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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

11 de maio de 2013

História do cerco de Lisboa: Edmar Monteiro Filho



Numa memorável aula inaugural, meu professor de Filosofia da História, João Miguel Teixeira de Godoy, conceituou as diferenças entre a história-acontecimento e história-conhecimento. Segundo ele, a primeira representa o acontecer humano ao longo do tempo e a segunda as tentativas para sua reconstituição. É correto falar em tentativas porque o real é por si só inapreensível. Basta imaginarmos um momento – este, por exemplo, em que este artigo é escrito ou lido – para percebermos de imediato que qualquer tentativa de revivê-lo só é possível em termos de uma representação, seja um relato oral ou escrito, ou uma evocação em nossa memória. O passado não se repete, exceto nas fantasias da ficção científica. 

Desde que a História adquiriu status de ciência, em meados do século XIX, os historiadores buscaram encontrar a “verdade” oculta no passado por meio de documentos fidedignos, capazes de trazer à tona aquilo que “realmente aconteceu”. Mas, com o passar do tempo, a crítica aos documentos e às fontes históricas, baseada na constatação de que eram recheados de imprecisões, dos interesses e da subjetividade daqueles que estiveram envolvidos na sua escolha ou criação, tomou o lugar das certezas e o resultado foi a progressiva descrença na possibilidade da mera existência de uma verdade histórica.

Entre os extremos do positivismo, que defende a existência de um passado imóvel e o relativismo absoluto, que propõe que ficção e História tem a mesma constituição, já que produtos de um discurso, de um texto, sujeitos à subjetividade soberana, há que se mencionar as ideologias, que colocam em pólos distintos a História dos poderosos, dos desfavorecidos, dos vencedores, das minorias e assim por diante.

O escritor português José Saramago situa seu livro História do Cerco de Lisboa no centro dessas discussões. Sendo um livro que toma por tema um episódio da História de Portugal, além de discutir um texto escrito da “história acreditada”, não se pode dizer que se trata de um romance histórico, mas de um romance sobre a História.

O enredo, por assim dizer, inicial, apresenta um revisor, Raimundo Silva, encarregado das provas de um livro intitulado “História do Cerco de Lisboa”. Já em princípio, Saramago apresenta um diálogo esclarecedor entre revisor e autor, no qual surgem as pistas para algumas possíveis leituras. O que se segue é um emaranhado de referências e possibilidades, expondo diversos livros dentro daquele que se abre ao leitor.

              Por sob essa camada superficial do enredo, desenrolam-se os fatos descritos pelo historiador, de forma técnica como o exige o texto cientifico. A este plano pertencem ainda os documentos de que se serviu o historiador para compor o livro a ser revisto, alguns deles transcritos literalmente.

             Mas pode-se acrescentar uma terceira camada narrativa ao livro quando o revisor, mais afeito à ficção, cria uma visão poética sobre os acontecimentos descritos e resolve intervir diretamente no texto que revê, alterando-o. A partir daí, uma série de desdobramentos permite uma reviravolta no desenrolar da trama e da própria vida do personagem.

               O difícil cerco à Lisboa moura como uma metáfora ao cerco de Raimundo Silva à pessoa amada constitui outra camada textual dentro do livro, sendo possível inserir ainda uma camada por assim dizer “ideológica”, na qual o autor propõe questões da geopolítica de seu tempo, bem como sua visão marxista do mundo.

          Entretanto, ao final desse complexo jogo intertextual em que diferentes camadas narrativas se alternam e interpenetram, misturando-se e recriando constantemente novos modos de leitura, uma mensagem parece sobressair: um elogio à literatura. Assim, Saramago – tantas vezes taxado como autor de uma ironia cética diante do mundo e de seu tempo – parece acreditar numa solução para o debate aparentemente insolúvel acerca do estatuto da verdade entre tantas possibilidades de sua reconstituição. Se em Levantado do Chão é a união que redime o homem perante a injustiça e se em Memorial do Convento a vontade humana e o amor são os elementos capazes de promover sua elevação, em História do Cerco de Lisboa é a imaginação quem exibe seu poder redentor, a palavra como poder criador, sinais de uma sacralidade possível em nossos tempos de indeterminação e descrença. 

Edmar Monteiro Filho é autor do romance "Fita Azul" - R$ 35,00 


4 comentários:

  1. Sempre tive em conta que o tema deste livro era a questão das dificuldades de se traduzir de um idioma para o outro, mas vejo por esse artigo que o escopo é bem mais amplo, que é o da própria interpretação que é sempre diferente de uma pessoa a outra.

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  2.         "(...) em História do Cerco de Lisboa é a imaginação quem exibe seu poder redentor, a palavra como poder criador, sinais de uma sacralidade possível em nossos tempos de indeterminação e descrença", belíssimo arremate para a sua grande leitura da obra de José Saramago, Edmar Monteiro Filho.
    Concordo com a ideia de que a linguagem -e as palavras- nos constituem.
    Abraços,
    Vanessa Maranha

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  3. Você tem razão, Vanessa, e suas boas palavras mostram isso. Grato. Grande abraço.
    Edmar

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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