a rotação sazonal, o tempo passa, e dessa vez é percebido; o Colibri tem que partir: já era “outono, outro outono” (p. 20), como diz a narradora. E como falei ainda no início deste texto, esse outono a que Carolina/Narradora se refere, é também, e principalmente, de outra ordem. Ele representa, dentre outras coisas, a tristeza, a chegada da velhice, da queda dos frutos, folhas e flores, refere-se à derrocada, às noites mais longas, contrárias à luz do verão que se encerra; tudo o que se configura na tristeza da partida e do fim de um período, de uma estação de alegria.



Diante desse novo panorama, tem-se mais um estágio da amizade que agora se conservará na lembrança, como nos casos em que, mesmo estando os amigos distantes, não se esquecem, um do outro, e, se um dia reencontrarem-se, abraçar-se-ão e retomarão à conversa como se apenas ontem se tivessem visto pela última vez, menosprezando o longo tempo entre os dois pontos, o do distanciamento e o do retorno, como um mero espaço que separam os segundos.

Na partida, o Colibri presenteia a menina mais uma vez, agora com uma flor roxa, que não deve ter seu significado desprezado pelo leitor. Esse presente não é mera formalidade ou regalo de menos valia. A flor roxa possui vários significados e todos, ou quase todos, são coerentes com o momento da narrativa; e esses vários significados podem, por conseguinte, nos suscitar várias interpretações; dentre elas, o roxo como metáfora do amor roxo, como a extensão do carinho do pequeno voador para com a menina, e que, nesse momento de partida, significa a saudade que ele sentirá da amiga, uma saudade roxa, dolorosa, forte, intensa – como significações mais diretas, baseadas na enciclopédia comum da nossa bagagem cultural e conhecimento popular.

Contudo, há ainda outras definições, significados atribuídos a essa flor que atravessam os tempos e enriquecem o ato do Colibri para com Carolina, o que também demonstra o grau de acuidade da autora do livro para com a sua história, ao buscar entrelinhas e simbolismos mais profundos para seu texto.

Dentre esses simbolismos temos: a flor roxa como representação do amor e dos sentimentos bons – assim como os sentimentos que unem os dois amigos na fábula –; o roxo como a cor do primeiro amor – o que não difere também da relação entre a menina e o colibri (ambos se unem por um amor mútuo, um amor verdadeiro e primeiro, sobretudo para a menina – de quem temos mais informações, já que narra a história de dentro de suas lembranças, como um narrador personagem –, porque ela nos deixa ver claramente que essa é sua primeira amizade, sua grande descoberta do que é uma espécie de amor compreensivo e feliz). Contudo, a flor ainda pode representar admiração e mistério – outras duas características diretamente presentes na amizade dos protagonistas dessa fábula –; além disso, a flor roxa é símbolo da Páscoa, também chamada de "Quaresmeira", conhecida como a flor que anuncia a Páscoa, tanto por florescer próximo do período religioso da "Quaresma", como por sua cor assemelhar-se ao roxo que representa a Páscoa – e Páscoa, no hebraico, Passach, significa passagem; a ida de uma situação à outra, como a ressurreição de Cristo, e como o renascimento de Carolina através da amizade. Finalmente, a cor púrpura real, também representa prosperidade, excelência e felicidade. Enfim, tudo intimamente relacionado com a amizade do pássaro e da menina.

Mas voltando ao correr do texto, nesse momento em que o Colibri presenteia Carolina, ele se vai. É hora de partir e deixar saudades. Partiu rápido, quase imperceptível, e a menina só viu “uma peninha de asa e o brilho escasso de uma saudade roxa” (p. 21) – aqui voltando a se referir a um dos atributos da cor roxa da flor.

E agora, de onde conta a história, a menina é uma senhora de cabelos brancos, “Meu cabelo, agora, é todinho anel de nuvem branca” (p. 23). Do ocorrido, a lembrança que fica é a força que teve aquela amizade e o quanto ela significou para os dias e a formação daquela menina, hoje mulher madura. O pássaro deu-lhe vida, sua afeição fez florescer em si suas asas, com as quais voou naqueles dias e viveu intensamente; assim, a pena do pássaro, que ficou consigo, era “a pena que faltava a minha asa” (p. 23), reconhece, ela, hoje.



