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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

20 de janeiro de 2013

Sobre “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”


(por W. B.)

Recentemente reli o romance "Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá" do mestre Afonso Henriques de Lima Barreto. O exemplar que tenho é uma bonita publicação da Editora Garnier, o volume 4 da Coleção dos Autores Modernos da Literatura Brasileira, com expressivos desenhos de Poty (artista competente que costuma ilustrar trabalhos do contista Dalton Trevisan na Ed. Record). Meu livro data de 1990, mas ainda está novinho.

O Diário de Notícias foi o primeiro veículo a divulgar um capítulo do romance, em 1910. A primeira edição como livro só veio em 1919, malgrado a obra já estivesse completa desde 1909.
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Trata-se de literatura que simula a estrutura da biografia, um livro de ficção flertando com o documental. Satiriza pomposas vidas de burgueses contadas no período. Logo de início, o personagem narrador Augusto Machado escreve que a idéia da obra nasceu nele da "leitura diurna e noturna" das biografias feitas por Pelino Guedes. Este era o autor mais adotado nas escolas brasileiras por volta de 1910; Lima frequentemente lhe dava alfinetadas através de contos, crônicas e artigos. Nesse romance o alvo são biografias de ministros que Pelino escrevia aos montes para agradar a poderosos – ironicamente, o narrador declara que (a exemplo do biógrafo de ministros), depois dessa primeira biografia, iria fazer mais "duas dúzias".

"Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá" é contraponto às trajetórias fúteis de figurões. É a narrativa da vida de um simples funcionário público sem posses ou riquezas, mas cheio de sensibilidade, amor à cultura, autonomia de pensamento.

Provavelmente o cacófato M.J. ("mijota") foi forjado de propósito para ressaltar jocosamente o pouco destaque que Gonzaga de Sá tinha na sociedade. Afinal, "mijota" não lembra "mijadinha", "merreca", "bagatela", "coisa à-toa"?

Logo no capítulo 1, começa a ser caricaturada a burocracia governamental, num episódio envolvendo salva de tiros devida a um clérigo. O bispo de Tocantins, ao entrar no porto de Belém, teve como honraria uma série de 17 disparos, porém acendeu-se logo grande polêmica: seriam 17 ou 18 os tiros regulamentares? Toda uma gama de seções e departamentos estatais se movimenta para esclarecer a questão. Pouco depois surge outra controvérsia: quantas setas deve haver na imagem de São Sebastião? Hilário!

No livro, pedantismo, arrogância e futilidade vão se personificar no caricatural Xisto Beldroegas, colega de Gonzaga de Sá na repartição pública. O personagem Xisto manifesta tão grande culto às formalidades burocráticas que considera absurdo não ser documentado quantos dias choveu no ano. Acha que o mundo todo se rege por decretos, circulares, avisos, provimentos, portarias, resoluções administrativas... Para ele, nada existe fora disso. Uma vez Augusto Machado falou a Xisto sobre a lei da hereditariedade. Beldroegas se escandalizou:

"– Lei! exclamou. Isso lá é lei!
"– Como?
"– Não é. Não passa de uma sentença de algum doutor por aí... Qual o parlamento que a aprovou?" (p. 110)

Até hoje não há quem diga que só é certo aquilo que virou lei votada pelos políticos? Muita gente por aí ainda é escravo da legalidade burguesa, aceitando absurdos legais e maldizendo ações diretas populares não amparadas por normas jurídicas – feito o ridículo Xisto Beldroegas. O romance é formado por capítulos numerados e com títulos. Tais segmentos têm certa independência, podendo – nuns casos – ser lidos isoladamente: igual a contos ou crônicas. Em verdade, o texto pode ser encarado como uma grande crônica do universo fluminense no início do século 20. Há passagens em Petrópolis; na Praia das Flexas (de Niterói); na Central do Brasil, Rua do Ouvidor (na cidade do Rio)... Augusto Machado e Gonzaga de Sá vagueiam sem pressa, contemplando o ambiente, valorizando patrimônio histórico e natureza numa época em que pouquíssimos falavam de ecologia e preservação arquitetônica.

O ficcional se aproxima do real quando, no Café Papagaio, Augusto Machado se encontra com a turma do "Esplendor dos Amanuenses", grupo que existia de fato, integrado pelo próprio Lima Barreto e amigos como Domingos Ribeiro Filho, os quais eram mesmo assíduos no Café Papagaio, mais barateiro e menos formal que a Colombo (existente até hoje) e outros estabelecimentos frequentados por escritores bem posicionados na sociedade.

Essa "boa posição" não alcançada por Lima na época, de forma nenhuma pode desmerecê-lo a nossos olhos. Augusto Machado, Gonzaga de Sá e a turma "Esplendor dos Amanuenses" têm muito mais a oferecer à humanidade que Xisto Beldroegas, Barão do Rio Branco, Pelino Guedes e outros que alcançam fácil "êxito" mundano. Nesse sentido, vemos na página 62 uma interessante frase do libertário Domingos Ribeiro Filho: "Todo vitorioso é banal".

Nota: Vida e morte de M. J. Gonzaga também pode ser encontrado na íntegra em: http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/00123200#page/1/mode/1up

("VIDA E MORTE DE M.J. GONZAGA DE SÁ" FOI DEBATIDO NO CLUBE DE LEITURA DE ICARAÍ EM 04/05/12)

Um comentário:

  1. Foi a descoberta dessa obra prima indicada por W.B. para debate no Clube que me convenceu da necessidade de lermos mais autores brasileiros no CLIc.

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