CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

24 de maio de 2013

Memorial do Convento: Edmar Monteiro Filho


             Nos últimos tempos, assistimos às quedas sucessivas de ditadores do mundo árabe, acontecimentos que, guardadas as proporções e peculiaridades, fazem recordar o fim dos regimes absolutistas na Europa. De fato, as mudanças que se anunciam fazem prever algo muito menos drástico que as transformações sofridas pelo mundo ocidental com o fim do absolutismo. Mas a História ensina que o tempo é sempre o melhor conselheiro, quando se trata de avaliar as dimensões de um dado acontecimento. Assim, acredito que somente décadas adiante seremos capazes de compreender o fenômeno em toda a sua riqueza e analisar com precisão as suas consequências, da mesma forma que hoje ocorre com o Onze de Setembro.

            Os monarcas absolutistas não tombaram em questão de dias, defenestrados por hordas de populares que invadiram as praças exigindo mudanças. Em geral, é possível dizer que caíram lentamente, numa longa queda de braços perdida para o liberalismo econômico, ávido por se livrar dos grilhões dos monopólios e privilégios impostos pelos reis. A própria atribuição de características divinas aos monarcas absolutistas dificultou sobremaneira um final rápido para tais regimes, além da feroz repressão usada contra eventuais oponentes.

           Os ditadores árabes em geral não foram capazes de opor grande resistência aos movimentos reformistas. Muitos, por cautela, apressaram-se a fazer determinadas concessões à população. O ditador líbio Muamar Ghadafi aferrou-se com exemplar afinco ao seu status de mais longevo tirano do planeta, talvez saudoso dos primórdios do século XVIII, quando o monarca Luis XIV, da França absolutista, afirmava: “O Estado sou eu”. Interesses distintos – não necessariamente a ânsia de seu povo por melhores condições de vida e liberdade – acabaram por derrotá-lo também.

Mas essa concentração de poder político e religioso na figura de um só governante atingiu um de seus momentos de esplendor durante o reinado de D. João V, de Portugal. O soberano português – segundo consta, como pagamento a uma promessa feita para que a rainha, D. Ana, lhe desse um herdeiro – mandou erguer um mosteiro na cidade de Mafra. Hoje, ainda é possível constatar o luxo e a riqueza da monumental obra, custeada pelo ouro brasileiro, pelas combalidas finanças da coroa portuguesa e pelo suor dos pobres. O episódio marca exemplarmente o estreito laço entre a Igreja e o Estado, personificados na figura do devoto D. João, que não poupou esforços para tentar erigir um monumento à cristandade que ombreasse com a catedral de S. Pedro, em Roma.


            Usando aquela que é uma das marcas distintivas de sua literatura, José Saramago aborda esses fatos a partir de uma perspectiva deslocada. Ainda que a promessa do rei e os acontecimentos da corte sirvam de ponto de partida para seu Memorial do Convento, o episódio é quase todo ele tratado segundo o olhar da população que se envolve, entre maravilhada e indignada, com a construção do convento. A devoção do povo, vigiada pelos rigores da Igreja, curva-se ao luxo que adorna os altares e as vestes dos nobres e dos prelados, confundidos com os poderes celestes.  

            Não é difícil imaginar a população, oprimida entre os desmandos do rei divino, o medo das fogueiras do inferno e aquelas - mais próximas - da Inquisição, murmurando seus temores e sua indignação, num tempo em que se declarar ateu ou se rebelar contra um decreto real era condenar-se à morte. Assim, Saramago, livre dos compromissos assumidos pela História, mas alçando vôo a partir dela, usa a ficção para discutir as relações sociais do Portugal absolutista. O tom irônico empregado pelo autor, carregado de um anticlericalismo que é sua marca, narra episódios das vidas do soldado Baltazar Sete-Sóis e sua mulher Blimunda, do músico italiano Domenico Scarlatti e do padre Bartolomeu de Gusmão, misto de padre e cientista, figura que encarna os dilemas por que passava o mundo ocidental que se abria à ciência, mas mantinha os pés fincados nas formas mais obscurantistas assumidas pela religião.



            José Saramago não é unanimidade no universo literário, principalmente por conta das posições políticas que revela às vezes explicitamente em seus escritos. Mas sua grande arte surge em todas as cores em Memorial do Convento, construído com uma linguagem barroca, digna das luxuosas minúcias do próprio palácio em que se inspira. 



6 comentários:

  1. Edmar, muito interessantes e ricas, suas contribuições para nossa reflexão , trazendo visão mais ligada à Historia, sem deixar de considerar, valorizar, o trabalho literario de um escritor como Saramago. Tudo isso dentro de um enfoque mais imparcial possível. Sua admiração pelo trabalho ficcional, entretanto, se destaca.Palavras como "linguagem barroca", "luxuosas minucias" iluminam, de forma perfeita, o palácio de Saramago. Seu texto provoca já, no leitor apaixonado, desejos por essa leitura.Obrigada!
    Helena, no Face(Elô)

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    1. Grato por suas boas palavras, Helena. Minha formação em História, de fato, se trai. Mas quando nos damos conta de que os discursos histórico e literário são, de fato, irmanados pela invenção, pela criação, parece mais natural esse entrelaçamento que o Saramago faz tão bem. Grande abraço.

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  2. Também agradeço sua colocação. Adorei

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  3. A impressão que se tem, realmente, é que Saramago gravita em torno do mito divino. Não deixa de ser interessante que alguém dedique tanto tempo e trabalho para escrever sobre algo que não acredita. Podemos também atribuir sua dedicação a esse tema por uma espécie de resistência, considerando que tanta gente acredita nessa ficção. Embora nada nela possa ser verdade, suspeita-se, também, que nada seja mentira.

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    1. Concordo com vc, Evandro. No livro Levantados do Chão, Saramago leva a tal ponto o mergulho no sonho da redenção das massas trabalhadoras que encerra o livro com uma cena epifânica, de fortíssimo efeito religioso. É evidente que a crença numa sociedade justa, baseada num futuro distante, pregada pelo marxismo, possui fortes componentes emprestados às religiões. Saramago, com sua maneira de traduzir o marxismo para a literatura - em certas obras de um modo mais evidente - demonstra essa tendência em pensar o futuro como um tempo em que justiça e injustiça travarão combate decisivo. Mas sua crença no homem acima de tudo, redime o autor, segundo meu ponto de vista, desses que podem ser considerados os "excessos ideológicos" encravados na sua obra.

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