Partido o Colibri, exaltada sua companhia e sua importância na vida da narradora, o texto termina com um poema que funciona como uma moral da história, ratificando a qualidade de amizade que retrata toda a fábula; tendo entre seus versos, como um ponto marcante e um dos centrais da história, a palavra “cativar” (p. 24), no quarto verso, que pode remeter-nos ao livro O pequeno príncipe (2004), de Antoine de Saint-Exupéry, onde o “jogo” de cativar é também parte fundamental da narrativa.

Agora, em posse dos sentimentos vivenciados, a menina segue sua vida junto aos homens, na busca de estender aos outros o que sentiu e viveu, semeando alegria, amor e companheirismo. Enriquecidos pela experiência que compartilharam, menina e passarinho levam consigo, e legam ao mundo os valores descobertos e adquiridos.




REFERÊNCIAS

AGAMBEN, Giorgio. Ideia da prosa. Trad. João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012. (FILÔ/Agamben) 
AZEVEDO, Ricardo. “Literatura infantil: origens, visões da infância e traços populares”. In: Presença Pedagógica. - Belo Horizonte: Editora Dimensão, nº 27 - mai/ jun 1999. 
COELHO, Nelly Novaes. A Literatura Infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.
GOETHE, Johann Wolfgang von. Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister. Trad. Nicolino Simone Neto. 2. ed. São Paulo: Ed. 34, 2009.
NÓBREGA, Francisca. Uma pena, uma saudade. 4. ed. Rio de Janeiro: Editora de Orientação Cultural, 1989.
NUNES, Benedito. Heidegger & Ser e tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002. (Passo-a-passo)

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. Trad. Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2004.

SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a Sabedoria de Vida. Trad. Jair Barboza. SP: Martins Fontes, 2002.

PERRONE, Ercília; LARA, Maria Lúcia Martins Pinto. “Era uma vez...”. In: SOUZA, Regina Célia; BORGES, Maria Fernanda S. Tognozzi (orgs.). A práxis na formação de educadores infantis. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

SIGNIFICADOS. Significado de Flores Roxas: o que são flores roxas. Disponível em: <http://www.significados.com.br/flores-roxas/>. Acesso em: 20 maio 2013.


William Lial é escritor (poeta, cronista, contista e ensaísta), autor dos livros "Sombras" (2001), "Noturno" (2001) e "O mundo de vidro" (2005), e colaborador de alguns sites e revistas de Literatura.



Ilustrações: Arthur H. Braga

20 comentários:

  1. Excelente,vc diz tudo que eu gostaria de dizer e mais ainda! Você é o nosso Colibri!
    Francisca há de estar sorrindo, talvez numa nuvem , junto de seu pássaro amado!
    Muito bom,Lial!

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  2. Certa vez me perguntaram o que era necessário para se escreve uma boa resenha ou algo do gênero sobre um livro ou um filme, eu não sei formalizar isso (nunca fui e provavelmente nunca serei uma boa acadêmica), só sei indicar o que eu considero como um comentário que merece ser lido, na época eu havia lido um do Chico Lopes e indiquei como algo enriquecedor sobre a arte da qual ela estava falando. Hoje, acrescento esse comentário-ensaio-poético a minha lista e recomendarei áqueles que me perguntarem num futuro.

    Lido todo o comentário-ensaio-poético, concluo precipitadamente, pois ainda não li o livro que é um livro-pena que caiu das asas de Francisca como oferta de amizade àqueles com quem conviveu e todos os outros que vierem a tomar conhecimento de sua existência. É um presente valiosíssimo de Francisca, a melhor parte de si. O livro é a personificação da Menina-flor que se oferece como proposição (conforme Agamben), assim como também é a flor roxa que a une atemporalmente aos amigos tido antes e depois de sua pessagem cativante.

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  3. Caro William Lial, li seu texto atentamente.Perfeito! Vcocê faz um estudo do livro Uma Pena , uma saudade - com muita acuidade! Nota-se que houve dedicação nesse trabalho. Leitura atenta, análise de estudioso observador da Literatura, dita, Infantil.Um grande livro é perfeito para leitura de todas as idades.Não li aindo o livro, mas diante de seu ensaio, vou prontamente fazer isso! Você escreve muito bem.
    Malu

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  4. Elô,

    Obrigado! Não mereço ser comparado ao Colibri da Francisca Nóbrega, mas agradeço; se conseguir pelo menos fazer com que alguém vislumbre a possibilidade de se deixar levar pelo texto, me darei por satisfeito.

