CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

1 de abril de 2013

O “poema de Maiakóvski” que tem DNA de Niterói


Dizem que em alguma parte, parece que diante de um livro, existe um homem feliz...


novaes/

Há uma sequência de coincidências nesta postagem, como se um karma houvesse determinado que hoje, dia 1º de abril de 2013, no aniversário de 49 anos do golpe militar de 1964, Niterói e o poeta futurista russo Vladimir Maiakóvski iriam se encontrar aqui, no blog do Clube de Leitura Icaraí, lugar de literatura, ideias e liberdade. O “dia da mentira” e a verdade sobre um poema ainda mal explicado marcaram encontro aqui, hoje.

Maiakóvski (foto) nasceu na Rússia Czarista (1893) e morreu na Rússia Soviética, em 1930. Entre uma coisa e outra, engajou-se com os bolcheviques e ainda menor de idade já havia sido preso três vezes pela polícia do czar. Escrevia poemas, elaborava cartazes, panfletos, o que fosse necessário. Não era um poeta das elites, era um poeta do povo, visceral, apaixonado. Aprendeu a ler quase sozinho, como explicou nos versos “Eu aprendi o alfabeto nos letreiros / folheando páginas de estanho e ferro”. No inverno de 1914, enojado com as notícias da guerra, descreveu sua repugnância desta forma: “Ah, fechem, fechem os olhos dos jornais”. Em 1917, quando operários, camponeses e soldados invadiram os palácios para derrubar a monarquia czarista, cantavam versos de Maiakóvski: “Come o ananás, mastiga a perdiz / teu último dia chegou, burguês!”

Foi este sonhador que, sem nunca ter vindo ao nosso país, em 1913 saiu-se com essa: “Dizem que em alguma parte, parece que no Brasil, existe um homem feliz”. Foi um dos líderes do movimento futurista russo. Pode-se fazer um paralelo entre o futurismo russo e o modernismo brasileiro, de certa forma, pela recusa aos estilos formais e acadêmicos então vigentes. Mas em Maiakóvski o futurismo ganhava um tom revolucionário, tanto na forma quanto no conteúdo. Escreveu o poeta: “Espero / tenho fé / que jamais / jamais passarei pela vergonha / de me acomodar”.

Por todo esse histórico, nas últimas décadas correram pela internet os versos abaixo, atribuídos a Maiakóvski:

Na primeira noite, eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Ocorre que este é um engano comum. Os versos acima são um fragmento do poema “No caminho, com Maiakóvski”, publicado em 1968 pelo niteroiense Eduardo Alves da Costa. Era um libelo contra o arbítrio, que se tornou bandeira contra o regime militar, ganhou o mundo e virou pôster em cidades como Praga, Paris, Londres, entre outras. Foi transformado em “corrente” na internet, mas sempre com a autoria errada. Maiakóvski principalmente, mas Brecht, Gabriel García Márques e até Jung já foram citados como autores. Mas o DNA destes versos famosos é, na verdade, de um niteroiense radicado em São Paulo.

Então hoje, 1º de abril, estamos aqui no Clube de Niterói, digo, Clube de Leitura Icaraí, falando de mentira e de verdade, de ditadura e de liberdade, de um russo e de um niteroiense unidos pela poesia, essa misteriosa criação humana, uma “arma” poderosa não porque seja capaz de matar, mas pela vida que é capaz de expressar e defender.

4 comentários:

  1. Muito bom relato.
    Obrigada por estar sempre me acrescentando.
    Que bom saber que mais um "papa goiaba" nos enobrece.
    Abraços fraternos,
    Vera.

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  2. Muito, muito bom Newton. Quantas discussões já tive quando, sabedor do que afirmava, dizia que os versos eram de Eduardo da Costa, só não sabia que ele era niteroiense! Obrigado pela revelação. Neste mundo globalizado, os enganos rapidamente se multiplicam e percorrem Europa, França e Bahia num estalar de dedos. Pessoas que não filtram informações (isso é um perigo na internet!)danam a repetir enganos e, às vezes, maldosas falácias, jogadas na internet com segundas intenções. Texto bem escrito e revelador, tem a sua marca. Parabéns e um forte abraço.
    Carlos Rosa

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  3. Há poucos anos li em algum lugar um belo texto sobre esta questão envolvendo o poema citado. Eu mesmo conheci este poema como sendo de Brecht, até encontrar o referido texto abordando a questão. Você certamente dá mais uma contribuição com este texto cristalino e esclarecedor, devolvendo ao verdadeiro autor a autoria deste magnífico poema. Viva o CLIc, viva a Novaes/!

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  4. Muito oportuna a postagem no dia mundial da mentira, adorei. Assim, conhecei o poema, o verdadeiro autor do poema e um pouco sobre Maiakovisk, o qual eu nunca tinha ouvido falar e me deleitei com a apresentação de tudo feita pelo Newton.
    Esse clube me enriquece. Sou uma quase vampira que só sugo a sabedoria de vocês.

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