    Vamos voar que faz bem!

    William

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  5. Elô,

    Obrigado! Não mereço ser comparado ao Colibri da Francisca Nóbrega, mas agradeço; se conseguir pelo menos fazer com que alguém vislumbre a possibilidade de se deixar levar pelo texto, me darei por satisfeito.

    Vamos voar que faz bem!

    William

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  6. Helene Camille,

    Fico feliz que tenha visto essa qualidade no meu texto; e obrigado pelas palavras elogiosas! É prazer ser lido por quem realmente gosta de ler.

    Um abraço!

    William

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  7. Malu,

    Obrigado! Obrigado, pela leitura e pelo elogio. Que bom que sentiu vontade de ler o livro da Francisca Nóbrega.

    Quando escrevo ensaios, resenhas, artigos e afins é sempre com a intenção de provocar o interesse do meu leitor em ler o livro que comentei, não vejo sentido em escrever sobre livros se for apenas para exibir nossas ideias sobre eles. É importante que consiga causar, no mínimo, curiosidade sobre o livro comentado.

    Abraço!

    William

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  8. Não li o livro mas fiquei com vontade de ler. Você descreve tão bem esses relacionamentos mágicos e puros da infância... Gostei muito da parte em que fala que quando revelamos nossos nomes concordamos em nos tornar vulneráveis à amizade. E tudo se dá em meio a flores e no meio delas a simbologia das flores roxas. E por fim o pássaro se vai deixando uma peninha, uma parte de si. É como na nossa amizade humana: com cada amigo deixamos uma parte de nós depois que a amizade se acaba, mesmo que o motivo do fim seja torpe.

    Aprecio muito também suas indicações de autores em cujas obras você enxergou conexões com o texto. Até a essas autores me dá vontade de ler, além da obra analisada.

    Desculpe-me por esse meu jeito de também querer analisar. Será que tenho vocação para resenhista? Rsrsrs. Enfim, gostei muito do que li e também me deu vontade de fazer parte de um “Clube do Livro“ para poder pedir que você escrevesse assim tão bem para alguma obra que estivéssemos lendo coletivamente.

    Parto em meio ao outono da minha vida mas levando comigo uma peninha furta-cor como lembrança da sua visita, você um autor que deixa com a gente um desejo de saber mais e sempre. Não pare de escrever, Colibri. Beijos.

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  9. PS: adorei a inserção dos lindos desenhos! São os originais do livro? Muito cuidadoso de sua parte encantar-nos também com as figuras.

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  10. Obrigado, Kakita.

    Sempre extremamente gentil com os elogios a mim.

    Não tenha receio de analisar a minha análise; escrevemos para isso também,rs. Seu texto sobre o meu chega a ser poético. E sobre a indicações dos autores, gosto de apresentar os autores que me serviram de inspiração ou que neles encontrei algo semelhante ao que ensaio; além disso, julgo correto e honesto e merecido dar-lhes os créditos pelo trabalho que me auxiliou,rs.

    Quanto às imagens, não fui eu que as coloquei em meio ao meu texto; acredito que foi o Evandro, um dos responsáveis também por querer e publicar meu texto aqui. E concordo com você, foi muito cuidadoso o ato de colocar essa imagens. Ficou ótima a apresentação do texto. E elas são sim do livro.

    Um beijo, minha querida, e obrigado mais uma vez!

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  11. Uma análise de gente grande, de quem soube manter viva a criança dentro de si. Acho que é preciso ser grande para entender o mundo com os olhos de criança, que é preciso ser profundo, radical e poético para enxergar nossa vida integralmente, uma vez adulto, o tempo uma lente que presentifica os mágicos momentos que já vivemos. Parabéns, William!

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    1. Obrigado, Evandro, pela leitura, pelo comentário, pelos elogios e pela publicação. Ficou ótimo com as imagens do livro. Acredito que é sempre bom manter um resquício que seja da criança que um dia fomos - espero ter mantido!

      Um abraço!

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  12. William, sue texto me fez relembrar a importância, a alegria, o privilégio de ter vivenciado uma grande amizade.
    Minha irmã de alma, meu "colibri" está voando em outros "outonos", mas deixou comigo sua peninha, enfeitando meu coração.
    Parabéns, mais uma vez.
    Beijos ternos, envolvidos em flores roxas.
    Vera.

    Este é o segundo comentário que escrevo, espero que desta vez vá...

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    1. Oi, Vera.

      Agora seu comentário veio, rs!

      Obrigado pelo carinho da leitura e dos elogios. E fico feliz que tenha passado pela bela experiência de vivenciar uma grande amizade. Isso não tem preço.

      Um beijo, e flores para você também!

      William

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  13. Caro William,
    Encantada, acabo de ler seu comentário. Perfeito! O encantamento, a delicadeza e a poesia, sentidos ao ler Francisca, voltaram com mais força. Ambos se completam. Já imprimi e coloquei-o dentro do livro. Ficarão inseparáveis. Você conhece"O canário", de Katherine Mansfield? Como os pássaros mexem com nossa sensibilidade! E, falando do roxo e das quaresmeiras, tive vontade de presenteá-lo com meu Haicai:
    Vestidas de roxo,
    as quaresmeiras em flor
    do verão despedem-se
    Parabéns! Continue nos brindando com seus textos.
    Abraços
    Elenir

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    1. Elenir,

      Obrigado pela leitura, pelo carinho da leitura e dos comentários. Quanto ao texto da Katherine Mansfield, "O canário", não, eu não conheço esse, infelizmente. Mas sobre os pássaros mexerem com a nossa sensibilidade, tenho um conto, escrito há algum tempo, que também trata da conversa de um homem com um pássaro. O conto chama-se "Houve um pássaro". Diferente dos meus poemas, que são mais melancólicos, meus textos em prosa, crônicas, romance e contos, são metidos a engraçados, apesar da veia de comportamento humano que há neles. Se quiser ler, ele está no meu blog, ou posso, caso o Evandro queira, mandar para cá para publicá-lo aqui quando e se quiserem. Mas não é um conto infantil, rs!

      E obrigado pelo Haicai. Na métrica perfeita, e tratando de natureza; só faltou uma pintura para acompanhá-lo (uma "Haiga"), como muitos fazem para valorizar o efeito estético visual, rs. Gostei muito! Você é uma "Haijin", uma haicaísta de prazer e ofício. E já li alguns elogios por aqui aos seus versos.

      Um abraço!

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  14. William, parabéns pela bela e emocionante apresentação do livro, "Uma Pena, Uma Saudade", de Francisca Nóbrega!
    Eu pude encontrar aqui neste espaço a lembrança de "amigos/passarinhos" que conheci através das redes sociais e que nos deixaram rapidamente, estavam ali para falar do encantamento da vida e valor da amizade. Poderiam ter passado por nós e ido embora sem deixar vestígio do colorido especial, mas voltaram e fizeram história, imprimiram o nome nas paredes do coração de todos que o conheceram.
    Ninguém passa pela vida do outro sem deixar impressões, marcas, lembranças, reflexões. E você está entre nós favorecendo conhecimentos, mostrando sensibilidade, gentileza e muito mais, o que ainda teremos o prazer de observar.

    Abraços!

    Sonia Salim

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    1. Sonia, muito, muito obrigado. Suas palavras e sensibilidade me deixam muito feliz. Seu comentário já é bonito por si mesmo, e agradeço pela comparação com outros que passaram e passam por aqui. Quisera eu poder estar mais perto e participar das reuniões junto aos membros desse clube, e poder agradecer pessoalmente a boa recepção a mim e aos meus textos e comentários.

      Um abraço, Sonia!

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  15. Excelente, tão bom quanto o livro. Sobre amizades, estou aprendendo a não esperar tanto do amigo, estava mais fácil ser amiga de conhecidos do que dos amigos eleitos onde eu esperava muito. Acho que não tenho perfil de melhor amiga, assim, o Colibri continua livre para voar.

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  16. Rosemary, obrigado!

    Sobre amizades, acredito que alguns ou todos nós temos alguma(s) história(s) triste(s) para contar. Mas o que vale é que, normalmente, também temos muitas histórias boas.

    Um abraço!

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